domingo, 20 de dezembro de 2009

28. Ocupação sertaneja sob inspiração dos liberais e maçons

1. Liberais refugiados no sertão
Revolução Liberal de 1842 - Combate em Santa 
Luiza - MG
Nantes apresenta audacioso juízo sobre os pioneiros no sertão adiante de Botucatu: "Todos eles eram gentes de confiança dos Liberais e da Igreja. (...), quase todos eram fugidos devido as condenações impostas pelo Império aos que participaram direta ou indiretamente da Revolta Liberal de 1842." (2007: 70-72).
Para aquele autor, José Theodoro de Souza seria títere a serviço dos interesses dos liberais, inconfidentes, antiescravagistas e republicanos.
"Foi escolhido para tal fim José Theodoro de Souza, o qual era homem de confiança dos Liberais e da Igreja, além de ser uma pessoa totalmente desconhecida na província de São Paulo, pessoa desconhecida dos Conservadores da Região de Botucatu, e do controle do governo Imperial" (Nantes, 2007: 71).—
Relatores, de livre criação histórica, pretendem que o entorno botucatuense e o sertão adiante foram ocupados por quantidades de mineiros, fluminenses e paulistas liberais, derrotados e perseguidos pelos conservadores vitoriosos na Revolução de 1842, transformando-se de revolucionários em abridores de roças, currais e fundações de povoados.
O documentos apontam que o fracasso liberal de 1842, de fato, levou muitos desertores e foragidos políticos para diversas regiões do Rio de Janeiro e São Paulo, daí a pretensão histórica que o centro sudoeste e oeste paulista também ocupado por derrotados liberais.
Não se pode desconhecer que as punições, de primeira hora aos perdedores, possam ter sido aterrorizantes ou mesmo provocado diáspora rumo a lugares ignotos e de difícil acesso, porém a história reconhece o Vale do Paraíba - fluminense e paulista, e a ocupação de terras entre Itapetininga e Botucatu.
Aos derrotados liberais mineiros apelidaram de 'Luzias', pelos oponentes, no combate de Santa Luzia – MG, quando os liberais derrotados pelas tropas do então Barão de Caxias, o mesmo Luiz Alves de Lima e Silva depois conhecido como o Duque de Caxias.
O historiador Julio Manoel Domingues informa que antigos documentos mostram, em atual Porangaba, "o bairro dos Luzias, também formado por famílias fluminenses. (...). Ao procurar entender o que ocorrera, notamos por acaso que um fato ligado à Revolução Liberal de 1842, pela intransigência do grupo conservador, vencedor, poderia estar relacionado com o nascimento do segundo agrupamento aqui no Rio Feio" (2008: 243, Capítulo 3).
Domingos procura esclarecer que havia um outro bairro formado por fluminenses, chamado Carioca, certamente para distinguir-se dos Luzias que "deveriam pertencer ao grupo dos liberais ou ser descendentes de luzias fluminenses ou mineiros assim alcunhados", o que bem pode indicar "a discriminação e conseqüente segregação pelo antagonismo político".
Os possíveis 'Luzias' entre Itapetininga e Botucatu, são lembrados por historiadores regionais como fluminenses, porque vindos do interior da Província do Rio de Janeiro, para não lembrar o estigma da frustrada aventura mineira, pois certamente teriam de ilustrar, também, a derrota paulista.O historiador botucatuense Donato reconhece fluminenses ocupantes de terras a partir de Itapetinga, embora seu maior destaque refere-se as "levas que desceram de Minas Gerais, também à procura de terras, preferentemente terras para gado. Os paulistas eram agricultores, em sua maioria; os mineiros criadores. Estes, quase todos conservadores, aqueles, em bom número, liberais" (1985: 52).
Na região de Botucatu eram os principais fazendeiros o Capitão Gomes Pinheiro, do Partido Liberal, e o Euzebio da Costa Luz, Conservador; ambos foram partícipes rivais no levante liberal em Sorocaba. Após a anistia imperial, os novos fazendeiros que chegavam a Botucatu, uns apoiavam Costa, outros o Capitão Pinheiro.
A briga entre Costa e Pinheiro, em Botucatu, além da rivalidade política, envolvia questões de divisas de terras, porém, ambos defendiam arduamente a emancipação de Botucatu em relação à Itapetinga, numa época que liberais e conservadores disputavam palmo a palmo os principais espaços políticos.
Apesar dos relatos, não se tem registro que, em causa de perseguição política conservadora pela Revolução de 1842, algum mineiro cognominado 'Luzia' ou liberal paulista revolucionário tenha se refugiado no sertão centro sudoeste e oeste de São Paulo, em época posterior a 1851.
Mas o sertão foi palco de violentas disputas políticas entre conservadores e liberais nas eleições gerais, provinciais e, sobretudo, municipais, sendo comuns atentados, espancamentos e assassinatos a mando dos coronéis situacionistas e de oposições, onde a vergonha era perder a eleição.
Nenhuma das eleições, de conhecimento dos autores, lembrava ranços advindos da Revolução de 1842, à exceção de Avaré.
As gentes da matriarca monarquista conservadora Bárbara Fé do Nascimento chamavam 'Farrapos' os agregados do liberal Coronel Eduardo Lopes de Oliveira, perdedor e foragido na Revolta dos Liberais de 1842. Aqueles que seguiam o Coronel, diziam que os monarquistas de Avaré eram os 'Cascudos [Casca Grossa]', ou seja, renitentes ao avanço republicano nas Américas e submissos ao 'Cabeça Coroada' - ou seja a D. Pedro II, conforme José Leandro Franzolin num trabalho digital para a Câmara Municipal de Avaré (Franzolin, Parte 01, '...Trinta anos ininterruptos de poder', sem data de edição).

1.1. O que foi a Revolta dos Liberais de 1842
O fenômeno de ocupação sertaneja regional, primeiro se observa entre Itapetininga e Botucatu, iniciada quando das mudanças institucionais no Brasil de 1834, pelo Ato Adicional à Constituição de 1824, com as reformas voltadas para algum possível entendimento ou corrigindo desavenças entre as províncias e o governo central, situação agravada desde 1831, com a abdicação de Pedro I em favor do seu filho Pedro, de apenas 5/6 anos de idade. O Brasil era, então, uma monarquia sem monarca, governado pelos regentes para se evitar o anarquismo.
A classe política estava representada pelo bipartidarismo, Conservador e Liberal, sendo o primeiro formado pelos grupos escravocratas, economicamente poderosos, ligados à lavoura e a pecuária, portanto plantadores de cana-de-açúcar, cafeicultores e criadores de gado, que defendiam a centralização político-administrativa e que as decisões de governo se mantivessem em mãos do governo imperial.
O Partido Liberal, igualmente formado por escravagistas donos de fazendas, recebia o apoio da maioria dos profissionais liberais e os comerciantes, por isso denominado partido dos bacharéis ou da burguesia urbana, que entendiam a descentralização do poder como melhor forma de organizar a nação.
O forte da economia brasileira já era a cafeicultura, atividade de exportação, predominante no Vale do Paraíba paulista, que fez rica e poderosa a Província de São Paulo, representada pelos 'barões do café', os aristocratas ruralistas, elementos capazes de impor nacionalmente a sua política. Naquela época São Paulo principiava igualar-se econômica e politicamente com Minas Gerais – zona de mineração, e logo viria suplantá-la, e ao Rio Janeiro, o centro governante brasileiro, onde tomadas as grandes decisões do destino nacional.
Os Conservadores, advindos dos antigos Regressistas, implicavam que descentralização era forma de dispersar a unidade nacional, sendo o liberalismo apontado como experiência republicana que poderia tornar o Brasil igual e à maneira das recém criadas e complicadas republicas sul-americana. Os liberais não rejeitavam a Monarquia, mas não a desejavam absolutista.
A tendência liberalista sagrou-se vencedora com a promulgação do Ato Adicional de 1834, assegurando inédita monarquia descentralizada, integrando províncias ainda fora do contexto da unidade nacional, que antes não aceitavam o prolongamento da administração nem a estrutura colonial imposta pelo Império, desde o advento da Independência em 1822.
Num primeiro momento o Ato Adicional de 1834 pareceu danoso às Câmaras Municipais, então uma espécie de poder republicano - república popular, unida à monarquia, antes no Império português, depois no Império do Brasil.
Ora, as Câmaras Municipais eram, à época, órgãos administrativos, judiciários, legislativos e executivos, homens bons eleitos pelo povo, sendo juízes, vereadores, procuradores entre outras funções públicas, estando as grandes cidades assessoradas por submunicipalidades.
Para muitos a criação da Faculdade de Direito de São Paulo, em 1828, lançara sementes republicanas e influenciava dirigentes liberais no governo paulista e na política dos principais centros interiorizados. Com o Ato Adicional de 1834, em São Paulo, a Assembleia e as Câmaras Municipais se uniram e até conluiaram contra o poder central. Assegura Miriam Dolhnikoff que 
"(...) as relações entre as Câmaras municipais e a Assembleia Provincial muitas vezes eram de aliança contra o Governo Central como, por exemplo, em 1842 quando chegaram à Assembleia Provincial paulista as representações de câmaras municipais e juízes de paz logo após a reforma do Código do Processo Criminal" (Dolhnikoff, 1993: 65).
São Paulo, em especial, ganhou com a descentralização, saindo da condição de província pobre, para adquirir importância política, com orçamento próprio provincial alavancado com a produção e exportação agrícola, principalmente a do café. Ainda hoje se discute o alcance desta autonomia paulista em relação ao poder central, porque na verdade a cafeicultura sempre esteve nas mãos dos conservadores, porém os liberais dominavam o comércio.
Justifica-se: a reforma consequente ao Ato Adicional de 1834 nunca foi bem definida quanto, por exemplo, às taxas de importações de produtos, nem era eficiente na conferência de exportação, com brechas legais ou, ao menos, discutíveis, para atuação do governo descentralizado a favor da província, ainda que o Presidente nomeado pelo poder central.
O Ato Adicional foi desta forma importante estrema para o avanço dos liberais, durante os primeiros anos do segundo império, comprovando tais virtudes com a envergadura do movimento que, numa hábil manobra política, retirou dos Conservadores a centralização do poder – a Regência Trina, para colocá-la nas mãos de somente um governante, liberal, além de determinar a autonomia às províncias.
A estas preocupações somam-se as práticas liberais paulista com notáveis avanços econômicos demonstrados, fenômenos que certamente contagiariam outras províncias, colocando em alerta os conservadores.
A audácia liberal teve a pronta reação da aristocracia rural e o estabelecimento de sua dominação sobre todo o Brasil, pelos grandes proprietários de terras e de escravos, portanto donos poder econômico, que se colocaram atuantes ao lado da política conservadora e antirrevolucionária, como necessidade premente de limitar o alcance liberal, pelo Ato Adicional, através de uma lei interpretativa.
Os conservadores então promoveram grave crise no Brasil, retirando seus produtos do mercado interno, alguns deixando de plantar e destinando outros apenas à exportação, obrigando o consumidor importar alimentos a elevados preços.
A revolta alastrou-se e o governo tinha a culpa: o Padre [regente] Diogo Antonio Feijó não mais controlava a situação e, às revoltas populares, respondia com violenta repressão pela Guarda Nacional, instituição armada e ideada em 1831 pela Câmara Municipal de São Paulo, "para fazer frente à crise decorrente da Abdicação de D. Pedro I, caracterizado por cerca de 13 anos de lutas fratricidas nas províncias" (Bento, Informativo Guararapes).
Era a reação ao liberalismo, já refletida nas eleições legislativas, quando os conservadores elegeram maior número de representantes, para impor-se aos liberais, desta forma acentuando uma rivalidade política, manobrando as massas com isso a agravar os levantes populares.
O Brasil estava em perigo de fragmentação territorial, bastasse apenas um dos indisciplinamentos para coroar-se de êxito, por isso a inevitável queda de Feijó em 1837, e ascensão dos conservadores ao poder.
O Regente Conservador, Araújo Lima, substituto de Feijó, preparou a lei de interpretação ao Ato Adicional para intervir nas Províncias, especialmente São Paulo, com entendimento que os cargos das províncias não mais seriam ocupados por eleição e sim pela indicação do Governo Central e, "assim os aristocratas rurais, principais responsáveis das rebeliões, tinham altos cargos dentro da província, podendo [desta forma] criar direitos em beneficio de seus lucros. Enquanto isso a população pobre era deixada de lado e a nobreza tomava conta de um país imenso" (CD: A/A, Vestibular 1: Brasil, período regencial II).
Agora, novamente, os liberais podiam reagir fomentando a continuidade dos levantes populares, depois colocando em curso a antecipação da maioridade do herdeiro ao trono, acreditando que o inexperiente Príncipe, em sinal de gratidão, atendesse os interesses liberais.
A cruzada ganhou o Brasil, os conservadores não conseguiram detê-la e a antecipação da maioridade, maquinada e posta em prática pelos liberais, foi aprovada em 1840, com isso o adolescente Pedro assumindo o poder, aos quinze anos de idade, com o título de D. Pedro II. Tudo se tratou de um golpe do Partido Liberal, que hoje a história reconhece como o Golpe da Maioridade.
D. Pedro II formou seu primeiro gabinete, conhecido como Gabinete da Maioridade, vinculado ao Partido Liberal. Não foi a solução, pois o Gabinete da Maioridade tomou para si a responsabilidade de nomear os Presidentes Provinciais, as autoridades [policiais e judiciárias], substituindo todos aqueles anteriormente nomeados pelos conservadores, provocando violentas reações e as disputas tornaram-se assassinas.
Os cabecilhas, chefes de bandos à disposição de mandatários políticos, ganharam importância nas eleições de 13 de outubro de 1840, denominada 'eleição do cacete' sagrando-se vitoriosos os liberais. A prática 'do cacete' seria repetida nas eleições seguintes.
O Gabinete da Maioridade, no entanto, foi incapaz de deter a reforma do Código de Processo Criminal, pelos conservadores, que fez fortalecer o Ministério da Justiça, e torna-lo ocupado por integrantes da 'aristocracia ruralista' e a submeter-lhe, diretamente, todas as hierarquias judiciárias e policiais que os liberais haviam, antes, conferido às Províncias. Nas mãos do Ministério da Justiça – Gabinete Conservador de 23 de maio de 1841 concentravam-se todos os instrumentos necessários para garantir a ordem pública.
A reação paulista pronunciou-se em 1842, na Assembleia Provincial de São Paulo majoritariamente liberal, conforme em sessão ordinária de 12 de janeiro de 1842 com a transcrição de parte:

"Parece inegável que nos tempos calamitosos em que vivemos, quando o Brasil se acha em um estado de extraordinária inquietação, receoso das inseguranças de suas instituições, feridas pelos atos de um Ministério Anormal que tenta com a rudeza despótica, própria só de um Governo imbecil que desconhece as tendências bem pronunciadas da Nação ir destruindo por partes o edifício glorioso que a maioria dos brasileiros honrados há 20 anos trabalham por construir à força de grandes sacrifícios e aturada perseverança (...) [por isso] pensa a Comissão que é um dever rigoroso de todo Cidadão que se interessa pelo destino do país, não ficar silencioso e aproveitar todas as ocasiões para manifestar a desaprovação que votam desregrada marcha desse ministério e da maioria dessas Câmaras".—
—"Tais são essas Leis [da Reforma do Código do Processo e da criação de um Concelho de Estado], (...) [que] cercam as garantias sociais, e escravizam o Monarca Constitucional Brasileiro, tendendo a firmar o predomínio perpétuo e exclusivo de uma facção composta pela mór parte de homens, cujo caráter saliente é o nepotimo, a venalidade, o furor insaciável de vingança".—
"Felizmente a briosa Província de São Paulo sofreu só em parte as conseqüências das tentativas do Governo para aqui estabelecer seu pasmoso sistema. (...) O sr. Rafael Tobias de Aguiar (...) foi sacrificado à sanha ministerial e do seu infernal círculo, quando era menos de esperar, [isto] foi um ato acintoso com que o Ministério quis covardemente manifestar que tenha um pouco apreço à opinião da Província tão enérgica e nobremente manifestada ao Monarca, à favor desse ilustre Paulista".—
—"Para substituí-lo veio o atual Presidente, o Exmo. Sr. Miguel de Souza Mello e Alvim, (...) [e este] pôde desaparecer qualquer infundada suspeita que o prendesse, e granjear a amizade da Província toda (...) [este homem] não é sanguinário nem perseguidor, [o que] são títulos bastante para decair da graça ministerial e ser demitido - ele o está".—
"A Comissão pensa que, na situação presente, urge manifestar solenemente a desaprovação que vota a Província a marcha do atual Gabinete, que só sabe praticar atos acintosos, que a continuarem comprometerão sem dúvida a paz geral do Império (...) - A Comissão julgou não dever vacilar ante a idéia de comprometer mais esses honrados Cidadãos com o atual Ministério, manifestando-lhes a gratidão da Província (...). A Comissão confia muito no Monarca Brasileiro que não desprezará os votos de seus leais súditos e terá energia bastante para apesar de tudo repelir de roda do Trono os homens que por infelicidade do país ora o circundam, e então esmagados os traidores, o único Trono da América se consolidará forte e brilhante".—
—"São Paulo, 12 de janeiro de 1842 - Campos Mello - Vergueiro - Alvares Machado".—
—"Este texto foi aprovado pela Assembléia e enviado a Rafael Tobias e Mello Alvim. Como podemos perceber, ele possuí um tom bastante ofensivo contra o Gabinete Conservador de 23 de maio de 1841, dizendo que tal Ministério era composto por traidores da Nação. Também demonstra que a Província de São Paulo se encontrava como um barril de pólvora pronto para explodir, e a qualquer momento o combate armado poderia ocorrer." (Antunes Lima, 2002: 72-73).—
O documento aprovado pela Assembleia Provincial de São Paulo não deixava dúvidas que os paulistas colocavam em curso a revolução contra o autoritarismo do Gabinete de Ministros Conservadores, a criação do Conselho de Estado e a reforma do Código do Processo Penal.
A situação precipitou-se em São Paulo:

"Os liberais visualizaram a derrubada do Gabinete de Ministros conservadores, sob o argumento de verem nele indícios de autoritarismo, pelas leis que criaram o Conselho de Estado, reformaram o Código Penal, as chefias de polícia nas províncias e no ato que dissolveu a Assembléia Geral. A trama revolucionária teve curso, no Brasil, através da sociedade secreta Clube dos Patriarcas Invisíveis" (Exército Brasileiro, A Revolução Liberal de São Paulo - 1842, edição, 2011: 1).
Tarquínio de Souza escreveu:
"Na Corte, visando de preferência as províncias, um clube dirigido por Limpo de Abreu e Teófilo Otoni pôs-se a trabalhar por , todos os meios, agitando a opinião pública e procurando intimidar o governo, com a ameaça de um desfecho violento" (Souza, 1942: 293, in O Combate da Venda Grande, citado no artigo 'O Espirito de 32, de Pedro Brasil Bandecchi - Revolução de 1932, publicação Revista Faculdade de Direito - USP, Volume 77, 1982: 386).— 
Reportando, o mesmo Bandecchi naquele artigo, à página 387, cita:
—"Aluísio Almeida [A Revolução Liberal de 1842, publicação 1944: 34] fala com segurança da Sociedade dos Patriarcas Invisíveis, cuja finalidade era defender a independência do Brasil, a Constituição e opor-se às arbitrariedades do governo. E se propunha a ajudar o Corpo Legislativo por palavras escritas, censurando pela mesma maneira os atos inconstitucionais do governo e seus empregados, opondo-lhe resistência e promovendo a união entre todos os brasileiros, explanando quanto possível os obstáculos correntes.".— 

2. Maçons - os 'governantes invisíveis'
Para alguns, ainda hoje, a Maçonaria
agrupa os governantes invisíveis
Hercule Spoladore esclareceu quem seriam os Invisíveis: "O que chama a atenção neste episódio da história do Brasil é que quase todos os homens envolvidos, quer do lado legal, quer do lado revoltoso, tinham filiação maçônica" (Spoladore, g: 00304).
Liberais e Conservadores, portanto, independentes da condição maçônica, não eram tão diferentes quanto aos interesses políticos, concentrando o poder nas mãos dos grandes proprietários escravagistas, de maneira antidemocrática e sem a participação popular.
Ao fechamento das Câmaras Legislativas e o afastamento do Coronel Rafael Tobias de Aguiar, da Presidência da Província, São Paulo deu início à Revolta dos Liberais, a partir de Sorocaba, no dia 17 de maio de 1842. Pela Câmara Municipal de Sorocaba Tobias de Aguiar é declarado Presidente Interino da Província de São Paulo e, nestes considerandos, Chefe da Revolução juntamente com o Padre Feijó e Nicolau Pereira de Campos Vergueiro.
Sorocaba não foi escolhida ao acaso para se iniciar uma revolução de nível da pretendida pelos Liberais, nem a data foi aleatória, sendo certo, apenas, que a cidade de São Paulo era refratária a qualquer movimento de luta contra o poder central. Por conseguinte, certamente em Sorocaba estavam reunidos, naquele mês de maio de 1842, representantes revolucionários do sul e de outras regiões do Brasil, disfarçados em negociantes.
Ora, no mês de maio Sorocaba realizava a tradicional Feira Anual de Muares e as Festanças do Divino, ocorrências tradicionais quando gentes de Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Goiás, Rio de Janeiro, Mato Grosso e outras regiões, lá se faziam presentes em seus negócios e diversões, ótimo momento para se discutir a revolução com líderes e representantes das principais regiões, principalmente do sul, onde a guerra já conflagrada desde 1835, com a revolução Farroupilha e a proclamação da República do Piratini.
Ainda discutível se os movimentos liberais no Brasil, desde a abdicação do trono, tinham caráter separatista e ideal republicano, inspirado na guerra vitoriosa de independência da República Oriental do Uruguai, em 1828.
Contudo, complicadas divergências e situações regionais não permitiam movimento unido contra o governo central, e nisto pensaram os liberais em 1842 às pretensões de se estender o movimento farroupilha desde o Rio Grande do Sul à São Paulo e Minas Gerais, talvez até a Bahia, para depois se desdobrar por outras regiões, estando o obstáculo na região paranaense, na época extensão geográfica da província paulista, porém com características diferentes e politicamente mais afinado com o poder central.
Se ocorresse adesão de Curitiba ao movimento de Sorocaba, e a história é omissa neste aspecto, certamente os liberais seriam vitoriosos no aspecto separatista e, provavelmente fundariam uma república, porque os revolucionários sulistas se uniriam aos paulistas e aos mineiros, com adesões posteriores, tendo Curitiba por centro político, e o Governo Imperial seria incapaz de combatê-los.
Um movimento unificado poderia dar certo economicamente, por exemplo, São Paulo centrado na produção agrícola de exportação, Minas ainda na mineração - depois viria o café já iniciado nas morrarias divisórias com São Paulo e Rio de Janeiro, e o Nordeste contribuiria com a produção açucareira e cacau, enquanto o Rio Grande do Sul entrava com a produção de gêneros primários, economicamente voltados ao mercado interno para aquelas zonas, mineradora, cafeeira e a melífera, além do abastecimento da escravaria.
Não aconteceu a sonhada unificação. Os liberais, que propugnavam um modelo de estado para o Brasil, foram incapazes de lidar com diferenças políticas regionais, nem conquistaram a Comarca de Curitiba, transformada em Província do Paraná em 1853 com os principais centros do atual estado paranaense. Se não ocorrida a adesão curitibana, um grande aliado se fez anunciar: o Rio de Janeiro iria se rebelar tão logo o governo central efetivasse a dissolução camarária da capital.
Veio o fechamento das Câmaras, mas a esperada sublevação carioca não aconteceu e, então, São Paulo optou pela sua guerra e, num primeiro momento a revolta se fez vencedora em Sorocaba, metendo a ferros os principais líderes Conservadores que por lá se encontravam, entre eles Eusébio Costa, fazendeiro na região de Botucatu, ainda Nossa Senhora das Dores de Cima da Serra. Deste episódio revolucionário, mais propriamente a prisão de Eusébio da Costa Luz, entra em cena José Theodoro de Souza, ao libertar Costa, "quase á força" (Donato, 1985: 72). O José Theodoro alguns anos depois, documentos comprovam, viria ser o pioneiro-mor na conquista sertaneja paulista de 1850/1851

O movimento não prosperou, não tinham os liberais aqueles anunciados mil e quinhentos soldados dispostos tomarem São Paulo e destituir o governo conservador, bem como não funcionaram suas pretensas bases sediadas em Itu, Porto Feliz, Piracicaba, Tatuí, Capivari, São Roque, Atibaia, Itapetininga e Campinas, localidades que talvez fossem apenas sedes de recrutamentos, caídas uma a uma em combates locais entre grupos rivais.
Aos 21 de maio a Coluna Libertadora, sob o comando do Coronel José Joaquim Lacerda, que marcharia sobre São Paulo, ainda estava em Itu, aguardando as tropas do Coronel Tobias de Aguiar que, passando por Campinas, somente chegou no dia 4 de junho, com apenas 40 homens.
Enquanto a Coluna não chegava a São Paulo, um grupo de rebeldes liberais de vilas adjacentes da Capital chegou nos Campos do Pirajuçara, defronte ao rio Pinheiros, para tomar de assalto a fazenda do conservador Antonio da Silva Prado, para ali sediar o quartel libertário. Aguardava-os, no entanto, o Exército de Caxias já há dois dias, a pressupor traição à causa.
Algumas versões atestam o início da Revolução Liberal em 12 de maio de 1842, inclusive que a Coluna Libertadora, sob comando do Coronel Lacerda, chegou a São Paulo para se unir aos rebeldes no Campo de Pirajussara, vista em seguinte transcrição de Marcos Antunes de Lima: 

—"Os sorocabanos, entretanto, supondo que o quartel da capital havia se sublevado, iniciaram a Revolução em 12 de maio de 1842, após a dissolução da Câmara no Rio de Janeiro. Nove dias depois, chega à Capital a primeira das chamadas 'colunas libertadoras'. Sorocabanos e ituanos juntaram-se aos rebeldes de vilas próximas a São Paulo em frente à ponte sobre o Rio Pinheiros, nos campos do Pirajussara, região onde se localizava a fazenda do conservador Antônio da Silva Prado".—
—"Porém, quatro dias antes, foi nomeado na Corte o Barão de Caxias – futuro Duque de Caxias - para comandar a força repressora. Luís Alves de Lima e Silva chegou com seu 'Exército Pacificador' a São Paulo dois dias antes das forças revolucionárias chegarem à mesma cidade e assim pôde organizar a defesa da Capital da Província" (Lima, 2002: 10).—
Consta que o único combate entre as forças liberais e tropas governamentais, sob o comando de Caxias, tenha ocorrido em Venda Grande, região de Campinas, em 07 de junho de 1842, onde dezessete combatentes liberais foram mortos, quinze aprisionados e os demais, não sabem quantos, desertaram-se. O Exército fez uma limpeza regional, de cidade m cidade, obrigando liberais e simpatizantes partirem rumo a outras e distantes regiões.
O sonho paulista acabou no dia 20 de junho do mesmo ano de 1842, com a chegada de Caxias a Sorocaba, onde encontradas as trincheiras vazias, canhões abandonados e todos os líderes dispersos, à exceção de Feijó preso imediatamente. O movimento já não existia, nenhuma base estava, ou sequer esteve, em poder dos Liberais, sabendo-se Tobias de Aguiar refugiado no Rio Grande do Sul onde foi capturado aos 8 de novembro de 1842.
Mesmo com a derrota paulista, Minas Gerais iniciou seu levante, em 10 de julho de 1842, já desde o princípio condenado ao fracasso, embora um primeiro triunfo em Barbacena e o controle das principais estradas que ligavam Minas ao Rio de Janeiro, registrando-se alguns combates em outras cidades.
A única grande batalha em território mineiro ocorreu em Santa Luzia, aos 20 de agosto de 1842, onde 3.300 homens fizeram frente ao Exército de Caxias, com muitas mortes, prisões dos seus principais líderes e a fuga em massa dos sobreviventes para a região do Vale do Paraíba fluminense, onde ficaram conhecidos como 'Luzias'. Caxias entrou vitorioso em Ouro Preto aos 10 de setembro de 1842. Concedida anistia pelo Decreto Imperial nº 342, de 14 de março de 1844, 
e a formação de um Ministério Liberal
No ano de 1853 os liberais e conservadores apresentam-se unidos a partir de 1853, conciliados por Honório Hernesto Hermeto Carneiro Leão, o Marques do Paraná, assim integrados num único Ministério, para fortalecimento do regime e sustentação do Império. Depois viria a Guerra do Paraguai e a história ganharia outro curso, inclusive no sertão Vale do Paranapanema.
A conquista do sertão não foi em decorrência de alguma inspiração liberal nem conservadora. Apesar das diferenças entre si, liberais e conservadores identificavam-se quando em jogo interesses comuns, sendo ambos escravagistas e do patriciado, dos capitalistas e dos proprietários de bens identificados nas terras e escravos.
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