domingo, 20 de dezembro de 2009

44.2. São Domingos: 'comarca imperial e eclesiástica do último sertão'

1. Ponderações
Cruzeiro provavelmente de 1834/1856, visto em 2017
no cemitério abandonado da extinta Tupá.
Foto de Lorana Harumi Sato Prado
As entranças para o sertão Vale do Paranapanema passavam pelo povoado de São Domingos, que durante uma quinzena de anos foi sentinela e fortaleza do sertão [1835 a 1860], e a manter até 1873 sua importância eclesiástica de todo o rincão adiante.
Com a elevação de Santa Cruz do Rio Pardo à condição de Freguesia, em 1872, e Paróquia no ano seguinte como nova Vigararia, São Domingos perdeu a ostentação eclesiástica e civil.
O vilarejo entrou em decadência, aos poucos, perdendo sua importância e teve destino selado com o advento da república, e novos nomes lhe foram dados, até que finalmente Tupá, o qual de tal maneira fundiu-se à denominação primária do lugar, que ainda hoje, embora extinto desde 1938, referenciam-no como São Domingos do Tupá.
Lendas e mistérios cercam o lugar e cativam os historiadores:
—"As verdadeiras origens de Tupá talvez nunca sejam reveladas. Sua memória e sua história estão sepultadas para sempre nos túmulos destruídos e sem registros abandonados naquela gleba no pequeno distrito de Domélia" (Sérgio Fleury Morais, REVISTA DMAIS, Ano 1 n.º 3 – fevereiro de 2004: 11, 'Tupá, Em Busca da Cidade Perdida', encarte Jornal Debate edição nº 1.195).—

2. Das antigas
 lendas 
Rego de pedras condutor de águas - técnica jesuítica
adotada em antigas povoações. Acervo SatoPrado 
Dentre as tradições, uma  indicava o local como antigo retiro da Fazenda Jesuíta (1719/1759), com invernadas para criar gados e ranchos para bem servir os trabalhadores e aqueles por ali em trânsito, como os bandeirantes, entradistas, itinerantes e tropeiros. 
A dar crédito aos relatos de antanho, lá seria a ultima povoação da ultima vila [Sorocaba], a partir da Serra de Botucatu, à qual se referiu o célebre bandeirante Bartholomeu Paes de Abreu, em 1721, num documento à Câmara de São Paulo para reivindicar o seu caminho para as 'Minas de Cuiabá'.
Diziam que tal lugar, um bairro rural com característica urbana, fora construído pelos padres, com passagem de água pelo desvio de um riacho, em canal feito em pedras, num rumorejo constante como leve trovejar ou rumorejo, razão do topônimo indígena Tupá, em contraposição a Tupã - forte trovão - associado ao deus cristão pela reverência naturista tupi.
Para os nascidos em 1890, que ouviram as histórias dos mais antigos moradores do lugar, teriam sido os padres, que eles mesmos não conheceram, os construtores daquela obra que lembravam sistemas de abastecimentos de águas para Pedra Ferro e Sobrado, conhecidos bairros rurais da outrora Fazenda Jesuítica em Botucatu.
Se os padres foram ou não construtores em São Domingos, não se sabe. O pecuarista Henrique Dyna, ex-cartorário de distrito, ao dizer da povoação dos anos de 1930, lembrava em funcionamento aquele canal condutor, todo em pedras, conhecido como 'Água das Pedras' (Revista D Mais: 10).
Apesar dos relatos e coincidências, as tradições seriam frágeis para remontar ao século XVIII as origens de São Domingos [do Tupá]. Historicamente não procede e nem a propriedade dos padres chegava a tanto, sequer descia a serra.

3. Resgate histórico - a verdade acerca do lugar
Quando o tropeiro e afazendado Joaquim da Costa Abreu, em 1834/1835, garantiu aos fazendeiros botucatuenses relativa segurança contra os perigos indígenas, o sertão tornou-se atrativo para posses adiante  da serra e nisto, entre outros, aventurou-se o Capitão Apiaí - Ignácio Dias Baptista, para ocupar campos e matas desde as cabeceiras do Turvo e abaixo, inclusos os ribeirões da Forquilha e São Domingos desde as nascentes e vertentes. O todo apossado foi dividido em duas propriedades, cujas sedes se tornaram bairros rurais distintos, Forquilha e São Domingos.
Alguns historiadores entendiam Forquilha e São Domingos um só lugar. Valdeci Correa de Freitas, professor e historiador, no título 'Lucianópolis: sua terra e sua gente', destacou que São Domingos era a mesma localidade conhecida "mais primitivamente por Bairro da Forquilha, na época pertencente a Botucatu (CD: A/A).
Bairros rurais vizinhos, nunca o mesmo:

3.1. Forquilha - bairro rural que se confundiu com São Domingos
Documentalmente tem-se informações de Forquilha, numa transação de terras em 1845: 
—"Flávia Domitila Monteiro, viúva de Ignácio Dias Baptista, vende a Silvério Gomes dos Reis (...) huns campos denominado Turvo e Mattas adjacentes ao mesmo campo no distrito d’esta Villa de... '(a vila é Itapetininga)'... em Sima da Serra de Botucatu (...), a qual parte sua divisa hé a seguinte = principiará nas cabeceiras do rio Turvo, por este baixo thé o ponto da matta onde se considera adjacente ao mesmo campo e por esta matta adiante thé entestar nas flardas do Serrote, e por este adiante athé a supra dita cabecceira do Turvo; ficando livre e d’esta venda qualquer parte que pertença a Invernada da Furquia" (Pupo e Ciaccia, 1985: 6, documento D 2, Campos do Turvo).—
Invernada tinha o significado de paragem, como lugar onde "constroem cabanas perto do local onde pastam os animais (...). Em geral esse nome é dado a locais em que as caravanas param durante algum tempo." (Saint-Hilarie, 1940: 270 [287]), mas também significava ajuntamento de moradias, sede de fazenda ou bairro rural. 
A 'Invernada da Furquia', adequadamente Forquilha, em algum tempo foi bairro rural evoluído de sede de fazenda. No ano de 1859 o Bairro da Forquilha era 'Quarteirão Eleitoral da Freguesia de São Domingos (Lista Geral dos Votantes da Freguesia de São Domingos no Município de Botucatu, ano de 1859, DASP/BT').

3.2. São Domingos - povoação distinta de Forquilha
No ano de 1851, 19 de dezembro, Francisco Dias Baptista, filho de Ignácio Dias Baptista e Flávia Domitila Monteiro, vende aos irmãos Joaquim Manoel de Andrade e Manoel Joaquim de Andrade: 
—"Uma fazenda de campos e matas no lugar denominado São Domingos. Principiando na barra do Rio São Domingos, e por este acima, até as cabeceiras, e daqui em rumo a procurar uma Floresta que sai do Ribeirão de Forquilha, e por ela abaixo, até onde faz barra no Turvo, e por este abaixo, até encontrar a barra onde teve princípio esta divisa." (Pupo e Ciaccia, 2005: 136: E-30).—
São Domingos, como povoação, inseria-se nessa propriedade. "A primeira povoação a se formar no Oeste foi São Domingos, nas cabeceiras do rio Turvo, por volta de 1835 e elevada a freguesia em 1855" (Dantas, 1980: 23); errado quanto a segunda parte, pois a condição de freguesia foi dada a São Domingos aos 20 de abril de 1858, pela Lei Provincial nº 27.
São Domingos, em 1852, identificava-se como sede do 12º Quarteirão Eleitoral de Botucatu, o segundo regional maior, com 44 votantes (Pupo e Ciaccia, 2005: 97-103). Em 1859, como sede eleitoral, dispunha de oito quarteirões, com cento e setenta e oito eleitores qualificados.

4. São Domingos - a primeira paróquia sertaneja
Foto do último templo católico de Tupá, já sem o sino importado
Aos 18 de fevereiro de 1856 a Igreja elevou São Domingos à condição de Paróquia, onde erigida a matriz consagrada ao orago São João, para atendimento às Capelas que se formavam adiante, entre os rios Tietê e o Paranapanema, e a localidade manteve a denominação de São Domingos, às vezes denominada São João de São Domingos, em razão do templo religioso: "(...) nesta matriz de São João de São Domingos" (Eclesial, assentos diversos). 
Pouco mais de dois anos, pela Lei Provincial nº 27, de 20 de abril de 1858, o Governo de São Paulo conferia ao lugar a condição de Freguesia, sob o nome de São Domingos.
A Igreja concedera a São Domingos a circunscrição eclesiástica regional, ou seja, 'cabeça de sertão' para os povoados que surgiam, enquanto o Estado assegurava-lhe a administração civil como instituição oficial para transcrição de atos, fatos, títulos e documentos, dando-lhes autenticidade e força legal de prevalecer contra terceiros, com garantias de reconhecimentos pelas instituições brasileiras.
Junqueira ufanou-se a respeito do lugar: "São Domingos ou Tupá ostentara, por meados do século XIX, o status de Comarca Imperial e Eclesiástica." (2006: 37). 
Cópias e transcrições de documentos civis e religiosos produzidos em São Domingos, período de 1856 a 1938, nenhum traz o título "Comarca Imperial e Eclesiástica", apenas 'Freguezia de S. Domingos' ou 'Districto de Tupá', todavia, em algum tempo o lugar exerceu preeminência e jurisdição religiosa sobre as capelas nascentes no sertão, e foi sede civil, na antiga forma de relações entre Igreja e Estado.

4.1. Reverendo Padre Andrea Barra - o religioso pioneiro no sertão
O religioso napolitano, Reverendo Padre Andrea Barra (Correio Mercantil, 14/07/1859: 4), nome aportuguesado para André Barra, foi o primeiro nomeado pároco de São Domingos, no período de "18/02/1856 a 13/09/1870" (Oliveira Zanoni, 1976: 61), e capelão para as localidades formandas 'do Turvo, São Pedro e Lençóes', à mesma maneira em Santa Cruz do Rio Pardo, nesta conforme constatações em registros eclesiais a partir de novembro de 1862 até setembro 1870, e depois prosseguida pelo sucessor, o português Padre Francisco José Serôdio, conforme atestam assentos lavrados na Vigararia de São Domingos.
Valendo-se dos critérios demográficos e termos de competências, avocados politicamente pela província paulista, a localidade de São Domingos foi classificada à condição civil de distrito em 20 de abril de 1858, pela lei n.º 626, subordinando-se administrativa e politicamente à Vila de Botucatu, atestada por Donato, "em terras do município [de Botucatu] foi ereta a freguesia de São Domingos, resultado da ocupação por grupo de famílias botucatuenses" (1985: 103). 
Apesar de ter existido no local uma aldeia Oti, em pacífica convivência com os brancos, a história relata pelo menos um problema dos moradores de São Domingos com ataques indígenas, aparentemente de outra etnia, por volta de 1859:
—"[Quando] foi salteada pelos índios a freguesia de S. Domingos; mas os moradores repeliram-nos, obrigando-os a abandonar na fuga diversos objetos, muitos dos quais tinham sido roubados" (Tidei Lima, 1978: 72, por fonte o Ministério dos Negócios do Império, em Relatório da Repartição Geral das Terras Públicas, Rio de Janeiro, 1859).—
Exatamente a partir de 1859 São Domingos teve intensa participação na política regional, com formação administrativa e competências inerentes. Dinâmica, a localidade possuiu subdelegacia, Guarda-Nacional e realizou eleições representativas, e teve cartórios e forte comércio, quando o sertão ganhava tamanho e população e lá eram feitos os ajustes.
A paróquia tinha sustentação pelo Governo Provincial: 
"Ao Collector de Botucatú - O inspector do thesouro provincial, tendo por despacho de hoje mandado satisfazer por este thesouro ao vigario encommendado de S. Domingos, Padre André Barra, os guisamentos correspondentes ao semestre de Julho a Dezembro do anno findo, assim o communica ao sr. collector de Botucatú para seu conhecimento e governo" (Correio Paulistano, 01/07/1864: 2).
Se em 1862 lhe foi negada uma Agencia Postal, como igualmente o foi para Lençóis, contudo desde 1858 suas correspondências eram entregues na vila de Botucatu a cada dez dias, embora o próprio serviço em Botucatu fosse alvo de denuncias como extravios de cartas, violações e pouco zelo (Donato, 1985: 123).
Ainda no ano de 1862 a Câmara de Botucatu destinou a São Domingos uma importância em dinheiro para reparos da estrada e uma das pontes, justificando aquela via de rolamento como uma das mais importantes para o comércio da região (Donato, 1985: 139).
A freguesia de São Domingos teve eleições para juiz de paz, inclusive uma [anulada] para o quadriênio de 1865 a 1868, relatada por Donato (1985: 90-91).
No ano de 1868 o tamanho político administrativo de Botucatu precisou ser descentralizado, e São Domingos teve a transferência de sua subordinação civil para Lençóis Paulista, aos 17 de abril, pela Lei Provincial nº 056.  
Sem tempo para adaptações de São Domingos junto à nova sede, a Assembléia Provincial de São Paulo autorizou pela lei nº. 35, de 19 de julho de 1868, o governo transferir a sede de distrito de São Domingos para "as margens do rio Pardo", texto bastante vago por não definir, precisamente, se o lugar tratava-se do núcleo residencial Quarteirão dos Marques, que viria ser Santa Bárbara do Rio Pardo, ou Santa Cruz do Rio Pardo conhecido em 1859 como 'Quarteirão do Rio Pardo'. 
A transferência legal tardaria ser cumprida e, ajustadas as partes, São Domingos garantiria seus privilégios cartoriais ainda por duas décadas, porém, eclesialmente perderia parte do seu foro para Lençóis Paulista e Santa Cruz do Rio Pardo.  
A Câmara de Lençóis, em 1870, designou São Domingos como Freguesia, embora o Quadro da Divisão Civil, Judiciária e Eclesiástica da Província de São Paulo, de 1873, classificada como Vila integrante da Comarca de Botucatu (Macedo, 1873: 255). 
O Relatório do Governo da Província de São Paulo de 1870 revelou que o Padre Barra sofrera dois atentados, aparentemente por motivos pessoais e um mesmo executor, o primeiro em maio de 1870 e o segundo, fatal, em setembro do mesmo ano. 

4.2. De algumas atitudes conhecidas do Padre Barra
O altar da Matriz de São João em São Domingos - peça com
motivos indígenas, preservado no Museu de Agudos - SP
Apenas recentemente se tem falado de Andre Barra, pelos autores, revelando algumas ocorrências em sua atividade religiosa no sertão.
Desse padre napolitano, sabe-se de sua chegada a São Domingos, em fevereiro de 1856, e o início do exercício religioso, como padre encomendado -Vigário Forâneo, o primeiro do sertão adiante de Botucatu.
Aparentemente tratava-se de homem opinioso e interesseiro, Sem ressalvas quanto ao massacre indígena causado pelo entradismo de José Theodoro de Souza, Padre André Barra atestou o cabecilha, na pretensão em criar e dirigir aldeamento indígena em Salto Grande, como:
"(...) um cidadão prestante, sendo civilizado e religioso, tendo coadjuvado no que está ao seu alcance o culto de nossa Santa Religião, como seja as capelas de São Pedro e São João. Além disso, imprime nos ânimos dos indígenas os mistérios da fé católica, fazendo com que eles batizem seus filhos"; e o padre reafirmava as qualidades de Theodoro: "Homem filantrópico, sempre pronto a acolher seu próximo necessitado, doando de suas terras cultivadas e proporcionando trabalho àqueles que precisam, como atualmente está fazendo com vinte e tantos indígenas grandes e pequenos em sua fazenda nas margens do rio Novo" (ALESP, EE 64.22.8).—
Padre Barra também era intransigente. Em 1862 criou sério problema com o fazendeiro e padre licenciado João Domingos Figueira, não lhe dando autorização para batizar e casar católicos na povoação de Santa Cruz do Rio Pardo. Figueira então escreveu ao Bispado de São Paulo, informando sobre a povoação surgente, com 100 alqueires de terreno doado ao patrimônio, capela construída e ainda não autorizada para celebrações religiosas, e, por fim, denunciou o colega: 
—"Esta Capella dista de São Domingos quatorse leguas, o Vigº bastante inpolitico negou-me todas as licenças para baptisados e casamentos, talves julgando que o privaria de seus emulumentos. Estes habitantes tendo entre si um padre vio-se na dura necessidade, com incommodos innauditos hirem para S. Domingos e dispesas imcompativeis, subscrivendo cotas para o vigario ir, ao lugar, e assim mesmo, não hia se não por, contribuição espantoza, como fosse a benção do cemiterio q. exigio oitenta mil reis dizendo que era a licença, quando a provisão q tenho de cemiterio para minha fazenda importou hum mil duzentos e oitenta.—
—Senhor esta capella não foi benta e para esse fim requeiro a V. Ex. faculdade para mim ou outro sacerdote de confiança sua. Assim mais a ereção de pia Baptismal. V. Ex. que em todos os actos de sua sublime administração tem apresentado amor paternal, caridade, e desinteresse. Eu em nome daquellas ovelhas submissas do seu grandioso rebanho supplicamos serem atendidas.
Eu, e aquelles ficamos rogando a Deos pela conservação de sua vida apreciavel para ingrandecimento das almas por isso.—
Ilegivel".— 
(SatoPrado, B: A/A).
Oficialmente, a pedido do Brigadeiro Diretor Geral dos Índios, em janeiro de 1864 Padre Barra viu-se nomeado vigário encomendado para a Freguesia de São João Batista da Faxina e Capelão do Aldeamento de Índios ali estabelecido, e tomou posse em 30 de agosto de 1864, como "parocho da freguezia de S. João Baptista da Faxina" (Correio Paulistano, 06/10/1864: 1), e capelão do Aldeamento, tanto que, por ato do governo da província paulista, publicação oficial de 12/12/1864, lhe foi dado pagamento de gratificação anual pela prestação de serviços junto ao Aldeamento local, no valor de 600$000 (Correio Paulistano, 28/12/1864: 1). 
Barra não teve escrúpulos em receber o dinheiro total para em seguida abandonar a paróquia de São João Batista [da Faxina] e o Aldeamento, retornando para São Domingos:
—"Ao Director Geral dos Indios. - Pelo officio que v.ex. me dirigiu em data de 10 do corrente sob n. 12 fiquei sciente de que o padre André Barra, vigario da freguezia de S. João Baptista e capellão do aldeamento do mesmo nome, ha muito ausentou-se d'alli para a freguezia S. Domingos, sem deixar pessoa que o substituisse nas funcções de capellão." (Correio Paulistano, 28/02/1865: 1).—
Como se nenhuma gravidade cometida, Padre Barra, em São Domingos, continuou a receber côngruas do Governo, por ser estrangeiro (Correio Paulistano, 07/07/1865: 1, ordem de pagamento de 28 de junho do mesmo ano). Confirmava-se a insinuação do Padre Figueira, que Barra era dinheirista.
Apesar do desfalque dado na Diretoria Geral dos Índios, recebendo por atividades não prestadas, e a sua rebeldia em não cumprir ordens superiores, o Ministro do Império, em 1867, oficiou ao bispado da Diocese de São Paulo a aprovação da nomeação de Padre Andre Barra, autorizado para o exercício de seu trabalho no Brasil, na condição de estrangeiro (Correio Paulistano, 24/08/1867: 1), com despacho igual em 1869, de acordo com a publicação oficial no Correio Paulistano de 10/08/1869: 1.
Em janeiro de 1870, comunicou-se renovação da licença para o padre permanecer no Brasil: "ao vigario foraneo da comarca de S. Domingos, pelo mesmo prazo [um ano] a favor de rvd. André Barra." (Correio Paulistano, 18/01/1870: 2).
Quando da pretensão em elevar a Capela de São Pedro à condição de Freguesia, Padre Barra foi contra, conforme seu manifesto de 19 de março de 1870: 
—"(...) a Capella de São Pedro não pode ser elevada a Freguezia porque seu pessoal , e a falta de Igreja não permittem sua elevação", e ainda diria "informo mais que este lugar (São Pedro) ha uma Igreja de vinte poucos palmos, e não há um numero de almas sufficentes para Freguezia." (ALESP, EE.  72.15.8-9). São Pedro dos Campos Novos, depois São Pedro do Turvo, perderia a oportunidade em se tornar Freguesia, sem a culpa de Barra, e sim por erro político administrativo, que elevou "á categoria de Freguezia, com a invocação de Santa Cruz do Rio Pardo, a Capella de São Pedro no municipio de Lençóes" (Lei Provincial nº 71, de 20 de abril de 1872, Legislação Provincial de São Paulo, 1835-1889).—
Aos 24 de maio de 1870, um atentado contra o vigário em São Domingos: 
—"O padre responsável pela paróquia era Andrêa Barra uma pessoa respeitada e querida por todos. Aquela época a figura do padre era de imensa importância a ponto de raramente se tomar alguma decisão sem seu conselho, o que o tornava uma figura familiar e suas visitas nos lares comuns e freqüentes" (Garbulio, 2010: 2), mas não pensou assim o João, alcunhado Italiano, quando encontrou o padre em sua residência, e o feriu a golpes de faca, superficialmente, evadindo-se do local (RG, BN 1012, 1870/1871: 120).—
Os argumentos e testemunhos a favor, Barra continuou à frente da Vigararia de São Domingos, e a Câmara Eclesiástica do Bispado de São Paulo, em ato de 23 de julho de 1870, renovou sua provisão, por mais um ano (Diário de São Paulo, 29/07/1870: 2).

4.3. Padre Barra assassinado - crime passional
No mês de setembro, de 1870, João, o Italiano, retornou para novamente atentar contra a vida do Padre Barra, desta feita com tiro fatal. O criminoso foi preso e o processo lançado em "Crimes Notáveis da Província de São Paulo" (RG, U 1117, 1870/1870: 5). 
O Diário de São Paulo, edição de 16 de novembro de 1870, trouxe a mesma referência, e a malícia sertaneja transformou o caso em crime passional, e tradições lembram:
—"Ouve-se um disparo de arma de fogo. Populares que estavam próximos ao local correm até a residência e pasmam com o acontecido, o padre Andrêa Barra está morto. O italiano alega motivos pacionais [sic]. (...). O desabafo de outro padre vindo de uma outra localidade mudaria para sempre o destino de Tupá. Não seria abençoado por Deus um lugar em que um padre é assassinado. Daí por diante todos os acontecimentos negativos de Tupá eram atribuidos ao episódio e o desabafo do padre visto como profecia. As familias amedrontadas começaram então a se mudar de Tupá de maneira que em pouco tempo o lugar parecia uma cidade fantasma. Aos poucos as casas de madeira iam sendo removidas e a extinção de Tupá estava decretada" (Garbulio, 2010: 2).—

4.4. São Domingos e o sertão pós-morte do Padre Andrea Barra
Com o acontecido ao Padre Barra o sertão ficou sem padre efetivo e nenhum interino ou visitador apresentado, quando aos 08 de janeiro de 1872 notada a presença do missionário polonês Padre Antonio Zielinski, em passagem pela Capela de Santa Cruz do Rio Pardo, tempo comprovado em expedientes religiosos até 07 de abril de 1872, convivendo por alguns dias com o nomeado capelão santacruzense, Padre João Domingos Figueira. 
Zielinski ficou conhecido na história como 'o padre que fugia' (Cristo Rei, 2010: 1), escapando do regime tzarista [czarista] no 'Levante de 1865' rumo ao México, de onde, nas rebeliões políticas de 1867/1869, evadiu-se para o Brasil, em 1869, aportando em Santa Catarina. Apesar das boas relações com a Corte, o missionário foi perseguido por infiltrados ditos czaristas e socorreu-se no Paraná de onde chegou a São Domingos e Santa Cruz.
O Padre Francisco José Serôdio, nascido português, com trinta anos de idade, assumiu a titularidade da Vara de São Domingos, aos 15 de março de 1872, nomeado pela Câmara Eclesiástica conforme expediente de 13 a 14 publicado aos 20 de novembro de 1872 (Diário de São Paulo: 1); com Carta de Provisão de 21 e 22 de janeiro de 1873 (Diário de São Paulo, 23 de janeiro de 1873: 1) e teve autorização do Ministério do Império, por Ato de 14 e publicado aos 23 de março de 1873 (Correio Paulistano: 2). 
Padre Serôdio assim resumiu sua posse em São Domingos, conforme sua carta/declaração em livro de registros da Igreja - "cuja parede da frente estava ameaçando ruinas", apresentando a localidade, as condições e o sertão da época: 
—"Achei a dita egreija, que já era freguezia á mais de dez annos, pauperrima de paramentos de tudo finalmente, nem castiçais no altar. Eram garrafas que serviam de castiçais (...). Era um sertão sem recursos, tinha 12 casas, cobertas e assoalhadas só 4 o resto não tinha soalhos. A freguesia de São Domingos nesse tempo era um lugar no extremo Oeste de São Paulo, que estava em sertão sem comodidades algumas".—
O relato de Serodio informa inclusive Botucatu: 
—"(...) que era cabeça desta grande comarca Sertaneja não tinha hotel; tinha naquella esquina onde he hotel Areias uma venda do pae desse malvado assassino chamado Deoguinho que tava somido he o que diz um antigo portuguez ...? Não tinha uma única pharmacia nem .........? nem rua.......? não tinha médico algum formado, justiça era só dr. Juiz de Direito Dr. Machadinho, vindo de Itapetininga até promotor era nomeado na hora, rábula, advogado era só Dr Bernardo que era da terra, muito ruim e muito orgulhoso de sabichão e um mestre escola pública um tal Cel. Cananéia que era chefe político do Partido Conservador e a mulher professora pública como tudo e Botucatu. São Domingos 15 de março de 1872, (assinado) O vigário Padre Francisco José Seródio" (ACMS / SGU – D: 101_0667 e 101_0668).—
O Padre Serôdio tinha coadjutores conhecidos, Décio Chefatto em São Pedro do Turvo e João Domingos Figueira em Santa Cruz do Rio Pardo, este assumindo as funções aos 31 de março de 1872. 
Documentos do Conselho de Qualificação e Reclamação da Guarda Nacional e do Conselho de Revisão, Botucatu, de 1872/1873, em Arquivos do Estado (Donato, 1985: 126), atesta que São Domingos teve Guarda Nacional. 
Outra referência eleitoral, de 1873, classifica a localidade como integrante do 5º Distrito Eleitoral de Botucatu, com três colégios, enquanto a própria sede mantinha seis daqueles conjuntos.
De acordo com o Censo Oficial de 1872 de 1º de agosto, na Província de São Paulo concluído aos 30 de janeiro de 1874, a população de São Domingos era de 3.629 pessoas livres, sendo 2004 homens e 1625 mulheres, e 116 escravos - 64 masculinos e 52 femininos, com maior número de cidadãos livres que a Paróquia de Santa Cruz do Rio Pardo (Apud Fernandes, 2003: 14-15), associada a São Pedro do Turvo. 

5. A decadência de São Domingos

Trecho  atribuído à antiga estrada de São Domingos - 
Tupá - ligação de Botucatu ao Paranapanema
Crédito  Celso Prado, 2017
Com o ato da emancipação política e religiosa para Santa Cruz do Rio Pardo, efetivada aos 13 de janeiro de 1873, São Domingos perdeu importância junto às povoações do Vale Paranapanema até então exercida.
Também o Padre Serôdio contribuiu para o declínio de São Domingos. Encarregado pela Diocese de São Paulo para as novas demarcações da Freguesia, o padre sugeriu, requereu e teve autorização para transferir a sede de São Domingos para Lençóis Paulista. A decadência religiosa efetivamente selou-se em 1877, com a criação da Comarca Eclesiástica de Santa Cruz do Rio Pardo.
No azo dos acontecimentos de 1873, resolveu-se, afinal, para qual lugar 'as margens do Pardo' iria a sede 'civil' do distrito, dúvida deixada pela Lei nº. 35, de 19 de julho de 1868. Agora a Lei nº 41, de 16 de abril de 1874, não permitindo segunda interpretação, "transferiu a sede desta Freguezia [São Domingos] para Capella de Santa Barbara do Rio Pardo" (Divisão Adminsitrativa e Divisas Municipais do Estado de São Paulo, 1908: 139). 
Mesmo assim, a transferência aconteceria apenas em 1890, revelando interesses conflituosos entre a Igreja e o Estado, e as demonstrações de forças regionais do coronelismo rivalizado, que atrasavam, suprimiam ou deixavam em esquecimento certas autorizações legais.
A República deu o fim civil a São Domingos, e a população quase toda acorreu para Santa Bárbara do Rio Pardo, a nova sede, para onde carregados os arquivos cartoriais (Nogueira Cobra, 1923: 58), ficando o antigo lugar rebaixado à relesa de Distrito de Paz, pelo conceito republicano (Decreto Estadual nº 182, de 29/05/1891), nominado São João de São Domingos, com o Cartório de Paz e a Agencia Fiscal vinculados à nova jurisdição.
Quase uma década depois, de acordo com a Lei Estadual 756 de 17 publicada aos 21 de novembro de 1900: "O districto de paz e policial de São João de São Domingos, do municipio de Lençóes, passa a denominar-se São João da Floresta" (DOSP, 21/11/1900: 1). 
A nova denominação não durou e São João da Floresta tornou-se Tupá, pela lei nº 975 de 20 de Dezembro de 1905 (Divisas Municipais do Estado de São Paulo, 1908: 139), e o tamanho territorial compreendia, em 1909:
—"Partindo do ribeirão do Campo, em sua confluência com o Turvo, em rumo direito à cabeceira das Antas, seguem até o cume da Serra dos Agudos e seguirão sempre pela serra cercando todas as vertentes do ribeirão do Turvo, até encontrar as cabeceiras do Guache e deste ponto, em rumo direito, à confluência do ribeirão do Campo com o Turvo, ponto de partida e terminal destas divisas" - (Divisão Administrativa e Divisas Municipais do Estado de São Paulo, 1908: 140).—
A localidade já não representava importância alguma quando a lei nº 1.494, de 29/12/1915, estabeleceu-lhe novas divisas administrativas, e o transferiu, como Distrito de Paz de Tupá, do Município de Lençóis para o de Agudos (IBGE: Divisas Administrativas de 1915), situação mantida nas divisões territoriais de 1933, e à mesma maneira em 31 de dezembro de 1936 e 31 de dezembro de 1937, bem como no quadro anexo ao Decreto-Lei Estadual nº 9.073, de 31 de março de 1938.
Finalmente, o Decreto Estadual 9.775, de 30 de novembro de 1938, o extinguiu e seu território integrado ao distrito de Agudos, homônimo do município, e o Cartório de Paz e Agência Fiscal transferidos para a nova sede. 
Levantamento recente, pelos autores, em Aluízio de Almeida, a oficialidade de São Domingos, quanto a sua origem, pode desmanchar-se: "A ligação Tibagi-Pôrto dos Lençóis já existia em 1824. Mas não vem mencionada entre as estradas oficiais. Não tinha conserva, pois alem do brecho [sic] de São Domingos, os moradores, carreiros e tropeiros arranjavam-se" (Aluízio de Almeida, 1960: 188). 
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O cruzeiro no cemitério abandonado - um dos 
últimos vestígios de São Domingos - Tupá
Foto: Lorana Harumi Sato Prado


6. Do que restou de São Domingos - Tupá
De São Domingos - Tupá, nenhuma lembrança de seu passado, à exceção do cemitério em ruínas, onde o velho cruzeiro, agora restaurado [2017], no qual os símbolos de frente 'um coração martirizado, a âncora e a cruz'.
Na parte posterior do cruzeiros as inscrições 
Z.B.Z. com pontos finais entre duas cruzes; a letra I. com ponto final, entre cruzes, e, após a cruz, as letras seguidas dos mesmos sinais gráficos B.F.Z.G.F.F.S. 
Após consultas deu-se a interpretação, não oficial e nem especializada, para tais inscrições, observadas a representatividade do local e  o nível de intelectualidade das então famílias sertanejas:
—'Z.B.Z.' = 'Zeta Betha Zeta', sendo Z por última ou final, Bethe - casa, e Z - por última ou final, para o significado de sepulcrário, lugar de sepulturas, cemitério ou 'a última morada [final]'.
—'I' = existir, ser, derivar.

—'BFZG' = o caminho de vida ou boa conduta, sendo, B – Bethe – [Casa], F – Phi [Filosofia], Z – Zeta [morte - vida o fim] e G – Gama [entre dois extremos, no interior da qual são classificadas conforme seu tamanho, valor, duração].
Representação das inscrições no costado do
cruzeiro de S. Domingos. Foto Jornalista Aurélio Alonso  
Jornal da Cidade - Bauru

—'FFS' = [Família, Fraterno e Si]. 
—'Cruz' -  símbolo da cruz significa Jesus, ou sob a proteção Dele.
Considerando a época - meado do século XIX - e a quem dirigida mensagem, esta seria a tradução mais apropriada:'A última morada terrena para aqueles que, em Jesus Cristo, viveram o bem para a família, os irmãos [fraternos no sentido de próximos] e consigo mesmo'. 
João Zanata Neto, escritor santacruzense expôs a versão: "E a proteção de Jesus abençoou a família e seus filhos de boa-fé e benevolência", ou "E a proteção de Jesus abençoou de boa-fé e benevolência a família sepultada." (http://www.debatenews.com.br/2017/08/21/coluna-de-joao-zanata-neto-edicao-de-20082017/), no entanto, ainda que citadas as fontes, tal interpretação não é compartilhada por estudioso consultado pelos autores (CD: A/A, 28/12/2017).

7. Adendos - fotos das inscrições e símbolos no antigo cruzeiro em São Domingos - Tupá
Já expostos os significados, abaixo algumas fotos com letras da inscrição original - parte de trás -  no Cruzeiro de São Domingos - Tupá. (Créditos: Espaço Histórico Plínio Machado Cardia - Museu em Agudos-SP).










Foto destaque do 'coração martirizado com a cruz e âncora', na parte anterior do Cruzeiro em São Domingos - Tupá. (Créditos: Espaço Histórico Plínio Machado Cardia - Museu em Agudos-SP).
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