domingo, 20 de dezembro de 2009

11. O Sertão Paranapanema nos caminhos das entradas e bandeiras

1. Bandeiras e entradas - séculos XVI e XVII
Nenhum historiador atual contesta presença do homem branco no Planalto Piratininga, por volta de 1532, pela Peabiru, quando "Martim Afonso de Souza (...) perlongava o litoral e fazia as primeiras penetrações no interior" (Gomes, 1972: 21), através dos colonos de São Vicente que alcançaram e firmaram as fundações de Santo André da Borda do Campo e Piratininga [São Paulo].
Sérgio Buarque de Holanda amplia as informações:
—"O núcleo originário da atual São Paulo é notório que não foi ali, mas em lugar distante duas léguas para o sertão, à margem do rio que então se chamava Piratininga e, de fato, 'onde Martim Afonso de Sousa primeiro povoou'. Sabe-se hoje que a fundação dessa nova aldeia, por iniciativa e esforço de Nóbrega, ocorreu no dia 29 de agosto de 1553. Quando, a 25 de janeiro do ano seguinte, se inaugurou a casa nova. (...). Nesse caso não é audacioso dizer que o povoado de Nóbrega se enlaça perfeitamente ao de Martim Afonso e, assim, que as comemorações atuais se hão de referir, não tanto à fundação inicial, como a uma segunda e definitiva fundação. A primeira dataria, em realidade, de 1532" (Holanda, publicação Folha da Manhã, edição de 24 e 25 de janeiro de 1954).— 
Pela mesma Peabiru, com certeza, João Ramalho antecedeu a todos com sua presença em São Paulo, talvez aí por volta de 1515, porque "Desde anos morador de Serra Acima, na região de Piratininga, foi João Ramalho o grande agente do êxito da colonização que surgia" (Taunay, 2004: 24).
A Peabiru era conhecida e largamente utilizada: "Por esse caminho veio do Paraguai Ulrich Schmidl e, passando, em junho de 1533 pela morada de João Ramalho se foi, em S. Vicente, embarcar para a Europa" (Novo Milênio, referência: Na Capitania de São Vicente – Washington Luiz Pereira de Souza, Capítulo XXI: 340).
O jesuíta Luiz Gonzaga Cabral, ao mencionar Aleixo Garcia [século XVI], confirma estradas terrestres e fluviais para interiorizações, que os padres "abriram as estradas de Santos a São Paulo e mais outras para o interior, especialmente uma por Botucatu até o aldeamento do Paranapanema com comunicação fluvial para Mato Grosso." (Apud Donato, 1985: 35, ref. ao Padre Gonzaga Cabral, 1923, situação entre 1608 a 1628, a tratar-se sabidamente de aproveitamentos da senda Peabiru.
Salto das Canoas, Quebra Canoas, Paranan-Itu, Yukumã, Salto
dos Dourados ou Salto Grande no Paranapanema. 
Foto de domínio público
Os jesuítas espanhóis, responsáveis pelos aldeamentos indígenas às margens do Paranapanema e tributários, entre 1608 e 1628, sabiam da velha estrada: "Durante o período da catequese heróica, os religiosos, quase sempre os jesuítas, serviram-se da velha e segura orientação que era o Peabiru para saírem ao sertão" (Donato, 1985: 35), depois o atalho desde a Serra Botucatu a Paranan-Itu – conhecido por 'Salto das Canoas' (Aloísio de Almeida, 1959: 168), ou 'Quebra Canoas' pelos conquistadores mineiros, onde uma estalagem.
Referido atalho foi largamente utilizado por entradistas, bandeirantes, faiscadores, contrabandistas de ouro e de outras riquezas, além dos caçadores de índios para escravização, conforme atestam relatos oficiais entre 1719/1779.
Abaixo do Parananitu o Rio Paranapanema era navegável até sua foz no Paraná, além dos feixes de caminhos fluviais e terrenhos que conduziam às proximidades da barra do Iguaçu, em qual lugar o baixio permitia melhor acesso para o Paraguai, terra de passagem, rumo aos Andes.
A proibição legal de 1553 de se transitar pela Peabiru, em terras portuguesas, não impediu expedições luso-brasileiras ou hispano/sul-americanas de entradas contínuas em busca de riquezas auríferas e outros metais, além da preação ao índio.
Entende-se a proibição do governador Tomé de Souza em controlar a entrada de espanhóis, em terras do Brasil, pressupostamente ricas em minérios que deveriam ser preservados para Portugal.
Sabe-se que no ano de 1555, portanto em vigor a proibição de se transitar pela Peabiru, Francisco de Gambarrota veio por ela do Paraguai até o porto de São Vicente; também os espanhóis Juan de Salazar e Cipriano de Góes aportaram em São Vicente para realizar incursão até o Paraguai (Noelli e Motta, 1999).
Segundo entendimento dado por Gomes (1972: 60), membros da expedição de Brás Cubas partiram de São Vicente em busca de ouro, em 1561, destacando-se uma frente para atacar índios em Apiaí e limpar os caminhos para segurança da equipe principal. A frente perseguiu os índios para matança e captura, através de trilhas indígenas, até as nascentes e partes abaixo do rio Paranapanema, tidas por sub-ramais da Peabiru. Em 1562 a expedição de Luiz Martins [substituto de Braz Cubas] trouxe em sua empreitada outra frente especializada em perseguir e caçar índios, a partir de Caatiba pelos caminhos da serra.
A situação, entretanto viria se modificar com a dominação espanhola sobre a coroa portuguesa e suas colônias, na prática a desfazer o Tratado de Tordesilhas tornando a América do Sul uma só, para portugueses e espanhóis, possibilitando a interiorização luso-brasílica rumo às terras que os espanhóis antes não adentraram nem delas se apossaram, por senti-las suas, tanto que os portugueses jamais pensaram sobre elas arremeterem-se, antes de 1580, para fins de fixação.
Em 1578, morto D. Sebastião, rei de Portugal, sem herdeiro natural, deixa o trono para seu irmão o Cardeal D. Henrique que faleceu dois anos depois, e assim a coroa portuguesa passa, em 1580, para as mãos de Felipe II da Espanha, neto do rei D. Manuel – o Venturoso.
Quando tudo parecia favorecer maior fluxo de andanças e atividades de gentes então sem fronteiras, o Vale Paranapanema deixou de ser o corredor principal das interiorizações ou grandes entradas rumo aos Andes, porque a escravidão indígena sofrera revés desde a presença jesuítica na região, e as minas de Peru/Bolívia estavam esgotadas.
Corroborou com esse esvaziamento de trânsito pelos lados do Paranapanema, os entradistas e bandeirantes mais dispostos às zonas de garimpos, a partir de Sorocaba rumo ao sul, de Jundiaí com destino a Goiás, das vilas de Paraíba do Sul para as Minas Gerais, e de Parnaíba e Itu em direção a Mato Grosso. Assim o Tietê e o Paraná, quase em detrimento ao Paranapanema, foram grandes estradas fluviais utilizadas para embrenhamento em terras antes espanholas.
Apesar de tais considerandos históricos, certos registros atestam ainda a presença do homem europeu pela região do Paranapanema, por exemplo, em 1581, Jerônimo Leitão, o Capitão-mor de São Vicente, para os lados do Guayrá pelo rio Paranapanema (Mendes Junior (1), Roncari e Maranhão, 1995), de onde retornou com muitos escravos indígenas.
A partir de 1588, os jesuítas espanhóis são presenças constantes em todo Guayrá (Noelli e Mota, 1999), principalmente junto aos afluentes do Paranapanema, com incursões do lado paulista até a instalação das reduções e a pretensão de um governo teocrático em 1608.
Nicolau Barreto em 1602, navegando pelo Tietê continuou curso pelo rio Paraná passando pelo Guayrá, rumo às minas de Potosi no Peru, fazendo o retorno pelo Paranapanema na "rota conhecida desde meados do século XVI" (Noelli e Mota, 1999), com riquezas e índios aprisionados.
Muitos viajantes preferiam descer o rio Tietê desde São Paulo ao rio Paraná, mas com retorno quase sempre pelo Paranapanema, pela melhor navegabilidade e menor correnteza, até Paranan-Itu, onde encerrada a navegabilidade prática do Paranapanema, para se dirigir a Botucatu por terra, via Peabiru ou por caminhos internos [trilhas indígenas e religiosas] pelo espigão entre o Pardo e o Turvo.
Soldados paraguaios vindos de Vila Rica do Espírito Santo chegaram à Vila de São Paulo em 1603, sendo recebidos festivamente conforme registros camarários (Apud Donato, 1985: 30). Ignoram-se as razões da visita, mas os soldados retornaram dias depois, acompanhados por paulistas até Vila Rica, com especulações de se reativar a Peabiru.
No ano de 1607, Pedro Franco de Torres atravessou a região, rumo ao Paraguai, pela Peabiru. Nesse mesmo ano de 1607, Manuel Preto um dos maiores preadores de índios da época, dirigiu uma expedição pelos caminhos do Paranapanema, para o aprisionamento dos índios Guaranis, nas proximidades da cidade de Vila Rica do Espírito Santo. Manuel Preto voltou às regiões entre os rios Paranapanema, Corumbataí e Ivaí, nos anos de 1611, 1618, 1623 e 1628, nessa última acompanhado por Raposo Tavares (Noelli e Mota, 1999).
A partir de 1608 a região do Paranapanema tornou-se melhor conhecida, com desenhos esquemáticos produzidos pelos padres jesuítas espanhóis. Dessa seria o uso do caminho de Parananitu à Serra Botucatu.
Em 1620 o entradista Antonio Bicudo atingiu as cabeceiras do Rio Pardo, para aprisionamento e matança de índios. Seus indicativos e descrições da região, a Serra de Botucatu e arredores, oficialmente entraram nas cartas geográficas como referências para as entradas pelos sertões (Bicudo, Resumo Histórico de Botucatu).
Ainda que sem denominações, as Serras de Botucatu com as nascentes de seus principais rios, para as margens do Paranapanema, aparecem com detalhes num mapa espanhol de 1756, Carta do Paraguai e dos Paises Vizinhos, elaborado pelo Padre Pedro Francisco Xavier de Charlevaix (Carte Du Paraguay et des Pays Voisins). Das regiões da Serra dos Agudos, Lençóis [Paulista] e terrenos para as margens do Tietê, os primeiros estudos constam de 1737 (Comissão Geográfica e Geologia do Estado de São Paulo - Relatórios).
Em 1628 o governador paraguaio, Dom Luis de Céspedes y Xeria, em direção ao Paraguai teria feito uso da Peabiru, com parada em Araritaguaba, hoje Porto Feliz, no rio Tietê. Os historiadores atribuem ao Dom Céspede y Xeria interessante esquema do curso entre Araritaguaba ao Rio Paraná, com todos afluentes.
No entanto, considerando que o governante dirigiu-se primeiro às localidades onde as missões jesuíticas no Paranapanema, o salto referido como Araritaguaba pode não ter sido aquele no Tietê, e sim o Paranan-Itu, que era chamado, por comparação, "o Araritaguaba do Paranapanema" (Aluízio Almeida, 1959: 168), o que trouxe confusões históricas, e muitas entradas que usavam o Paranapanema foram registradas como se realmente utilizassem o Rio Tietê, conforme reconhece o próprio Aluízio de Almeida.
Dom Luiz de Céspedes y Xeria não faria tremenda volta pelo Tietê e Paraná para uma subida pelo Paranapanema até as missões jesuíticas, ciente de caminho terrestre muito mais seguro; e quanto às referências sobre o Tietê e os afluentes, tais seriam anteriores àquela viagem. 
De qualquer forma os historiadores apontam, acertadamente, que tais relatos, apenas atestam passagens do homem branco por terras do oeste paulista, por esta ou aquela razão, contudo sem nenhuma efetiva fixação.

1.1. Bandeiras e entradas - século XVIII
No século XVIII a Capitania de São Paulo estava esvaziada, porque parte de sua população correra para as riquezas de Minas Gerais, enquanto outra continuava envolvida com a plantação da cana mélica para a produção do açúcar. Então os gados que os mineiros tanto precisavam, muares, equinos e vacuns teriam que vir do sul, do Rio Grande e Argentina, bem como outros produtos básicos transportados da Bahia e Rio de Janeiro.
Bem cedo os paulistas, interiorizados em Sorocaba, Itapetininga e Porto Feliz, ali outrora em busca do ouro e depois fixados na terra para produção agropecuária de sustentação, se aperceberam primeiro num local estratégico da rota Sul-Minas, depois que podiam buscar ou fazer trazer aquilo que os mineiros precisavam comprar, e, por fim, centralizar em Sorocaba a grande feira de tropas. Os jesuítas e a família Campos Bicudo se fizeram pioneiros, como relatados, ainda antes do estabelecimento oficial da Feira de Sorocaba.
Sorocaba era ponto privilegiado às pretensões de comércio intermediário, Sul-Minas, depois à Bahia, Goiás, Mato Grosso ou mesmo Rio de Janeiro, porque nela se iniciava [e findava] a única estrada segura e oficial ao sul do Brasil, em Viamão-RS, com aproveitamento de partes de trilha indígena que interligava as Peabiru Santa Catarina com a de São Vicente, mais precisamente uma conexão entre aqueles caminhos que passavam nas imediações de Ponta Grossa-PR e Sorocaba-SP.
Para escoamento ou transação dessas mercadorias, surgiram intermediários de compra e venda de animais, os denominados tropeiros, também porque eles próprios com seus peões conduziam as tropas [buscavam e levavam] para a Feira ou, desde a origem para o local de destino, passando por Sorocaba, como caminho oficial.
Poucos se arriscavam pelas rotas do contrabando, antes em causa das exclusividades dos Campos Bicudo e dos jesuítas, porque deles eram as terras por onde passavam as trilhas; depois, com a expulsão dos padres jesuítas e o desinteresse da família pelas terras da região de Botucatu, a rota manteve-se como alternativa de caminho, livre de impostos e taxas, porém sujeita aos perigos pelas infestações de bandidos.
Nessas estradas "havia longas distâncias desabitadas, pelas quais, um viajante transpunha durante dias e dias sem encontrar povoados nem moradores ou qualquer outro recurso, a não ser do que trazia consigo exclusivamente" (Leoni, 1984: 3).
Todavia a prosperidade de Sorocaba e sua Feira de Comércio, conhecida em todo Brasil, trazia para o lugar os ricos negociantes e aventureiros interessados em investimentos na criação de bovinos, equinos e muares, transportados por terra, pelos tropeiros assalariados ou contratados por empreitada. Existiam senhores de tropeiradas que garantiam serviços eficazes de entregas.
Os chefes de tropeiros, visando maiores lucros ou diminuições de despesas, quase sempre optavam pelos caminhos não oficiais, evitando pagamentos de taxas, pedágios e pousos, mantendo em suas equipes os chamados espias de tropeiradas, homens responsáveis pela segurança dos condutores de tropas.
No último quartel do século XVIII já era o tropeiro o elemento responsável pela integração e interação de regiões diversas do Brasil e, principalmente, naquilo que diz respeito aos paulistas e mineiros.
Tapajós (1963: 337-338) menciona J.F. Normano -  'Evolução Econômica do Brasil ', para explicar que o tropeiro "uma figura, menos histórica, mais mercantilista, veio substituir o bandeirante como fator de expansão". O mesmo Tapajós recorre a Bernardo Guimarães para descrever o tropeiro também como intermediário para outras transações, ou seja, "o transportador de mercadorias, de pessoas, de dinheiro, de notícias e da correspondência pessoal", sem prejuízos de suas funções originárias de conduzir criações ao seu destino.
Os tropeiros também contrabandeavam ouro em pó, nos cabos de relhos, cabeças de selas ou escondidos entre as tralhas.
Não é impróprio dizer que, aos bandeirantes e entradistas, sucedeu o tropeirismo mineiro-paulista, influenciador direto para surgimento dos primeiros arranchamentos no sertão de São Paulo, como pontos de apoios e pousos nas rotas abertas [picadões], para o contrabando da mercadoria transportada ou, como mais comum dito, para se evitar os postos oficiais de controles, onde os tropeiros deixavam boa parte dos lucros, em pesadas contribuições compulsórias ao erário.
Foram os tropeiros vindos do sul no uso de rotas alternativas é oficial, para evasões dos impostos e taxas, os primeiros informantes aos mineiros sobre férteis terras do desabitado sertão do centro sudoeste paulista, incluso o Paranapanema. Os caminhos do contrabando tropeiro entravam pelo Paranapanema em Itararé, Piraju e outros pontos de passagens, seguindo caminhos improvisados até o porto 'Lençóes' em Lençóis Paulista, e daí a continuidade até Minas Gerais.
Com os tropeiros surgiram os pousos a cada quatro, cinco ou, no máximo, seis léguas, a depender dos acidentes geográficos e dificuldades para transpô-los. No começo um galpão e um potreiro, nas proximidades de uma boa mina ou algum riacho.
No caso específico dos tropeiros mineiros em terras paulistas, muitos se empregavam primeiro em fazendas mais próximas do rio Tietê, para somente depois ingressar como posseiros em áreas interessadas, como Joaquim Costa o mineiro condutor de gado que, antes de apossar terras em Botucatu, fez-se empregado na Fazenda Sobrado [no atual município de São Manoel] de propriedade de um portofelicense (Donato, 1985: 54-55).
Do relacionamento de mineiros e paulistas, entre os anos 1775/1822, surgiram os primeiros povoados paulistas na região de Araraquara e, depois, no Vale do Paranapanema. Não menos interessante a vinda, também, de gentes fluminenses – Rio de Janeiro, e aquelas do sul rio-grandense ou gaúchos, mais para as regiões de Tatuí e Porangaba, porém de pouca influência nos surgimentos dos primeiros povoados além de Botucatu e São Domingos.
Retrospectiva histórica evidencia a descoberta das grandes jazidas, em Minas Gerais, por fator decisivo da densa povoação mineira, das riquezas, desenvolvimento regional e das grandes fortunas pessoais. Quase 2/3 das antigas cidades mineiras originaram-se das atividades de mineração e do terço restante, grande parte surgiu dentro de propriedades de antigos e abastados mineiros.
No século XVIII as riquezas mineiras despertaram interesses europeus, obrigando Portugal rapidamente intervir no Brasil e assim deslocar seus interesses econômicos para as terras brasileiras, mais especialmente, Minas Gerais. Essa intromissão do Estado [Governo] no controle das principais jazidas minerais deixou, em fins do século XVIII e princípios do XIX, bem pouco espaço para quem ainda ousasse aventuras em busca do ouro, o que obrigava o mineiro pobre recorrer a trabalhos outros além das divisas de Minas Gerais.
Os primeiros migrantes mineiros, para a Província de São Paulo, seriam antigos tropeiros que conheceram antes a região, mais aqueles indivíduos estabelecidos à beira dos caminhos alternativos que conduziam a Minas Gerais.
Muitos mineiros já enriquecidos ou proprietários de jazidas sem futuro venderam suas posses ao governo, ou delas foram expropriados, com negociatas e vendas de minas esgotadas, para aquisições de grandes propriedades voltadas às atividades agropecuárias.
Esse novo endereçamento da riqueza impossibilitou a aquisição de terras para os menos afortunados, obrigando-os partir para a Província de São Paulo, região de Araraquara. Também, muitos dos pequenos proprietários resolveram vender suas poucas terras a preços elevados, para adquirir propriedades maiores para onde transferiam moradas.
O tropeiro Pedro José Neto vindo de Minas Gerais com destino a Sorocaba, por volta de 1807, passou pelas terras da futura região de Araraquara [Campos de Aracoara], para onde retornou tempos depois. Em 1817 o povoado de São Bento de Araraquara foi elevado à condição de freguesia, com mais de trezentos habitantes.
De 1817/1822 ocorreu o maior número de famílias mineiras vindas de Pouso Alegre, Poços de Caldas, Ouro Fino, Formiga, Baependi, Machado, São João Del Rei, Alfenas entre outras localidades do sul mineiro, para a região araraquarense, sendo dessa época surgimentos de povoados como a própria Araraquara, Itirapina [Itaqueri da Serra], Dois Córregos, Dourado, Brotas, Jaú e outras povoações, direta ou indiretamente sob influência mineira. 
As famílias chegavam pelo caminho de Mogi Mirim a Itaqueri da Serra, ou ainda os alternativos, como Franca, Batatais, São Simão e Casa Branca, conhecidos como os caminhos de 1820, quando maior número de mineiros desceu para São Paulo, povoando as regiões centrais e do médio Tiete.
O fenômeno migratório de 1820/22 foi decorrente da decadência das minas de ouro de ouro e o incremento à pecuária, que tornou ainda mais proibitivo os preços de terras em Minas, numa época que a atração dos negócios ainda era Araraquara.
Quando a vasta região de Araraquara tornou-se saturada de ocupações, o destino se voltou então para as terras do centro sudoeste e oeste paulista e no Vale do Paranapanema ou, como antes se dizia, para adiante do Rio Tietê, aonde em 1850/1851 o sertanejo José Theodoro de Souza praticou suas razias sobre os territórios indígenas, com o propósito de torná-los habitáveis pelos brancos progressistas.

2. O 'Sertão Paranapanema' descoberto
Mapa escaneado da obra 'Considerações geographicas 

e economicas sobre o Valle do Rio Paranapanema'

(Sampaio - Theodoro 1890)
A região alvo do bandeirismo mineiro no século XIX não era zona desconhecida nem desabitada, embora com população rala, flutuante e sujeita aos sucessos ou não de empreitadas, especialmente de convivência com os índios. O Vale Paranapanema teve uma primeira experiência de fixação civilizada com os padres jesuítas espanhóis (1608/1628), na Província de Guayrá atual estado do Paraná, a partir das margens dos rios Paranapanema e Tibagi. Depois uma segunda vez com a Fazenda Jesuítica Botucatu (1719/1759), embora não seja propriamente para o vale em destaque, porém com significativos reflexos nos tempos esquecidos das interiorizações pelas sesmarias.
Pelas sesmarias surgiram as primeiras fazendas no alto da Serra Botucatu, entre elas a Jesuítica, além dos arranchamentos e lugares de pousos distribuídos ao longo da trilheira pelo Pardo. 
Registros dos tempos do Governo do Morgado de Mateus dizem dos arranchos às beiras do caminho militar de 1772, em direção ao atual município de Santa Cruz do Rio Pardo. Documentos oficiais creditam experiências de fixação de arranchados, no Vale do Pardo, desde que João Álvares de Araujo, por volta de 1730 "Avançou para o sul. Costeando a serra e posicionando-se além do Rio Pardo" (Donato, 1985: 44), à beira do caminho bandeirante e por onde haveria de passar, décadas depois, a senda militar.
João Pires de Almeida Taques, pelos anos de 1750, obteve sesmaria no Pardo "além do dito rio no novo caminho que se abriu para a Praça de Iguatemy, em tempos povoados por João Alvares de Araujo" (Repertório das Sesmarias, L. 19, fls. 121-v). 
Monsenhor Aluisio de Almeida, confirma os aparentados João Pires, José de Almeida Leme, e Antonio Pires de Almeida Taques, sesmeiros no Pardo abaixo, e que Antonio [Pires] de Almeida Taques, em 1770, beneficiara-se de terras à margem esquerda do Rio Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 46).
Documentos atestam que Claudio de Madureira Calheiros, em 1771 requereu uma sesmaria, adiante do sogro Vicente da Costa Taques Goes e Aranha, acompanhando o Turvo, margem esquerda, à barra no Pardo (Repertório das Sesmarias, L. 21, fls. 70). 
Naqueles tempos as sesmarias, à direita do Pardo, "já estavam ocupadas por Vicente da Costa Taques (...), e por Francisco Paes de Mendonça e Jeronymo Paes de Proença, c. 1779" (Pupo e Ciaccia, 1985: 23). Acima destes situavam-se João Alvares, Antonio Machado e os Pires, e daí um vão até as terras sesmadas do citado Madureira Calheiros. Ciente, Manoel Correa de Oliveira em 1780 pediu o chão entre aquelas sesmarias, sobrando-lhe "as terras do espigão entre o Pardo e o Turvo, até a barra deste naquele" (Pupo e Ciaccia, 1985: 22-23).
O Repertório das Sesmarias (L 21: 100 e L 25: 82) ratifica os nomes daqueles relacionados sesmeiros à margem direita do Pardo, e confirmadas, também, as sesmarias concedidas do espigão à margem esquerda do Turvo, e do outro lado deste nenhuma sesmaria notada. 
Outrossim, discute-se a presença humana civilizada, de distância em distância, como alternativas de paragens aos tropeiros vindos do sul. O Repertório confirma um desses lugares na propriedade de João Pires de Almeida Taques: "Uns campos na paragem chamada Rio Pardo, além do dito rio no novo caminho que se abriu para a Praça de Iguatemy" (L. 19, fls. 121-v), sendo 'paragem' por significado como lugar de moradia. Para melhor esclarecimento, a Sesmaria de Pires era continuidade daquela dada a João Alvares de Araujo na região do Rio Três Pontes, antigo nome do Rio Palmital, afluente do Rio Claro, tributário do Rio Pardo, e no começo do século XX, sustenta Aluísio de Almeida, descendentes do Pires residentes em Sorocaba, anunciavam a venda de 4.000 alqueires de terra em Santa Cruz (1959: 255).
Outra Sesmaria na região, mais para o Vale Paranapanema, pelo caminho da Peabiru, existiu a Sesmaria das Antas "em Lençóis, onde hoje está a povoação da Ilha Grande [Ipaussu] no município de Santa Cruz do Rio Pardo" (Silva Leme, 1905: 403, vol. VI), originariamente concedida a Luiz Pedroso de Barros, aos 09 de dezembro de 1725, repassada a José Monteiro de Barros, avô materno do famoso sertanista Tenente Urias Emygdio Nogueira de Barros (1790-1882), que a recebeu por herança. 
Estima-se, para a Sesmaria das Antas, extensão de três léguas de terras nos atuais municípios de Ipaussu e Chavantes – Distrito de Irapé (Tapi'irape: Caminho das Antas), com largura de uma légua a partir da margem paulista do Paranapanema.—
As fazendas e sesmarias adiante de Botucatu, no entanto, tiveram dificuldades pós desativação do empreendimento jesuítico, em 1759, com aumento da presença indígena colocando em risco a população branca e prejudicando o trânsito. 
Algumas resistiram e atestam-nas a 'Carta Provincial do Governo de São Paulo, de 12 de fevereiro de 1771', obrigando os moradores na região do Pardo prestar ajuda, em tudo que deles necessitasse, o Capitão Almeida Leme, na abertura da vereda militar, concluída em 1772.
Todo projeto e realizações do Morgado, para a região, entraram em colapso quando Martim Lopes Lobo de Saldanha assumiu o governo paulista (1775/1782), como 'Capitão General', e optou pelo abandono de tudo quanto planejara ou realizara o seu antecessor, adiante de Botucatu. 
Com o abandono dos feitos as sesmarias não progrediram, as fazendas fracassaram e os arranchados, isolados e à mercê da crescente e ameaçadora presença indígena, retiraram-se. 
Os índios expulsos por Fiúza, em 1770, retornaram mais ou menos dez anos depois, com seus descendentes e acrescidos de outros grupos e restos tribais, para formar numerosa e preocupante população adversa ao progresso, postando-se nas encostas das serras, onde a geografia lhes facilitava os movimentos e táticas de combates, impedindo o expansionismo pré-capitalista.