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domingo, 20 de dezembro de 2009

Ainda nos tempos da Guerra com o Paraguai

Trata-se o presente capítulo de complemento do anterior, podendo fundi-los sem prejuízos de continuidade.
Com a reconquista de São José do Rio Novo, José Theodoro de Souza instalou bugreiros às margens do Pari-Veado, na Fazenda Taquaral no lugar denominado Saltinho, atual Platina, e daí viu crescer adiante o sertão, em causa da Guerra do Brasil com o Paraguai, com as cheganças de famílias fugidas do arrolamento compulsório de soldados para as frentes de batalhas. A fazenda seria grilada, depois da morte de Theodoro, pelo Coronel Francisco Sanches de Figueiredo e o Capitão Francisco de Assis Nogueira.
Em 1866 as primeiras famílias instalavam-se em Dourado, no hoje município de Assis, destacados o Manoel Alves dos Reis, integrante do bando pioneiro de Theodoro com o qual divisante no Turvo/Alambari; o irmão João Martins dos Reis, e o cunhado João Hipólito Alves de Barros (Giovannetti, 1943: 52, notas), um dos mais impiedosos dentre os bugreiros, já no entradismo de 1850/51.
Outros residentes, transitórios, foram os pioneiros Vicente Ferreira e filhos, Antonio Joaquim José Melchior de Camargo, José Jorge Pontes, Joaquim José Soares e Ananias de Pontes, todos proprietários de terras limitantes com a Fazenda Taquaral (Leoni, 1979: 6). 
Também foram contados moradores em Dourados, Joaquim Bernardino de Souza, parente do pioneiro-mor; os bugreiros José Flauzino Pereira, João Miranda e Antonio Caçador, com documentos de posses das terras na Água da Cabiúna, bairro rural na atual região de Assis, em 1870, num latifúndio disputado com o Capitão Francisco de Assis Nogueira, que o teria adquirido desde 1866, diretamente de Theodoro, numa suspeitosa transação igual a Fazenda Taquaral, dando causa a litígio de posse solucionado décadas depois, por divisão judicial e acordos entre os litigantes, quando já presente o Salvino Domiciano Rosa, bisneto de Theodoro, filho de Luiz Domiciano Rosa com a filha de Francisco de Paula Moraes.
O Capitão Assis Nogueira foi associado a José Machado de Lima na compra de terras de Theodoro, em 1866, à margem direita do rio Pari-Veado e, depois, outras sortes à margem esquerda (Cobra, 1923: 55). A aquisição de Assis e Machado Lima, bastante suspeita, teria sido diretamente de Theodoro, que lhes passara procuração, a cumprir ciência que Machado de Lima era sócio do pioneiro-mor em ditas sortes de terras, além da queima dos documentos originais no incêndio doo Cartório de Casa Branca (Campanhole, 1985: 133)
O citado Melchior de Camargo, alforriado, abastado e senhor de numerosos escravos e rebanhos (Leoni, 1979: 4), deixou Dourado quando tornou-se proprietário da Fazenda Pitangueiras, com 22 mil alqueires, a cuja sede deu-se o nome Nossa Senhora do Patrocínio, atual cidade de Maracaí. 
A Pitangueiras originou fazendas menores, cujas sedes se transformaram povoados,  a exemplos da Fazenda Roseta, atual distrito com mesmo nome no município de Paraguaçu Paulista; a Fazenda Pouso Alegre, cuja área abrangeria a gare Cardoso de Almeida; a Fazenda Fortuna ou Água da Serraria nas imediações da hoje Assis. 
Dentro das posses de Melchior levantou-se, também, o Bairro Cerimônia, que durante quase duas décadas serviu como povoado de transição para as muitas famílias adquirentes de aguadas entre os rios Capivara, Sapé, Alegre, Capivari, São Mateus e rios menores, ribeirões e córregos. Em Cerimônia, patrimônio extinto,  "existiam cerca de 50 ranchos construídos pelas pessoas que demandavam o sertão a fim de estabelecer suas moradias efetivas" (Giovannetti, 1943: 4). 
De acordo com documentos oficiais, já observados, tanto Melchior de Camargo quanto Joaquim Manoel de Andrade já em 1871 haviam se fixado na bacia do Capivara.
Nos anos entre 1873/1875 constavam presenças de [José] Custódio Vencio e Domingos Ferreira Medeiros na região do Ribeirão das Anhumas, para além do Ribeirão Laranja Doce; e Theodorinho estava na região do Alegre, aonde o ribeirão Água das Mortes - proximidades da atual Paraguaçu Paulista, onde morreu flechado e esquartejado pelos índios, em 1878, com seus familiares e agregados; José Antonio de Paiva e Manoel Pereira Alvim, às margens do rio São Mateus (Jorge Junior, Um pouco de história... edição de 19/11/1967).
Outros documentos, pós 1875, revelam detalhadamente as localizações dos pioneiros, já citados alguns, estando Melchior de Camargo, na Fazenda Pouso Alegre; Bernardino José de Souza, irmão do pioneiro, na Água do Macuco; Antonio José de Moraes, na Fazenda Pontinhas; Luiz Manoel de Andrade, partes do ribeirão das Antas e margem direita do rio Capivara, até a barra do rio Capivari; Francisco Hermínio da Costa e outros, em partes da Água do Cervo; João Geraldo, em Ribeirão Grande, e junto a este mesmo Ribeirão, Antonio Leonel Mattoso; João Vieira no Alegre; Salvador Ortiz de Oliveira, no Sapé; Manoel Pedro Dutra, José Gabriel Machado e José Antonio da Silva, no Capivari; Joaquim José Pereira, partes nas vertentes do rio Capivara com o Ribeirão Grande; João Antonio Martins partes nas vertentes rio Capivara; Fidelis José Rodrigues e João Diniz, no Rio Paranapanema onde a barra do Capivara e partes nas vertentes; Martiniano Miguel Pereira, no Cocais; Balbino José de Lima, na Escaramuça; Antonio da Silva, em Rancharia; João Francisco Grillo e João Baptista Leme, na Marambaia (Nogueira Cobra, 1923: 55-56).
Dentre outros que avançaram sertões, a partir de Santa Cruz do Rio Pardo, estão os membros das famílias Pereira Alvim, Paiva, Bicudo, Botelho, Soares, Pontes, Marques, Marques do Valle e Andrade.
O bugreiro José Antonio de Paiva Junior, mineiro nascido em 1825, chegou à região de Santa Cruz do Rio Pardo nos primeiros tempos, com o pioneiro Theodoro, antes de seguir com alguns familiares e membros da família Pereira Alvim, rumo a São Mateus, em Conceição de Monte Alegre, distrito atual do município de Paraguaçu Paulista, onde morreu em 1933, aos 106 anos de idade (Giovannetti, 1943: 72-73). Curt Nimuendaju [Kurt Unkel], em 'O Extermínio da Tribo dos Otis', apresenta declarações de José Antonio de Paiva como partícipe na matança programada de índios Otis (Apud Tidei Lima, 1978: 135-136). 
O José Antonio de Paiva Junior conheceu netos, bisnetos, sobrinhos e outros familiares, alguns ainda vivos em 2005, que o afirmavam, pelas tradições, presente nas razias e dadas em 1850/1851, e foi morador por anos na região de Santa Cruz do Rio Pardo antes de se tornar fazendeiro em São Mateus (1870/71). Paiva, mesmo já velho participou, ao lado do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, de empreitadas contra os índios.
Os irmãos Messias e Manoel Bicudo que "vieram de Santa Cruz do Rio Pardo" estão contados entre os pioneiros do extinto povoado de Dourado, em partes hoje da cidade de Assis (Leoni, 1979: 4).
A ocupação imposta transformou a região Vale Paranapanema, em detrimento aos índios, principais vítimas do processo traumático consequente pelas conquistas e ocupações sertanejas, ora a lhes espoliar as terras, ora valerem-se da sua mão de obra compulsoriamente gratuita.
Dentre as famílias migrantes, durante período da Guerra do Paraguai, 1864/1865 a 1870, algumas tiveram destaques em Avaré, Santa Cruz do Rio Pardo e em pontos mais avançados do sertão, além do rio Turvo, de maneira a destacá-las entre as outras tantas, sem nenhuma preocupação quanto ao grau de importância, menor ou maior, quanto aos nomes e povoados no contexto histórico regional.
-Rio Novo (Avaré): Da formação e progresso de Rio Novo [Avaré], à exclusão dos fundadores, agregados e escravos, "seguiram-se na posse das terras da região de 'Abaré', outros agricultores: José Antônio do Amaral, Generoso Teixeira, Antônio Bento Alves, Jacinto Gomes de Morais, Dionísio José Franco, Francelino de Melo e João Antônio de Souza. São estes, segundo uma informação do capitão Tito Correa de Melo, publicada em 1889, os primeiros posseiros da região do Rio Novo, anteriormente chamado Abaré" (Moreira da Silva, 1965: 99-100).
Uns nomes e outros se repetem, nas fontes consultadas, pela flutuação residencial e transações de propriedades – compras, vendas e trocas, com famílias avançando aos poucos, até fixação final. Também, se têm notícias que algumas micro-bacias ficaram sem compradores, porém ocupadas, outras tiveram documentos duplicados ou triplicados que, num futuro próximo, dariam motivos para sérias disputas judiciais. 
Muitos adquirentes de terras somente vieram apossá-las, ou registrá-las, anos depois, às vezes assim a confundir chegadas e efetivas compras, com larga margem para invasões ou grilagens depois da morte de Theodoro.
Com a evolução do povoado de Campos Novos e pacificação dos índios até o rio das Anhumas, Theodoro 
retornou para sua pacata Capela de São João Batista – São Pedro do Turvo, em 1868.
As imigrações, como programas impostos pela guerra, continuariam até 1878, por referidas motivações, sendo posteriores deslocamentos mineiros, aos limites do século, vistos por anomalias econômico-financeiras de sitiantes empobrecidos do sul de Minas, que bem poderiam fazer-se ricos no sertão do Paranapanema.
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O trabalho RAZIAS - INCURSÕES PREDATÓRIAS EM TERRITÓRIOS INDÍGENAS DO VALE PARANAPANEMA de CELSO PRADO foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - Uso Não Comercial - Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.
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