domingo, 20 de dezembro de 2009

15. Uma guerra insana como todas elas

A destruição do Guayrá
Ataque bandeirante - imagem representativa
extraída do filme - 'A missão' - 1986
https://www.youtube.com/watch?v=cW6Z9JMbFCM
São diversas as motivações para a Guerra do Guayrá, todas discutíveis, como a escravização indígena, a expansão territorial luso-brasílica ou o ultranacionalismo português para a restauração de seu trono - então sob domínio espanhol, sem desconsiderar a pendenga religiosa entre os judeus bandeirantes e os padres jesuítas, com suas implicações de causas e consequências.
Talvez o princípio mais correto esteja na vocação interiorana paulista, pela geografia separatista entre o litoral e o Planalto Piratininga, pela Serra do Mar, depois pelas facilidades dos cursos fluviais do Tietê para o rio Paraná, do rio Paraíba do Sul, além da via terrestre Peabiru a conduzir para o Vale Paranapanema, todas as citações por caminhos das primeiras expedições e bandeiras rumo ao sertão.
A atenção dos conquistadores europeus, em território paulista, sempre esteve voltada para o encontro de metais preciosos, daí certamente as primeiras interiorizações que, "à falta do ouro, cativavam índios, que traziam para o litoral." (Tapajós, 1963: 90), como mão de obra escrava destinada ao trabalho nos engenhos, nas fazendas agrícolas que se formavam e, também, para o tráfico escravo com outros pontos da América do Sul, ou mesmo do mercado europeu.
Diego de Garcia de Morguer, Texto de Memória, narra que em 1528 o "(...) Bacharel [de Cananéia] com seus genros fizeram comigo [o próprio Diego Garcia] um contrato de fretamento para que trouxesse a Espanha com a nau grande oitocentos escravos, e eu o fiz com o acordo de todos meus oficiais (...)." (Enciclopédia Simpózio / Universidade Federal de Santa Catarina, CD: A/A).
Prear índios para o escravismo sempre foi bom e lucrativo ofício nas descobertas terras de Portugal, desde a oficialidade do Brasil, afinal os novos senhores precisavam de homens para trabalhar a terra e gerar-lhes lucros, além de formar contingentes de defesas contra inimigos.
A colonização e prosperidade paulista tiveram por dependência a mão de obra indígena, de menor custo e maior quantidade, embora didáticos quase sempre afirmem que os índios não se prestavam aos serviços nem se adaptavam ao cativeiro, porque habituados à vida livre além da baixa resistência às doenças que os matavam aos magotes.
Tudo o que se tem da escravização indígena no Brasil, "O saldo é a captura de um grande contingente de indígenas a serem vendidos, sendo que (...) tiveram um papel fundamental na implantação da empresa açucareira, contradizendo, portanto, o velho argumento de que o índio era inapto ao trabalho agrícola devido à sua indolência." (Digital Master - Enciclopédia online, 2005). 
Nem por isto se pode descartar a opção pelo escravo negro, muito mais caro que o nativo, todavia essa preferência já não se fundamenta que este melhor ou pior trabalhador que aquele, ou mais dócil, ou menos propenso às enfermidades, estando o diferencial entre o índio e o negro a parentela do índio que residia nas matas e era sempre uma ameaça de vingança ou de libertação. E se algum índio escravo, isoladamente ou em grupo, viesse fugir, mais fácil misturar-se aos que viviam em liberdade, porque conhecia a selva e seus habitantes, enquanto os negros estavam num ambiente totalmente desfavorável, por desconhecer a região e a língua, além da cor a denunciá-lo sempre.
Também não se descarta que a opção escravista pelo negro parece mais uma questão do emocional/espiritual; os brancos adquirentes não viam e por isso não sentiam, aliás, nem sabiam dos negros capturados na África, se muitos morriam ou não depois de aprisionados, por suicídios ou doenças oportunistas para as quais sem imunidades. Igualmente os senhores desconheciam se os negros, à semelhança dos índios com o mesmo destino, antes de presos matavam ou não os filhos, às vezes mulheres, para que tais não fossem apanhados e também feitos escravos.
A História, pelos didáticos, relata que, em meado do século XVI, índios acuados pelos preadores nos arredores de Buenos Aires [Argentina] mataram esposas e filhos, lançando-se depois para a morte, do alto de alguns rochedos, para não se fazerem escravos.—
O escravo negro custava caro e só os grandes senhores, mais assentados no litoral do nordeste brasileiro, tinham condições compensadoras de compras, ficando o índio por espécie de reserva de mão de obra, quando lhes viesse faltar o negro. Por conseguinte, não podiam escravizar muitos nativos para que o estoque pudesse ser naturalmente reposto, entre os próprios silvícolas, sempre às mãos quando necessários.
No início do século XVII, com Portugal sob domínio espanhol, a Holanda investiu no comércio de mão-de-obra africana e desorganizou o tráfico português, fazendo diminuir o fluxo de escravos negros para algumas regiões da colônia, com isso a renascer o interesse pela escravização do indígena (História do Brasil, Expansão Territorial).
O tráfico negreiro agravou-se partir de 1624 quando os holandeses, em guerra com a Espanha pela sua libertação, atacavam colônias espanholas [e portuguesas, por extensão de coroa unificada], para dificultar o tráfico de escravos africanos.
A Holanda monopolizou a vinda de africanos para o Brasil, trazendo escravos apenas aonde seus interesses, no denominado nordeste holandês, mesmo que por tempo transitório. A ação holandesa foi desastrosa à economia colonial e reinol de Portugal, necessitando os senhores de engenhos e fazendeiros de mão de obra urgente, para acudir a lavoura e dar enfrentamento ao inimigo invasor, o que fez sobrevalorizar o preço do escravo indígena e com isso o incremento para sua captura.
Naquela época o Guayrá contava em parte do Vale Paranapanema [paranaense] e contiguidade, com população aldeada de aproximadamente cem mil índios [há números que indicam duzentos mil] cobiçados para a escravidão, quando a Bahia, São Vicente e outras localidades estavam dispostas pagar bem por peça que lhes fosse entregue. O escravo indígena que antes custava cinco vezes menos que o africano, teve elevação nos preços para igual ou maior, se o índio fosse aldeado, o que significava trabalhador adestrado para a agricultura e outros ofícios.
A Bahia pediu socorro e a Câmara Municipal da Vila de São Paulo e a de São Vicente requereu os préstimos de Raposo Tavares, para guerrear e aprisionar indígenas para fins de escravização e com isso salvar a economia colonial, “por esta a terra pobre, sem escravaria e hostilidade pelos selvagens”, de acordo com registro oficial em livro ata daquelas municipalidades. Os espanhóis, principalmente de Buenos Aires e Assunção, da mesma forma desejavam os índios como escravos em suas propriedades, dispostos pagar bem.
Óbvio, com a ação jesuítica junto às reduções, praticamente inibia-se a escravatura indígena, por isso os paulistas organizavam as bandeiras – como organização militar, para prear indígenas mediante autorização da Câmara de Vereadores de São Vicente e São Paulo, sob a titulação de Guerra Justa.
O jovem Raposo sabia, por Manuel Preto, onde obter índios e não mediu sacrifícios para engendrar uma boa e lucrativa campanha para atacar Guayrá, vindo inclusive associar-se com o governador do Paraguai, Dom Luís de Céspedes y Xeria, para o bom êxito de seus propósitos contra as reduções jesuíticas do Guayrá com os milhares de índios, como pronta solução para os problemas de todos, sob pretexto de guerra justa.
O governador paraguaio D. Luis vendeu a causa Guayrá aos paulistas, depois seus sucessores se preocuparam apenas administrar problemas internos causados pelos jesuítas, entrantes em seu território, resguardando interesses pessoais e cientes que os luso-brasileiros não invadiriam o Paraguai.
Raposo Tavares montou uma organização militar pronta para guerra, sob identidade nacional e direção comum, ou seja, que a busca ao índio aldeado e a destruição das missões jesuíticas espanholas trariam, por conseqüência, a ampliação territorial brasileira dentro de um espaço vazio que urgia se povoar. Nem portugueses nem espanhóis ignoravam isto.
Comumente o didatismo justifica as investidas de Raposo Tavares contra as reduções espanholas, como gesto voluntário, pela sua convicção de lutar pela integridade de terras portuguesas contra a Espanha, mas hoje cumpre entendimento que o bandeirante foi financiado por segmentos da sociedade portuguesa e autoridades interessadas no expansionismo territorial da colônia brasileira, em detrimento a Espanha.
Ataque bandeirante - imagem representativa
extraída do filme - 'A missão' - 1986
https://www.youtube.com/watch?v=cW6Z9JMbFCM
Os defensores que Raposo era mercenário cabeça de entrada, citam dívidas fazendárias "do Mestre de Campo Antônio Raposo Tavares", das armas e munições que lhe foram entregues para o bom êxito das investidas contra os jesuítas das reduções espanholas. O historiador rondoniense Amizael Silva faz referência a citado documento, de 22 de fevereiro de 1665, do Provedor-Mor da Fazenda do Brasil, e acredita que "Na verdade, a Coroa Portuguesa financiara aquele desbravador, naturalmente com fins expansionistas" (Gomes Silva, 1999: Capítulo II, Os Bandeirantes).
Jovam Vilela da Silva informa que "Em 1628 Pe. Antonio Ruiz de Montoya já havia reclamado aos seus superiores que Raposo Tavares declarava que expulsaria as missões espanholas situadas ao sul do continente americano porque as terras pertenciam ao rei de Portugal e não ao da Espanha" (Vilela da Silva, A Lógica Portuguesa na Ocupação Urbana do Território Mato-Grossense).
Do mesmo Vilela da Silva, "De fato, deve-se considerar a hipótese de bandeirantes terem sido, secretamente, encorajados por ordens portuguesas para alargarem o território português na América, ao sul, até o Paraguai, a oeste até o Peru e de se utilizarem o Tietê, Rio São Francisco e do Amazonas e seus afluentes para estabelecerem passagens e zonas de povoamento, patenteiam-se".
Jaime Cortesão (na obra Raposo Tavares...) alinha-se com aqueles que acreditam que o avanço territorial do Brasil se deu pela não conformação portuguesa aos termos do Tordesilhas, num típico movimento nacionalista, sendo o ataque às reduções jesuíticas do Guayrá apenas a parte lucrativa de uma guerra, antes de tudo territorial.
O devotamento de Raposo às ordenanças das Câmaras de São Vicente e São Paulo demonstra bastante claro que fazia isto por dinheiro e prestígio, por exemplo, depois de exercer o cargo de "juiz ordinário da Vila de São Paulo, ganha novo e mais importante posto na Justiça da Colônia, passando a Ouvidor de toda a capitania de São Vicente" (Expedições Bandeirantes...). 
A razão de Raposo exercer um cargo de exclusiva nomeação de donatário de capitania pressupõe que o Conde de Monsanto, Donatário da Capitania de São Vicente, desejoso em aumentar domínios, tenha recorrido a Raposo Tavares pelo seu exacerbado nacionalismo e que insistia acreditar que as terras de Portugal não se findavam no imaginário de Tordesilhas.
Raposo provavelmente não suportava o domínio espanhol sobre Portugal e colônias, talvez daí a aspereza mútua entre o jesuíta espanhol Justo Mansilla [Mancilla] que chamou Raposo de 'vassalo rebelde' para obter deste a resposta "ide-vos vá daqui, que estais em terras de Portugal." (Expedições Bandeirantes...), que alguns estudiosos entendem como ódio à Igreja. 
Contudo, foi cumprindo ordens das Câmaras de São Paulo e São Vicente, que o bandeirante reuniu quase todos os homens em idade de guerra de São Paulo e São Vicente, três mil brancos, três mil índios e aproximadamente mil mamelucos, formando não a maior bandeira ou entrada que até então se organizara em terra brasileiro, e sim verdadeiro exército paulista muito bem preparado e dividido em quatro colunas e sessenta e nove divisões organizadas e prontas para o ataque.
A despeito do ódio aos espanhóis ou à Igreja, senão a ambos, o interesse maior de Raposo sem dúvidas estava na motivação financeira, posto que aprisionar índios e torná-los escravos era altamente rentável. As leis da Espanha em contrário às ações bandeirantes não chegavam eficientes em terra brasileira, nem os clamores portugueses, a mando dos Senhores de Castela, tinham vigor em 'deixar livres os índios nascidos livres'.
Rendição de índios - imagem representativa
extraída do filme - 'A missão' - 1986
https://www.youtube.com/watch?v=cW6Z9JMbFCM
Os missionários que mantinham índios sob sua jurisdição eram espanhóis ou vinculados à Ordem Jesuítica, que era espanhola e havia ganhado uma província inteira do Rei da Espanha, enquanto os luso-brasílicos não admitiam a dominação filipina, nem concordavam com as tantas terras doadas aos padres, terras com riquezas ainda por achar, já com possibilidade milionária de mais de cem mil índios, se vendidos como escravos por um bom dinheiro.
Alguns historiadores acreditam que somente assacam contra os bandeirantes, aqueles que se fiam exclusivamente em documentos espanhóis, desconhecendo que os jesuítas se apossavam do território sul-americano, do oeste a partir de Guayrá para o sul, através do expansionismo territorial, desde o princípio presente nas aspirações dos padres para o estabelecimento do estado teocrático católico, chocando-se com os luso-brasílicos igualmente expansionistas para além Tordesilhas, mais a captura do índio para o trabalho em suas lavouras.
"Antônio Raposo Tavares, que fora denominado Segador de Satanás pelo padre Cláudio Reiyes - da redução de São Nicolau, armou com apetrechos de guerra, numerosa comitiva e mais cadeias, grilhões, esporas, coleiras, algemas e correntes de oito a dez metros de comprimento, com dez ou mais gargalheiras presas e iniciou percorrer os altiplanos da Bolívia. No finalzinho da primeira metade do século XVII, atingiria o rio Mamoré e em seguida o Madeira, pelo qual chegaria ao Amazonas, e por ele seguindo até o Grão-Pará." (Gomes Silva, 1999: ...).—
A Guerra contra Guayrá estava prevista para 1627, os paulistas todos incitados por "Raposo Tavares, que conta, então, 28 anos de idade, mora em Quitaúna e, com Paulo do Amaral, incita a população à revolta, concitando-a a integrar-se nas hostes vingadoras. Os preparativos vão adiantados, quando a Câmara toma conhecimento deles e irrita-se, não encontrando outra solução senão esta: prender os rebeldes" (Novo Milênio: Belmonte, No tempo dos bandeirantes). 
Dentre as discussões e pareceres na Câmara Municipal de São Paulo, Belmonte destacou:
"Os senhores vereadores não desconhecem as invasões dos hispanos de Vila Rica. Sabem que, escorados no meridiano de Tordesilhas, os missionários castelhanos vão se apossando das terras, semeando reduções pelo vale do Paranapanema, até as proximidades de São Paulo, com o indisfarçável objetivo de estabelecer uma conquista cimentada por hábil interdito retinendaes possessionis".—
Na sessão do dia 2 de outubro de 1627, tendo sido dada a palavra ao procurador Cosme da Silva, este requereu: 
"(...) que avizassem o capitam-mór, por carta e por requerimento, de como os ispanóis de villa rica e mais povoações vinhão dentro das terras da crôa de portugall e cada vez se vinhão aposando mais delles..."(...)."Há, todavia, quem discorde do estranho comodismo dos 'senhores do Conselho' eleitos para esse ano de 1627. Entre a legião dos endemoniados "rebeldes", estão dois sertanistas que, mais tarde, se revelarão, agigantando-se: Paulo do Amaral e Antônio Raposo Tavares. Às ocultas, os dois grandes sertanistas procuram formar uma poderosa bandeira para barrar a audaciosa infiltração espanhola, vinda do Sul para o Norte e de Oeste para Leste com o claro, evidente, indissimulável intuito de impedir a expansão geográfica do Brasil, teoricamente contida pela linha tordesilhana." - "(...) o mesmíssimo procurador Cosme da Silva requereu aos ofisiais que se dirigisen ao ouvidor, e lhe requeresen que fosse prender a ãt.º raposo tavares e a paullo do amarall por seren amotinadores deste povo e mandaren allevantar gente para iren ao sertam".
—Presos os dois 'amotinadores', fracassa a grande arremetida dos paulistas contra os espanhóis da província do Guayrá. A Câmara, certamente, exulta e volta, tranquilamente, às suas comodidades, embora de olho pregado na população que agora, mais que nunca, freme de indignação e, de punhos cerrados, espera..." (Novo Milênio: Belmonte, No tempo dos bandeirantes, 1948 - L 23: 2, CD: A/A, http://www.novomilenio.inf.br/santos/h0380.htm). 
Mas a Guerra do Guayrá foi apenas adiada.