domingo, 20 de dezembro de 2009

20. Dos possíveis aldeamentos e bairros rurais na Fazenda Jesuítica Botucatu

1. Trabalhadores livres e escravos nas fazendas dos padres
Botucatu (SP): das lendas que remetem à antiga Suméria, o 'Ex-Tu'
seria o 'Templo Negro -ou o Símbolo do Deus [Satã]- Fálico', segundo 
o Frei Fidelis da Motta ou Fidelis Maria di Primeiro (1885/1968)
-Crédito foto: Junko Sato Prado, 1992-
No princípio os padres intentaram Guareí e Botucatu por única e grande propriedade, para criação de gado e atividade agrícola. 
No entanto, a anterioridade da primeira fazenda e o seu fracasso gerencial não lhe permitiu as inovações aplicadas na segunda propriedade, como as formas de administração e investimentos incorporados à força do trabalho, tornando a 'Fazenda Ibytu-Katu' [Botucatu] muito mais próspera e de superior importância regional, tanto que se tem a história da povoação do sertão oeste paulista, apenas a partir da sua instalação em 1721/1722, desde as divisas com a Fazenda Guareí, entre os rios Tietê e Paranapanema, oficialmente até o alto da serra.
A despeito das distinções entre as fazendas Guareí e Botucatu, são tidas por alguns autores como propriedade única a partir de 1722. A família Campos Bicudo doou [transferiu], ainda, uma sesmaria na região de 'Tatu-uv' [Tatuí] aos Padres Carmelitas, de Itu, denominada Fazenda Paiol.
Lendas ou realidade, pouco ou nada se sabe a respeito de arranchamentos brancos, negros e indígenas em terras da Fazenda Jesuítica Botucatu, entre 1719 a 1759. Autores creditados apontam menos de quatro dezenas de trabalhadores na imensa propriedade, contando escravos e livres, número que evidentemente não justificam necessidades mais que um ou dois povoados.
Donato (1985: 41), firmado nos levantamentos históricos promovidos pelos estudiosos jesuítas, Serafim Leite e Monsenhor Aluísio de Almeida, aponta treze escravos no total de contingente humano na Fazenda Botucatu.
Todavia, um latifúndio entre o Tietê e o Paranapanema, a partir de Guareí para o alto da Serra, quase impossível crer que a fazenda não possuísse diversos abrigos próximos aos serviços, para os seus arranchados, roceiros e vaqueiros, inclusive manutenção de povoações, como lugares de pouso, entre as jornadas de aproximadamente trinta quilômetros nos caminhos para o sertão.
Afora a fixação de brancos os padres mantinham ou deveriam manter pelo menos um aldeamento indígena na propriedade, para garantia de civilizacional proposta, além de exigência de governo nas formações de bairros e aldeamentos, tanto quanto a obrigação em explorar as terras, ou seja, o respeito às condições primárias para qualquer sesmaria.

2. Aldeamentos indígenas e cruzamentos interétnicos
Acerca de qualquer aldeamento indígena, Marilza de Oliveira informou: "No estabelecimento de normas para os aldeamentos na lei de 10 de setembro de 1611, figurava que os aldeamentos deveriam ser regidos por capitães e deveria ter um clérigo português que soubesse a língua" (Oliveira, 2003: 15). 
Trata-se da Carta Régia promulgada por Felipe III, com a recomendação determinista:
—"(...) os gentios são senhores de suas fazendas nas povoações, como o são na Serra, sem lhes poderem ser tomadas, nem sobre ellas se lhes fazer molestia ou injustiça alguma; nem poderão ser mudados contra suas vontades das capitanias e lugares que lhes forem ordenados, salvo quando elles livremente o quiserem fazer".—
As denúncias dos padres acumularam-se quanto às explorações indevidas dos índios pelos tais Capitães de Aldeias, com poderes de Juiz Criminal e Civil, além de Fiscal de Trabalhos e Salários Indígenas. A forte pressão ou poder eclesiástico consolidou-se com a Lei de 21 de dezembro de 1686, passando todo controle dessa mão-de-obra indígena, ensinamentos e religião, mais os poderes do executivo e judiciário, para os missionários, em especial os jesuítas, "vistos como os únicos capazes de lidar com os indígenas e transformá-los em vassalos do rei" (Amantino, 2008: 2-3). 
Para as realizações previstas os jesuítas receberiam sesmarias do governo ou estas repassadas por particulares, podendo adquirir outras e fazer posses de vãos entre as propriedades.
Nestes considerandos, prevalecendo a Lei ainda em 1719, a Fazenda Botucatu, igual a qualquer propriedade rural sob responsabilidade religiosa, significava, além do direito ou dever em explorar terras, instalações de núcleos habitacionais destinados aos que trabalhavam dentro dos domínios, livres e escravos, além dos indígenas em aldeamentos sempre juntos aos povoados.
Ações assim demonstravam situação pacífica com os 'naturais da terra' como chamados os índios, e os jesuítas faziam prosperar suas fazendas, conforme Amantino:

—"Os inacianos montaram, desde o século XVI, uma extensa e complexa estrutura de poder econômico e social que começava pela posse das terras e seguia em direção ao controle sobre a mão-de-obra. Argumentando precisar de terras para manter e ampliar o processo de catequização dos índios, obtiveram gigantescas extensões de terras concedidas pelas autoridades coloniais através da doação de sesmarias e ampliadas posteriormente graças às compras e doações de particulares.Todos estes complexos econômicos propiciavam à Ordem jesuítica um grande poder político e econômico que só seria alterado a partir de 1759, momento da expulsão da Ordem da Colônia. Suas fazendas, escravos e bens foram confiscados e, posteriormente, leiloados. A expulsão dos mesmos e o confisco de seus bens definiram mudanças significativas nos rumos da catequese, nas relações de poder e no controle sobre as terras e mão-de-obra.Antes, os jesuítas eram vistos como os únicos capazes de lidar com os indígenas e transformá-los em vassalos do rei. Mas, a partir de uma série de mudanças significativas ao longo do século XVIII e levadas ao limite por Pombal, a situação da ordem em Portugal e em seus domínios alterou-se radicalmente. De aliados, tornaram-se inimigos" (Amantino, 2008: 2-3).—
Sob a guarda dos padres jesuítas, os índios deveriam ser livres da preação e da escravidão. No entanto, pelo regime de trabalho de longa duração imposto aos nativos, os padres não tinham por eles somente interesses espirituais ou de proteção, mas sobretudo econômicos, em suas fazendas de gado e de agricultura. Para formar fazendas rentáveis era preciso mão-de-obra abundante e a indígena era a mais disponível aos padres.
Donato quanto à organização física da fazenda dos padres em Botucatu esclarece:
—"Pela primeira vez na região, por conta e instrução da Companhia de Jesus, erguiam-se os ranchos sem a mera função de abrigo transitório e fixavam-se, para residência e trabalho continuado, entre dez e vinte moradores, índios administrados e seus familiares" (1985: 39).—
A Ordem Inaciana também possuía escravos nas Fazendas de Guareí e Botucatu, comprovações de acordo com o relatório Informação Econômicas, cujo teor:
—"O documento manifestava a esperança de que as fazendas seriam de boa ajuda ao Colégio por estarem localizadas 'no caminho das minas’ e, portanto, serem de venda fácil de seus produtos. Outra declaração digna de reparo é a de que se cogitava levar para elas mais trabalhadores, ainda que escravos, pois, diz claramente no Brasil não havia fazendas florescentes sem escravos e aquelas duas não poderiam subsistir sem contarem com tal mão-de-obra" (Apud Donato, 1985: 39-40).—
Na Fazenda Jesuítica Botucatu conviveram brancos, negros e índios, por quatro décadas, além dos contatos também com passantes que lá se hospedavam, e certamente se relacionaram sexualmente com mulheres negras e índias, como ocorrências toleradas, cujos filhos gerados, mamelucos e mulatos, não eram considerados escravos, assim destinados para serviço mais qualificado que os cafuzos, porque estes eram considerados escravos, porquanto filhos de escravos negros com semiescravos ou escravos índios.
A lei, no entanto, proibia cópulas entre índios e negros, porque entendidas como artimanhas dos aldeadores para produzirem cativos. Todavia: 
—"Por mais que a legislação tenha proibido e as autoridades civis e eclesiásticas tenham denunciado, o fato é que os casamentos interétnicos visando a escravização de índios prosseguiu. Já na segunda metade do século XVIII, era o Bispo do Rio de Janeiro quem denunciava a situação. Em carta dirigida ao rei, Frei Antonio do Desterro afirmava:É certíssimo que as pessoas que administram os índios naquele governo e outros deste Brasil tem excogitado os meios possíveis de lhe tirarem a liberdade para poderem desta sorte ter mais escravos que os sirvam sem custo ou trabalho, e para de todo o conseguirem, procuram que os índios com as pretas suas escravas e os pretos seus escravos com as índias andam distraídos afetando por este motivo uma falsa religião, fazem toda a diligência para que se casem...Os colonos, de acordo com a carta do religioso, usavam de extrema astúcia porque fingiam não saber das 'distrações' entre seus cativos e os índios. Depois, 'descobriam' e alegando questões religiosas e morais, obrigavam o enlace do casal. Com isto, se livravam do impedimento que havia sobre este tipo de casamento. Concluindo, pode-se afirmar que as relações entre índios livres ou não e os escravos negros ocorriam nas fazendas e nos aldeamentos." (Amantino, 2008: 10-11).—
A despeito das proibições e recomendações em contrário, índios e negros coabitavam-se, ninguém ignorava tais práticas, e os filhos nasciam escravos. A isto se dava o nome de reprodução escrava para manter o cativeiro ou o plantel e sua a comercialização. 
A escravidão indígena e de cafuzos sempre foi negócio altamente rentável, sem o melindre da consanguinidade branca, tanto que religiosos mobilizavam esforços para apresamentos de índios para as missões, onde garantida a presença do negro para cruzamentos, ainda que oficialmente a captura de índios fosse com finalidade evangelizadora e de catequese, para evitá-los mortos por fazendeiros ou que fossem apresados por bandeirantes e entradistas.
Da mesma forma, aos padres responsáveis por aldeamentos cumpriam, além do papel evangelizador salvacionista, a integração e utilidade social do índio para o mercado de trabalho, cujos aprendizados de bons costumes e ofícios agrícolas ocorriam nos aldeamentos, fazendas dos padres, em troca do pouso, da alimentação e da segurança contra inimigos. Os particulares interessados em colaborar com a Instituição na educação e profissionalização dos chamados bárbaros, podiam requisitá-los para o trabalho obrigacional gratuito temporário; depois renovavam ou trocavam os grupos.
Os fazendeiros, por seu turno, preferiam mais os índios catequizados que os selvagens, indo buscá-los nos aldeamentos, onde domesticados e preparados para o servilismo. Desta maneira, os índios aldeados no século XVIII não tiveram melhor sorte que aqueles do século precedente, com prevalência da ideia que os reduzidos tinham maiores valores como escravos, porque eram "iniciados na arte da paz, afeitos ao jugo da autoridade" (Silva e Pena, História do Brasil, 1967: obra didática). A diferença estava que no século XVII os bandeirantes invadiam e destruíam os aldeamentos jesuíticos para apossamento dos índios reduzidos, e agora os jesuítas entenderam ser melhor entregar o índio já doutrinado aos requisitantes, por um bom preço, do que a eles se oporem.
Estes são detalhes que podem ser aplicáveis aos jesuítas de Guareí e Botucatu, onde os padres eram escravagistas e incentivadores do uso de mão-de-obra escravizada, conforme vista, porém defeso que apenas incentivassem a amalgamação de raças, com populações de tipos distintos e variados das três etnias formadoras, porque ainda mantinham o velho sonho de um estado teocrático, onde estes elementos futuramente poderiam participar como meeiros, arrendatários, ocupantes autorizados e que futuramente poderiam ser donos de datas e dirigidos a outras profissões, inclusive aquelas que requisitam estudos mais avançados, todos falando o 'nheengatu' - de tronco tupi, já gramatical, ensinada pelos padres como língua oficial de entendimentos entre os habitantes dos bairros.
Enquanto as pretensões político-religiosas não concluídas, ademais da criação de gado e promoção agrícola, os jesuítas em Botucatu catequizaram índios e levantaram povoados, entre aguadas, para fixação de mão de obra mais próxima do local do trabalho, com isso a garantir, a eles jesuítas, não apenas o direito de propriedade como a segurança de seus agregados.

3. Bairros rurais não oficialmente reconhecidos

Considerados lendas, alguns bairros rurais teriam existido na Fazenda Jesuítica Botucatu, primeiro como arranchamentos próximos a locais de trabalhos, depois, com a expulsão dos jesuítas em 1759, transformados em bairros residenciais para antigos trabalhadores que ocuparam porções de terras abandonadas.

3.1. Pedra Ferro
Local onde encontrada as ruínas de antigas construções, formas de blocos de tamanhos diversos em rochas trabalhadas, com identificação de ruínas de um grande reservatório de água e de outras obras como a igreja e a casa de passagem dos padres. As rochas, inexistentes no local, foram trazidas por índios pacificados de outra localidade, denominada Quebra-Potes.
Dentre as velhas tradições "conta-se existir na tal Pedra de Ferro uma furna, contendo riscaduras e hieróglifos que, se reais e decifrados, talvez dessem elucidação a muitos fatos" (São Manuel, História, 1996: 2). Verdades ou lendas regionais, antigos mêmores diziam tratar-se de um fojo que teria existido naquele território, cuja abertura se perdeu nalgum desmoronamento.
Não existem outras referências a Pedra Ferro senão os restos encontrados, além da toponímia evidente de sua própria formação geológica.

3.2. Quebra-Potes
Assim como Pedra Ferro, apenas ruínas atestavam a existência de Quebra-Potes; atualmente nem isto, e até sua localização exata se perdeu no tempo, com o desaparecimento dos habitantes mais velhos da região.
Sabe-se, no entanto, que um pouco adiante onde foi sua parte residencial, estava o lugar em que foram retiradas as pedras para construções em Pedra Ferro e edificações no próprio povoado. Nas conformações rochosas presume-se onde poderia estar ou não o dito povoado.
A história permite entender a presença de índios pacificados em Quebra Potes, quando a eles se refere, pelo menos no transporte dos blocos de rochas até Pedra Ferro, "transportados das imediações da Fazenda Quebra Pote, onde é encontrado idêntico minério, por silvícolas domesticados, desde que o areão dificultava a utilização de outro meio de transporte" (São Manuel, História, 1996: 2). 
A concluir, não é errada a ilação que Quebra Potes possuísse, próximo ao povoado, algum aldeamento indígena.

3.3. Serrito
Em Serrito, outra povoação em terras jesuíticas, ditas ou agregadas, foram achados "cacos de utensílios manufaturados com argila e vestígios de ter sido a terra cultivada, confirmadas as lavouras por restos de engenhos para fabricação de açúcar e aguardente que os jesuítas forneciam às monções em trânsito pelo rio Tietê, peças históricas consumidas pelo tempo" (São Manuel, História, 1996: 2).

3.4. Quilombo
Local tido como bairro rural, abrigara grupos étnicos africanos protegidos ou a serviço dos padres, ciente que os jesuítas mantinham escravos negros na Fazenda Botucatu.
Ainda não se pode explicar um arraial apenas para negros na Fazenda Jesuítica Botucatu, pois a exemplo de outros quilombos observados, ali "a população não se resumia a negros africanos. A presença de índios nos quilombos era significativa" (Guillen e Couceiro, 2000: 10), e se sabe que nas fazendas dos padres o negro desde logo se mesclou com o índio, cujos descendentes [cafuzos] incentivados a uniões com os mamelucos, [nascidos de brancos com índios], para a formação de 'nova raça com a força do negro, a liberdade do índio e a capacidade intelectiva [considerada então superior] do branco'. 
De Botucatu, dos tempos jesuíticos "Uma das lendas, passa-se no Bairro do Quilombo" (Apud: Informações Geográficas e Educacionais), onde os padres teriam enterrado seus tesouros antes de abandonarem a propriedade em 1759/1760, e o local posteriormente arrasado pelos buscadores de tesouros. 

3.5. Estreito
O lugar conhecido por Estreito foi mais um dos povoamentos em terras dos padres, com iguais propósitos agropecuários dos demais, depois totalmente pilhado e destruído porque em seu território presumia-se uma grande caverna, em câmeras, que servira de esconderijo para tesouros dos jesuítas.
—"Essa caverna, segundo consta, teria sido morada dos Padres Jesuítas [local de passagem]. Poderia o tesouro, estar por lá também..." (Apud: Informações Geográficas e Educacionais).—
A própria geografia do local estimulou, inclusive, elaborações de mapas onde estariam os tesouros, alguns vendidos como originais ainda em pleno final do século XX.

3.6. Três Pedras
Em Três Pedras existira um aldeamento indígena sob os cuidados dos padres. Certa lenda diz que, durante perseguição reinol, e certeza da expulsão do território nacional, alguns jesuítas encarregados de guardar os tesouros se refugiaram em Três Pedras. 
Aqueles padres teriam escondido grande carregamento de ouro, numa caverna, fechando a entrada. Traídos pelos aldeados botocudos acabaram mortos e, com eles, se foi o segredo onde ocultas as riquezas dos jesuítas expulsos, que pretendiam retomar o controle da grande propriedade e reaver os seus pertences.
Buscadores de tesouros arrasaram a localidade à procura de indícios que os levassem aos esconderijos, ou ao menos que algum mapa fosse localizados.
Consta que a entrada do esconderijo tenha sido encontrada por um rapaz da cidade de Conchas, de família humilde: "que há muitos anos aparecia todo o mês nas Três Pedras, passava lá a cavar uns dois dias, saía com algumas pedras na mão e depois andava a gastar como um milionário. Mas o rapaz um dia desapareceu, nunca mais voltou, dele nunca mais se teve notícia" (Informações Geográficas e Educacionais).

4. Povoações que existiram, mas longe dos tempos jesuíticos

Ainda em 2016 duas localidades já extintas são tradicionalmente citadas como bairros originários dos tempos jesuíticos, admitindo que os campos de criar da Fazenda Botucatu se estendiam até aquelas localidades. 
Admissíveis, no entanto, que serviram de passagens e locais de pousos aos religiosos, bandeirantes e tropeiros em demanda ao sertão; mas ainda não localizados mapas e cartas que possam atestar tais referências. 
Para ambas as localidades alguns autores, sem comprovações, ainda reivindicam a condição de 'ultima povoação, da ultima vila [Sorocaba], a partir da Serra Botucatu', citada numa carta documento do bandeirante Paes de Abreu. 

4.1. [São] Bom Jesus do Ribeirão Grande
Antiga povoação situada à beira de um caminho, na encosta da Serra Santo Inácio, rumo ao alto da serra.
Mais correto, São Bom Jesus originalmente foi lugar de pouso e referência para uma das rotas do contrabando de tropas trazidas do sul, a partir de 1837/1840, pela passagem 'Teyquê-pê' – 'Caminho de Entrada', em atual território de Piraju.
As tropas que chegavam ao Bom Jesus, pelo 'Teyquê-pê', e aquelas vindas de Itararé, subiam a Serra, chegando à sede da Fazenda Santo Inácio, depois ao Sobrado, para continuar caminho até o Porto dos Lençóis, transpor o Tietê e rumar aos lugares além do rio e ao Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais.
São Bom Jesus do Ribeirão Grande, segundo documentos e com essa denominação, não antecederia o ano de 1868, quando doados ao patrimônio do orago vinte e cinco alqueires de terras para a instalação de um povoado (Cartório do 1º Ofício da Comarca de Botucatu), com assentos eclesiais, por algum tempo lavrados no lugar, somente a partir dos anos de 1890; portanto nenhuma prova documental, conhecida pelos autores, que o lugar tivesse origem desde os tempos jesuíticos ou carmelitas, mas certamente foi lugar de pouso e caminhos a seguir utilizado pelos tropeiros no século XIX, como rota alternativa para o contrabando de alimárias.
Todavia, para o lugar, se apresenta insistente versão que, ainda antes de 1720, os campos entre a Serra e os rios Santo Inácio e o Paranapanema, foram conhecidos pelos sorocabanos como excelente lugar de invernadas: "Sua ocupação foi pioneira no povoamento do sertão paulista no final do século XVII, quando foram doadas as primeiras sesmarias." (São Bom Jesus do Ribeirão Grande, Nossa História).
Esta variante não se sustenta, pois, nenhuma sesmaria regional antecede o ano de 1713, melhor definidas a partir de 1721, quando o início das distribuições pelos Capitães Generais da Capitania de São Paulo. Antes, as doações aconteciam mais próximas às costas litorâneas, pelos capitães mores – loco-tenentes dos donatários, posto as limitações fixadas pelo Tordesilhas. 
Por conseguinte, não existe nenhuma comprovação que São Bom Jesus do Ribeirão Grande fosse a "ultima povoaçam (...) a partir do morro de Hibiticatu [Ibyticatu]" (Figueiroa, Revista A História de Botucatu, 2009: nº 4, da citação do bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu para abertura do caminho às Minas do Cuiabá), e, a isto se pode afirmar que a descrição do intentado picadão de 1722 é a partir do porto e estalagem em Paran-Itu - Quebra Canoas, no Paranapanema - Salto Grande, e aí, na opinião dos autores SatoPrado, em Figueiroa, para a última povoação indicada por Paes de Abreu. 
A localidade de São Bom Jesus do Ribeirão Grande, no costão da Serra de Santo Inácio em 1973 teve extinta sua última memória, a capela, para dar lugar às estruturas da linha de transmissão da antiga CESP, Companhia Energética de São Paulo. A capela, situada nas proximidades aonde o Posto Maristela [referência ano 2014], na Rodovia Castelo Branco - SP, seria construção do início do século XX, sendo original apenas sua escadaria, de 1868/1870.

4.2. São Domingos - Tupá
Dentre as velhas tradições, uma indicava o local como antigo retiro da Fazenda Jesuíta [1719/1759], com ranchos para os cuidados de gado invernado e bem servir os bandeirantes, entradistas, itinerantes e aos tropeiros.
A dar crédito aos relatos de antanho, lá se poderia considerar a ultima povoação da ultima vila [Sorocaba], a partir da Serra de Botucatu, à qual referiu o bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, em 1721, num documento à Câmara de São Paulo para reivindicar o seu caminho para as Minas de Cuiabá.
Diziam de tal lugar um bairro rural com característica urbana, construído pelos padres, com reservatório de águas colhidas de córrego adjacente, com desvio até ao povoado, por um canal feito em pedras, num rumorejo constante como leve trovejar, razão do topônimo indígena Tupá, por significar 'o que troveja ou trovejante', associado ao deus cristão pela reverência naturista tupi.
Para os nascidos em 1890, que ouviram as histórias dos mais antigos moradores do lugar, teriam sido os padres - que eles mesmos não conheceram, os construtores daquela obra que lembravam os sistemas de abastecimentos de águas para Pedra Ferro e Sobrado, conhecidos bairros rurais da outrora Fazenda Jesuítica em Botucatu.
Se os padres foram ou não construtores em São Domingos, não se sabe. O pecuarista Henrique Dyna, ex-cartorário de distrito, ao dizer da povoação dos anos de 1930, lembrava em funcionamento aquele canal condutor, todo em pedras, conhecido como 'Água das Pedras' (Revista D Mais: 10).
Apesar dos relatos e coincidências, as tradições seriam frágeis para remontar ao século XVIII as origens de São Domingos [do Tupá]. 
Historicamente não procede e nem a propriedade dos padres chegava a tanto, sequer descia a serra:
(http://celsoprado-razias.blogspot.com.br/2009/12/razas-sao-domingos-ultima-sentinela.html.)

5. Bairros que comprovadamente existiram dentro da Fazenda Jesuítica

Dentro da Fazenda Jesuítica existiram, pelo menos dois arraiais, com certeza documental, e muito certamente um terceiro deles.

5.1. São Miguel - [Capela Velha] - em Guareí
A Fazenda [Jesuítica] São Miguel, em Guareí, cuja sede tornou-se conhecida como Capela Velha, situava-se, em 1940, aproximadamente nove quilômetros da sede do município. No lugar o casarão dos padres, as casas dos colonos, o aldeamento indígena e a Igreja. 
O lugar existiu e ainda presente seu território dentro ou extensão da atual Guareí. Assento eclesial atesta-a ativa em 1751:
—"Ignacio: Aos vinte e sete de Janeiro de mil sete centos e sincoenta e um annos, baptizey e pus os santos oleosa Ignacio inocente filho de Valerio e sua molher Catharina todos indios dos padres da Companhia de Jesus assistentes em sua fazenda de Guarey, foram padrinhos Antonio de Almeida cazado e Ignez Lima soltera de que fiz este termo, dia, mes, era ut supra. Francisco de Campos." (Sorocaba, Nª Sra. da Ponte, Livro 1750/1751: 11 - https://familysearch.org).—
Uma lenda predominava, que os padre inacianos, quando cientes da expulsão do Brasil, resolvera guardar seus tesouros no cemitério, dois quilômetros distante de Capela Velha, para evitar expropriações. 
Antes da expulsão e confisco dos bens os padres foram até o cemitério, com um escravo negro transportando o baú com as riquezas, e a ele ordenado abrir uma sepultura e, em seguida, suicidar-se com um punhal de ouro e cabo cravejado de pedras preciosas. O pobre serviçal, convencido e em êxtase com tão linda joia, matou-se, e lá mesmo foi sepultado com o baú, e os padres em seguida fugiram. 
Por volta de 1910 o lavrador João Siqueira, apelidado Zico, ao capinar um terrenos entre Guareí e Itapetininga, topou com velho buraco de tatu ao pé de uma árvore; curioso viu que buraco havia uma pequena - tipo baú, e dentro um mapa em pergaminho com inscrições latinas. A leitura do expediente despertou atenções do tradutor e cópias do original foram extraídas, com inscrições no idioma português.
Então ocorreu uma invasão de pessoas à procura dos tesouros nos próprios do antigo cemitério - que nem existia mais, e terrenos vizinhos, tudo revolvido na ânsia de encontrar os tesouros. Para lá acorreram pessoas simples, sábios, ocultistas e até pesquisadores de solos com sofisticados aparelhos. 
Não se tem conhecimento que alguém tenha localizado o tesouro; se encontrado, guardou para si. 
—(Fonte: M'Boy - Cássio, 'Tesouro de Guareí', Gazeta de São Paulo, edição de 20/04/1963 - http://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=tematico&pagfis=51184).—

5.2. Sobrado - em atual São Manuel
Os padres ao deixarem a zona de mineração, nas confluências dos rios Tietê com o Piracicaba, se transferiram para novo endereço ao qual dado o nome de Sobrado, em causa do prédio central levantado, assobradado, que servia de moradia aos religiosos e hospedaria aos bandeirantes, entradistas e caminheiros que por lá faziam estadias e ajustes, às vezes por períodos prolongados, deixando para trás descendentes "mamelucos e cafuzos que, cruzando-se geraram a miscigenação comprovada pelo encontro de diferentes tipos de raças nativas" (São Manuel, História, 1996: 2 -http://www.universoespirita.org.br/n.a.joanna/hist1.htm).
O Sobrado, não tendo fontes naturais e pela impraticabilidade de se abrir poços mais próximos à superfície, obrigou os jesuítas trazerem águas através de um complexo sistema de captação e canalizações desde as minas da serra, numa demonstração de conhecimentos em obras hidráulicas, cujas ruínas, pelos relatos de autores regionais, até bem pouco podiam ser vistas. Tal obra hidrodinâmica aplicada e vista noutras antigas localidades da região, tem servido ao menos para identificar possíveis influências dos padres nas suas origens, pelos exemplos similares de tecnologia aparentemente exclusiva dos padres jesuítas no Brasil.
Localizado em ponto de passagem quase obrigatória àqueles que ousavam os caminhos dos sertões em busca de riquezas, preações indígenas, ou andanças tropeiras, Sobrado fez-se próspero entreposto agropecuário e estabelecimento de compra, troca e venda de ouro e pedras preciosas. 
Também bastante forte o trânsito comercial de muares. As tropas vindas da Argentina eram conduzidas para as regiões mineradoras, Minas Gerais, Goiás e depois Mato Grosso, que por ali faziam rota do contrabando sob anuência e lucros dos padres.
Com a expulsão dos jesuítas dos domínios de Portugal, em 1759, os padres deixaram para trás suas riquezas e todo o rebanho em terras próximo a Sobrado, animais logo dispersos para reproduzirem-se em estado semisselvagem, dentro da imensidão dos campos e até além-divisas.
Nas primeiras décadas do século XIX, Sobrado ainda servia de pouso e de estadia aos passantes, e numa das expedições lá chegou o cozinheiro italiano Giacomo Capanema, que se enamorou da filha de um chefe indígena do local, e com ela se casou pelas leis cristãs, em 1822, através do padre acompanhante de uma das bandeiras por lá hospedadas. Conta-se que Giacomo Capanema, após anos residindo em Sobrado, deixou o lugar com a família para se fazer próspero dono de albergaria em Santos, ao lado de sua mulher (São Manuel, op.cit. pg. 3).
Ruínas de Sobrado foram perceptíveis por décadas, com alguns vestígios ainda vistos nos anos 1990, além do nome Sobrado até os dias atuais [2016] para a fazenda local.
Moradores de Sobrado eram contados para a 'Fazenda de Vytycatu dos Padres da Companhia' ou 'que foram da Fazenda dos Padres...' (Botucatu - histórico oficioso, vide http://celsoprado-razias.blogspot.com.br/2009/12/botucatu-historico-oficioso.html).

5.3. Santo Ignácio - em Botucatu
O Capitão Antonio Antunes Maciel e sua mulher Josepha Paes, residentes em Itu de Nossa Senhora da Candelária, alcançaram do Governador Antonio Albuquerque uma sesmaria de légua e meia de testada por três de fundos, na Serra Botucatu, por eles doada ao Colégio Jesuíta de São Paulo para formar capela [povoação] e retirar das terras o usufruto para a Ordem (Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo, Volume 44: 372, Arquivo do Estado de São Paulo - escritura registrada em Sorocaba, aos 10 de dezembro de 1719, pelo Tabelião de Notas José Francisco de Aguiar).
À fazenda deu-se o nome Santo Inácio, cuja sede situada próxima ao Ribeirão de Santo Inácio, um bairros rural com características urbanas, com sede administrativa, capela, cemitério, largo com residências ao derredor para os administrados, estalagem e empório comercial. Comumente dá-se ao lugar o nome Capela Santo Inácio.
A dita povoação foi ponto de pouso para bandeirantes, entradistas e tropeiros num entroncamento de caminhos, a encontrar-se com aquela vereda que, ao ladear a serra, passava por Sobrado rumo às margens do Tietê - Porto de Lençóis, além do trecho prosseguinte ao rio Paranapanema, abaixo da Paranan-Itu, como partes dos mesmos trajetos postulados por Bartholomeu Paes de Abreu, para se chegar às barrancas do Paraná, em pontos distintos, conhecidos, o primeiro por 'Caminho pr Goyases', com o Tietê por referência, e outro denominado 'Caminho para as Minas de Cuiabá' estando por apontador o Paranapanema.
A localidade, também conhecida pelo topônimo Ribeirão da Cachoeira, subsistiu à expulsão dos jesuítas do Brasil e o confisco de seus bens, sendo seus moradores posseiros na região. 
Os residentes em Santo Inácio eram contados conjuntamente com outros moradores da Fazenda 
(http://celsoprado-razias.blogspot.com.br/2009/12/botucatu-historico-oficioso.html).