domingo, 20 de dezembro de 2009

36. Vida Sertaneja

1. Os arranchamentos
Rancho antigo no sertão -imagem/foto representativa -
Acervo: Luiz Carlos de Barros
O bandeirismo de 1851 trouxe os primeiros habitantes brancos para o Sertão do Paranapanema, pelo Vale do Pardo e adiante do Turvo, representados pelos bugreiros a serviços dos compradores de terras ou dos próprios partícipes da Guerra ao Índio. Também chegaram os capatazes e os trabalhadores diversos para as atividades rurais, encarregados desde a derrubada das matas às construções, plantações e das introduções e cuidados com  as alimárias domesticadas, como garantias primárias da fixação do homem.
Até ali, com indicações das terras, os caminhos foram abertos a facão, foice e machado, com a escolha do lugar de arranchamento para fazendas vizinhas, num lugar ideal para instalações de ranchos dormitórios com paredes fechadas por tabocas, com ou sem aberturas para janelas e uma porta, as coberturas feitas em sapé ou taquaras rachadas, cômodo único para aqueles do mesmo mesmo grupo, ou compartilhado por graus de afinidades. A partir dali os moradores cuidavam dos afazeres e das divisas de cada propriedade. 
O interior de um rancho apresentava camas arranjadas de couro bovino, curtido, estendido sobre estacas, quando não o uso de redes ou estrados. 
Do lado de fora, pequeno abrigo coletivo onde instalados o fogão de barro ou pedras improvisadas com o uso da trempe, um arco de ferro em tripé, podendo ser de varas, onde pendurados os vasilhames sobre o fogo. Sob tal cobertura encontravam-se, ainda, a mesa de troncos lascados e travejada ao chão para as   refeições e alguns tipos de jogos ou afazeres. Somente com o tempo, quando presentes as famílias, o fogão, a mesa e demais apetrechos seriam agregados aos ranchos, então maiores e com divisões. 
De tais arranchados, aqueles encarregados da segurança das terras tinham por obrigações afugentar índios e conter posseiros, por isso sem paradeiro dentro da propriedade, às vezes por tempo prolongado. Esses tomadores de contas do sertão dormiam em redes, ao relento, carregavam suas comidas, em geral farofas e paçocas de carne, mas quando conseguiam raízes e caça animal ou pesca, faziam a tucuruva, espécie de fogão sobre cupinzeiro com paus verdes em substituição à trempe.  
Os vaqueiros procuravam e preparavam os locais de invernadas; os agricultores escolhiam e trabalhavam a terra para as plantações; e todos colaboravam nas construções dos ranchos para que as famílias pudessem chegar e habitar a localidade em relativa segurança. A esses homens cabiam, ainda, as edificações dos complementos necessários numa fazenda funcional: os celeiros, currais, mangueirões, galpões, estrebarias, pocilgas, além das disposições para o pomar e horta.
Pomar e uma tapera eram sinais de terra apossada. 
Todas essas preparações de instalações e funcionamentos das fazendas duraram cinco ou mais anos, até os primeiros resultados. A partir de 1856 chegavam os primeiros proprietários com suas respectivas famílias e agregados para a administração dos bens.

2.  Os primeiros chegadores
As famílias somente chegaram ao Vale Paranapanema quando já 'amanhado o sertão', por volta de 1856, após longas e difíceis jornadas, em caravanas com três ou mais carros de boi, carroções e carroças, burros de carga, montarias, arrastadores para cargas menores ou de difíceis transportes, escravos negros de algumas famílias com maiores recursos, familiares quase todos, os homens, as mulheres, os jovens, os velhos e as crianças, computados os filhos, genros, cunhados, netos, pais, tios e avós. São diversos os registros de crianças que nasceram em carro de boi improvisado de moradia ambulante, ou de falecidos pelos caminhos.
Os migrantes traziam os seus pertences básicos, tudo quanto podiam transportar, por caminhos vagarosos, às vezes mais demorados porque transportavam os animais domésticos: suínos, muares, equinos, bovinos, ovinos e caprinos, além das crias, muitas nascidas durante a jornada, não esquecendo os gatos e cães, e que vinham juntos os galináceos e outras aves domesticadas: patos, perus, gansos e galinhas de angola. Nem todos enviavam antes as cargas vivas, preferindo transportá-las para o não encarecimento da viagem, pois muitos eram pobres, vindos por combinações ou aventurismo.
Em meio às tralhas sertanejas estavam armas de fogo, munições, mantimentos, ferramentas e a esperança em conseguir terras por um bom preço, arrendar, mear ou simplesmente empregar-se para um dia, quem sabe, tornar-se proprietário. Os mineiros vinham, em maioria, do sul mineiro, quase sempre dos mesmos lugares de onde outros, parentes ou não, se aventuraram décadas ou anos antes para as terras de Araraquara e região. 
As caravanas eram atrações pelos caminhos onde passavam, a convidar gentes da própria província de São Paulo que, por vezes, resolviam acompanhá-los naquelas aventuras: 
—"Após a ousadia de Theodoro e mesmo a convite deste, outros aventureiros das terras de Minas Gerais, investiram sertão adentro (...). No início, nem Santa Cruz do Rio Pardo existia e foi nascendo [povoação a povoação] com a entrada destes caboclos no sertão inóspito e absolutamente selvagem" (Leoni, 1979: 2).—

3.  Características de uma fazenda
As primeiras famílias no sertão, por questões de seguranças e auxílios, vivam em arranchamentos longe das matarias e suas casas próximas, já melhoradas e os confortos em relação aos ranchos anteriores, ainda assim, construções rústicas em chão batido, paredes elevadas de taquaras rachadas entrelaçadas em tipo pau-a-pique, entaipadas ou não, algumas com paredes de paus roliços, quase todas cobertas com troncos de coqueiros abertos ao meio, algumas por pequenas tábuas ou taquaras lascadas.
A partir de 1856 algumas famílias proprietárias são vistas moradoras nas povoações próximas às grandes fazendas, como os primeiros bairros rurais propriamente ditos.
Próxima aos ranchos, num lugar em destaque, uma cruz elevada onde os moradores faziam suas orações ligeiras e se benziam na saída e chega do trabalho. Questiona-se porque não uma capela erigida em vez de uma cruz, mas a construção de capela dependia de autorização eclesial e, se feita à revelia, nela não se podia celebrar atos religiosos.
Um exemplo: "Era o primeiro domingo do mez e a população estava rezando, como de costume, ao pé do cruzeiro" (Giovannetti, 1943: 103), e Nogueira Cobra diz do mesmo cruzeiro (1923: 28). Em 1852 a Câmara Episcopal de São Paulo assim se manifestou sobre a doação de um terreno por José Theodoro de Souza à Igreja: 
—"(...) havemos por bem pela presente concedermos faculdade para que possa fundar, erigir e edificar uma capela no lugar denominado Turvo com invocação a São João e São Pedro, e observando-se o despacho retro. (...) e depois de contruído a capela nela não se poderá celebrar missa sem licença para a qual dependerá informação do lugar de ... capacidade da dita Capela ..." (ACMSP, Livro de Registro de Provisões da Diocese de São Paulo, 1851/1857: 44-45 verso, apud Campanhole 1985: 151).—
Os pioneiros praticavam a agricultura de subsistência, com as derrubadas de matas para plantios de arroz, feijão, milho, abóbora, mandioca, batata doce, cana e algodão, havendo um ou outro experimento de cultivos de arvores silvestres frutíferas. As caças e pescas eram abundantes, com farturas de tudo quanto necessitavam para aquele modo de vida, exceto o sal, as ferramentas agrícolas, munições e armas, além de uma ou outra novidade para o lar ou de uso pessoal.
O preparo da terra para agricultura foi a denominada cultura do fogo, pelas queimadas, com a marcação de espaços e por períodos, de maneira a recuperar o solo e a vegetação, quando o terreno não utilizado pela pecuária, inicialmente feita nos campos e não nas matas derrubadas.
Os rancheiros ao saírem de casa para o trabalho levavam juntos a mulher e os filhos para evitar que os índios vagantes e animais predadores os acometessem. 
Nogueira Cobra (1923: 51) diz textualmente desse cuidado sertanejo, e algumas lembranças referem-se a vigias tomando conta de algum bairro rural.
A propriedade rural possuía diversos segmentos para o preparo de produção, como a denominada fábrica, construção à beira do rego d'água aproveitado para mover o monjolo, um mecanismo feito em madeira para se pilar o milho e descascar café entre outras serventias. Na fábrica estava o forno para assar o pão e outros alimentos, além da fornalha para se fazer a rapadura, os doces e a tosta das farinhas e polvilhos - amidos da mandioca e do de milho.
O farelo e o refino são usados como ração de animais que vivem nas fazendas. Em algumas regiões, o óleo extraído do farelo era usado na fabricação de sabão e margarina, enquanto o amido obtido do arroz utilizado em cosméticos e goma de lavanderia. Com a palha (haste seca) do arroz fazima-se chinelas, chapéus, capas de chuva e coberturas de telhados.
Outro mecanismo essencial era o engenho, para moagem da cana da qual extraia a garapa, usada diretamente como adoçante ou para fabricação de rapadura que, moída, substitui o açúcar. Próximo do engenho estava o alambique para a feitura da cachaça ou aguardente derivado da cana. 
Alguns historiadores locais lembram que naqueles tempos, quando ainda inexistia a cultura do café na região, o caboclo valia-se das sementes torradas e moídas do fedegoso, as quais fervidas em água com garapa de cana (Jorge Junior, 24/09/1967).
A fábrica oferecia outras extensões, como o lugar de se trabalhar o fumo [fumeiro], trançar vassouras, além do compartimento reservado para o talho, ou pequeno açougue onde se lidavam com as carnes, embutidos, defumados e gorduras e mais os miúdos aproveitáveis para o consumo e aqueles destinados ao fabrico do sabão de cinza, produto às vezes misturado às ervas aromáticas ou preparado com vegetais gordurosos, como o abacate. 
O local do abate animal geralmente situava-se a jusante de um córrego d’água.
A tulha, mais conhecida por 'tuia' era outra construção necessária numa fazenda, geralmente em madeira, destinada ao armazenamento de materiais, mantimentos e gêneros de qualquer espécie, para um período mais prolongado, enquanto o paiol servia para estocagens do milho e o feno, de uso diário para a criação.
O trabalho rural encaixava-se, portanto, no sucesso das fazendas, multiplicando as lavouras, diversificando-as, e ampliando os rebanhos e os tipos animais: bois para o corte, vacas para crias, o leite e mais os derivados - queijos, requeijões, manteigas e o uso para tipos de doces.
Uma propriedade de média produção, para a época, ocupava espaço mais ou menos de 20 mil metros quadrados para toda essa estrutura fabril, incluídos os imóveis para os colonos, as senzalas para escravos e um tipo aldeia para índios cativos.
Nas propriedades de senhores escravistas tomaram-se os cuidados de se construir a senzala em forma de grande paiol - em madeira, tijolo, adobe ou taipa, cobertos de sapé, sem forro, com chão de terra batida, a servir de cozinha, fogão a lenha, e dormitório para os escravos afrodescedentes.
Índios capturados eram forçados ao trabalho, quando não conduzidos aos aldeamentos, na marra, para que recebessem educação [cristã], instruções devidas e depois introduzidos no mercado de trabalho, como homens tementes a Deus, pacífico e doutrinado à obediência servil, ou prestador de serviço obrigacional gratuito para os fazendeiros.
Os índios amontoavam-se numa residência coletiva, ao próprio estilo, levantada na fazenda. A quantidade de índios determinava o número de ocas, às vezes por famílias.
Tradições familiares indicavam índios pacificados trazidos dos aldeamentos para o trabalho compulsório nas fazendas, apenas em tempos de grandes colheitas, e depois retornavam ao local de origem.
Para as demais casas, em bairros rurais ou colônias nas fazendas, os quintais eram menores, avizinhados, separados por algum tipo de cerca em madeira. Geralmente num largo ou o pátio da capela, existia um poço  para o uso comum da água, embora, quase sempre, a povoação situasse próxima de bica de água, nascente ou córrego. Algumas moradias possuíam latrinas, embora quase todas iguais as suburbanas ainda em 1923, nas observações de LC Sodré "Acontece, também, que estas casas nunca contem fossas fixas. As exonerações intestinaes são feitas na superficie do solo" (1923: 24-25). 
Nas fazendas, sítios ou chácaras criavam-se porcos em curral, a céu aberto, apenas com a cobertura para os cochos de alimentação. Os porcos jovens perambulavam pelas propriedades ou fora delas, misturando-se a outros animais, disputando alimentos com os cães, ou competindo com as aves sobre dejetos humanos. 
Nas fazendas os carros de boi, os carretões e as carroças de trabalhos eram abrigados num barracão, sendo tal estendido para o funcionamento da oficina geral e marcenaria. 
Ainda nas propriedades rurais existiam piquetes ou potreiros que serviam para guarda e abrigo de animais empregados nos trabalhos do dia-a-dia, como cavalos de montaria, vacas leiteiras, além dos separados ou cercados para crias e animais doentes.

4.  Bairros rurais e domicílios
Os chegadores optavam residir em bairros situados entre as grandes propriedades, então chamados bairros rurais, para melhor segurança e auxílios mútuos. O bairros situavam-se sempre à beira de caminhos onde mais intensas as movimentações dos brancos, em grupos e sempre armados, inibindo ladrões e afugentando os índios no percurso de Botucatu e São Domingos aos bairros e capelas surgentes no sertão.
Um bairro rural primitivo se dividia em datas, com medidas aproximadas de meia quarta de alqueire, aonde elevadas as casas, em duas fileiras à margem do caminho, sendo que em um dos lados a sequência de lotes interrompia-se para uma rua perpendicular, que conduzia ao cruzeiro e, mais ao fundo, o cemitério. 
Em alguns bairros, pós 1856, existiam as capelas, pós designação do Padre André Barra para a Paróquia de São Domingos. Ao lado da casa de oração e sacramentos, também um salão de festas.
Numa data, além da casa, existia a horta, o chiqueiro para engorda de porcos, o galinheiro, a cocheira para o abrigo do animal de sela e carroça, um puxado, para a guarda de mantimentos e tralhas diversas, ao qual, em anexo, o abrigadeiro dos veículos de tração animal.
As casas, mesmo aquelas mais pobres, voltavam-se à organização do espaço habitacional, como lugar onde decorria toda a relação da vida familiar. As casas abrangiam a segurança e estabilidade familiar, abrigando no seu interior pessoas sujeitas à autoridade do chefe do fogo, por proteção, por natureza e por lei, assim definido como as "diversas pessoas sujeitas ao poder e à autoridade do chefe do domicílio seja por natureza ou por lei" (Costa, 'As mulheres chefes ...' - monografia - texto extraído da Universal Lexicon de 1735).
Ao patrão o prolongamento do seu lar compreendia não apenas sua unidade conjugal e a prole, mas sim aos agregados e serviçais; ele era a lei maior e o paternal dentro de seus domínios.
Quanto aos aspectos físicos, independentes do tamanho, qualidade e riqueza de uma casa, ela se dividia basicamente em cozinha, sala e quartos. A cozinha fazia-se o compartimento principal de uma casa, onde se reuniam os familiares após jornada de trabalho, em causa do fogão ou mais propriamente as chamas que lhes permitiam se ver e conversar, numa troca de informações e experiências, confidências e momentos de maior intimidade familiar.
O fogão construído em barro tornou-se substituto natural do 'Lar' - outrora a pedra que servia de base ao lume de uma residência, assim a fazer, onde instalado o fogo, o principal lugar da casa, ao derredor do qual os presentes não apenas faziam refeições principais, mas onde se beliscavam petiscos e serviam-se bebidas, quentes ou não.  "E era na cozinha, compartimento essencial da casa, que se encontrava o 'Lar', ou a pedra que servia de base ao lume" (Fazenda Rodrigues, 2008: 1-2).   
A sala fazia-se cômodo reservado para as visitas e os amigos, como reflexo do conforto e o acolhimento da casa, enquanto os quartos eram íntimos, o do casal, e o dos filhos e filhas, geralmente os filhos a dormirem na sala por ocasiões de visitas convidadas ao pouso, enquanto as filhas iam para o quarto dos pais.
Casas maiores tinham quartos próprios para filhos e filhas, uma ou outra residência com cômodo destinado a visitas de pernoites, quando não algum parente velho ou inválido por lá a se abrigar.
Os móveis eram toscos, as camas estrados, o guarda-comidas, o guarda-roupa, o baú, os bancos, as mesas e as cadeiras. Todas as casas possuíam um oratório na sala, onde rezavam ao santo padroeiro, sendo alguns desses nichos artisticamente trabalhados e trazidos na viagem.
Os colchões consistiam preenchidos de capim, palha de milho desfiada, ou de crina animal, e os travesseiros de penas ou paina. Os tecidos eram feitos em teares como produtos da tecelagem de fios de lã, algodão, juta e outras espécies de fibras naturais, desde lençóis, cobertores e outras confecções de peças de vestuário, além das toalhas de banho, tapetes, toalhas de mesa, guardanapos e os decorativos para os altares e oratórios.
Nas residências, de fazendas ou bairros, dentre os maquinários rudimentares faziam-se obrigatórios o descaroçador de algodão, a carda [para desembaraçar, destrinçar e pentear o algodão sem caroço, num só sentido e separado em fios], e o tear para fazer os tecidos. Algumas casas tinham os bilros para fazer renda.
Antigos relatos dizem das habilidades de certas mulheres e homens em manusear bilros ou na produção de tecidos de algodão, tingidos em cores diversas com uso de folhas, sementes, frutos, cascas, madeira ou raízes vegetais. Também eram famosos aqueles que sabiam trançar fios, fazer renda e tricôs.
Pós 1864, com a chegada das famílias de maior posses, fugitivas do alistamento militar, surgiram as casas em madeira, com assoalhos em tábuas corridas - largas e contínuas, elevadas do solo  para evitar umidades. As casas eram sem forros, com coberturas em placas de madeiras ou as telhas de barro tipo canaleta, moldadas em formas não uniformes, diferentes de uma olaria para outra, e os antigos diziam, então, feita nas coxas dos escravos, agregados e empregados, daí a identificação 'feita nas coxas' para os objetos irregulares.
Apesar das variações as telhas de barro tinham melhores serventias e durabilidades que as madeiras, lascas ou sapé, porque mais resistentes às chuvas e fogo.

5.  Produções excedentes
Com as primeiras propriedades a prosperidade estaria atrelada ao progresso e produção rural. Com isso diz-se, se assim se pode efetivamente dizer, que o ritmo produtivo de uma fazenda ditava a expansão de suas atividades e riquezas, com consequentes melhorias para sua população.
Todos viviam em função das fazendas como proprietários e empregados, pois quase tudo elas produziam, o que, de certa maneira, garantia o bem estar para seus partícipes.
A vida, no entanto, não se resumia dentro de uma fazenda ou de algum bairro rural. Da precisão de alguns produtos indispensáveis à vida sertaneja, ou sua garantia de sobrevivência, obrigava os pioneiros produzirem excedentes para trocas ou vendas, para satisfazer necessidades.
A chegada de famílias no sertão e escassez de produtos incrementou as atividades ruralistas na região do Pardo, transformando-a em baluarte econômico. O expansionismo ocorreria para diante de São Pedro, onde concentrado o José Theodoro de Souza com os seus parentes e os mais próximos, e o lugar servia de fortaleza e sentinela sertaneja. 
Ora, as famílias ali, aparentadas e detentoras do latifúndio entre o Turvo e Água Boa, ou margem esquerda do Ribeirão das Anhumas, representava imensidão de terras para vendas, e não foi marcada por nenhum processo produtivo ou trabalho rural eficiente, tornando-se local onde estabelecidos os grandes proprietários de terras improdutivas, e os bugreiros sempre requisitados para acossamentos aos índios.
Santa Cruz inicialmente seria arrachamento com propósitos iguais, mas o desbravador Theodoro escolhera São Pedro do Turvo para ser, também, a grande imobiliária do sertão, enquanto ao Pardo a incumbencia para a exploração da terra, numa intensa atividade agropastoril, que tornaria o lugar empório ou entreposto comercial de importância. 
A produção de excedentes para Santa Cruz, já nos primeiros anos de 1850, foi beneficiada pelos insucessos dos avanços das bandeiras para os lados de Campos Novos e Bauru, dando-lhe tempo suficiente de dez ou mais anos anos, para sair da agricultura familiar e da atividade pastoril  de pequena escala, à produção de excedentes. A resistência indígena, que chegaria até 1861 para Bauru e 1864 para Campos Novos, fez Santa Cruz detentora de terras caras, porque produtivas e seguras, ainda que pouca sua população em relação a São Pedro do Turvo, com maior densidade demográfica.
A região santacruzense tornou-se essencialmente agrícola, criadora de gado vacum e porcos, bem acima da capacidade de consumo, e a produção excedentária permitiu a venda ou colocação dos bens, agropecuários e derivados. Sua eficiência constou, primeiro, no encontro de mercado consumidor para escoamento de seus produtos, evitando perdas, para assim gradativamente desenvolver dinâmicas para safras e entresafras, com aumento da sua capacidade em criar bens e serviços para atender demandas, deixando de ser agricultura familiar ou de pequena escala, sendo os seus principais produtos o fumo, produtos e subprodutos da cana de açúcar, cereais e grãos, carnes e derivados, laticínios e doces cristalizados. 
Também em Santa Cruz se firmaram os principais entrepostos do sertão, casas de compras, vendas e trocas, transformando-se em local onde os sertanejos acorreriam para os seus ajustes, inclusive aqueles da vizinha e recém província paranaense. O café seria introduzido mais tarde.
A política internacional brasileira na Guerra Tríplice Aliança (1864/1870), muito contribuiu para o progresso santacruzense, com a chegada em massa de mineiros e fluminenses ao Paranapanema, fugidos do alistamento compulsório para as frentes de batalhas. Esse surgimento desordenado facilitou o entradismo para adiante do Ribeirão do Capim (São Pedro do Turvo - divisa com Campos Novos), mas a região demoraria quase um decênio para a produção de bens de consumo, em quantidade apenas para o mercado interno, e então Santa Cruz continuaria e aumentaria sua capacidade de produção e geração de riquezas, por quase duas décadas, afora o encontro de novos mercados consumidores e desenvolvimento de outras atividades econômicas, até o advento da cafeicultura.
As fazendas prosperaram e os nascidos de proprietários quase sempre se tornaram donos de outras terras, qual típico processo de expansão familiar da atividade rural, quando o proprietariado indicava para a época, em média, três outras famílias agregadas, em geral moradoras na zona rural, mas nem todos os seus filhos prestavam serviços para o mesmo patrão.

6.  Transportes de mercadorias
Nos primeiros tempos os sertanejos praticavam escambos, às vezes para servir interesses de apenas uma das partes, diante das dificuldades em satisfazer necessidades entre as partes, e era pouca a moeda em circulação no sertão, menos de trinta mil contos de réis, antes da Guerra da Tríplice Aliança.
A limitação regional promovia, quase exclusivamente, trocas de animais e generos alimentícios, vistas que os bens de produção, como instrumentos não incorporados ao valor final da mercadoria, eram caros. Às vezes permutava-se uma necessidade com a mão de obra.
O escambo foi fenômeno essencial no primeiro quinquênio, garantidor das boas relações e da sobrevivencia social sertaneja, porém famílias maiores em grandes assentamentos produziam e diversificavam mais e, com isso, a necessidade de escoamentos de mercadorias para os centros consumidores mais significativos, onde podiam adquirir melhores e mais modernos instrumentos de trabalhos e satisfações de outras necessidades.
A necessidade de vendas de excedentes em quantidades substituiu o escambo, e até os pequenos produtores se uniram para a condução de seus produtos. 
Para a venda de seus excedentes os produtores organizavam grandes caravanas para as viagens comerciais com objetivos de vendas e trocas dos excedentes, e compras de genros de necessidades, unindo-se grupos familiares para melhor aproveitamento dos veículos disponíveis e segurança pessoal. No princípio, quando ainda a ausência de pontes e balsas que praticamente impediam ou dificultavam o uso de carros de bois e carretões, os pioneiros faziam uso de tropas de muares que passavam os rios a nado, com as mercadorias, ou mesmo da força escrava para transportar mercadorias, muitas vezes utilizando-se das canoas eram deixadas às margens dos rios para facilitar transposições.
Família pioneira em trânsito, a cavalo, - as mulheres assentadas
  nos cilhões com as pernas juntas de um só lado.
Acervo Luiz Carlos de Barros.
Mulheres raramente acompanhavam caravanas em viagens comerciais, e quando partícipes se ajeitavam nos carroções ou carros-de-boi. Uma ou outra, a cavalo, usava cela própria - que indevidamente chamavam de cilhão, onde a mulher senta-se de lado, com as duas pernas juntas.
Os excedentes eram tecidos manufaturados, esteiras, cestas, balaios, doces em calda ou cristalizados, queijos, rapaduras, fumo e cereais postos em carroções e carros de boi, mas as principais mercadorias eram de origem animal, carne de porco conservada em banha suína derretida e acondicionada em latas ou potes, toucinho salgado ou defumado [esfumaçado], charques, carnes de fumeiro, linguiças [secas, defumadas ou acondicionadas em gordura animal], embaladas e protegidas em palhas de milho, acomodadas em balaios de taquaras e postos nos carroções, ou em jacás de taquara ou de cipó levados às costas de animais. Ainda eram levados couros bovinos, salgados ou estacados.
Os balaios acomodavam mais ou menos quatro arrobas de mercadoria, ou 60 quilos, enquanto nos jacás não ultrapassavam os 25 quilos.
Um carro de boi tinha capacidade para mais de tonelada e meia de carga, o carroção não indo além dos trezentos quilos; tipos carretões mais ou menos mistos de carro de boi tinham capacidade de até meia tonelada.
Alguns pioneiros faziam também uso de força escrava [de negros e índios] para transportar partes das mercadorias.
Os produtos eram adequados e sobrepostos nos respectivos carros de boi, cujos lados, feitos de esteiras trançadas em taquaras removíveis, tinham altura entre 1,00 a 1,20 metros, com teto trabalhado em couro de boi.
Assim os comboios saiam para uma viagem de ida, por exemplo, de Conceição de Monte Alegre às localidades de São Manuel, Lençóis Paulista ou São Domingos, para além de dezoito dias em tempo bom, um carro após outro, com guieiros ao lado tangendo os bois.
As mulas iam, com cangalhas postas a sustentar sacos de couro para transporte de objetos e mercadorias de uso diário - panelas e mantimentos, e iam as marchas lentas na frente ou seguindo as carretas carregadas e os carros de bois, com aquele ranger característico do atrito do eixo de madeira com o mancal também de madeira. Cada muar levava às costas cinqüenta quilos sem muitos esforços.
Algumas caravanas valiam-se do arrastador, um tabuão ou tábuas sobre sarrafões atrelados a um animal, com capacidade para mais ou menos cem quilos de tralhas e ferramentas de uso mais contínuo durante a viagem. Veículos do tipo podiam ser adaptados com pequenas rodas em madeira ou de ferro.
Os donos das mercadorias montados a cavalo, por vezes a pé, em outras se revezando, cuidavam de todos os detalhes e constantemente se informavam, por sinais, com os batedores ou guias que, distantes do grupo, zelavam da segurança de todos, com prévios avisos de presenças de índios.
Os hábitos das caravanas quase nada variavam; às quatro horas colocavam os bois e demais alimárias para pastagem, sob rígida vigilância, enquanto os responsáveis pela cozinha preparavam a refeição da hora, arroz, feijão com torresmo ou couro de porco, carne-seca, carne de gordura ou carne fresca de alguma caça abatida pelos caminhos. Geralmente o arroz era preparado com algum ingrediente adicional, ovo, linguiça ou pedaços de toucinho, sendo as refeições preparadas em panelas de ferro sobre suporte de três escoras – trempe ou tripé, e ao final da refeição era servido o fedegoso adoçado com rapadura, antes de uma boa pitada num cigarro de palha ou cachimbo de barro.
Ao alvorar se punham em caminho até por volta do meio dia, quando paravam para o almoço rápido, a paçoca, ou seja, farinha de milho socada no pilão com carne de boi, ou de porco, frango ou, ainda, de algum animal silvestre como cateto, paca, cotia e veado. Esta parada quase sempre acontecia à beira de alguma aguada para que os animais pudessem saciar a sede.
A caminhada às vezes era interrompida por quebra de algum carro, uma ou outra ponte que precisava de reparos, chuvas que impediam a marcha, quando não a presença do índio feroz que, embora raramente atacasse caravanas, durante noite soltava animais, rondava o acampamento, ou lançava fogo nos carroções fazendo perder as mercadorias.
Quando do entardecer faziam a parada de pouso, onde novamente se alimentavam daquela paçoca preparada em casa - pouco antes da partida, acondicionada em 'picuás' e geralmente suficiente para toda viagem, ida e volta. Os animais eram atrelados para pastagem, os bois um a outro por tiras de couro, passante pelos furos nas pontas dos chifres, enquanto os cavalos e burros também eram amarrados aos pares, pelo pescoço, para evitar fugas.
Os guias ou batedores que se adiantavam do grupo, escolhiam o lugar da parada noturna e cercavam com laços, cordas e sovéis um espaço de campo, com aguada e pastagem, e sobre os estirões colocavam galhos de árvores de modo impedir que os animais fossem além dos limites ou que pudessem escapar. Assim os homens podiam alimentar-se, tomar o fedegoso, conversar ao pé do fogo até que lhes chegasse o sono e assim pudessem dormir em suas esteiras – alguns se utilizavam redes, sob os carros de boi ou mesmo ao relento, com a arma sempre ao alcance das mãos.
O destino era Lençóis em causa do porto, junto ao Tietê, para escoamento de mercadorias, dividindo com São Domingos e São Manoel a preferência do sertanejo para seus acertos (Tidei Lima, 1978: 107-108). Nestas viagens os sertanejos aproveitavam oportunidades para, além de negociar seus produtos, cuidar de assuntos cartoriais como registros de documentos, títulos, escrituras e certidões.
Jorge Junior, em qual trabalho baseado tais descrições, descreve as viagens comerciais sertanejas aos mercados distantes e, "Terminadas as transações, que procuravam realizar o mais rápido possível, iniciavam a grande viagem de volta por mais outros 18 ou 19 dias de caminhada" (Jorge Junior, 01/10/1967).
Os sertanejos também transportavam cargas vivas para negociações, gado vacum e suíno, separados em lotes ou varas, às vezes com mais de quinhentos animais conduzidos vivos, a pé, até os portos e entrepostos, para vendas diretas de 'carne verde' aos monçoeiros e/ou embarques para as localidades compradoras.
Porém, não era nada fácil guiar suínos pelos caminhos, muito mais pela demora que o trabalho em si, por isso a opção de vendas para os negociantes, mercadores forasteiros chamados safristas, em razão do comércio maior no período de safras que, geralmente com seus escravos, percorriam o sertão para compras de mercadorias, diretamente dos produtores e criadores, para vendas junto aos grandes centros consumidores ou mesmo diretamente aos consumidores, em armazéns próprios ou nos entrepostos.
Os produtos agrícolas eram levados pelos safristas em carros de bois e carroções, enquanto os animais eram separados em lotes ou tropas, por espécies, e conduzidos por seus escravos até o destino.
Os safristas praticavam a mascateação no aproveitamento das viagens pelo sertão, sempre com “novidades” para vendas ou barganhas, desde objetos manufaturados, artigos do lar, ferramentas para o trabalho, panos para confecções de roupas, jóias, armas, munições, querosene e até o sal. Nos últimos anos do século XIX os sírios e os libaneses se destacam os melhores mascateiros do sertão.
Foram os safristas, ou mascateiros, os grandes responsáveis pela produção agrícola e pastoril de mercado, inclusive de derivados e manufaturas para a região.
Afora o poder aquisitivo em adquirir bens supérfluos ou maiores quantidades do básico, os sertanejos tinham procedimentos e necessidades iguais, por isso não eram entre si distinguidos sócio-economicamente, exceto que todos sabiam quem eram os proprietários e os empregados, porque o sertão a todos tratava igualmente.

7.  Como viviam os sertanejos
Tinham sabedorias compartilhadas para diminuir dependência de produtos raros, por exemplo, o sal, que faltava em todo o sertão, era substituído pelos suores dos muares e cavalares. Mantas de carnes, para salgamento, eram carregadas diretamente às costas daquelas alimárias e abrigadas pelos bacheros e arreios; com um pano sobre as costas dos animais em serviço retirava-se o suor para uso culinário.
Quando a cultura do café ainda ausente na região utilizava-se o fedegoso, planta nativa de cujos grãos obtinham-se a bebida 'substituta' do café.
Igualmente comuns aos sertanejos, os utensílios de cerâmicas [artesanais à moda dos índios], os cestos de taquaras, os móveis de madeira, o fogão e o forno de pedras ou de barro – estes elevados sobre um tablado de madeira, aqueles diretamente assentados ao chão.
O couro animal foi outro elemento bastante importante e igual para os sertanistas. Sobre o couro estirado em estacas podia-se dormir diretamente ou sobre ele colocar o colchão recheado de palha de milho; as 'cobertas' eram de couro amaciado ou de algodão tecido; as cordas e laços eram de couro, assim como as sacolas, mochilas, alforjes, bruacas [malas], bainhas, guaiacas e os embornais [surrões], alparcatas [com canos protetores das pernas], as padiolas [banguês] para sepultamentos, entre outras serventias.
Imagem de um sertanejo no interior paulista.
Crédito 'Brasil: Histórias, costumes e lendas'
As roupas masculinas eram feitas de couro tanto para o embrenhamento nas matas, quanto para a caça aos índios, aí as roupas eram recheadas de algodão para diminuir a penetração das flechas. Em viagens os homens usavam roupas de couro face eventualidade de encontro com indígenas hostis, enquanto as mulheres, por sobre a roupa, vestiam espécie de capa longa com capuz para proteção contra possíveis ataques de índios à distância, pelas flechas.
—No dia a dia social/familiar as roupas eram de tecidos, geralmente em algodão.—
Utilizavam-se o couro de animais selváticos e domésticos, sendo os preferíveis para as roupas masculinas o couro de anta, pela sua resistência, e os couros de caprinos para as bolsas a tiracolo, botas - cordovões e sapatos, inclusive femininos. Os chapéus, geralmente de abas largas, eram feitos de couro ou palha trançada.
As roças de fumo, de abóbora e cana-de-açúcar vegetavam abundantemente nas datas, cercados e carreadores sendo nestas condições, de uso comum, de maneira que numa casa não faltava a garapa, para adoçante, nem a abóbora e nem o fumo.
O transporte nivelava ricos e pobres, nas marchas a pé, de carroções, carros de boi ou em montarias. Os patrões, obviamente, nem sempre se sujeitavam acompanhar as caravanas, fazendo-se representados pelos capatazes.
Para o pobre ou rico, a alimentação consistia naquilo que plantavam: arroz, feijão, milho, mandioca, abóbora, batata-doce, inhame e as verduras silvestres ou em domesticação, como agrião, almeirão, caruru, chicória, mostarda, serralha e taioba entre outras.
Os sertanejos pescavam variedades de peixes, camarão dos rios, piramboia, cágado - semi-aquático; caçavam aves: codorna, marreco, nhambu, pomba; os animais selvagens: anta, cateto, cotia, macaco, paca, preá, queixada, tapiti - conhecido por lebre-do-mato, tatu, teiú e veados; os insetos: içá e gafanhoto; colhiam, por extrativismo, folhas, frutas, mel, ovos e raízes silvestres; abatiam animais domesticados, bovino, caprino, ovino, e suíno, para o consumo da carne e derivados; mais as aves e produtos: galinha, galinha-d'angola, pato.
O homem do sertão não tinha costume de alimentar-se de animais carnívoros, mas os abatiam para a segurança e o uso da pele, por exemplos, o cachorro-do-mato, o gato-do-mato, a jaguatirica, onça [pintada], raposa, suçuarana [onça parda]; aqueles inoportunos: camundongo, cobras, gambá, ratazanas, rato do banhado e rato silvestre; e as aves de rapina.

8.  A culinária sertaneja
Acerca da culinária sertaneja, mineira por excelência, compreende-se a mistura dos sabores do ibero-português com o indígena e o africano, "sem o uso de temperos fortes, o uso abundante do limão e da cachaça no preparo das carnes, de pouquíssimo sal e gordura só para o refogado e a conservação das carnes, colorida pelo urucum e pelos brotos nativos" (Revista Viola Caipira - Na Cozinha da Fazenda, 19-03-11).
Destacam-se pratos típicos sertanejos da época, o arroz e feijão tropeiro, virado de feijão, cuscuz de legumes, ovos [cozidos, fritos e omeletes], cozinhados diversos de carnes, carnes de sol, paçocas de carnes, inclusive de frango, linguiças, refogados vegetais e animais, peixes, raízes - destacando-se a mandioca e inhames, abóbora madura picada ou recheada, canjicas com carnes cozidas de boi ou costelas de porco, cozidos e cabidelas de frangos ou galinhas, farofas de miúdos, rabada, buchada e bucho de porco recheado.
Eram pratos salgados comuns os feitos de mocotó - pernas de bovinos; pés, couros e joelhos de suínos; ensopados de carnes com ossos; caldeiradas de vegetais com carnes e miúdos de bovinos e suínos.
Para épocas de festejos faziam-se leitão a pururuca, pernil assado, lombo suíno e lagarto bovino recheados, frango cozido ou assado, toutiço fatiado e assados de alcatra.
O costume aos domingos de se fazer frango cozido com macarronada somente surgiu com a chegada dos imigrantes italianos quase ao final do século.
As bebidas fortes eram a cachaça de cana pura ou curtida com raízes amargas ou cascas de algum vegetal, além da mistura de pinga com limão e açúcar mascavo, precursora da caipirinha, sendo ainda apreciados variados tipos de licores e as variedades de 'cauim', ou seja, os fermentados de mandioca, de milho e de frutas nativas. Faziam, ainda, sucos de frutas para as crianças e licores utilizados como digestivos.
Acompanhavam as bebidas, petiscos e tira-gostos como o lambari - pequeno peixe, frigido ou tostado; biju de mandioca ou milho; farofa de içá - parte traseira da formiga rainha carregada de ovos; linguiça fatiada; chouriço, cu-de-galinha - rosquinhas em forma circular; e o uropígio da ave, conhecido por sobrecu.
Para o desjejum matinal faziam rosquinhas de pinga, bolinhos de sobra de arroz, empapados de mandioca, broas de milho, bolo de fubá e o pão feito de farinhas de milho ou de mandioca – fermentado com o muco do estomago do porco, conseguido com sal, sendo tal fermento também usado como 'coalho' para se fazer derivados do leite, como o queijo e requeijão servidos à mesa para a primeira refeição do dia.
Os doces eram os de frutas cristalizadas ou em caldas - laranja em gomos, abóbora, o jaracatiá e o mamão - ralados ou em pedaços, bananadas, a bananinha - feita com banana amassada e farinhas, marmeladas - pasta de marmelo, pudins, manjares, mamão ralado ou em pedaços e o furrundum - doce de cidra em partes ou ralada e preparada com melaço de cana. Faziam doces de mocotó, das pernas de bovinos, e variedades de doces de leite, inclusive para coberturas.
A pamonha, o curau e os assados [bolos], derivados do milho verde, eram conhecidos como pratos de época ou de colheita.
Os sertanejos, assim, viviam espécie de sociedade igualitária e participativa, com distinções apenas quanto às habilidades e dons, uns músicos, outros cantadores, os artesãos, os mais ou menos religiosos, e assim se preenchiam não apenas nas precisões como nas folganças e interações lúdico-religiosas das principais devoções e tradições mineiras.
Porém, o ser homem e ser mulher no sertão relativamente seguro implicavam distinções de atividades. Numa família constituída, o homem era o cabeça do casal e mantenedor do lar, cumprindo à mulher a coadjuvação ao marido, cuidadora da casa e dos filhos, além das dedicações às prendas domésticas. Quase sempre a mulher também ia para a roça e serviços de ordenhas.
No sertão as mulheres casavam cedo, aos dezessete anos, na realidade quase sempre a partir dos quinze anos com idade alterada para mais, e, então, aos vinte anos reais ou um pouco mais já eram mães de quatro ou cinco filhos e matrona aos trinta. São referenciadas crianças que foram dadas em casamento aos doze anos, geralmente com viúvos para cuidar dos filhos menores do marido. O índice de mortalidade entre as mulheres era elevado, como causas as ditas 'doenças de mulheres' e o 'parto', e consideradas as mortes por tuberculose.
 Os homens casavam mais tarde, aos vinte e um anos para tornarem-se independentes dos pais, e então podiam votar, ato que o solteiro somente conquistava aos vinte e cinco anos, ou seja, a maioridade. 
As famílias costumavam alterar a idade dos moços, para mais ou para menos anos, usando documentos de parentes falecidos até mesmo trocando os nomes, com intenções de evitar convocações para o serviço militar ou a guerra. Na denominada Guerra do Paraguai aconteceu assim e, tempos depois, pelo curso natural da existência, homens de aparência idosa morriam 'jovens' ou jovens morriam 'velhos'. 
—O mesmo fenômeno de alterações de idades para homens ocorreria nas duas guerras mundiais do século XX, e depois nos anos de 1970, quando o governo brasileiro permitiu aposentadoria aos ruralistas septuagenários, mesmo que não contribuintes com a Previdência, alguns usando de má fé, às vezes induzidos, que diziam ter a idade exigida para fruição do benefício, testemunhados por autoridades, geralmente prefeitos e vereadores que, em alguns casos, mentiam que referida pessoa havia trabalhado por décadas em propriedades da família. Alguns homens e mulheres aparentemente velhos e frágeis alteraram a idade, ou tiveram-na alterada, para até vinte ou mais anos, e aqueles ainda vivos em 2010, seriam reverenciados idosos de 110 ou mais anos.— 

9.  Lazer, costumes e religiosidades
O homem, sem o perigo indígena e afastadas as feras predadoras, salvo alguns inconvenientes, já se dedicava mais ao campo, à atividade agrícola ou de pecuária, e estes têm como atividades lúdicas o conferir as armas, ajustar os artigos de montarias, cuidar os animais de lida ou de engorda, escorvar galos de briga, alimentar pássaros aprisionados, beber cachaça e jogar cartas. Num fim de semana, às vezes, após a reza, grupos partiam para caçadas ou pescarias, ou, individualmente, alguém levava a família para alguma visita mais distante, aos amigos ou parentes, ou para participações em festas religiosas que terminavam em bailados.
Outras diversões comuns naqueles tempos, exclusivas aos homens, eram as corridas de cavalos, as touradas, as montarias, as disputas de laçadas e pealos em animais bravios - os bovinos, eqüinos e os muares. A fama de bom montador, ou sucesso em quaisquer das modalidades, corria os sertões.
A presença de mulheres nestas ocasiões não era bem vista.
As mulheres, desde jovens, eram alocadas para as prendas domésticas: cuidar da casa, lidar com as crianças, por a mesa e fazer doces, condimentos, bolos, bolachas e bijus. Não paravam por aí, tinham que coser roupas; fazer bordados, rendas, tecidos e assim uma série de atividades sem fim para a satisfação de todos do lar e visitas.
Segregadas pela tradição, quase sempre apenas apareciam para saudar e despedir visitantes e, no mais, enfurnavam-se nas atividades do dia a dia. Se participassem de visitas a outras famílias, nem lá cessavam os serviços, ajudando a dona da casa ou, enquanto conversavam amenidades, trocavam receitas e nem assim paravam os seus próprios bordados ou tricôs cujos materiais carregavam consigo.
Os jovens tinham mais liberdades nestas visitas ou encontros de famílias amigas, quase sempre encontrando pessoas da idade para brincadeiras ou conversas.
Os rapazes, depois de certa idade saiam nos fins de semana, inclusive voltando altas horas da noite ou pela madrugada. Às moças não eram permitidas tais andanças, nem mesmo acompanhadas de irmãos ou responsáveis.
Crianças nas escolas somente no ultimo quartel do século XIX, quando os primeiros professores designados para o sertão, visando o ensino das primeiras letras. Apenas por volta dos anos de 1890, com o sucesso das lavouras cafeeiras, as moças ricas tinham oportunidades de estudos fora do lugar e se formavam professoras, e os moços tornavam-se bacharéis.
O sertanejo era religioso, professante católico apostólico romano; mas não há que se falar de religião no sertão sem evocar o 'catolicismo popular', surgido da religião oficial, imposta tanto aos nativos quanto aos negros, misturada aos cultos raízes, para uma forma de religiosidade peculiar e de larga prática no Sertão Paranapanema, centrada no carisma de líderes saídos do povo e dos rezadores, benzedores e curandeiros.
O tamanho do sertão e a ausência de padres, ou apenas um padre regional, favorecia a prosperidade do catolicismo popular, em especial ante a necessidade de curas ou atendimentos pessoais. 
As rezas eram as tradicionais, arriscadas num latim vulgar ou aportuguesado, até sem sentido literal mas validado pela fé. Benziam, com alguma erva, faziam imposições de mãos numa oração mental, chilreada entre dentes, incompreensível para não perder a mística, e somente o início e o final inteligíveis, assim como as entremeadas identificações de santos, da Virgem Maria, de Cristo e do próprio Deus. 
Um encontro de culturas, tradições e fé, tanto no processo de contato com o divino celestial, quanto na materialidade - o bem viver com boa saúde, recorrendo aos espirituais através de seus intermediários terrenos, com muitos exemplos. 
Deus era o senhor de tudo, a uns escolheu para patrão, a outros para a servidão e os entremeados, sempre com auxílios dos santos pelo merecimento de cada um, diferente do catolicismo romanizado centrado no padre e nos sacramentos.
O sertanejo, sem ou na ausência de padre, reuniam-se ao pé de uma cruz para suas preces por algum puxador de reza. Em alguns lugares os leigos erigiam capelas, mas de pouca valia, porque nelas não se podiam realizar atos religiosos oficiais sem autorização clerical; e alguma construção assim podia significar pressão política-social para se elevar o lugar à condição de capela, e depois freguesia, porque tinha igreja decente.
Durante os primeiros vinte anos o sertão Pardo/Paranapanema era todo católico. 
No geral, o sertanejo era ativo comparte das festas do Divino, dos Santos Reis, dos dias dedicados aos santos populares - São Pedro, São João, São José e Santo Antonio além daqueles de devoção individual ou familiar, todos celebrados com rezas, comilanças e bailados. Outro notório costume, nestas festas, era a realização de quermesse, espécie de feira paroquial em data consagrada ao orago da povoação, com grandes folguedos populares.
À medida de maior segurança nos sertões, tais participações tornavam-se mais frequentes.
Famílias, às vezes vindas de lugares distantes, se reuniam em grande júbilo durante as festas de natal e passagem de ano. Parentes da localidade ou região eram presenças garantidas nas realizações de batizados, crismas e casamentos, da mesma forma que comparecentes em velórios e rezas especiais – as novenas e as trezenas.
A comemoração religiosa do natal, muito mais congraçamento e grande festa em família, era marcada pelas visitas de parentes e amigos distantes, e a festança estendia-se até a passagem de ano, quando os visitantes iam embora.
Mais marcante que qualquer outra celebração religiosa, a Semana Santa destacava-se como momento significativo nas comunidades do século XIX - nos bairros, com procissões e comoventes cerimônias da paixão - sofrimentos, morte e ressurreição de Jesus Cristo, cuidada com toda devoção possível dentro do catolicismo popular.
As grandes participações na dita Semana Santa somente ocorreriam após 1880, iniciada no Domingo de Ramos - com o 'benzimento' das palmas ou a consagração, quando sem a presença do padre, para as rezas meditativas e com cânticos populares quanto ao mistério da paixão e morte de Jesus, na segunda, terça e quarta-feira, ditas santas. Na quinta-feira - das endoenças, saiam procissões com andores de Maria e Jesus, um da capela e outro da casa de um fiel – por representatividade da via sacra, com passagens meditativas, até quando Verônica - a mulher numa cantiga de lamúria se aproxima do Senhor representado e lhe enxuga as faces, para depois o ápice, o encontro de Jesus e Maria, frente a frente durante todo um sermão ilustrativo - sermão das sete palavras, pregado por algum beato inspirado no dia-a-dia do sertanejo, daí os séquitos se juntavam com destino à capela.
Às vezes a solenidade podia contar com a presença de um padre visitador ou algum místico, destes que saiam pelos sertões 'vendendo' suas rezas e sacramentos, e então as celebrações se faziam mais ritualizadas. 
Na noite de quinta para sexta-feira acontecia a guarda do Santíssimo, na igreja, sendo a sexta-feira o dia do respeito e luto, onde não se podia gritar gargalhar ou qualquer ato de diversão, para a noite sair a procissão com o andor do senhor morto - carregado pelos ilustres, seguido pela padiola com a imagem de Maria - conduzido pelos consagrados ou beatos, seguidos de Verônica, parando de quando em quando para que ela, naquela mesma cantarola, desenrolasse a toalha, onde estampado o rosto de Jesus, mostrando-a a todos e depois enrolando para tudo se repetir na próxima parada.
As procissões eram iluminadas à luz de velas de sebo.
No sábado os fiéis linchavam o Judas - feito de trapos e palhas de milho, arrastado pelo povoado e posto enforcado numa árvore, para a malhação final - tipo de esquartejamento, para a noite todos se reunirem na capela aguardando, em vigília, a ressurreição de Cristo, celebrada com rezas e depois festas.
Na Semana Santa, de domingo a segunda, as chamadas carnes vermelhas não faziam parte da mesa do sertanejo, somente a partir do sábado. Rios (2004: 71) descreve a celebração já a partir de 1873, com a presença do padre e das irmandades do Santíssimo Sacramento, com encenações mais criteriosas, ano a ano, com aperfeiçoamentos e maior número de fiéis, de acordo com as regras da Igreja.
Tradições familiares revelam peregrinações de sertanejos do Paranapanema a Aparecida, após 1900. Uma ocorrência teria acontecido em 1887, a partir de Santa Cruz do Rio Pardo, a confiar na testemunha do autor Maurílio Marques (2009: 16), que um membro da família Pereira Alvim "retornava de uma romaria a Aparecida do norte", local conforme denominado pelo sertanejo.
A romaria da qual partícipe pelo menos um Pereira Alvim, sabe-se em 1887 em causa da morte, naquele ano, de outro Pereira Alvim, na localidade de São Mateus - região hoje no município de Paraguaçu Paulista.
A investida indígena ocorrera em 1887, e o Pereira Alvim romeiro, tão logo sabedor do acontecido, teria se unido aos parentes daquela região para fazer vingança ao morto.

10.  A morte, velório e sepultamento
Imagem representativa lar enlutado - Créditos
'Brasil: Histórias, costumes e lendas'
Viver no sertão não era nada fácil. O sertanejo convivia com nascimentos e mortes e nem sempre se podia contar com a presença do padre, dada as dimensões da paróquia. Na ausência do padre, algum leigo autorizado e ungido [benzido] fazia batismos emergenciais, quando o recém-nascido em perigo de vida, ou natimortos, e encomendava almas nos casos de falecimentos; na primeira oportunidade, o padre validava o ato.
Nascimentos eram alegria e festas confirmadas por ocasião do batismo. A morte determinava consternações. 
Nos passamentos sem padre, então os homens e mulheres de rezas, sempre sob a liderança do leigo ungido, promoviam os ritos inclusive de choros e das louvações às virtudes do falecido, com o concordar dos parentes, um sim ou um gesto afirmativo com a cabeça.
O morto era preparado, o que significava lavado, untado, vestido e posto sobre uma cama, mesa ou bancos, ladeado de flores e ramos - porque não se usava caixão. Acendiam-se velas e, de quando em quando, alguém borrifava água de cheiro para aliviar o ambiente.
O lugar do velório geralmente era a sala de visita, mas podia ser o quarto, e ao derredor do corpo, junto às paredes, fileiras de bancos para acomodar os presentes. Na janela do cômodo e na parede do lado de fora da casa colocavam-se panos pretos indicando local de velório e família enlutada. Os pés do morto ficavam em direção à porta, um crucifixo preso á parede - do lado onde a cabeça do defunto.
Tudo transcorria com rezas de agonias e cantilenas sacras nas primeiras horas, com a casa oferecendo café, bolos, quitutes, preparados pelas vizinhas e os parentes, e depois a aguardente tomava conta do ambiente, com os comentários das virtudes do falecido, lembranças de seus feitos, suas realizações, os casos cômicos e depois as piadas e o cansaço, arrumações de cantos e lugares para algum cochilo ou sono rápido, com as crianças dormindo juntas nalgum quarto.
Geralmente o defunto 'passava velado apenas parte da noite' e pela madrugada, despedido com rezas e encomendações através dos cânticos de guardamentos para o sepultamento. Tudo dependia da distância  onde o cemitério, e as condições do tempo. 
À hora da saída, quase sempre o momento mais crítico, o corpo era passado para uma padiola, sendo comum a de madeira pindaíba, cujas traves colocadas sobre os ombros dos condutores; ou no banguê - as padiolas de cipó trançado; e outro tipo consistia colocar o cadáver, posto (envolto) numa espécie de rede, chamada hábito, sustentada por uma vara e assim conduzido por adultos, revezados quando em quando por acompanhantes, até onde o sepulcrário consagrado.
Imagem representativa de como se transportava um morto
Crédito 'Brasil: Histórias, costumes e lendas'
O jargão, estar na pindaíba significa estar 'duro ou dependurado', ou seja, sem dinheiro, endividado
Registros eclesiais das localidades de Lençóis Paulista, 'Livro Eclesial, Óbitos, 1857-1888', e Santa Bárbara do Rio Pardo (Estância Hidromineral Águas de Santa Bárbara) 'Livro Eclesial, Óbitos, 1877-1890', revelam que até 1883 os cadáveres eram envoltos em hábitos, de cores diversas conforme a vontade expressa do falecido em vida, ou dos familiares, e assim conduzidos para sepultamento.
Nos primeiros tempos os sepultamentos ocorriam no adro de alguma capela de bairro rural mais próximo, ou nalgum cercado de uma grande fazenda. Mas tal prática foi abolida efetivamente em 1874, por questões de higiene, saúde e determinação legal.
Não importava a hora; por onde passava o carregamento, havendo alguma casa pelos caminhos, os condutores e acompanhantes do féretro lamuriavam ao som de matracas 'olha a alma... olha a alma...' e as portas e janelas das residências se fechavam ficando dentro as mulheres e crianças rezando, enquanto os homens saiam para respeitosamente prestarem saudações ao finado, geralmente tirando o chapéu, fazendo sinal da cruz e uma oração rápida. 
Mesmo que durante o dia, quando os homens estivessem a serviço, na roça, por exemplo, deixavam seus afazeres e vinham prestar homenagens.
Geralmente nalgum ponto estabelecido ou que entendessem conveniente, os condutores paravam, não que se julgassem cansados, mas sim o 'morto pesava sobre seus ombros', e então era arriado ao chão e alguns partícipes iam colher ramos ou varas para bater no corpo do falecido. Descansados evidentemente pela pausa, condutores e acompanhantes reiniciavam a jornada, 'sentindo mais leve o defunto', e assim prosseguiam até o cemitério. 
Nunca suficientemente esclarecido o ritual em surrar o morto, e razão cabocla parece firmada em algum costume cujo significado perdera-se no tempo.
Era obrigação conduzir o morto em procissão e levado pelos condutores. Somente corpos esquartejados eram conduzidos em arrastadores ou algum carroção, que depois eram queimados, para que o morto não se apegasse aquele objeto. Se fosse num carro de boi ou carroção, uma boa lavagem substituía a queima.
Não era costume sertanejo enterrar algum morto no quintal da casa, exceto abortados, natimortos ou recém nascidos - chamados anjinhos; acreditava-se que as almas dos finados adultos ficassem por tempos no lugar e atentando os vivos. Pelas mesmas razões não se enterravam mortos pelos caminhos; mesmo que fossem encontrados restos mortais de alguma pessoa, procuravam dar-lhe sepultura no cemitério, que era o lugar consagrado aos mortos.
Para o enterramento cada presente lançava um punhado de terra sobre o corpo e, ao som de rezas e novas encomendações, encerravam-se os rituais.
Acatólicos não eram sepultados em cemitérios católicos, mas cada cemitério tinha o seu apartado para os indigentes, negros, índios, prostitutas, linchados [justiçados] e suicidas, estes ultimos desde que não fossem importantes. Também não se fazia missa de corpo presente de tais pessoas, nem mesmo a encomendação de suas almas, exceto se algum importante membro da comunidade assim o desejasse ao negro, índio ou ao suicida doente; jamais às prostitutas, acatólicos e linchados.
Quando os condutores e acompanhantes retornavam ás suas casas, batiam palmas e descalçavam-se aguardando aspersão com água de cheiro e sal, ou somente este, antes de adentrar ao lar. O lar onde foi guardado o defunto deveria ser lavado com ervas próprias ou mesmo incensórios.
Alguma vítima de acidente ou assassinato em algum lugar, ali era colocado uma cruz e todo passante benzia-se diante dela.
Os doentes para a morte recebiam visitas de parentes, amigos, agregados e criadagem, que quase não permaneciam no ambiente, senão os mais próximos; os homens e mulheres de rezas praticamente não saíam de perto do agonizante, e se oportuno o padre fazia a oração dos enfermos e, quando o caso, ministrava a extrema unção.
Um costume no sertão era a presença do 'abafador', um especialista em aliviar sofrimentos de moribundos.
Sua convocação ou presença num lar significava o fim da vida terrena da pessoa enferma, com o apressamento da morte por sufocação e, aparentemente não era costume apenas entre [suspeitos] marranos judeus.

11.  Os bailes e as festas
O Batuque paulista, dança conhecida por umbigada e 
outros nomes regionais - Crédito 'Brasil: Histórias, 
costumes e lendas'
Afora o luto, quase tudo o mais motivava festas e nestas aconteciam os bailes, destacando-se o cateretê ou catira, dança rural de salão ou galpão, eminentemente masculina, com pessoas em fileiras opostas que, ao som de cantos, sons de violas em ritmos sincronizados com palmas e sapateados. As cantorias eram temas do cotidiano: o trabalho, a vida social, os amores complicados e as saudades. 
Para o lexicógrafo Aurélio Buarque de Holanda, o Catira surgiu em meados do século XIX, originário do Cateretê (Coelho, apud Revista Viola Caipira, conexão eletrônica 19-03-12), e com ele concordam muitos pesquisadores, havendo, no entanto, outros estudiosos que apontam diferenças apenas regionais de denominações, além daqueles com opiniões diversas. 
Entende-se hoje, genericamente, Cateretê e Catira o mesmo canto / dança, aberto inclusive às mulheres, destacando que o Cateretê, trazido pelos mineiros ao Vale Paranapanema, era realizado dentro de clima respeitoso e de mensagem cordial, enquanto o Catira, embora o mesmo segmento cultural, buscava por desafios e insinuações em suas letras, às vezes até situações de desavenças.
A festa do catira ou cateretê, igual praticado hoje:
—"(...) inicia-se com o canto intitulado 'cabeçalho', que é uma saudação que se faz aos violeiros, entoando a mesma melodia da moda ao som de palmas e sapateados. Ainda neste início os violeiros e catireiros formam uma grande roda e continuam a sapatear. Quando a roda se completa há o retorno, onde cada um volta ao seu lugar com a mesma coreografia e a moda se inicia. Quando a moda termina, os violeiros começam o rasqueado, iniciando também o ‘recortado’. O catira sempre é finalizado com o 'recortado', uma letra marcada pelo humor. Durante o recortado os catireiros, acompanhados dos violeiros, ficam dispostos em duas fileiras e trocam de lugar a cada estrofe da moda, até que os violeiros cheguem aos lugares iniciais, indicando o fim da dança" (Coelho, op. cit. 19-03-12).—
As danças aconteciam, na maioria das vezes, à noite após um dia de trabalho - colheita de mutirão numa determinada propriedade, em festas e aí não tinha horário para o término, destacando-se que nas colheitas do milho verde, enquanto as mulheres faziam o curau e pamonha, os homens dançavam reservadamente.
Outro dança masculina era o Cururu - oriundo das catequeses jesuíticas, também palmeada e sapateada, tipo coreografia indígena com agrupamento em círculo, apresentada através dos cânticos de louvações aos personagens bíblicos e aos santos - ladainhas, contando suas histórias e grandes feitos, sempre com o canto iniciado de improviso por algum sorteado, ao som de violas, pandeiros e cavaquinhos, enquanto os demais dançavam. Se o cantador errava suas apologias, geralmente de propósito ou que merecesse ser aparteado, de imediato era repreendido por outro cantador - com um sutil repique de viola e assim iniciava-se um desafio.
A grande expectativa do Cururu era a predeterminação do cantador primeiro - chamado pedestre, e o seu parceiro que era sempre o três, enquanto o dois era escolhido para a réplica sendo o seu parceiro o número quatro. As definições eram aleatórias, por retiradas de números de dentro de um chapéu. O três sempre auxiliava o pedestre, e o quarto apoiava a opinião do dois, existindo ainda o provocador ou provocadores que incitavam os cantadores e a platéia:
—"Dentro desse universo chamado cururu, há um vocabulário específico, há personagens, formas de cantar e de tocar, histórias, rostos, e regras básicas, respeitadas por todos os cantadores. A principal delas é seguir rimas, ou seja, o primeiro cantador ou 'pedestre' puxa uma rima (ou carreira como é mais chamada) e os outros cantadores devem cantar nessa mesma carreira. Depois que todos os desafiantes cantam, volta a vez para o primeiro, o qual canta numa nova carreira que também deverá ser seguida por todos os outros cantadores. (...). Nenhum cantador gosta de ser 'pedestre' e por esse motivo se faz o sorteio. É o primeiro cantador quem testa o gosto e o humor do público com temas bíblicos, histórias, humorismo e demais temas, até descobrir o que mais agrada e ali permanece." (Viola Caipira, Cururu, artigo da Redação).—
No oeste paulista, Vales do Médio Tietê e do Paranapanema o Cururu chegou já modificado, sem o caráter unicamente religioso, para se tornar profano, com letras remetidas à natureza humana e explorações de defeitos.
Para Aluízio de Almeida a grande moda de cantorias em forma de:
—"(...) desafio geralmente em quadrinhas e dura dia e noite com grande assistência. O nome local é porfia. Há um interdependência entre os cantadores e os capelães. Capelães e cantadores ao mesmo tempo são os dois diretores da reza ou dança de São Gonçalo, cuja uniformidade coreográfica em todo São Paulo é bem uma prova de suas origens quinhentistas, difusão cultural desde São Vicente e São Paulo. A melodia é tristonha." (Vol. 147, 1960: 31), e durava dia e noite, geralmente de festas.—
A quadrilha, ou quatro pares, originalmente dança francesa de salão:
—"(...) se inseriu nas danças brasileiras e, passando por algumas adaptações, deixou o meio urbano e começou a fazer parte da vida rural e a ser peça fundamental nas festas juninas. (...). A encenação de um casamento na abertura da dança representa a celebração de aspirações matrimoniais, também ligadas às festas de São João européias" (Morais, 29/05/2008).—
No sertão a dança foi adaptada ao típico estilo sertanejo, dançando respeitosamente homem e mulher, sem formar par fixo, e as canções sempre acompanhadas de instrumentos: a viola, o cavaquinho, violão, gaita, zabumba e pandeiro. A sanfona ou acordeom somente foi introduzido com a chegada dos italianos.
A dança da quadrilha ainda permanece bastante ativa nas festas de junho e julho, e bastante representada nas escolas como folclore.
Sempre n'alguma festa familiar acontecia o baile, acompanhado das modinhas adaptadas e tidas precursoras da música raiz - esta surgida apenas nos anos de 1914. As danças eram alegres e, às vezes, acompanhadas de cantadores com habituais temas sertanejos dos amores complicados e das saudades, caracterizados por letras românticas e ingênuas.
Outras modas populares, acompanhadas por instrumentos de corda, eram cantigas rimadas e de fácil assimilação, associadas ao sistema de vida sertanejo em louvores à natureza, aos usos e costumes, o apego à terra, o respeito à família, as promessas de amor e a melhoria de vida para se conquistar o amor proibido pelas diferenças sociais. Essas toadas denotavam tristezas e lamúrias, enquanto outras, mais alegres eram próprias das tropeiradas e suas aventuras, às vezes improvisadas e provocativas transformando-se em desafios.
Nos ditos bailes familiares participavam homens e mulheres, dançando em pares, a valsa e a mazurca - esta uma dança polonesa importada para os salões da nobreza e aristocracia no início do século XIX, adaptada a um ritmo mais ligeiro e levada aos sertões, acompanhada de instrumentos da época e dançada em pares dentro de certas regras de respeito e moral.
As danças sociais realizadas em salões exclusivos a associados e convidados especiais, já eram comentados nos anos de 1880, com bailes memoráveis realizados em Santa Cruz do Rio Pardo, nas comemorações das vitórias políticas e recepções ilustres. 
Também existiam as casas populares de diversões, associadas aos bailes e atividades recreativas, inclusive jogos de mesa, com regras e respeitos acordados ou estatuídos, posteriormente sob as normas do Código de Posturas para o município, a partir de 1883. O Código de Santa Cruz do Rio Pardo firmava no artigo nº 84: "Ficam prohibidas as danças intituladas batuques ou fandangos, dentro dos limites ou quadro da povoação; multa de 20$ ao dono da casa ou encarregado, e 24 horas de prisão". Bastante apreciados, batuques e fandangos eram permitidos na Zona do Meretrício, então fora do limite urbano.
As danças públicas e festejos em salões próprios tornaram-se destaques por volta de 1887, sendo mais popular o Entrudo, antigo folguedo carnavalesco de divertimentos diversos, nos três dias que antecediam a quarta-feira de cinzas, acontecida principalmente entre os jovens, com muitas danças, pulos, folias, fricotes e músicas, com lançamentos mútuos de água de cheiro e substâncias moídas ou esfareladas destacando-se o pó-de-mico, as farinhas e o alvaiade. 
Geralmente formadas por blocos, grupos de pessoas, misturando-se brancos e negros, as festas eram excessivas, pelo consumo de bebidas alcoólicas e extravasamentos com manifestações impetuosas, diante de certa tolerância das autoridades.
Exclusivamente para jovens brancos, sexo masculino, existia o 'Jogo do Pau', tipo de diversão simulando luta de espada, com técnicas de manejos facilmente adaptadas às coreografias de várias danças.
Frequentemente usado para conflitos entre pessoas, a prática ou o treino do 'Jogo de Pau' tornou-se prática não recomendada pelas autoridades, tolerada, todavia, porque era uma das poucas maneiras de um branco se defrontar de igual para igual com negro capoeirista.
Proibido aos negros, o Jogo do Pau representava a luta [guerra] do rei português D. Sebastião contra os mouros, e as encenações se mostravam ritualizadas como guerra santa. Os brancos eram desde cedo iniciados nestas práticas.

12.  Cultura (sincretizada) afro/afrodescendente 
Os escravos negros tinham os seus festejos e práticas religiosas, evidentemente sincretizadas, em separado, destacando-se a Congada como drama onde figurantes representavam, entre cantos e danças, a coroação de um rei do Congo - Chico Rei e da Rainha Ginga de Angola que, aprisionados, foram trazidos escravos para o Brasil.
A convivência sertaneja do índio e o negro, ou mesmo a fusão deles pelos descendentes, trouxe ritmos variados para o sertão, por exemplo, o samba de terreiro que se diz adaptado na região de Campinas onde recebeu o nome de Caiumba ou Tambú, também chamada Umbigada ou Batuque Paulista, acompanhada de tambor, tronco de árvore ocado a fogo para reprodução de sons, acompanhados por matracas e pandeiros.
Originalmente dança africana da fertilidade, no Brasil adaptou-se com forte coreografia indígena, o que a torna diferente das diversas variações do samba:
—"A coreografia apresenta passos com nomes específicos: 'visagens' ou 'micagens', 'peão parado' ou 'corrupio', 'garranchê', 'vênia', 'leva-e-traz' ou 'cã-cã'. Os passos são executados por pares soltos que, saindo em fileiras, circulam livremente pelo terreiro. Mas, o elemento principal da coreografia é a 'umbigada', ou seja, quando o ventre da mulher bate à altura do ventre do homem. Os dançadores dão passos laterais arrastados, depois levantam os braços e, batendo palmas acima da cabeça, inclinam o corpo para trás e dão vigorosas batidas com os ventres. Esse gesto é repetido ao fim de todos os passos. No batuque não há batidas de pés e um batuqueiro não dança sempre com a mesma batuqueira. Após três umbigadas procura batucar com outra'-" (Volpatto, Batuque).—
A despeito de fortemente combatida pela Igreja, a Caiumba chegou ao sertão, 'com os leva-e-traz, cã-cã, corrupio e umbigadas', dançada por negros e descendentes indígenas, homens e mulheres nos terreiros ao redor de uma fogueira.
Homens brancos, de ou em outras localidades, participavam de danças do gênero, algo impensável para as mulheres brancas.
A dança tinha muito de sensualidade e letras marotas de protestos e indignações, representativas dos sofrimentos dos escravos em seu dia a dia, dos familiares apartados e distantes, dos amores proibidos ou arrancados, além das aversões expressas contra os preconceitos e as discriminações, vistas por alguns estudiosos como mensagens abolicionistas.
Não dançavam Caiumba os parentes de sexo oposto, nem os vinculados pelo compadresco. Qualquer erro considerado mais ousado pelo homem, ou acidental, este se ajoelhava e, de mãos postas, pedia perdão, mas se os erros fossem repetidos ou vistos intencionais, o praticante era convidado a se retirar.
A dança, em sua parte mais sensual, simulava atos libidinosos entre homens e mulheres, às vezes tão próximos que se falavam aos ouvidos; nesta forma ela invadiu e prevaleceu nas casas de prostituições por décadas no século XX.
Os negros celebravam a Festa dos Reis Magos, a Festa do Divino e a Folia dos Santos Reis, adaptadas à maneira da Congada, assim homenagens a Chico Rei e Ginga de Angola, símbolos da libertação, como tradicionais Festas do Rosário, comemorações sem dúvidas afrontosas ao clero e à sociedade escravagista. As festas negras eram gritos de liberdade e luta abolicionista.
Assunto polêmico, todavia não se pode ignorar a presença da Irmandade do Rosário e São Benedito 'dos homens pretos' no Vale Paranapanema, conseqüentemente em Santa Cruz do Rio Pardo, porque os escravos trazidos para a região procediam, assim como seus senhores, do sul mineiro, onde historicamente ativas as congregações de forros e cativos. "No Sul de Minas, haviam muitas irmandades (...), como por exemplo, a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário" (Padre Hiansen, 2003: 101) .
Evidentemente nada fácil juntar os retalhos para se reconstituir traços de uma cultura que a Igreja fez arrasar, mas em Santa Cruz do Rio Pardo os negros, escravos e forros, vindos de Minas Gerais nos primeiros tempos da formação regional, eram tidos, sim, simpatizantes da Confraria do Rosário, alguns membros, porque outra razão não teria destinar-lhes, documentalmente, um lugar denominado Largo do Rosário, para as suas reuniões e folguedos.
Em sua obra Junqueira declarou: 
—"A concentração maior de pessoas de cor negra verificava-se na '13 de maio', uma praça na Rua Conselheiro Dantas. Ali os homens de cor se confraternizavam sob a proteção da Irmandade de São Benedito. A praça, oficialmente, passou a se chamar Praça Coronel Marcello Gonçalves, a partir de 1893. Mesmo com a nova denominação a voz do povo consagrava como praça '13 de maio' e, mais tarde, ao patrono dos negros, São Benedito" (2006: 56).—
Naquele largo os negros se reuniam num terreiro onde erigido o abrigo que lhes servia de templo, para a prática de seus cultos e festas sincretizados sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito, conforme a Confraria:
—"A nova face da Irmandade desperta a antipatia das oligarquias, forçando setores da Igreja Católica a exercer todo o seu poder de coerção para a proibição de práticas estranhas aos ditames sacramentais" (Araujo Neto, 2009: 17).—
—"Para as irmandades, a construção da igreja ou capela resultava, sobretudo, da necessidade de compartilhar os interesses coletivos num espaço que lhes garantisse uma certa segurança. (...). A construção de um templo religioso próprio era tida como um dos principais meios para alcançar essa independência, permitindo aliar maior status à maior liberdade de ação (Scarano, 1976)" (apud Taynar, 2001: 173).—
Acerca do sagrado, aos negros não era permitido acesso às igrejas dos brancos, às vezes tolerados numa lateral do altar. Tal segregação religiosa determinava ao negro constituir, ou o branco lhe impor, espaços próprios de devoção, em lugares distantes do centro urbano, com o levantamento de uma capela, bastante simples, em volta da qual promoviam suas folganças denominadas Congos.
Cezerilo mostra os conflitos:
—"Essas irmandades tiveram o auge até meados do século 19. Depois disso, com o pontificado de Pio IX e o Concílio do Vaticano I, em 1869, a Igreja passa por uma transformação muito importante, conhecida por período de romanização. Essa fase é marcada por uma nova visão do papel do leigo no interior dessa instituição. Os negros que pertenciam às irmandades foram expulsos das igrejas, por eles mesmos construídas, e no lugar dessas associações foram criadas outras, mais de acordo com o espírito do Concílio" (Cezerilo, 2002: 1, apresentação).—
Sem exageros, o estudioso Martins ao pesquisar paróquias de São Paulo – período 1870/1900, conclui:
—"(...) isto se comprova sobejamente nas instruções aos párocos registradas nos livros de tombo paroquiais do final do século XIX - foi, aos poucos, introduzindo modificações no culto e nas cerimônias, (...), fundindo cultos e criando novas festas e devoções, aformatadas às manifestações da Festa do Rosário, a exemplo da Festa dos Reis Magos, Festa do Divino, Folia dos Santos Reis" (Martins 1995: 5).—
Araújo Neto apresentou as causas:
—"Nas celebrações das tradicionais Festas do Rosário, (chamadas de "oragas", que significa padroeira), é inegável a presença de imagens e ritos profanos, destaque para a música, dança, comilança e consumo de bebidas alcoólicas. Na verdade, a festa era momento único para os negros sentirem o sabor da liberdade, transgredindo normas e preceitos difundidos pelo Estado e pela Igreja Católica. Enquanto a Igreja pregava a libertação da alma, a irmandade estava mais preocupada em romper os grilhões que acorrentavam corpos de um povo, considerado inferior pelo simples fato de ter a cor da pele e a cultura diferentes da raça dominante. Portanto, a verdadeira antinomia existente entre a igreja e a irmandade ia muito além da mera heterogeneidade das concepções doutrinárias de ordens espirituais." (2009: 17).—
Os membros da Confraria lutavam pela libertação dos escravos, compravam a liberdade dos cativos, incentivavam rebeliões e protegiam negros fugidos levando-os às escondidas para os quilombos.
No Vale do Paranapanema onde os patrões e senhores usavam de engôdos para a continuidade cativa de seus escravos libertos pelo Fundo de Emancipação, ocorreu sem dúvidas, a confrontação entre a confraria e os escravistas.
Para o antigo Largo do Rosário, apenas a tradição deu lembranças ao orago São Benedito e ali uma igreja sob sua invocação, mas a praça teve seu nome de 13 de Maio, que se conhecia por Largo São Benedito, mudado para Octaviano Botelho de Souza, Lei Municipal 689, de 14 de abril de 1976.

12.1. Capoeira
Nos antigos quilombos, diziam, os líderes repassavam aos aprendizes os ensinamentos secretos de lutas ao som de ritmo musical - batuque, lento e de golpes baixos, sincronizados e muitos gingados. O estilo aplicado era para que o praticante chegasse de surpresa até o adversário e o atacasse eficazmente, tirando-o de combate.
O aprendizado era, portanto, ato de iniciação exclusivamente masculina, para ataques e defesas quando necessário. Os iniciados infiltravam-se nas senzalas plantéis, para treinamentos dos cativos, à noite e às ocultas, um tanto distante entre arbustos e matos, lugares denominados de capoeiras, daí a originalidade do nome. 
As fugas de escravos tornaram-se mais eficientes nos lugares onde ministradas aulas de capoeiras. Os brancos e senhores escravizadores obviamente sabiam dos acontecimentos e que os escravos tinham táticas de combates eficientes, e, em razão disto, as leis eram mais rigorosas contra algum capoeirista apanhado.
A Capoeira tornou-se melhor conhecida na Guerra com o Paraguai, onde o negro, muitas vezes tinha que lutar por ele e pelo branco, sendo comuns seus ataques sorrateiros e eficazes contra os inimigos paraguaios e índios guaranis.
Com o fim da guerra liberou-se a Capoeira para práticas em lugares próprios para os afros e afrodescendentes, como entretenimento. Acabara-se o ritual de secretismo do sistema de lutas, real ou não, ensinadas nos quilombos e levadas às senzalas.
Os senhores de escravos não ignoravam que os escravizados estavam aprendendo uma luta praticamente mortal, mas tinha a vantagem em saber quais os praticantes, e qualquer uso proibido da luta, os parentes dos praticantes poderiam ser punidos, com agravamentos de penas e até morte.
Após a abolição o praticante da Capoeira tornou-se praticamente fichado pela polícia, quase sempre revistado; medida ineficaz, pois o treinado não necessitava de armas, mas sabia usa-las bem, a exemplos de porretes, facas, facões e outros instrumentos cortantes, inclusive a navalha, sem perdas das destrezas das pernas e gingados.
—A navalha presa a uma fina corda artesanal ou barbante, era presa à coxa, e o treinado atirava-a com destreza no adversário, trazendo-a fechada; era o chamado 'jogo da navalha'.— 
A prática da Capoeira em público, como diversão, era proibida e assim manteve-se até 1937, quando liberada nos tempos de Vargas, mas. ainda assim, sob intensa vigilância.
A Capoeira original - denominada Angola, teve como seu representante o Mestre Joaquim Vicente Ferreira - Pastinha; e depois a Regional, pelo Mestre Manoel Reis Machado - Bimba, que treinado na Angola, criou seu próprio rito ao mesclar a malícia da Angola com movimentos rápidos, altos e acrobacias eficientes, ao som do berimbau, com danças e ritmos disciplinados. 
—Atualmente diz-se da Capoeira Contemporânea, união dos dois estilos com artes marciais importadas.—

13.  Medicina popular
No sertão, contudo, não eram tão somente festas e segregações. O povo da época se irmanava nos momentos difíceis e cuidava-se nas doenças, numa época bastante difícil diante da ausência do profissional médico.
Os sertanejos se contornavam baseados na experiência, geralmente familiar ou dos mais antigos, com aproveitamento de certas espécies vegetais, desde as folhas, frutos, sementes, às cascas e raízes, para beberagens em casos de males internos, ou ungüentos quando de problemas externos. "Nas doenças dispunham de uma infinidade de chás e ungüentos à base de raízes, folhas, sementes, sumos, etc. de real eficácia" (Jorge Junior, 24/09/1967).
Em casos de torções graves e quebraduras, faziam uso de talas, rígidas ou flexíveis, para imobilizações das partes de membros afetados. Os mais letrados tinham em casa exemplar do Chernoviz, o livro mais eficaz de receitas para todas as doenças conhecidas, e uma farmácia montada com vidros de remédios variados (Nogueira Cobra,1923: 148).
Chernoviz, conforme conhecido popularmente, trata-se de um Manual de Medicina, de autoria do polonês Piotr Czerniewicz, nome abrasileirado para Pedro Luiz Napoleão Chernoviz (1812-1881), e assim conhecido, servindo tanto para a ciência médica acadêmica, quanto aos leigos de melhores esclarecimentos. O mesmo autor publicou para médicos o 'Formulário ou Guia Médico' (1ª edição em 1841); em 1842 lançou exclusivamente para o público leigo, o 'Dicionário de Medicina Popular' (1ª edição em 1842).
As artes e os ofícios da cura no sertão de Santa Cruz do Rio Pardo chegaram com os mineiros, a partir de 1851, quando uma família ou outra a trazer entre os seus agregados os barbeiros, parteiras, curandeiros, cirurgiões-sangradores, dentistas, boticários e rezadores [benzedores e benzedeiras].
Todos esses sócio-profissionais tiveram suas importâncias e responsabilidades nos primeiros anos de sertão, com as parteiras predominando até as primeiras décadas do século XX.
A obra 'O Médico e o Cirurgião da Roça' (edição de 1857), de autoria do médico francês Luiz Francisco Bonjean, se tornou verdadeira obra iniciática de ciências médicas aos seus leitores. O mesmo Bonjean lançou depois, em 1866, lançaria com igual sucesso Os Primeiros Socorros.
Contudo, foram os benzedores e benzedeiras os mais procurados para curar doenças e anular os feitiços, recomendando, preparando e benzendo os medicamentos em geral chás, garrafadas e unguentos, através de experiências adquiridas de antepassados ou instrutores versados nas práticas curativas e do místico advindo do catolicismo popular. Aliviavam as doenças do corpo e os males da alma.
O censo de 1872/1874 apontou dois médicos no sertão - Paróquia de Santa Cruz do Rio Pardo, sem os identificar se formados, se remanescentes da 'fisicatura' - escola extinguida no Brasil em 1826, ou, ainda, se detentores de cartas autorizativas igualmente extintas, talvez fossem os 'sangradores' reconhecidos pelos sertanejos como doutores, num tempo que os atos médicos primavam mais pela observação clínica, o uso de medicações recomendadas e as medidas de saneamento e profilaxia.
Documentalmente correta a presença de profissionais de saúde médicos no sertão após 1876, no mesmo período que contados os farmacêuticos [formados, práticos e autorizados] e cirurgiões dentistas [formados, práticos e autorizados], numa época grassada por curandeiros, benzedores, parteiras e os práticos em pequenas cirurgias e medicamentos - 'garrafadas' - realidades em todo o sertão oeste paulista do século XIX.
—A 'garrafada' medicamentosa, empírica, era o meio auxiliar em debelar doenças, algumas vezes combinada com a homeopatia orientada nas obras dos facultativos Bento Mure, francês, e o português João Vicente Martins, ambos no Brasil desde 1840. Nestes processos, no sertão, além dos medicamentos homeopáticos e os chás e infusões tradicionais, os curadores ministravam orações ou induções com imposições das mãos - os passes.—

14.  As diferenças sociais pós Guerra com o Paraguai
Os sertanejos viveram os primeiros anos de sertão em relativa penúria, com dificuldades e necessidades mais ou menos iguais, todos com objetivos de melhores condições de vida.
Os homens do sertão se diferenciaram após a Guerra da Tríplice Aliança, quando os patrões trocaram suas residências nas fazendas ou nos bairros rurais por uma casa no bairro urbano.
O sertão vivia, já no período da Guerra, o expansionismo ocupacional de suas terras com chegadas de mineiros em grandes contingentes. Os povoados de Vale Paranapanema deixaram de serem núcleos populacionais apenas de pessoas amigas, parentas ou unidas em interesses, pois as famílias já não eram mais arregimentadas nem escolhidas por algum dos pioneiros, portanto sem saber se confiáveis e honestas, assim o sertão a experimentar conseqüências de crescimento desordenado, com gentes diferentes e de estranhos comportamentos, foras da lei e marginais que simplesmente resolveram chegar por ali, por refúgio e lugar propício para o exercício de embustes e engôdos contra gente inocente e de boa fé.
Mas foi dentro deste fenômeno migratório, nada bom e não de todo mau, que o sertão conheceu seu progresso expansionista, mesmo por motivação a Guerra do Paraguai, vinculado ao capitalismo nas relações povoamento e ocupação da terra, já evoluído a partir da cultura de subsistência para a exploração diversificada, isto é, da socialização produtiva ao incremento das atividades comerciais, estabelecidas como relações de trabalho, entre senhores e trabalhadores.
Nem todos vieram para ser patrão, portanto, sob ponto de vista desenvolvimentista ou de organização natural do processo disciplinador de mercado, ocorreu ali nova identidade da força de produção, ou seja, das leis da concorrência da terra e do homem. E tudo começou apenas com vontade de Theodoro vencer os obstáculos naturais, matar os índios, ocupar as terras e fazer vida no sertão.
O fim da Guerra do Paraguai historicamente assinala início de transformações na sociedade brasileira, fortalecendo o exército e instituições civis enquanto o enfraquecimento do Império, por conseguinte obrigado a reformas republicanas e abolicionistas de maneira atingir o ponto vital da economia brasileira, ainda centrada na mão de obra escrava.
Mas, o que efetivamente se viu no Vale Paranapanema foi a ocupação e a posse do espaço físico para fins de produção, com atenções voltadas primeiro para o mercado interno que se urbanizou, depois para o exterior, com isso a incrementar a agricultura e pecuária em maior escala.
O posterior ciclo do café, a ocupar grandes fazendas numa espécie monocultura, abriu espaço para prosperar, até em maior proporção, as lavouras de culturas diversas, quando o Vale Paranapanema ganhou atenções e Campos Novos tornou-se referencia, ao mesmo tempo corredor de passagem e/ou ponto de partida para lugares mais distantes, passou a bacia Capivara e chegar para lados dos rios Sapé, São Mateus e Anhumas onde os limites das terras do pioneiro. Projetou-se aí o povoado de Conceição de Monte Alegre, por ultima referencia rumo ao oeste paulista, para ampliação dos limites ocupacionais e, um pouco mais adiante no tempo, as partes do sudoeste paulista que também conheceriam a onda cafeeira.
Também as fazendas mudariam o seu visual depois de 1880, com o incremento da cultura cafeeira e, mais notadamente, a partir da abolição da escravidão negra, razões para as presenças dos imigrantes italianos
Foi o entusiasmo das vendas de terras que levou José Theodoro de Souza a demarcar um território, para "...outro patrimônio. (...). Era já tempo. De São José do Rio Novo até alli, caminhara cerca de doze legoas, distância que as duas futuras povoações conservariam entre si, de modo que uma não fosse, em território, prejudicada pela outra." (Nogueira Cobra, 1923: 53). O local escolhido viria se chamar, após alguns nomes descartados pelo tempo, Conceição de Monte Alegre.
Tal feito ocorreu em 1868, quando o pioneiro iniciava as vendas adiante do rio Capivara às margens do rio das Anhumas, efetivado através de escritura pública lavrada em 20 de agosto de 1873, demora ocorrida por discórdia quanto a exata localização do imóvel doado, obrigando o próprio Theodoro pessoalmente, em dezembro de 1873, escolher o lugar ideado para aquele propósito posto em escritura, com aquele nome primeiro de Nossa Senhora da Conceição da Boa Vista, futura Conceição de Monte Alegre (Giovannetti, 1943: 35); O registro da doação patrimonial somente viria se realizar em 1902.
Antes de Conceição tornar-se realidade, o ultimo ponto de parada, passado Campos Novos, era o patrimônio Cerimônia que, a partir de então, entrou em decadência até o desaparecimento.
Aquela viagem do pioneiro teria sido a ultima em seus domínios já fracionados, retornando para São Pedro do Turvo e de lá não mais sair até sua morte, menos de dois anos depois, por indígenas, a golpes de borduna, em 24 de setembro de 1875.
Apenas quase ao final da vida, Theodoro teria descoberto vendas não autorizadas de terras que eram suas e, para não criar embaraços, jamais às contestou. O vendedor era João da Silva Oliveira, cunhado e procurador do pioneiro.
As ações de Silva Oliveira prejudicaram Theodoro e herdeiros, através de vendas continuadas mesmo depois de seu falecimento, através de procuração que lhe fora outorgada e nunca revogada, com o intrujão a retroagir datas ou fazer uso de instrumentos particulares de vendas a rogo.
Quando da morte de Theodoro, em 1875, São José do Rio Novo [Campos Novos] era habitada por numerosas famílias com residência fixa, duzentos fogos ou mais diziam os antigos, "pessoas de alguma cultura intelectual (...) homens de traquejo da vida de cidade, entendidos em administração municipal e de política (...) não se incluíam tantos indivíduos analfabetos." Nogueira Cobra, 1923: 59-60), que por lá chegaram fugitivos do recrutamento, outros das conseqüências do pós-guerra e, então mais recente, aqueles que vieram em busca de enriquecimentos num lugar próspero, de bom comércio e forte incremento imobiliário, além de contar com profissionais do campo [agrimensores e engenheiros], trabalhadores autônomos [construtores, carpinteiros, ferramenteiros, artesãos, oleiros e outros], liberais [farmacêuticos, advogados e facultativo], religiosos e funcionários públicos [tabeliães, cartorários e arruador].

15.  Religiões acatólicas no sertão
Os autores entendem o cristianismo como uma das seitas messiânicas do judaísmo, segmento abraâmico monoteísta, centrado num Cristo Ideal, até lhe ser dada historicidade centrada na personagem Jesus, no século IV, e, a partir daí, a formação de nova religião distinta, na essência, porém vinculada nas personagens e profecias do credo matriz. 
Destrate, interpretou-a à melhor maneira, para a época e feitura, o surgente catolicismo apostólico romano, que soube unir os seguimentos de João - o batizador, com as diversidades judaico-cristãs e elementos do Mitraísmo e paganismo, para assim identificar uma nova religião com o estado. 
Mas, não é este o foco do presente trabalho sobre a formação do catolicismo e o seu primeiro cisma (1054), ou o movimento protestante de 1517, encabeçado pelo monge alemão Martinho Lutero; tão somente importam aqui as seitas surgidas do princípio luterano e dos reformistas independentes, destacado o francês 'Jean Cauvin  (1509-1564)' conhecido como João Calvino, cognominado 'o reformador suíço', do qual o ramo 'presbiteriano - cristianismo de orientação calvinista na Escócia', também denominado 'huguenotes na França, Puritanos na Inglaterra e Protestantes na Holanda'. 
—Prevaleceu a denominação Presbiteriana, adotada nos Estados Unidos [da América], de onde espalhada para as demais nações, entre as quais o Brasil, em 1859, pelo missionário Ashbel Green Simonton (1833-1867).—

15.1. Os presbiterianos
O presbiterianismo chegou ao ‘Sertão de José Theodoro de Souza’ - desde o Pardo santacruzense ao limite das posses do pioneiro-mor - trazido pelos mineiros, por volta de 1874: 
—"As primeiras incursões missionárias protestantes no Sul de Minas se deram em 1866, através dos colportores Miguel Torres e Antonio Pedro que na ocasião visitaram diversas localidades, entre elas Caldas, Borda da Mata, Pouso Alegre e Silvianópolis (...). Em 1867, andou também pela região o ex-padre José Manoel da Conceição, que foi o primeiro pastor protestante brasileiro ..." (Padre Hiansen, 2003: 103).—
O Censo de 1872 não identificou acatólicos residentes na paróquia de Santa Cruz do Rio Pardo, no entanto tradições apontam os primeiros presbiterianos, a partir de 1874, pelos membros das famílias Borges, Lopes, Lopes Martins ou Martins Lopes, Martins e Ribeiro, e mais tarde aos Souza e Pereira, que receberam a nova seita pelos seus parentes, visitantes ou que vieram ao sertão nos tempos pós guerra com o Paraguai.
Francisco Ignácio Borges, exemplificado, rico fazendeiro e senhor de grande plantel de escravos, cuja presença registrada na região santacruzense desde 1862, teve opção presbiteriana por volta de 1873, pelos parentes vindos de Minas Gerais, mas continuou escravocrata, a despeito da conversão de toda a família, e batizava seus escravos na Igreja Católica cujos assentos, documentos reconhecidos pelo estado, garantiam-lhe a posse sobre o seu plantel.
Não foi pacífica a convivência entre católicos e os 'convertidos' presbiterianos. Uma carta publicada num jornal da capital, de 17 de dezembro de 1883, acusava às autoridades o presbiterianismo local de arrebatar "jovens da religião catholica, em que foram creados, para unil-os na seita protestante!" (Correio Paulistano, 04/01/1884: 2).
Assuntos iguais até deram causas a processos judiciais: 
—"Na ultima sessão do jury, que teve logar na villa de Santa Cruz do Rio Pardo, entrou em julgamento o revd Georges Anderson Lands, ministro protestante, accusado de ter feito o casamento de uma menor sem o consentimento do pae. Defendido pelo Dr. Antonio Teixeira da Silva, advogado nesta capital, foi absolvido unanimemente" (Diário de Noticias, RJ, de 22/01/1888: 2).— 
Mas a protestante Carolina Cândida de Oliveira Borges, filha de Francisco Ignácio Borges, casou-se com o católico Joaquim Manoel de Andrade Junior, e o filho Daniel, aos 23 de março de 1890, foi batizado no credo católico, e aparentemente o casal não sofreu preconceitos ou discriminações sociais. Mais adiante na história, pelos lados de Conceição de Monte Alegre e Iepê, os descendentes de Andrade Junior e Carolina Borges são maioria presbiteriana.
O ranço religioso imiscuiu-se até na política santacruzense, quando nomeado para Suplente de Juiz Municipal o professo presbiteriano Francisco de Paula Martins: 
—"E por isso mesmo!, despedaçada a Constituição Politica do Imperio e todas as suas leis que são menosprezadas e propositalmente affrontadas por aquelles a quem a sua guarda e fiel observancia foi conffiada, a segurança individual deixou de existir, e só predomina a vontade, o capricho, o odio e cego desejo de mesquinhas vinganças, por toda a parte em pratica na mais vasta escala!" (Correio Paulistano, 02/08/1884: 1).—
O mesmo artigo, em outro excerto, defendia a nomeação:
—"O vice-presidente desta heroica provincia acabou de conffirmar quanto avançamos, escolhendo, no seio de uma população inteiramente catholica, o mais aceptico [aceptico] de todos os protestantes - Francisco de Paula Martins - para o 3º supplente de juiz municipal e orphãos deste termo".—
O periódico Imprensa Evangélica, São Paulo, edição de 06 de fevereiro de 1886, deu nota de 'negação de sepultura' ao filho de um crente, como chamado o presbiteriano, e enterrado na propriedade de Francisco de Paula Martins, membro da seita protestante (Imprensa Evangélica, São Paulo, 06/02/1886, Volume XXII: 46).
Prática comum no sertão, porém esta teve repercussão negativa pela imprensa, e desde então se arranjou lugar para os sepultamentos de presbiterianos, em campo segregado do cemitério católico, separado por cerca, onde o atual 1º Distrito Policial (2016).

15.1.1. Oficialidade presbiteriana em Santa Cruz do Rio Pardo
Reflexo de todo o Brasil e Província de São Paulo, no ano de 1889 a Igreja Presbiteriana marcou sua presença oficial também em Santa Cruz do Rio Pardo, aos 13 de agosto de 1889, com o Reverendo João Ribeiro de Carvalho Braga (Matos, 2009: 2), ainda uma ousadia, mesmo que a Igreja Católica Apostólica Romana já na iminência de não ser mais 'religião de estado', afinal não se mudam as tradições com imposições de leis, todavia inegável o avanço presbiteriano diante das 'conversões' de padres católicos.
—O segredo de confissão auricular fora maneira segura da Igreja inteirar-se dos fatos antecipadamente, e alguns padres, prevendo o pior, deixaram o catolicismo para assumirem ministérios presbiterianos, sendo tais informes colhidos de ex-padres.—
Os primeiros presbiterianos santacruzenses não tinham condições de construção de sede própria para a denominação, pois os terrenos todos eram patrimônios de "Santa Cruz e Santo Antonio e em partes dos quais estão situados a Vila de Santa Cruz e o Bairro [do São José] que faz parte da mesma vila" (Cartório Oficial de Registro de Imóveis ... - SCR. Pardo), portanto administrados pela Igreja Católica que não tinha interesse algum ceder local de edificação para a fé concorrente.
Em 1900 o Reverendo Othoniel Motta assumiu a Igreja Presbiteriana de Santa Cruz do Rio Pardo, e, de imediato requisitou da Câmara |Municipal um local para a construção do templo, no Largo da Matriz (Correio Paulistano, 27/10/1900: 3), bastante próximo do santuário católico, num tempo que os terrenos urbanos ainda pertenciam à Igreja Católica, que veementemente opôs-se às pretensões e a decisão camarária revogada.
Aos presbiterianos foi cedido, então, o espaço no cemitério desativado no ano de 1894 - parte não católica, que lhes fora doada em 1886 para sepultamento dos seus mortos. A primeira notícia para um templo religioso da seita no lugar ocorreu aos 6 de setembro de 1902:
—"Ja está firmado o contracto para a construcção da Egreja Presbyteriana desta cidade. Grande parte do material acha-se reunido no largo do cemiterio velho, logar onde vae ser contruido o templo." (Correio do Sertão, 06/09/1902: 2).— 
Na ocasião o Reverendo Othoniel de Campos Motta era o "(...) ministro da Egreja Evangelica Presbyteriana, desta cidade ..." (Correio do Sertão, 20/09/1902: 2).
Para a época e razões outras, talvez aquele não fosse mesmo o melhor lugar para edificação de um templo religioso, e, sem qualquer indicativo de oposição, os membros da seita conseguiram terreno à Rua Marechal Bittencourt esquina com a Rua Quintino Bocaiuva, e deram início à construção do prédio, sob a direção de Salathiel Ferreira e Sá:
—"Templo Protestante"—
—"Estão bastante adeantadas as obras do templo protestante em construcção nesta cidade".—
—"O elegante edificio, que està sendo construido sob a direcção do snr. tn. Salathiel Ferreira e Sá, por estes dias deve receber o emmadeiramento superior, que já se acha todo apparelhado" (Correio do Sertão, 18/04/1903: 2).—

15.1.2. O cisma presbiteriano de 1903
Pouco depois e ainda em 1903, em todo o Brasil, agravaram-se as dissenções entre os líderes presbiterianos, chegando ao cisma de 31 de julho e confirmado aos 16 de agosto 1903, com reflexos imediatos em Santa Cruz do Rio Pardo, surgindo daí a Igreja Presbiteriana Independente - IPI, com total adesão dos membros locais.
No cisma de 1903, o Reverendo Othoniel Mattos, já ausente de Santa Cruz, estava entre os sete pastores declarados do grupo independente. Foi ele um dos maiores nomes do presbiterianismo brasileiro, também: 
—"(...) diretor da Biblioteca Pública do Estado de São Paulo e professor de literatura luso-brasileira e filologia portuguesa na Universidade de São Paulo. Ocupou a cadeira nº 17 da Academia Paulista de Letras, que tem como patrono Júlio Ribeiro. Escreveu o livro de contos Selvas e choças, em que abordou a vida do sertanejo brasileiro, que conheceu de perto durante o seu primeiro pastorado, em Santa Cruz do Rio Pardo." (Portal Mackenzie, 'A atividade literária dos presbiterianos no Brasil', artigo assinado por Alderi Souza de Matos, com referências).—
Com o separatismo o ramo independente local manteve os objetivos religiosos e assumiu a sede construída, em 1903, somente livre das pendengas em 1914, e nela permaneceu até julho/agosto de 1950, quando, em terreno contíguo, inaugurado o novo templo à Rua Quintino Bocaiuva, esquina com a atual Avenida Dr. Cyro de Mello Camarinha (IPI SCR. Pardo, apud Debate nº 1406, de 16 de março de 2008). 
Por seu turno, a denominação 'Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB)', esvaziada pela cisão de 1903, construiria sua sede à Rua Joaquim Manoel de Andrade, algum tempo depois, inaugurada em 1931.

15.1.3. A Igreja Presbiteriana Independente - IPI
O hebdomadário 'O Contemporâneo', de 24 de julho de 1919, confirma cisão presbiteriana local ocorrida em 1903, ao anunciar: "A Egreja Presbyteriana Independente Brasileira solenniza, a 31 do corrente, o XVI anniversario da sua fundação" (Ano V nº 213).
Em abril de 1905 a Igreja Presbiteriana Independente organizava sua Escola de Instrução Pública, ensino laico, no aproveitamento da estrutura do seu templo para a 'escola bíblica' ou 'dominical' aos fiéis (O Progresso, Ano I nº 43).
Os católicos e presbiterianos [independentes] continuavam com algumas desavenças notórias marcadas por incidentes. Em 1903, o Vereador Presidente da Câmara, Advogado e Subdelegado, alter ego do chefe político Francisco de Paula de Abreu Sodré, mandou multar o Vereador e Comerciante Salathiel Ferreira e Sá, presbiteriano independente, por ter se recusado fechar seu comércio em feriado religioso católico.
Em 1916 os independentes queixavam-se das atitudes do Frei Lourenço, o que motivou evangélico  Paulo Cagnoto lançar-lhe desafio religioso: 
—"Tendo dirigido ao Revmo. Frei Lourenço, que de tempo a esta parte vem, do pulpito, atacando os humildes protestantes aqui domiciliados um convite, já repetido, para uma palestra publica a respeito dos principios religiosos que professa S. Revma, os quais se acham em franco antagonismo com as doutrinas puramente christãs, como até o presente não obtive de S. Revma. a fineza de uma resposta, talvez por não ser eu um doutor, mas um simples official marceneiro, profissão esta que foi honrada pelo Divino Mestre, sou forçado a vir a publico fazer conhecido o procedimento desse sacerdote, que, à falta de argumento solido contra o protestantismo evangelico, usa para com elle e seus fieis das mais descortezes referencias".—
—"Pouco importa a minha condição de official marceneiro. Escude-se S. Revma. na Palavra de Deus - a Biblia - ou fóra della, aceite o repto que aqui deixo novamente, e saberá que as cousas de Deus 'foram escondidas aos sabios e entendidos e reveladas aos pequeninos', S. Lucas, cap. X vr. 21".—
—"Ahi fica o convite" (O Contemporâneo, Ano II nº 69).—
Os ânimos foram, aparentemente, serenados, e a Igreja Presbiteriana Independente de Santa Cruz do Rio Pardo cresceu em número de fiéis, inclusive na zona rural.
Por volta de 1923 Sudário Machado, vindo do Mato Grosso para o Bairro Ribeirão dos Cubas, evangelizou primeiro o parente Antonio de Souza e, com a conversão deste, outros parentes e vizinhos também aceitaram o presbiterianismo, e assim, praticamente, todos os moradores do bairro tornaram-se membros da Igreja Presbiteriana Independente, com um templo na localidade, vinculada à de Santa Cruz.
—O primeiro templo erguido no lugar era de madeira, depois substituído por outro de alvenaria que subsiste até os dias atuais (2016), com programação evangélica semanal.— 

15.1.4. Confrontações religiosas entre católicos e presbiterianos em Iepê
Noutras povoações surgentes no oeste paulista, antes da laicidade do estado brasileiro, os acatólicos, os suicidas, as prostitutas e os negros eram sepultados para fora do espaço reconhecidamente cemitério oficial, mas poucos relatos são conservados.
Exceção, por certo, na atual localidade de Iepê, com denotada intolerância religiosa registrada em 1917, quando algumas famílias presbiterianas adquiriram terras no então denominado 'Sertão dos Patos', quando a 'Companhia Brasileira de Colonização' doou dez alqueires de terras para a fundação do patrimônio de 'São Roque da Boa Esperança'.
O patrimônio era, sem dúvidas, atrativo para o progresso e o evangélico 'Francisco Severiano de Almeida, o Chico Maria', desejou, às próprias expensas, construir uma escola para todos e que nela sua parentela pudesse estudar. Foi impedido de seus intentos, mesmo o professor sendo católico, porque os moradores entendiam que o patrimônio pertencia à Igreja Católica.
Os evangélicos do lugar tiveram outros problemas com os católicos, postos obrigados sepultarem os seus mortos fora do cemitério oficial. Relata a história que sepultado um presbiteriano, de imediato os católicos fizeram uma cerca isolando aquela sepultura.
Então os evangélicos propuseram-se criar outra povoação, com liberdade religiosa, e Chico Maria doou 10 alqueires de terras para a ereção do patrimônio 'Liberdade', no ano de 1923, denominação posteriormente mudada, em 1927, para 'Iepê [Liberdade em língua indígena]', por já existir outra povoação brasileira como igual nome Liberdade (Prefeitura Municipal de Iepê, História).

15.2.4. Queimas de bíblias em 1947
A ultima grande dissensão registrada entre católicos e presbiterianos em Santa Cruz do Rio Pardo, também envolvidas outras denominações evangélicas já existentes na localidade, ocorreu no domingo de 18 de abril de 1948 quando padres missionários, em missão religiosa, coletaram bíblias impressas por editoras evangélicas, distribuídas na cidade pelos líderes religiosos não católicos, lançando-as numa fogueira elevada para tais fins ao 'pé da cruz outrora existente na entrada da cidade - atual Avenida  ' Angelo Carnavale', que não é a cruz hoje existente no local.
O Reverendo José Coelho Ferraz, da Igreja Presbiteriana Independente de Santa Cruz do Rio Pardo, fez veementes protestos contra o ato sacrílego e insultuoso, através de publicações no informativo presbiteriano independente local, 'Chamas do Evangelho', edições de 1948. Demais evangélicos e líderes religiosos igualmente manifestaram suas indignações.
O acontecido em Santa Cruz do Rio Pardo não foi ato isolado, lembrando o Reverendo Ferraz de processos semelhantes em Poços de Caldas - MG, Catanduva e Quatá - SP.

15.3. Os 'alemães' luteranos
O luteranismo chegou a Santa Cruz do Rio Pardo, com algumas famílias alemãs, ainda no século XIX, aparentemente com os industriais irmãos Tolle - Ernesto e Augusto, nascidos alemães, por algum tempo estabelecidos na localidade.
Documento matrimonial eclesiástico católico de 1919 apresenta o consórcio do luterano Ernesto Tolle com a católica Alice d'Oliveira Pinto Ferreira:—"Aos 20 de Fevereiro de mil novecentos e nove nesta Cidade em Oratório Particular, depois de feitas as diligencias do estylo, e dispensados pelo Exmo. Sr. Arcebispo no impedimento de ‘cultus disparitas’, com licença minha o Revmo. Pe. Paschoal Maria Giffoni em sua presença e das testemunhas Dr. Ernesto Torres Cutrim [Cotrim]e Cel. Henrique da Cunha Bueno receberam-se em Matrimonio Ernesto Tolle e Alice d'Oliveira Pinto Ferreira ambos fregueses desta Parocohia. Elle protestante luterano, natural de Orsenfeld [Rosenfeld] (Allemanha) com trinta e oito annos de idade e filho de Henrique Tolle e Henriqueta Tolle. Ella natural de S. Paulo de idade de dezesete annos, Catholica Apostolica Romana e filha de Francisco Pinto Ferreira e de Augusta de d’Oliveira Ferrerira. Ambos assignaram os termos exigidos na provizão de dispensa, os quaes ficção archivados. Para constar fis este termo.
O Vigº Conego Sismondo da Cruz Dias"
(Fonte: Igreja Católica Apostólica Romana - Paróquia de Santa Cruz do Rio Pardo, Livro de Matrimônios 1905-1912 - imagem 81-82 - apud: https://www.familysearch.org/).—
O termo de 'Provisão para Dispensa do Impedimento de Matrimônio - Cultus Disparitas [Cultos Desiguais]', era bastante rígido, obrigando a parte não católica assinar o compromisso de educar os filhos segundo os preceitos da Igreja Católica Apostólica Romana; no presente caso Ernesto e Alice assinaram o termo.
Outrossim, notório que os pais de Alice eram donos do conceituado e pioneiro 'Colégio Nossa Senhora do Amparo', em Santa Cruz do Rio Pardo, exclusivamente para o sexo feminino, com forte influência católica, onde existia capela e de lá partiam ou passavam as procissões religiosas santacruzenses. 
O casamento foi realizado em 'Oratório Particular' e não na Igreja Matriz. 

15.4. Outros segmentos cristãos
O Censo de 1890, unificado Santa Cruz/São Pedro do Turvo, apresentava os primeiros evangélicos - 48 seguidores, sem identificar denominações, e o presbiterianismo com 126 membros.
Ao longo de décadas, no Século XX, surgiram em Santa Cruz seitas cristãs evangélicas, desde as tradicionais, como a Metodista e a Batista, aos pentecostais como a Congregação Cristã e Assembleia de Deus - tidas por alguns estudiosos como pentecostalismo clássico, estando a denominação por medianeira. 
As bençãos, o batismo com Espírito Santo e a distribuição dos dons eram agraciamentos divinos. Os crentes pentecostais, 'avivados'buscavam experiência direta e pessoal com Deus através do Batismo no Espírito Santo, formas de êxtases espirituais [ou mentais], como se as pessoas arrebatadas de si, nada homogêneos às vezes com distinções proselitistas dentro da própria seita, além dos privilégios desfrutados pelos dizimistas de maior poder aquisitivo e graus de estudos. 
A partir dos anos de 1950/1960 o movimento pentecostal ganhou forças com o ministério da Cruzada Nacional de Evangelização - Igreja do Evangelho Quadrangular, abrigando membros excluídos de outras seitas formando correntes internas de diferentes interpretações de textos bíblicos, que logo deram início às fragmentações denominacionais, com destaques para o santacruzense, Pr. Armando Trovatti - dissidente e fundador de sua própria denominação e marcou a história através de batismos, tardes de bênçãos, expulsões de demônios e curas de enfermos, tornando-se nome conhecido no meio evangélico brasileiro.
Pouco depois, outros grupos sob as influências dos grandes líderes como David Miranda, Miranda Leal e Manoel de Mello, com fortes presenças nos veículos de comunicação [rádios, inclusive ondas curtas], incitando processos de curas divina, enfatizando testemunhos. 
No ano de 1965, o norte-americano, Reverendo Steve Montgomery, presente no Brasil desde 1957 vindo do Japão, iniciou a Igreja Batista Independente em Santa Cruz do Rio Pardo, à Rua Major Gabriel Botelho (Montgomery, 1999: 13), nome bastante conceituado na sociedade santacruzense e no meio evangélico brasileiro.
Na década de 1970 já se iniciavam os programas evangélicos pela televisão, de excelente produção e bons pregadores estrangeiros por meio de traduções simultâneas. Um show.
Depois dos pentecostais e seguimentos, surgiram os grupos identificados como neopentecostais, com os ministérios das 'curas por reivindicações - exigir de Deus' e a 'teologia da prosperidade', com espantoso aumento das denominações de cultos oriundos de tantas dissidências, cada líder a formar sua denominação, até para causa de enriquecimento próprio.

15.5. Seitas ditas heréticas ou pseudocristãs
Vistas como pregadoras de doutrinas contrárias aos evangelhos, ou de particulares interpretações, ou, ainda, destoante aos interesses de seitas tradicionais, em todo ou em partes, alguns cultos de tais naturezas existem ou existiram em Santa Cruz do Rio Pardo, a exemplos e sem discutir méritos, a Congregação Cristã no Brasil, a denominação Testemunha de Jeová, os Adventistas da Promessa, enquanto a Adventista do 7º Dia já encerrou suas atividades no lugar. 
Os considerados heréticos são denominados, por alguns, como 'Seitas' enquanto as demais seriam 'Igrejas'. 
Ainda são contados em Santa Cruz os seguidores do 'Tabernáculo da Fé e/ou Tabernáculo da Mensagem', originárias no norte-americano William Marrion Branham, considerado heresia.
Também a 'Igreja Apostólica Santa Vovó Rosa' tem ou teve ministério em Santa Cruz, tipo culto miscelado e cuja patrona considerada 'dotada da plenitude total do Espírito Santo de Deus, para completar na terra as obras que Jesus não pode concluir.

15.6. O Kardecismo
'Kardecismo', em termos gerais e sem o aprofundamento desnecessário neste trabalho, é o termo usado que melhor identifica a doutrina reencarnacionista – na qual o espírito desencarnado, após período intermediário, retorna à existência terrena – conforme formulada pelo estudioso francês 'Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869)', conhecido pelo pseudônimo 'Allan Kardec', tido o 'codificador do espiritismo', numa perspectiva cristã para a evolução de caráter moral e intelectual do homem, num processo contínuo até à condição de elevada espiritualidade, etc.
O Kardecismo no Vale Paranapanema assumiu notoriedade a partir de 1886, visto como ciência e filosofia e não apenas religião, com sessões praticadas e frequentadas por intelectuais e entendidos - 'pesquisadores autodidatas', além dos apenas simpatizantes. 
Como religião, o Kardecismo é culto mediúnico, isto é, de comunicação com os espíritos de falecidos ou dos mentores - espíritos evoluídos, permitindo-lhes passagens e manifestos através de fenômenos incorporativos, e outras apresentações pela visão, percepção, formas ectoplásmicas, manifestos físicos e psicológicos, diretos e indiretos, sempre pela atuação ou disponibilidade humana em estados consciente, semi ou inconsciente.
Descendentes já idosos nos anos 1960/1970, contavam das sessões espíritas frequentadas por seus pais e avós, cujas manifestações de entidades espirituais nos passistas indicavam os males e possíveis curas, espécie de 'aloscopia', ou manifestantes nos próprios pacientes relatando onde instaladas as moléstias, ou seja, a 'autoscopia'.
O espiritismo no sertão era algo próprio dos intelectuais, brancos e ricos, extremamente racista, e até os ditos espíritos dos negros e indígenas não podiam manifestar-se à mesa, posto considerados não evoluídos espiritualmente, incultos e obsessores.
Os espíritas santacruzenses desde os últimos anos do século XIX até as décadas de 1920/1930, muito mais que religiosidade visavam fenomenologias; as sessões eram domésticas e restritas, típicas do denominado espiritismo científico, com estudos das fenomenologias à luz da Metapsíquica. 

A popularização do kardecismo como religião [pseudocristã na concepção dos autores] aconteceu com um grupo de abnegados sob lideranças de Argemiro Orestes da Silveira e Pedro de Almeida Gonçalves [Pedro Caco], com importantes nomes entre os frequentadores, a exemplos de Nelson Fleury Moraes, José Garcia, Felipe Zied, Sebastião Correa de Moraes e Augusto [Augustinho] Alóe. As mulheres Jacyra [Jacira] Ferreira de [e] Sá e depois Hilda Fonseca, foram destaques com grupos de senhoras espíritas voltadas à caridade. Jacira mantinha trabalhos em sua residência e foi doadora de terreno para a construção de um centro na Vila Saul, permutado com a municipalidade, onde se encontra (2016) a Escola Zilda Comegno Monte.
Inicialmente os espíritas santacruzenses foram unidos - União Espírita Santa Cruz, fundada em 19 de novembro 1950, de breve duração, e na dissidência, dois Centros firmaram-se, o Jesus e Maria e o Alan Kardec. 

Reconhecidamente altruísta e de obras caritativas, o espiritismo em Santa Cruz, no seu início, sofreu perseguições religiosas, o templo alvo de apedrejamentos e seus membros discriminados socialmente.


15.6. Culto de raízes afro-ameríndias

Os manifestos mediúnicos no kardecismo não eram diferentes daqueles praticados pelos negros no sertão, antes de 1870, quando aconteciam práticas religiosas advindas da mistura do catolicismo, com o feiticismo negro e crenças nativas, evoluídas das chamadas sessões 'Calundu', no ritual 'cabula', originariamente dos bantos e absorvidos por outros afros, afrodescendentes e afro-brasileiros, que trouxeram o culto para as regiões do atual sudeste brasileiro, incluso o sertão paulista da época.
Os indígenas livres que antes da invasão sertaneja mantinham seus ritos totêmicos, animistas e de pajelança, com características tribais próprias, quando dominados e postos em aldeamentos ou moradores em fazendas, suas práticas religiosas fundiram-se com as dos negros e do catolicismo popular.
O Candomblé e a Umbanda somente foram notados como religião em Santa Cruz do Rio Pardo nos anos de 1960, contudo não resistindo às perseguições, sobrevivendo através de cultos domésticos, com ritos mistos ou inventados conforme seus dirigentes.  

15.7. Os fanáticos ou exaltados
Santa Cruz foi palco, no final do século XIX, de religiosos místicos, como típico catolicismo popular, centrados no pessoalismo do líder e de reivindicação política ou restauração do império - monarquia.
Destacaram-se Francisco Izabel ou Francisco Catirina, conhecido como 'Frei Manoel', morto em 1892, e seu substituto Francisco Garcia - o 'Chico Gago', autointitulado como o 'São Sebastião' - redivivo, ou 'Missionário de Cristo', à frente do grupo 'Contingente da Reação' e, igual ao antecessor, seguido por multidão e velado apoio dos ricos, sendo o seu grupo também caçado e desmantelado em 1893. 


15.9. Sincretismos
Em Santa Cruz do Rio Pardo, em sua sede no denominado Largo do Rosário, hoje Praça Octaviano Botelho de Souza, os escravos e forros tinham autorização velada para culto próprio, o 'Calundu no rito Cabula', que se tornou prática mediúnica afro-ameríndio-brasileira, na forma sincrética cujas divindades representadas nos santos católicos, entendido por alguns como variante do Candomblé, ou, na visão kardecista, atos e manifestos do baixo espiritismo.
O sincretismo observado em Santa Cruz, desde os primeiros anos do século 20 caracterizaram-se como 'cultos mistos', ou seja, com cerimoniais individualizados e centrados no conhecimento e na vontade - personalidade e inspiração - do chefe religioso, sem uniformidade de ritos, embora os líderes, a partir de meados de 1950 identificados, erroneamente, com o Candomblé ou a Umbanda.

15.10. Alguns dos perseguidos praticantes de cultos raízes
Nos primeiros tempos, praticantes individualizados ou chefes de práticas mediúnicas afro-ameríndio-brasileira eram considerados feiticeiros, macumbeiros, curandeiros e outros designativos, de acordo com as 'especialidades' que lhe eram dadas.
Alguns nomes ou apelidos fizeram história:
-'Chumeada': uma mulher conhecida apenas sob a alcunha foi a primeira referenciada no sertão pela prática condenável do baixo espiritismo em Santa Cruz do Rio Pardo. Perseguida pela polícia e com ordem de prisão, por curandeirismo, 'Chumbeada' pôs-se em fuga (Correio do Sertão, 01/11/1902: 2), e dela não se ouviu mais falar. 
-'Zé Dias': - O afro-brasileiro José Dias de Melo [José Bezerra ou simplesmente 'Zé Dias'], oriundo do Estado do Rio de Janeiro - segundo o próprio, nascido em Garanhuns - PE, segundo assento eclesial, depois de breve passagem por Novo Horizonte - SP, onde se casou, chegou à Região do Paranapanema nos anos de 1930, residindo em Piraju, Bernardino de Campos e Santa Cruz do Rio Pardo, no Distrito de Caporanga [Monte Belo]. 
Considerado o maior de todos os chefes de cultos de raiz na região - 'Zé Dias' virou lenda, sempre acossado pela polícia, anatematizado pelas denominações cristãs e injuriado pela imprensa. O hebdomadário 'A Cidade (14/01/1945: 2 e 4)' dedicou-lhe extensa reportagem, matéria intitulada 'Curandeirismo', juntando testemunhos negativos e críticas às autoridades que não conseguiam prendê-lo. 
—Zé Dias tinha policiais entre seus seguidores e gozava de prestígios nos mais diversos segmentos da sociedade, identificado compadre do Presidente Getúlio Vargas, que batizou seu casal de filhos - Benedito e Benedita dos seus filhos em Petrópolis - RJ. Morreu no início dos anos de 1980, em Bernardino de Campos.— 
-'João Ciardulo': médium 'curador' acusado de embusteiro, foi perseguido e preso pelo Delegado Antonio Catalano (A Cidade, 21/11/1943: 4). 

15.11 - Nomes de alguns médiuns destacados
Nos anos 1960/1970 se destacaram, entre outros, certo Crispim - vindo de Dois Córregos; Denise da Silva; Zulmira [do Sacoco]; Josefa Reali - [Zefa de Ipaussu]; Luiz [Vermelho ou Luiz Gago] e Lourdes Machado. Todos os citados, embora federados, praticavam cultos mistos sob estranha identificação: 'Umbanda por fora Candomblé por dentro'.
Do final de 1970 a meado de 1990, Celso Prado, registrado, apresentou-se nas práticas de cultos mistos e de raiz, como formador de médiuns e atendimento público gratuito - 'consultório teológico-psicanalítico'.

16.  Domicílios urbanos
As casas de ricos ou fazendeiros quase sempre destacavam-se das demais, pelo tamanho, pela aparência e pelos cuidados. Não existiam as definições de estilos propriamente ditas; as casas eram elevadas, até pela aclividade do terreno, e avarandadas.
Imóveis  urbanos destinados aos trabalhadores seguiam padrão do tipo rural e eram muito iguais em suas divisórias, mas existiam latrinas, e as edificações assim eram vistas ainda em 1923:
—"(...) geralmente de taboa com vários orifícios e rachaduras onde podem penetrar todo inseto que assim o queira. Tem geral dois quartos mal iluminados mal ventilados e chão sem assoalhos. Elle é de terra ou tijolado e as vezes de taboa. Contem cada um duas ou três camas. Tem uma sala para tudo e para todos e uma cosinha regular. O quintal tem geralmente uma fossa fixa que serve para duas casas; ao lado, pouco distante um poço do qual retiram água. Este poço tambem serve duas ou treis casas. (...). Ahi moram 7 pessoas da mesma família. Cumpre mencionar porem que algumas outras casas são de taboa, offerecendo melhores condições sanitárias." (LC Abreu Sodré, 1923: 24-25).—
No quintal urbano quase sempre existia a pocilga para porcos de 'engorda', e compartimentos das crias, sendo comuns porcos pelas ruas do povoado. As aves de quintal, galinhas, angolas, patos e perus, eram criadas soltas e, a depender do espaço, ainda criavam caprinos - que não raramente perambulavam pelas ruas, e pelo menos um animal de transporte - equino ou muar, num pasto arrebalde ou cocheira.
Também comuns os cômodos para guardas dos arreamentos e os artigos necessários e destinados ao trabalho agrícola, de pastoreio, ou de passeio. 
A horta e alguns pés de frutas, goiaba, laranja, jabuticaba e abacate entre outras, eram comuns numa propriedade familiar urbana. 
Batedouros de roupas ficavam ou à beira de algum regato ou do reservatório de água (poço ou cisterna), retirada por um vasilhame apegado com peso na ponta de uma corda presa ao sarilho com uma manivela para subir a descer o corote ou balde para coleta.
Na zona urbana santacruzense, as mulheres lavavam suas roupas no Ribeirão São Domingos (LC Sodré, 1923: 17), pouco acima do chafariz; à margem do Rio Pardo - num imaginário entre as atuais vias públicas da Conselheiro Dantas em direção à Marechal Bittencourt; e, nas colocações de Rios, no terreno para a atual Praça Dr. Pedro Cesar Sampaio (Rios, 2004: 18), onde existia o tanque coletor de água que chegava por meio de rego, segundo as tradições. 
A despeito de reservatório de água na citada praça, antes dos anos de 1900, cumpre a anotação que em 1902 reivindicava-se um chafariz, para o lugar:
—"(...) necessidade reclamada pelo publico que reside na circumvisinhança da praça Marechal Deodoro, o qual, para não beber a agua das cisternas, precisa ir muito longe buscal-a, sendo que os demais pontos da villa, tem mais ou menos perto, agua para beber" (Correio do Sertão, 21 de junho de 1902: 1).—

17.  Apresentações familiares e sociais 
O homem do sertão se vestia simples, chapéu de couro ou de palha trançada - palha de arroz ou de milho; camisa de algodão simples e abotoadas na frente, gibão - que o cobria desde o pescoço à cintura, mais apropriadamente um casaco que se vestia sobre a camisa; usava a guaiaca dobrável e com pequenos bolsos, ou tipo cinturão, um quanto o outro adequando para carregar dinheiro, documentos e preparadas para o porte de armas e munições. Calçava botas de cordovão - couro curtido de veado ou cabrum; vestia calças retas em algodão e ceroulas. Para dormir colocava o camisolão ou apenas ceroulas.
Bastante raro o uso de sapatos e estes eram feitos por profissionais e, geralmente, na cor marrom, utilizado em situações especiais - festas ou participações religiosas de casamentos, batismos ou missas usavam-se. Nestas ocasiões o homem portava camisa com gola, casaca ou, mesmo, o terno com colete.
Giovannetti (1943: 133 / 135),  descreve o trajo sertanejo masculino: camisa e calça de algodão duro protegidas pelo gibão e sobre calças de couro; também trazia chapéu de couro, trabuco posto no marchetado cinturão de onça pintada, alpercatas e na algibeira trazia o isqueiro de pedra e o rolo de fumo, enquanto num picuá a paçoca com carne de porco; às ocultas sob aquelas vestimentas, certamente o afiado punhal e a inseparável garrucha, sempre ao alcance ágil das mãos, um costume antigo de homem prevenido. As selas e tralhas de montarias e uso no lidar com gado eram feitas por seleiros, mas alguns homens tinham habilidades em fazer selas caseiras e eram excelentes trançadores de laços. A espora tratava-se de instrumento feito em metal e posto no tacão do calçado para instigar a montaria. Para os tempos chuvosos usavam capas feitas em couro.O relho, popularmente chamado 'reio', dizia-se do chicote de couro trançado ou em tiras e tinham formatos diversos e nomes variados, sendo popular o 'rabo-de-tatu', objeto mais curto de fácil manejo quando apenas em cavalgada, ou mania de andar com um deles na mão e que até serviam de arma ou ostentação.
O homem comum quase sempre usava barba e cabelos desgrenhados, mas os ricos tratavam-na e aparavam os cabelos com freqüência nos bons barbeiros da época. Os homens bem sucedidos ostentavam relógios de bolso, verdadeiras jóias trabalhadas, enquanto o pobre raramente portava um e, muito mais simples.
A mulher tinha recato no vestir do dia a dia, tipo baeta de algodão, vestidos retos de tecidos em algodão, mangas longas, lenços na cabeça e calçava alpercatas. Em ocasiões especiais valia-se do destaque sobre o vestido, sendo mais ou menos comum portar chapéu simples para proteção do sol.
Existiam fazedores de calçados femininos em couro - vaqueta, e algumas mulheres faziam os próprios sapatos, tipo salto raso, entre 2 a 5 cm, biqueiras redondas ou quadradas, raramente pontiagudo ou de salto mais elevado, estes dois tipos mais entregues aos profissionais do ramo. Não eram raros os sapatos feitos em palha ou tecidos, mais próprios para festas e participações de igreja, com certa predileção pela cor vermelha.
A mulher usava roupeta ou camisola de mangas longas já algumas com mangas curtas. Roupas íntimas para a mulher: as calçolas - ceroulas que iam até abaixo dos joelhos, e os corseletes que sustentavam os seios. Já se usava a anágua - saia de baixo, feita em tecido, substituindo a crinolina - tecido rígido de crina para entufar a saia.
Moçoilas casadouras valiam-se, ainda, do espartilho feito em lâminas de taquaras em substituição às barbatanas de baleias. O espartilho ajustava-se ao corpo para  comprimir a cintura.
A mulher raramente cortava os cabelos e, na rotina do dia, enrodilhava-os  formando belos coques. Em ocasiões especiais faziam tranças. 
Os trajes de crianças eram os tipos picotes, os meninos usavam calças curtas e as meninas imitavam os trajes das mães. O menino usar calças compridas significava quase um rito de passagem da criança para o adulto, embora ainda adolescente.
As meias eram feitas em tecidos finos e costuradas, algumas em tipo tricô e algumas mulheres usavam um bastão próprio, em madeira, ferro ou bronze, chamado 'canhão de fazer as meias', peça fixada na roca de fiar.
Pentes e artigos de enfeites fabricavam-se artesanalmente aproveitando os chifres bovinos. Bons chifres podiam ser usados como vasilhames para se tomar água ou outras bebidas; os tropeiros carregavam as suas - chamadas guampas, amarradas numa tira, para, de cima de sua montaria pegar água do rio ou da mina. Os berrantes, para tangerem o gado, eram feitos de chifres longos e, alguns, verdadeiras obras de arte. Os homens negros e índios escravos usavam calções e camisas de algodão rústico, enquanto as mulheres vestiam-se de maneira simples e numa só peça exterior. Ambos sexos usavam lenços na cabeça pra proteções do sol.
Os mascates ditavam as modas no sertão, traziam fitas, chapéus, pentes, adornos, tecidos, mantas, cobertores, bijuterias, lenços coloridos, chapéus masculinos e femininos nos diversos modelos, artigos de cama, roupas feitas para homens e mulheres, linhas, agulhas e modelos para crochê conforme a 'última moda francesa', enxovais completos para as noivas, coletes, corpetes e toda sorte de novidades para as senhoras, fazendo sertanejo ousar mais nas cores e novidades em artigos mais finos e de melhores qualidades.
Os mascateiros traziam suas mercadorias por via férrea até a estação mais próxima de onde desejavam, por exemplo, a partir de 1875 e até a chegada dos trilhos em Botucatu, paravam em Rio Claro, de onde saiam seus carretões e carros de bois com as mercadorias para vendas, fazendo o gosto do sertão, e assim aproveitavam para comprar mercadorias - às vezes no sistema de trocas, e no retorno vinha recolhendo-as nos carros vazios, enquanto os escravos conduziam cargas vivas. Por coincidir propositadamente suas visitas com as safras, eram conhecidos por safristas e formavam verdadeiras corporações ou associados, alguns até com exclusividades para determinadas regiões.
Com a presença dos italianos as mulheres brasileiras 'aprenderam' a praticidade das saias, blusas e aventais, lenços e chapéus variados.
As roupas funcionais passavam-se com 'ferro a brasa', ainda que alguma ou outra família que utilizavam do ferro à água quente [fervendo], para as peças mais finas ou sofisticadas.
A empresa americana Black e Decker ressalta que "o ferro de passar propriamente dito tem suas primeiras referências a partir do século XVII, com o ferro a brasa. Somente no século XIX surgiram outras modalidades como o ferro de lavadeira, a água quente" (2009: 1). 
Passar roupa a quente, num vasilhame  com brasas, foi invenção chinesa.
O hábito de se usar roupas engomadas, especialmente em festejos e cerimônias religiosas,  livravam-se do 'ferro quente'  ao fazer-se alisamento a frio usando um bloco de vidro, de madeira alisada, de pedra 'fria' polida ou de mármore.
Nos bairros ou nas fazendas as casas eram e funcionavam assim, conforme descritas, servindo às famílias e/ou aos indivíduos como estratégias específicas de sobrevivência, numa época quando o princípio de formação santacruzense era agro-pastoril e escravista de negros e indígenas, sustentando-se nos primeiros anos através da economia de subsistência pelo meio da produção de arroz, milho, feijão, mandioca e dos produtos animais

18.  O urbanismo a partir de 1887
Com as migrações mineiras entre 1865/1874 para a região de Santa Cruz do Rio Pardo, especialmente em causa da Guerra do Paraguai e as consequências, apresentaram-se novos mineiros compradores de terras, para residir na área adquirida e assim diretamente trabalhar e administrar a propriedade.
Esses fazendeiros, duas décadas depois, enriquecidos e velhos, experimentando a calmaria política, optaram pela residência urbana, para os estudos dos filhos e melhores opções de vida, unindo-se àqueles que chegavam após os anos de 1880. 
Então as construções das casas de fazendas ganharam outras características.
Malgrado a diferença de estilos, pois que nunca houve um padrão arquitetônico regional para as residências da época, as construções das novas moradias ou reformas e ampliações das antigas, percebiam-se características das casas construídas elevadas do solo, ou em desnível, deixando um vão - espécie de porão aberto em todo ou em parte, aproveitando-se o espaço  para guardar as carroças de uso familiar, as lenhas e outros apetrechos necessários no dia a dia, além de abrigo às aves e animais domésticos de pequeno porte. 
As residências adquiriram outro predicado comum, as grandes varandas para a entrada da casa. Nestas construções se viam amplas salas e copas [onde a mesa para refeições], o quarto do casal, os distinguidos para os filhos e filhas, um dormitório aos hóspedes eventuais, e um cômodo conjugado - quarto / varanda aos fundos, ou anexo à construção principal, para a moradia de membro da família, idoso ou dependente.
Uma seguinte melhoria introduzida, quase sem exceções, as cozinhas eram destacadas, porém interligadas à casa, via de regra por lanços [degraus conforme o desnível], num nível mais baixo para se evitar desconfortos produzidos pelas fumaças engorduradas. Numa ou outra construção uma escada interna ligava diretamente o porão com a cozinha.
Certas casas apresentavam, ao mesmo plano da cozinha, uma área de serviço e, nas residências de melhor conforto, o reservatório subterrâneo de águas potáveis, mas o poço quase sempre se situava sob uma cobertura, fora dos limites da residência, pelos perigos do desmoronamento.
Poço individual não se prestava como regra comum, e sim o coletivo para famílias residentes próximas. Santa Cruz não se prestava para bons poços, e então iam buscar água nas minas, ou nos rios. Sempre que possível, trazia-se a água de uma nascente ou de um regato desviado através de canalizações em regos cavados ou bambus.
Algumas áreas de serviços possuíam um cômodo no subsolo, todo de terra com armações especiais, para armazenamento de bebidas [engarrafadas ou colocadas em vasilhames de barro], legumes, frutas e conservas que, se colocadas no início do inverno e cobertos com palhas, mantinham-se refrescados e sadios até a primavera. Não se tratava apenas de um buraco cavado no solo, porque um conservador subterrâneo exigia conhecimentos e técnicas para sua construção, como a proximidade com lençol freático, tipo de solo / subsolo e a segurança do cômodo para evitar arrasamentos, entre outras exigências encarecedoras do projeto.
O Conselho Europeu de Jovens Agricultores (Ceja, 2009: 12), traz aclaração técnica sobre tal sistema de antigo método de conservar alimentos, ainda observado na região santacruzense, no bairro rural Jacutinga, nos anos de 1970/1980. Em algumas regiões de Paraguaçu Paulista também eram vistos dispositivos iguais em bairros rurais, principalmente vendas.
Para o banho existia um ambiente anexo, geralmente próximo da cozinha, com janela de comunicação a facilitar colocação de água morna num corote ou lata de 20 litros aproximadamente, que se transforma num aspersor improvisado. Com a chegada dos funileiros os 'chuveiros' - baldes com as duchas acopladas ganharam destaques de conforto.
As melhorias introduzidas não eliminaram alguns transtornos. O local para as dejeções era o desconforto para qualquer residência, rica ou pobre, tanto nos bairros, quanto nas fazendas; naqueles tempos usava-se a latrina, um pequeno cômodo coberto, assoalhado e com um buraco central ou assento sobre escavação no solo aonde lançados os excrementos.
O uso de latrina sempre foi constrangedor e dificultoso. À noite os dejetos eram colhidos em penicos para lanço na manhã seguinte; em dias de temporais a regra estava em se segurar ao máximo, principalmente para as mulheres.
Construída via de norma distante da casa, pela importunação fétida e das moscas e outros inoportunos, a latrina nem sempre estava localizada à jusante do poço de água, assim inevitáveis contaminações da água servida para a família. Algumas latrinas estavam próximas dos chiqueiros para mascaramento dos odores.
Diziam os antigos que algumas famílias rurais construíam as 'casinhas' elevadas do chão, sem nenhuma cavação, e as dejeções eram consumidas por porcos e aves; outras usavam as moitas para as necessidades, e os excrementos ficavam igualmente disponíveis àqueles animais. Sem dúvidas tais procedimentos, ainda observáveis no primeiro quartel do século XX (LC Abreu Sodré, 1923: 24-25), eram focos certos de verminoses severas, sendo comuns os chamados 'vermes do amarelão e da barriga d'água'.
Outra grande dificuldade estava em enfrentar a escuridão, e para isto usavam-se as lamparinas 'movidas' por gordura animal - um vasilhame onde colocado o óleo animal e tapado por cortiça ou madeira leve, pela qual passava o pavio responsável pela produção da chama. Enquanto houvesse gordura e pavio, a luz existia.
Algumas famílias valiam-se do candil preso à parede ou suspenso, com recipiente de barro ou ferro, envolto em folha-de flandres, abastecido com banha de porco na qual se embebia um pavio para nele por fogo, ou o óleo do carrapicho, excelente para este determinado fim. Outras usavam velas de sebo animal, sem descartar as lamparinas a óleo / gordura.
Com a descoberta do petróleo, desde 1860, o querosene passou a ser empregado em substituição ao óleo animal, porém artigo de luxo nos rincões mais distantes dos centros comerciais, pelo menos nos primeiros anos. O querosene podia ser usado em lamparinas, porém  melhor utilizado nos lampiões, com a chama protegida  por um tubo de vidro no qual a circulação de ar enriquecendo o oxigênio, com isso uma melhor luminosidade, além da vantagem do regulador da chama. O uso do gás acetileno somente chegaria para Santa Cruz do Rio Pardo no final do século, ainda assim apenas para a iluminação pública, preferindo os moradores o uso doméstico do querosene até o advento da energia elétrica.
No século XX, já no primeiro decênio foi inaugurada a energia elétrica, as primeiras experiências com fogão elétrico viriam quase em seguida, mas sufocadas pelo advento do fogão a gás já no brasil desde 1901 mas que se popularizou  nos anos de 1930/1940, com sucesso e praticamente em todas os lares de classe operária em 1960.
A geladeira, desde 1927/1928 no Brasil, já existiam nas casas comerciais de vendas de frios e açougues nos anos de 1940.
Os chuveiros elétricos demoraram um pouco mais, sucedendo o chuveiro aquecido a gás. Mesmo com os ditos chuveiros elétricos automáticos, isto é ligando simultaneamente com a passagem da água, invenção jauense - de Francisco Canos Navarro, dos anos de 1940, Santa Cruz tinha o problema de não ter abastecimento de água encanada ainda nos primeiros anos de 1940. Em 1955 os chuveiros elétricos já comuns.
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