domingo, 20 de dezembro de 2009

14. Traição à causa jesuítica

Buscou-se um traidor e o 'Governador do Paraguai' apresentou-se
Imagem representativa de cidade missioneira em Guayrá
-domínio público-
Em Guayrá a intenção primeira dos bandeirantes paulistas era a captura do índio, para mão de obra escrava, e não objetivos de expansão territorial brasileira, a qual somente viria a partir de 1618, já durante a dominação espanhola pela União Ibérica, quando aquela região se encontrava sob governo jesuíta com forças para formação de um estado teocrático livre e independente.
O desenvolvimento de Guayrá, tanto populacional quanto de progresso, destacava-se sobremaneira das demais províncias sul-americanas, mormente vistas em relatórios como os de Del Sampaio ao rei de Espanha, que mostram a atividade jesuítica grandiosa não somente pela religiosidade pretendida, mas pela capacidade pedagógica de educar o índio em sua própria língua, ensiná-lo desenvolver diversos ofícios [tecelagem artesanato, olaria, construção e outras modalidades], aproveitar os recursos naturais para trabalhar a terra, cuidar das atividades agropastoris incluindo os hortifrutigranjeiros, além do incentivo às oportunidades para o desenvolvimento de habilidades ou revelar gênios criativos.
Os jesuítas desejavam para Guayrá forma de governo social-teológico militar, com competências administrativas, legislativas, judiciária e de defesa territorial, posto inconcebível na época algum governo sem sustentação militar, metido entre as duas coroas que disputavam terras e tinham interesses por riquezas e, sobretudo, a mão de obra indígena. É de conhecimento histórico que Vila Rica de Espírito Santo tratava-se de cidade militar, igualmente à redução Jesus Maria também voltada para os ofícios militares de treinamentos, formações e depósitos de armas e munições, características bastante próprias de sentinela militar avançada.
Considerando Guayrá por Estado ainda em formação, uma situação talvez não prevista pelos idealizadores estivesse na sua interiorização a lhe impedir acesso oceânico direto, vez que seus caminhos terrestres dependiam de Portugal e os fluviais de Espanha, pelo rio da Prata, tornando-o isolado e extremamente dependente.
Outra consideração negativa diz respeito em manter uma população quase exclusivamente indígena, peças por demais tentadoras para as bandeiras de apresamentos e os 'encomienderos', especialmente a partir de 1624, quando a Holanda atacou a Bahia e passou a dificultar a vinda de escravos africanos para o Brasil.
Os índios aldeados tinham maiores valores como escravos porque doutrinados que o sofrimento terrestre lhe era a garantia de paraíso celeste. "Não se imagina presa mais tentadora para caçadores de escravos. Por que aventurar-se a terras desvairadas, entre gente boçal e rara, falando línguas travadas e incompreensíveis, se perto demoravam aldeamentos numerosos, iniciados na arte da paz, afeitos ao jugo da autoridade, doutrinados no abanheén?" (Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial: 58).
Desde as primeiras formações jesuíticas, antecedentes à própria oficialidade das missões, os espanhóis e portugueses intentaram contra os aldeamentos, que se mostravam 'viveiros de bons cativáveis' (Silva e Penna), e a eles iam os preadores de acordo com as observações de historiadores didáticos os quais afirmam fracassadas algumas tentativas de apossamentos no Guayrá, anteriores a 1628, repelidas a fogo pelos comandos militares a serviços dos jesuítas, por vezes a se anteciparem aos inimigos antes que estes se aproximassem das reduções.
Dos fracassos colecionados pelas arremetidas bandeirantes contra as reduções jesuíticas do Guayrá, principalmente em 1618 e 1623, entenderam os cabecilhas de entradas e bandeiras que as sustentações dos aldeamentos estavam nas armas e na cobertura dada por frentes do exército paraguaio deslocadas para tais objetivos.
Para a retirada de tais armas e tornar fácil o alvo pretendido, os luso-brasílicos precisavam da conivência de pessoas do governo de Assunção, que lhes dessem mapas da região - das vias de comunicações, do número de aldeados e das capacidades de resistências.
Também era preciso uma pessoa com autoridade sobre os militares para remover as frentes que protegiam estrategicamente os reduzidos, além do recolhimento compulsório de armas e munições em poder dos missionários.
Capistrano de Abreu informa: "Isto conseguiram em fins de 1628, e muito concorreu para assegurá-la Luís Céspedes y Xeria, governador do Paraguai, casado em família fluminense, senhor de engenho no Rio".
Dom Luis, viúvo, viera de Espanha, em 1626, para assumir o governo do Paraguai [nomeado em 1625], com passagem pelo Rio de Janeiro onde casou-se com Vitória Correa [Correia] de Sá, filha do riquíssimo Gonçalo Correia de Sá e sobrinha de Martim de Sá, governador do Rio de Janeiro (1602-1608 e 1623-1632), recebendo como dote alguns engenhos de açúcar. Assumindo governo do Paraguai em 1626, Dom Luis foi nomeado para o cargo em 1625 (Vilardaga, 2008: 11).
Desde logo no governo paraguaio Dom Luis mostrou-se contrário ao Estado Independente do Guayrá, em mãos dos jesuítas, ocupante de importantes e ricas regiões hidrográficas no Paraná espanhol. Havia por parte de Dom Luis, também, o temor de uma nação guarani organizada e poderosa.
Certamente considerações assim fizeram o governador paraguaio simpatizar-se à causa bandeirante, de destruição de Guayrá e o aprisionamento do índio reduzido para mão de obra escrava aos senhores de engenho.
Já não restam dúvidas que Dom Luis e os bandeirantes estavam intentados num mesmo propósito:
"pois era notória a sua aversão aos jesuítas e largamente sabido que se entregava ao comércio de escravos, segundo se verifica no processo, ou melhor, na 'información' realizada pelo padre Francisco Vasquez Trujillo, provincial da Companhia de Jesus, em fevereiro de 1631, para provar ao rei de Espanha o quanto era maléfica, à coroa de Castela, a ação do governador do Paraguai que, ainda por cima, era casado com uma brasileira e possuía um engenho no Rio de Janeiro" (Barreto, c. 1948).—
Se enredado ou não pelos jesuítas à coroa espanhola, quanto suas ações e pretensões pró a invasão do Guayrá, Dom Luis esteve em Madri, em princípio de 1628, onde discutiu-se a questão, inclusive "com o rei da Espanha, Felipe IV, tendo se dirigido ao governador do Paraguai, para que houvesse intervenção nas invasões" (Moura, 1988: 51).
Ao retornar de Espanha, no mesmo ano de 1628, Dom Luis desembarcou em São Vicente, com passagem pelo Rio de Janeiro, aproveitando oportunidade para manter contatos com os principais de São Vicente e de São Paulo, e "faz crer que viera comparticipar dos resultados da grande empresa predatória que Manuel Preto e Antônio Raposo Tavares preparavam, para arrasar os grandes aldeamentos guaranis que os jesuítas espanhóis mantinham ao sul do rio Paranapanema" (Taunay, Ensaios Paulistas, 1958).
Reinhard Maackafirma que "veio a São Paulo o governador do Paraguai tomando conhecimento da intenção [do ataque a Guayrá]. Entretanto, D. Luis Céspedes, ao invés de prevenir os jesuítas, fez um pacto com os bandeirantes e impediu toda possibilidade de defesa por parte dos jesuítas." (Maack, 2002: 72).
Imagem representativa do bandeirante
Manuel Preto - preador de índios
-domínio público-
São diversas as especulações das causas da traição do governador paraguaio, correndo versões que a mulher de D. Luis havia permanecido no Brasil, quando da sua viagem à Espanha, sendo ela vítima de sequestro e somente libertada após se negociar a traição de Guayrá. "Outros diziam que Don Luis nada podia fazer, já que sua mulher estava no Brasil" (Expedições Bandeirantes).
Certamente o sequestro da esposa do governador e a retenção dele em São Paulo, com toda a comitiva, tenham sido caso pensado. 
—"Pouco depois (a população paulista sempre exaltada), passa pela vila, vindo do Rio de Janeiro, o governador do Paraguai dom Luís de Céspedes Xéria, que se destina a Assunção. Na Câmara, um edil quer saber se Céspedes Xéria tem autorização legal para trilhar a rota em que vinha, pois se tratava de caminho proibido. (O jesuíta Charlevoix afirma que não a possuía). O certo, contudo, é que, após um mês de estadia em São Paulo, parte o governador" (Barreto, 2007).
Dom Luis não apresentara autorização real para transitar pela Peabiru, por isso estava impedido de prosseguir viagem e, detido no Brasil, então a iniciar uma maratona por terras paulistas, passando por Barueri, Santana de Parnaíba, entre outras localidades, antes de chegar a Araritaguaba, hoje Porto Feliz. Portugal e colônias estavam sob dominação filipina, razões pela qual a estranheza de se deter o governador paraguaio em trânsito pelas terras que eram, de direito, pertencentes à Espanha.
Dessa peregrinação, a demora e maneira como realizada a viagem, assim como as ordens imediatas de Dom Luis, aos seus assistentes para a desmilitarização das reduções e o recolhimento compulsório de armas e munições, fizeram com que os jesuítas inimizassem contra ele e, posteriormente, lhe atribuíssem as responsabilidades pela destruição do Guayrá.
Seja por qual razão, Dom Luis e auxiliares ficaram sob escolta de homens da confiança de Manoel Preto e Raposo Tavares, impedidos de retorno imediato ao Paraguai, a fim que ficasse bem clara as intenções colaboracionistas do governador.
Em Araritaguaba, Dom Luis e comitiva permaneceram por mais de um mês, enquanto consolidavam-se os diferentes rumores da traição e o apontar ânimo dos bandeirantes em formar exército fortemente armados com novecentos mamelucos e mais dois mil e duzentos índios guerreiros para o ataque à "Província Del Guayrá" (História do Brasil - Expansão Territorial Brasileira).
Somente três meses após a entrada em São Vicente, Dom Luis chegou enfim a Santo Inácio, no Guayrá, à margem esquerda do Paranapanema ao sul. Confirmada as providências de desmilitarização e o recolhimento das armas, fez-se chegar notícia aos líderes bandeirantes, para as elaborações finais do plano de guerra em quatro frentes comandadas por Pedro Vaz de Barros, Brás Leme, Antonio Fernandes e o próprio Raposo Tavares, todos sob ordens do velho Manuel Preto.
É dito que D. Luis, ainda sob escolta paulista, partiu de Loreto para Assunção [Paraguai]: "Fez por terra a viagem para seu governo; e fez sinal aos bandeirantes para avançarem" - escreveu Capistrano, e só aí os paulistas partiram, em relativa segurança, para a guerra. 
A mulher de Dom Luis chegou a Assunção em 1629, por mãos de André Fernandes: "uno de los maiores piratas que vieron a sertan y mas cruel matador de yndios el qual despues de aver destruydo y assolado la Reducion de S. Pablo y llevado gran numero de al Bracil vino y truxo hasta el Paraguay a doña Victoria mujer del dicho governador con otros portuguezes (...)" (Annaes do Museu Paulista, vol. 11, documentação hespanhola: 320).
Imagem representativa de Raposo Tavares
-domínio público-
Raposo e sua coluna entraram em território inimigo pelo vale do rio Ribeira, enquanto os demais grupos seguiram cursos diferentes para o cerco planejado às primeiras reduções.
Aos 08 de setembro de 1628, a tropa chefiada por Pedroso de Barros, firmou-se defronte a missão jesuítica de Encarnação [Encarnacion] às margens do Tibagi, enquanto as outras colunas se colocaram estrategicamente pelos caminhos ou vias de comunicações, próximas de cada uma das reduções, para evitar ao máximo que os habitantes se comunicassem sobre as posições inimigas.
Em dezembro tudo estava pronto para o grande ataque, a bastar apenas que os bandeirantes deixassem fugir alguns índios escravos e estes buscassem proteção junto à redução de Santo Antonio, às margens do rio Ivaí. Trama executada e os padres acolheram os fugitivos, não os liberando aos donos e com isso a motivação desejada para a guerra; foi o princípio do ataque.
Sobre tal assunto, sem contender méritos, do Banco de Dados Folha observa-se, no texto extraído, que as lutas entre reduzidos e bandeirantes não eram simplesmente de um atacar com armamentos eficientes e outro se defender com pedaços de paus:
"Incidem num juizo falso e absurdo, todos quantos suppõem que, nas suas arremettidas contra as reducções, fossem os bandeirantes encontrar, sempre, indios inoffensivos e missionarios inermes. Tanto isso não é verdade que, em innumeros documentos escriptos pelo punho dos proprios jesuitas, se constata, a todo passo, a bravura com que elles se defendiam e, muitas vezes, atacavam. Numa carta dirigida em 12 de novembro de 1648, ao governador do Paraguay pelo padre Justo Mansilla, escrevia este: 'Ihs - Senor governador. Sabado y noviembro 7 dieram los nuestros assalto al enemigo en su real que era el puesto en donde, el ano passado, por otra invasion del mismo enemigo, se avia retirado la segunda reducion y sacaran al Padre xpl de arennas, a quien el enemigo tenia preso y con guardas de dia y de noche e dias avia, y mataram a seys o sete Portugeses a pelotassos, y algunos Tupis, con mucho animo y brio'. Mas não era sempre que as reducções atacavam os paulistas, matando-os a pelotaços, com 'mucho animo y brio'. Defendiam-se, tambem, com armas de fogo e eu acho que tolos seriam elles se são o fizessem. No assalto a uma das villas do Paraguay, segundo relata o capitão Domingos Gonzales a Sebastian Solorçano, secretario da Casa de Contratação de Sevilha, foram mortos 140 paulistas. Como se vê, os bandeirantes não investiam contra gente inerme. As reducções viviam, aliás, em constantes questões com as autoridades hespanholas, quer do Paraguay, quer do vice-reino do Prata e mesmo da Côrte. Na documentação colhida no enorme acervo do 'Archivo General de Indias', em Sevilha, carinhosamente colligidas nos 'Annaes' do Museu Paulista, é constante, insistente mesmo, o encontro de cartas vindas da Côrte, e dirigidas às reducções que se esparramavam pelas regiões do Guayrá, Tape e Uruguay, pedindo-se a devolução de armas e munições. Num desses documentos pede-se ao provincial ibero que 'todas las armas que esa Religion tenia em las doctrinas de ellas y las que huviesse repartido a los indios de que se conponen, se la entregassen para que estuviessen a disposición de esa Religion, ni se entrometiesen los religiosos a exercitar los yndios en lo manejo dellas ni en los allardes otra acion politica ni militar'." (Folha de São Paulo - in Folha da Manhã, O famoso Banditismo dos Bandeirantes, 24/11/1935).
Mas na Guerra de 1628 contra o Estado do Guayrá ocorreu verdadeiro holocausto, pelo qual D. Luiz de Céspedes y Xeria foi formalmente acusado pela Companhia de Jesus, entre outras citações, também a de traição à coroa espanhola, de casar-se com uma brasileira, de aliar-se à bandeira paulista para a destruição do Guayrá e aprisionar indígenas para os seus engenhos no Rio de Janeiro.
Dom Luis foi preso em 1631 e, cinco anos depois, condenado, todavia não cumpriu pena integral pelo prestígio do aparentado Salvador Correia de Sá Benevides, governador do Rio de Janeiro no período de 1637/1642, recolhendo-se numa de suas propriedades fluminenses onde veio a falecer.