domingo, 20 de dezembro de 2009

16. Etnocídio e a escravização indígena

Destinação indígena entre o cativeiro e a morte
Revdo. Padre Antonio Ruiz de Montoya 
missioneiro no Paranapanema em 1628 
Arquivo ISARM - www.ea.com.py
Produzidos os motivos da guerra, em dezembro de 1628 as missões jesuíticas sofriam os primeiros ataques dos bandeirantes, sem o apoio do governo de Assunção que lhes requisitou antes as armas e munições, bem como determinou a retirada dos soldados paraguaios as sentinelas das reduções e das cidades militares de Vila Rica e Jesus Maria.
A grande desvantagem dos reduzidos, no enfrentamento, foi mesmo falta de armas que D. Luis de Céspedes y Xeria fez retirar e assim as cidades planejadas, que deviam bloquear o caminho dos portugueses para a América Espanhola, resistiram bem pouco vindo cair uma a uma, primeiro San Antonio a 30 de janeiro de 1629, depois São Miguel, Jesus Maria, Encarnacion e as adjacentes (Expedições Bandeirantes...), enquanto outra frente atacava aldeamentos no Vale Iguaçu (Maack, 2002: 72) e uma terceira pelo Paranapanema, às exceções de Loreto e Santo Inácio, fazendo com que muitos índios fugissem com seus padres em direção ao Tape [Rio Grande do Sul], Itatim [ao sul de Mato Grosso - do Sul] e Paraguai.
A resistência maior dos missioneiros ocorrera em Ciudad Real Del Guayrá e Vila Rica Del Espírito Santo, onde a quarta divisão do exército de Raposo foi rechaçada dos intentos diante daquelas fortalezas, morrendo dois jesuítas em Ciudad Real.
Aparentemente os bandeirantes não contavam com tamanha reação, obrigados à fuga atabalhoada pelas matas até encontrar-se com a frente de ataque às reduções mais próximas do Paranapanema, também obrigada retroceder diante do avanço das tropas inimigas. Santo Inácio e Loreto, por ora, estavam a salvos.
Temendo retorno dos bandeirantes às margens do rio Paranapanema para atacar Santo Inácio e Nossa Senhora do Loreto, Padre Antonio Ruiz de Montoya e outros seis jesuítas prepararam o êxodo mais dramático de índios da América do Sul, em centenas de canoas e jangadas para fugir do branco avassalador, num episódio assim descrito por Montoya:
Uma das muitas obras escritas
pelo Revdo. Padre Montoya
—"Acabamos as hóstias consagradas, e fizemos conduzir os santos óleos e os nossos pobres haveres para a beira do rio, onde embarcamos nas jangadas. Do mesmo modo as gentes também meteram nas jangadas ou nas canoas as suas pobres coisas, conforme já se tinha predisposto. Os homens que se haviam aprontado, os moços, os rapazes, as mulheres, as velhas, as moças, as meninas, todos juntos com as crianças, encaminharam-se para o rio. A aldeia inteira levantou sem ficar nem ao menos uma pessoa. Mandamos retirar das sepulturas os corpos dos três padres, nossos companheiros, para levá-los conosco; trancamos bem a porta da Igreja para evitar que ali entrassem animais. Parecia um dia de juízo aquele dia em que fizemos a mudança." (Padre Montoya, apud Jorge Junior, 20 de agosto de 1967).—
E Jorge Junior arremata:
—"E, para sempre, das margens do Paranapanema, partiram mais de 12 mil indígenas, descendo rios, em tormentosa retirada, rumo a uma nova esperança em terras localizadas entre os rios Paraná e Uruguai. Depois de longa e penosa viagem, sofrendo acidentes, doenças, desistências e mortes, chegaram ao seu destino pouco mais de quatro mil retirantes. (...). Loreto e Santo Inácio, abandonadas, sofreram a ação destruidora de 300 anos. Os telhados caíram, as paredes de taipa se desfizeram e a vegetação luxuriante, qual pano de boca de teatro, desceu vagarosa como final do imenso drama".—
No dia 1º de maio de 1629, depois de dez meses de sertão e guerra, vitoriosos, porém exaustos, os paulistas voltaram a Piratininga depois de destruir umas tantas missões, com vinte mil índios capturados e vendidos como escravos, dez mil deles de uma só mão para a Bahia. Justo Mansilla [Mancilla] e Simão Mazzeta, os jesuítas que acompanharam os índios que iam para o cativeiro em São Paulo, foram os autores da "Relación de los Agravios", peça preciosa para a reconstituição da expedição, ainda que nada tenha produzido para punir culpados de guerra (Mansilla e Mazzeta, Relación de los Agravios).
Em atenção aos jesuítas, o Governador Capitão-Mor do Brasil determinou que todos os índios capturados no Guayrá fossem libertos, no risível despacho "faça-se imediata justiça", quando não havia mais índios para libertação, todos já vendidos para a escravatura.
Reação indígena - imagem representativa
extraída do filme - 'A missão' - 1986
https://www.youtube.com/watch?v=cW6Z9JMbFCM
Em 1631, Raposo à frente de seu exército retorna ao Guayrá e bate de frente com Vila Rica do Espírito Santo – cidade militar, sem êxito aparente para retornar novamente em 1632 e destruí-la definitivamente. Conta Maack (2002: 72), que "dos 100 mil índios convertidos existentes na zona desta redução, 15 mil foram mortos e 60 mil vendidos como escravos em São Paulo.", noticiando inclusive que o preço de cada escravo "devido à oferta exagerada, baixou de Rs 100$000 para Rs 20$000."
Ciudad Real Del Guayrá foi arrasada somente no ano de 1638. Para os padres jesuítas o sonho de um estado teocrático na América do Sul não se findou com a destruição de Guayrá. Desde que traídos por D. Luis Céspedes e vencidos por Raposo Tavares voltaram-se para o sul, onde já se firmavam algumas reduções, desde 1626, como novo projeto missioneiro em terras também por concessão do reino espanhol. Raposo foi ao encalço deles e uma das frentes de suas tropas protagonizou o acontecimento:
—"No dia de São Francisco Xavier (3 de dezembro de 637), estando celebrando a festa com missa e sermão, cento e quarenta paulistas com cento e cinqüenta tupis, todos muito bem armados de escopetas, vestido de escupis, que são ao modo de dalmáticas estofadas de algodão, com que vestido o soldado de pés à cabeça peleja seguro das setas, a som de caixa, bandeira tendida e ordem militar, entraram pelo povoado, e sem aguardar razões, acometendo a igreja, disparando seus mosquetes. Pelejaram seis horas, desde as oito da manhã até as duas da tarde."—
—"Visto pelo inimigo o valor dos cercados e que os mortos seus eram muitos, determinou queimar a igreja, aonde se acolhera a gente. Por três vezes tocaram-lhe fogo que foi apagado, mas à quarta começou a palha a arder, e os refugiados viram-se obrigados a sair. Abriram um postigo e saindo por ele a modo de rebanho de ovelhas que sai do curral para o pasto, com espadas, machetes e alfanjes lhes derribavam cabeças, truncavam braços, desjarretavam pernas, atravessaram corpos. Provavam os aços de seus alfanjes em rachar os meninos em duas partes, abrir-lhes as cabeças e despedaçar-lhes os membros."—
—"Compensará tais horrores a consideração de que, por favor, dos bandeirantes pertencem agora ao Brasil as terras devastadas?" (Capistrano de Abreu, (...): 59).—
A grande aventura jesuítica definitivamente encerrou-se quando seus padres foram expulsos da América portuguesa e espanhola, em 1759/1760 e 1768 respectivamente, deixando suas trinta e três reduções e uma população ainda superior a cem mil habitantes, em partes de terras hoje pertencentes ao Uruguai, Paraguai, Argentina e sul do Brasil.
Jorge Junior estima, fundamentado em documentos jesuíticos e de historiadores, que em todo século XVII mais de trezentos mil nativos, da margem esquerda do Rio Paranapanema ao Rio Grande do Sul, foram aprisionados e escravizados (20/08/1967). 
Para Meliá, numa estimativa talvez exagerada, seriam mais de um milhão de indivíduos escravizados, contados aí os índios capturados pelos castelhanos – os 'encomienderos' (Meliá, 1969).