domingo, 20 de dezembro de 2009

13. Raposo Tavares, obsidente e preador

O bandeirante que caçava índios e odiava os padres
Raposo Tavares - figura representativa
de domínio público
De acontecimentos históricos polêmicos têm-se por paixões atribuir fatos e feitos a pessoas, grupos ou raças igualmente contestadoras, a partir de um único ou menor indício.
É o caso na História do Brasil, como num sentimento de aversão pela oficialidade, muitos acreditam tenha ela sido diferente da didática imposta, que até daria uma obra paralela 'A História que a História não Conta ou que não contou’.
Assim Pedro Álvares Cabral, teria vindo ao Brasil não acidentalmente ou apenas pela Coroa Portuguesa, mas a serviço de seu sogro o judeu Fernão de Loronha ou Fernão [Fernando] de Noronha, interessado em explorar o comércio do pau-brasil em terras portuguesas de além mar. 
Segundo Guimarães (Volume III: 63), Pedro Alvares Cabral, o descobridor, foi casado com Isabel de Castro, filha de Dona Constança e Dom Fernando de Noronha.—
Em 1501 o monopólio do pau-brasil foi arrendado a Fernão de Noronha, judeu ligado por interesses comerciais a outros capitalistas do mesmo grupo étnico, conforme historiadores. Óbvio que tão poucos dias no Brasil e apenas na costa litorânea, Cabral não teria tempo nem condições para algum preciso relatório, mas teria vindo obter informações de degredados, segundo consta, daqueles judeus postos na Insula Brasil, um, dois ou mais anos antes, como Francisco de Chaves, João Ramalho, Diogo Álvares e Mestre Cosme Fernandes Pessoa, este último também maçom e sério problema para a Igreja.
Se os primeiros portugueses no Brasil eram judeus, presumíveis que vieram degredados depois de alguma negociação para salvarem-se da Inquisição. Quase todos os judeus portugueses não ricos, cristãos novos ou não, tiveram sérios problemas com a Inquisição promovida pela Igreja Católica e o Estado.
Antonio Raposo Tavares teria sido um deles. Nascido em Portugal em 1598, filho de Fernão Vieira Tavares e Francisca Pinheiro da Costa Bravo, órfão de mãe desde cedo, Maria da Costa tornou-se sua madrasta.
A História não diz oficialmente que Raposo Tavares era judeu, mas documentos seguros indicam que sua mãe e madrasta eram judias, portanto ele foi criado num ambiente onde certamente sentiu as dificuldades e as agruras do antissemitismo, o preconceito racial, o temor da Inquisição e o estigma de assassino do filho de Deus.
O articulista Mário César Carvalho nota que a historiadora Anita Waingort Novinsky, professora de pós-graduação na USP, "reuniu documentos encontrados em Portugal segundo os quais Raposo Tavares teria razões religiosas para queimar igrejas: sua madrasta, Maria da Costa, foi presa pela Inquisição em 1618 sob a acusação de e só saiu do cárcere seis anos depois." (Cesar Carvalho, publicação Folha de São Paulo, edição de 05 de setembro de 2004 – Bandeirantes tinham origem judaica). 
César Carvalho argumenta que "Raposo Tavares foi criado até os 18 anos na casa da madrasta, uma cristã nova que seguia a tradição religiosa como, na definição de Novinsky. A mãe de Raposo Tavares também era cristã nova". Mãe e madrasta em que pelo menos a última teve problemas com a Inquisição, evidente que se pode traçar perfil psicológico, moral e de conduta pessoal de Raposo Tavares em relação à Igreja, nas pessoas de seus representantes mais imediatos, os padres e as obras destes.
Raposo Tavares tão logo presa sua madrasta teria vindo ao Brasil, ainda em 1618, acompanhando o pai que tinha obrigações de representar o donatário Dom Álvaro Pires de Castro e Sousa, o Conde, depois Marquês, de Monsanto, nas Capitanias de Itamaracá, Santo Amaro e Santana. Monsanto, bisneto de Pero Lopes de Sousa [irmão de Martim Afonso de Souza] - o primeiro donatário daquelas fracassadas capitanias, ensejou resgatá-las através de Fernão Vieira Tavares, vindo apropriar-se indevidamente também das terras da Capitania de São Vicente, por erro de demarcação, propositada ou não, onde fixou sede em 1618, ainda que área litigável.
A Capitania de São Vicente de 1587 a 1610 teve como último donatário Lopo de Souza, filho de Pero Lopes de Souza, filho de Martim Afonso de Souza e homônimo de seu tio paterno. Pela interrupção a partir de 1610 ou por presumível ausência de interesse hereditário, o Conde Monsanto certamente dela se apropriou em 1618, pelo seu representante legal Fernão Vieira Tavares, até que Mariana de Sousa Guerra, Condessa de Vimieiro, filha de Lopo de Souza [tio], reivindicou seus direitos de donatária e, como tal, historicamente reconhecida entre 1621 a 1624, apesar do litígio familiar, quando resolveu pela transferência da sede de sua Capitania de S. Vicente para Itanhaém. 
Durante o período de ausência donatária a Capitania foi governada diretamente por Capitães-Mores e durante a concomitância foram nomeados dois Capitães-Mores, distintos por donatário, com jurisdição na mesma área territorial, até a prevalência de Dom Álvaro.
Apesar da imprecisão dos documentos, a partir de 1610 a Capitania de São Vicente foi invadida pelos espanhóis de Iguape [litoral sul de São Paulo], por abandono – nada relacionado com a Guerra de Iguape de 1532, caindo novamente no ostracismo ao mesmo tempo em que prosperava as vilas de Santos e São Paulo. 
A tomada das terras da Capitania de São Vicente por Conde Monsanto incluía as vilas de São Paulo, Santos e São Vicente, e a esta última deu vigor.
Fernão Vieira Tavares assumiu controle da Capitania de São Vicente e das demais com o filho Raposo ao lado, exercendo um governo bastante austero através de Capitães-Mores. O próprio Fernão veio ocupar a função de Capitão-Mor por um período em 1622, ano em que Raposo Tavares casou-se com a filha do bandeirante Manuel Pires, Beatriz Furtado de Mendonça com quem teve dois descendentes, vindo após enviuvar-se.
Depois de dez anos de viuvez, Raposo contraiu matrimônio com a viúva Lucrecia Leme Borges de Cerqueira, mãe de oito filhos, e deste consórcio nasceu-lhes uma única filha. Lucrecia Borges era nascida do bandeirante Fernão Dias Pais, e tia do célebre caçador de esmeraldas, Fernão Dias Paes Leme. Desde a chegada ao Brasil a vida de Raposo vinculou-se aos bandeirantes e à administração política, daí seu aprendizado com as cousas e causas da colônia portuguesa.
Em 1628, Raposo Tavares fez parte da expedição que destruiu Guayrá, sendo durante esta campanha que ele teria avocado sua autoridade no Pentateuco [bíblico] ou, mais propriamente na Lei de Moisés para seus atos de conquistas, conforme Francisco Vasques Trujillo numa carta de 1631 (César Carvalho), portanto uma prova que ele era judeu para muitos estudiosos.
Para o historiador Cortesão, Raposo Tavares, o mais temível dos bandeirantes, era judeu cristão novo e tivera problemas com a Inquisição (Cortesão, 1958), como também eram judeus feitos cristãos novos, Mestre Cosme Fernandes Pessoa, João Ramalho, Brás Leme, Fernão Dias Paes [Leme], Baltazar Fernandes, Diogo Álvares Correa [Caramuru], Francisco de Chaves e outros tantos preadores de índios dos séculos XVI e XVII.
Anita Waingort Novinsky acredita que "Há razões ideológicas na fúria dos bandeirantes contra a igreja. Ela representava a força que tinha destruído suas vidas e confiscado seus bens em Portugal (...) e Raposo Tavares matou jesuítas porque eles eram comissários da Inquisição na América" (César Carvalho, op.cit).
Outros pressupostos deixam entender que Fernão Vieira Tavares, o pai de Raposo Tavares, também era judeu e que saiu de Portugal por Dom Luiz Álvares de Castro e Souza, tanto como seu representante em Brasil, para apossamento da Capitania de São Vicente e aquelas em que era real donatário, quanto para que demais membros da família Tavares não tivessem o mesmo destino de Maria da Costa.
Mas, nada se pode presumir onde permanece a ausência de documentos, ficando assim a incógnita porque a família Tavares deixou Portugal tão logo da prisão de dona Maria da Costa, ou se a família pode enfim se reunir após sua libertação.
Raposo com razões ou nenhuma para odiar o Clero, em 1628 achava-se à frente de uma coluna militar, diante da redução de São Miguel, para declarar pretensões em expulsar todos os jesuítas do Guayrá por considerar portuguesas aquelas terras e não do rei de Espanha.