domingo, 20 de dezembro de 2009

- Famílias Sato/Sato e Yokoyama*

A coautora Junko Sato, (佐藤 - 順子 / Sato Junko) descende dos imigrantes japoneses:
 
Junko Sato Prado e o marido Celso Prado - álbum de família
- foto de Manuela Mayumi Sato Prado e Oliveira - 

Kohichi Sato e Fujiko Sato.

Os pais de Junko - Kohichi Sato e Fujiko Sato  - álbum de família
 

 1. Kohichi Sato:


Nome também grafado Koshiti, natural de Akita, Província de Akita Ken, região Tōhoku ao nordeste, na ilha de Honshu, costa oeste voltada para o Mar do Japão, de clima frio e muita neve, cultura de forte influência dos povos Emishi, que usa o dialeto Akita-ben. Na foto, álbum de família, idade de 13 anos.

Era filho de:

 1.1. Sanosuke Sato 




Sanosuke Sato - Álbum da Família de Saburo Sato
 
 1.2. Sato Sato
Sra. Sato Sato - Álbum da Família de Saburo Sato

1.3. O casal Sanosuke e Sra. Sato – foto IA

Foto de Sanosuke e sra Sato, num só quadro por Celso Prado e Junko Sato Prado, via I.A

 2. Fujiko

Também grafado Fuziko, nascida de Massuichi Sato e dona Tsune Sato, sendo a senhora Tsune da tradicional família Yokoyama, de Fukushima. Imagem obtida por IA a partir de foto rejuvenescida de original, por Celso Prado e Junko Sato Prado.

2.1. Massuichi Sato

Grafado também Massauchi. Foto, álbum de Família

2.2. Tsune

 

Foto de Tsune Yokoyama Sato extraída da álbum de família e trabalhada em IA.

2.3. O casal Massuichi e Tsune

 

Foto de Massuichi Sato e Tsune Sato - harmonização IA 

Pelas memórias familiares, alguns dos ascendentes de Tsune Yokoyama foram samurais e, com a extinção da classe, dedicaram-se à tecelagem, com bastante sucesso.

— Problemas familiares obrigaram Tsune acompanhar o marido em ‘exílio’ de dez anos, no entanto ela faleceu no mesmo ano que se completava a pena imputada.

3. Dois 'Japões' no Brasil e um encontro: A história de Fuziko Sato e Kohichi Sato

Breve narrativa histórica baseada em realidades sociais do Japão pré‑guerra.

3.1 Hiroshima: O Japão da tradição e da honra

Fuziko - grafia conhecida na família - Sato nasceu em Hiroshima, numa época em que o Japão ainda carregava as marcas da transição entre o mundo dos samurais e a modernidade industrial. Sua família, embora já não empunhasse espadas, preservava o orgulho de uma linhagem que dizia descender de guerreiros. Era uma casa que falava japonês oficial (hyōjungo), onde os gestos eram contidos e cada palavra parecia carregar séculos de disciplina.

Quando o sistema samurai foi abolido, muitos perderam posição e sustento. A família de Fujiko encontrou na tecelagem uma nova forma de existir. Teciam não apenas tecidos, mas também dignidade. Os fios que passavam pelos teares eram como memórias de um passado que não podia ser apagado, e Fujiko, segundo ela, cresceu entre essas histórias, aprendendo que tradição não é apenas aquilo que se herda, mas aquilo que se sustenta.

Mas tradição também pode ferir. Uma desavença familiar lembrada por ela sem entender o significado ou a razão, obrigou seus pais a deixar Hiroshima. Não partiram por pobreza, mas por ruptura. E assim, com malas arrumadas às pressas e o peso de uma história interrompida, embarcaram rumo ao Brasil, acreditando que ali poderiam recomeçar longe dos olhos que julgavam.

3.2 Akita: O Japão da neve e da necessidade

Dentro da geografia japonesa, Akita está localizada na região de Tōhoku, que ocupa a porção nordeste da ilha principal (Honshu).
 
Embora não seja o ponto mais extremo do país, é considerada “norte” no imaginário social japonês, devido:

- Clima rigoroso, com invernos longos e pesados.

- Nevascas intensas que moldam o cotidiano e o caráter das comunidades.

- Economia historicamente agrícola e menos industrializada.

- Vilarejos isolados, forte senso comunitário e vida simples.
 
Naqueles ermos do 'norte', onde os invernos longos moldam o caráter das pessoas, nasceu Kohichi Sato. Akita era uma província de agricultores pobres, pescadores e trabalhadores que viviam em vilarejos isolados. Ali, o sobrenome Sato era comum como o vento frio que atravessava as casas, sem carregar prestígio e sim sobrevivência.

Kohichi cresceu ouvindo o dialeto de Akita, tão diferente do japonês oficial que parecia outra língua. Era o idioma dos campos, dos Emishi, das famílias que viviam longe da corte e de suas regras. Para quem vinha do 'sul' ou qualquer outra região, aquele dialeto era quase indecifrável, e, para Fujiko, mais tarde, seria como ouvir um idioma estrangeiro.

A família de Kohichi não tinha terras, nem títulos, nem histórias de glória. Tinha apenas trabalho duro e esperança. Quando o governo japonês incentivou a migração para o Brasil, ele veio acompanhado da irmã e do cunhado, como tantos outros que deixaram o Japão não por escolha, mas por necessidade.

3.3  Dois caminhos que, provavelmente, nunca se tocariam no Japão

Se Fujiko e Kohichi tivessem permanecido no Japão, suas vidas, provavelmente, jamais se cruzariam. 
Ela, filha de tradição, educada, moldada por uma linhagem que conhecia a etiqueta da corte.
Ele, filho da neve, acostumado ao silêncio dos campos e ao dialeto que ela não compreendia.
E, no entanto, ambos carregavam o mesmo sobrenome: Sato. Um nome que, no Japão, significava coisas completamente diferentes, dependendo da terra onde florescia.

3.4 — O encontro no Brasil

Foi no Brasil, terra de sol e mistura, que os dois Japões finalmente se encontraram.

3.4.1. Fujiko Sato

Quando Fujiko chegou ao Brasil, não era a jovem serena que um dia caminhara pelos corredores silenciosos da casa tradicional em Hiroshima. A travessia do oceano, a ruptura familiar e a mudança brusca para uma vida agrícola haviam deixado marcas profundas. Não se apagaram com o tempo, mas tornaram-se parte dela, como cicatrizes que não se veem, mas moldam quem a pessoa se torna.

No Japão, crescera cercada por disciplina, ordem e expectativas. A tradição era o eixo da casa, e ela aprendera desde cedo que postura, linguagem e comportamento eram espelhos da honra familiar. Mas a desavença que expulsou sua família de Hiroshima foi como um terremoto íntimo: abalou sua identidade, arrancou-a das raízes e a lançou num destino que ela não escolhera.

No Brasil, a vida agrícola era dura. O sol castigava, o trabalho era pesado, e as necessidades eram muitas. Para uma mulher que crescera em ambiente tradicional, com certa estrutura e orgulho de linhagem, aquilo era uma queda dolorosa. E essa dor, com o tempo, transformou-se em temperamento.

Com o tempo, Fujiko tornou‑se uma mulher de pulso firme, de temperamento difícil e exigente com os filhos. A dureza que antes não existia nela parecia ter sido moldada pelas rupturas da vida, não como crueldade, mas como uma forma áspera de sobreviver ao que lhe havia acontecido. Não por maldade, mas por uma mistura de revolta, frustração e medo de perder o pouco que restava da identidade que carregava. Em alguns momentos, porém, a dureza se quebrava e surgiam instantes de paz, como se a jovem de Hiroshima ainda respirasse dentro dela, tentando emergir.

Havia também sombras que a acompanhavam. Um ou mais de seus parentes envolveram-se com a Shindo Renmei, movimento radical que dividiu a comunidade japonesa no Brasil durante a Segunda Guerra. Esse episódio, carregado de tensão, medo e vergonha, aprofundou ainda mais o conflito interno de Fujiko. Ela gostava do Brasil, da liberdade, da terra e das possibilidades, mas não parecia feliz. Era como se vivesse entre dois mundos, sem pertencer completamente a nenhum deles.

O Brasil lhe oferecera vida, mas não lhe devolvera o que perdera. E o Japão, que vivia apenas na memória, era ao mesmo tempo saudade e ferida.

3.4.2. Kohichi Sato

Sem dúvidas, um homem moldado pela sua região natal. Quem nasce em Akita, dizem as tradições, aprende cedo que o frio ensina duas coisas: resistência e silêncio. Ele trazia esse silêncio consigo, não como ausência de palavras, mas como forma de estar no mundo. Falava pouco, observava muito, e carregava no olhar a simplicidade de quem aprendeu a viver com pouco e a não exigir muito da vida.

O dialeto de Akita era sua língua de infância, mas no Brasil ele quase não o usava. Fuziko não o compreendia, e ele, por respeito ou talvez por exigência, falava com ela apenas em japonês oficial. Era a ponte linguística entre dois Japões que não se entendiam. E, mesmo assim, havia momentos em que o sotaque lhe escapava e Fuziko, irritada, pedia que ele falasse 'direito'. Ele sorria de canto, sem discutir. Era assim: calado, submisso, mas firme naquilo que considerava essencial.

No Brasil, Kohichi teve suas aventuras. A vida de caminhoneiro o levou por estradas longas, noites em postos de gasolina, histórias que ele nunca contava por inteiro. Houve problemas com Fujiko, ciúmes, desconfianças, brigas que ecoavam pela casa. Mas, como sempre, ele se refazia. Voltava ao trabalho, voltava ao silêncio, voltava ao papel que acreditava ser seu: sustentar a família.

E sustentou. Trabalhou numa borracharia própria, sujando e machucando as mãos, enfrentando calor, poeira e cansaço. Pagou dívidas de cunhado, porque, para ele, família era responsabilidade, mesmo quando não era sua. Nunca reclamou. Nunca cobrou. Apenas fazia.

Com os brasileiros, aprendeu a se relacionar cedo. Não era expansivo, mas não era fechado. Aceitava brincadeiras, mesmo aquelas que muitos japoneses consideravam ofensivas. Não se ofendia. Não discutia. Não devolvia. Era como se tivesse aprendido, desde Akita, que o mundo é grande demais para brigas pequenas.

Os brasileiros gostavam dele. Havia algo na sua quietude que transmitia confiança. Ele não falava muito, mas quando falava, era direto, no seu português atrapalhado e melhorado com o tempo. E, no fundo, carregava uma sabedoria simples: a de quem sabe que a vida é dura, mas que não precisa ser amarga.

Ao lado de Fujiko, ele era o contraponto. Ela, tempestade. Ele, neve. Ela, tradição rígida. Ele, adaptação silenciosa. Ela, revolta. Ele, aceitação. E, mesmo assim, havia entre eles uma espécie de pacto: quando o assunto eram os filhos, ele a acompanhava. Não porque concordasse sempre, mas porque acreditava que família precisava de unidade, mesmo quando essa unidade era difícil.

Kohichi era, acima de tudo, um homem que carregava o peso da vida sem fazer barulho. E talvez por isso sua presença fosse tão marcante: ele era o tipo de pessoa que não precisava ser lembrada em voz alta, porque permanecia na memória como permanecem as paisagens de inverno: silenciosas, firmes, e impossíveis de esquecer.

No início, quando Fujiko e Kohichi se conheceram, eram como duas culturas tentando se reconhecer. Ela não compreendia algumas de suas palavras. Ele não compreendia sua origem. Mas havia algo que ambos reconheciam: o Japão que deixaram para trás, o Japão que só existia na memória, no modo de cozinhar arroz, no cuidado com os objetos, no silêncio respeitoso antes das refeições.

E foi nesse território comum, o da saudade, que suas vidas começaram a se aproximar.

3.5 — A família que só o Brasil poderia criar

A união de Fujiko e Kohichi não foi apenas o encontro de duas pessoas. Foi o encontro de dois 'Japões' que jamais se tocariam em sua terra natal:

- o Japão da tradição e da honra,

- o Japão da neve e da necessidade,

- o Japão dos dialetos que não se entendem,

- o Japão das famílias que partiram por motivos tão diferentes.

No Brasil, esses 'Japões' se tornaram um só.

E dessa união nasceu uma família que carrega, em cada gesto, a força de duas histórias que atravessaram o mundo para se encontrar.

4. Origens da família Sato

A família Sato surge historicamente no Japão de 1159, quando nos campos de batalha destaca-se Sato Tsugunobu que salva Yoshitsune, o irmão mais novo de Yoritomo, líder guerreiro dos Minamoto, vinculado à família Fujiwara (Bujinkan: Períodos Históricos do Japão).

O ato de bravura coloca a família em destaque quando Yoritomo passa a ser o ditador e criador do 'Shogunato', período que viu surgir a Classe Samurai contando com alguns membros da família Sato.

Estrategicamente o clã 'Fujiwara' conquistou domínios no Japão norte, centro e sul, dividindo-se a família em quatro clãs poderosos, chefiados por quatro irmãos, três deles governando a maioria do Japão do Norte e o outro mais ao centro e sul, todos se revezando nas principais funções do Império japonês, casando suas filhas com herdeiros da família imperial, para assim se tornarem consagrados senhores da corte, na política de regências, pois quando morto o Imperador o príncipe herdeiro assumia e, se menor, tinha um Fujiwara por sessho [regente] até sua maioridade. Mais adiante adotaram o kampaku [regente do Imperador adulto], mas a história japonesa não nos interessa aqui, tão somente que desde o século VIII se tem a ascensão da família Fujiwara, a partir do norte do Japão atual, desde logo vinculada à família imperial, estabelecendo o sistema dominial bastante próximo ao feudalismo e vassalagem do mundo europeu.

O expansionismo Fujiwara chegou à Ilha de Honshu, protegido por Samurais, e trocaram o estilo guerreiro e se tornaram os embaixadores do Japão. Era o período da efervescência cultural, e o estudo familiar fez-se obrigatório a todos que cercavam diretamente aquele clã, que já se destacava dos irmãos do 'Norte'. Foi nessa época que 'Sato' tornou-se 'Sa - ajudar ou dedicar [dedicado] e To - sinônimo de uma leguminosa das glicínias', cujo kandi está ligado ao clã 'Fujiwara' - Fuji = (também) glicínia e Wara = campo (Revista made in Japan, 100 sobrenomes japoneses, 2007: nº 116 de maio/2007). 

Se Fujiwara era o dono dos campos das glicínias, Sato faz lembrar alguém dedicado ao plantio do gênero daquelas [glicínias], ou seja, agricultor ou horticultor, desde os primeiros tempos quando o Japão ainda se formava.

Com o fim da classe Samurai, alguns membros da ascendência Sato estavam contados entre as principais famílias da província de Hiroshima, mas algum acontecimento no primeiro quartel do século XX fez com que alguns descendentes Sato deixassem Hiroshima, rumo ao Brasil, entre 1929 / 1930, no auge das imigrações japonesas de 1928 a 1935. Deveriam permanecer dez anos ausentes do Japão.

Para os críticos a imigração japonesa do dito 'sul', fazia parte do plano japonês em 'subjugar o mundo' por meio de agentes infiltrados em diversos países, todavia incerto se isto partiu mesmo de radicais japoneses ou em razões de divergências entre grupos de culturas diferentes dentro do arquipélago, rivalidades advindas desde os tempos de guerras tribais e de conquistas. Uma coisa ou outra isto refletiu negativamente sobre os imigrantes durante o curso da segunda guerra mundial.

3. Dos tantos Sato o histórico de dois ramos no Brasil
Fujiko Sato chegou ao Brasil com os seus pais em 1929, idade de onze anos, no navio Hawaii Maru, indo para a região de Ribeirão Preto, Sarandi - SP, somente mais tarde a conhecer Kohichi, que chegou ao Brasil em 1927, no navio Hawaii Maru, com quatorze anos de idade, acompanhando sua irmã e o cunhado, conforme documentos de um e outro no Serviço de Imigração do Estado de São Paulo.
Os Sato de Kohichi vieram para o Brasil atraídos pelo sonho de uma vida melhor, como tantos outros imigrantes — Sato ou não — que cruzaram o oceano com a esperança de amealhar fortuna e regressar ao Japão. Já os Sato de Fujiko chegaram por motivos bem diferentes: questões políticas ou familiares os empurraram para uma migração temporária, um deslocamento pensado para durar apenas um período determinado, não para recomeçar a vida em definitivo. 
Tanto um quanto o outro jamais regressaram ao Japão.
Casados, Kohichi e Fujziko residiram em Valparaíso, Araçatuba, Marília, Assis e, finalmente, Santa Cruz do Rio Pardo.

*Colaborou: Adele Cristiane Nagasaki Prado.

Observação: esta versão ampliada, publicada em 25/08/2026, baseia‑se na matéria original de 20/12/2009 e inclui novos esclarecimentos.