domingo, 20 de dezembro de 2009

25. José Theodoro de Souza - 'o último bandeirante'

1. O mito - desfazendo as lendas
José T Souza. o filho Theodorinho, com a mão
sobre seu ombro, e dois  companheiros
-Acervo de Luiz Carlos de Barros-
Até 2006 tradições ainda lembravam o conquistador do sertão centro sudoeste e oeste paulista, um homem franzino, de pequena estatura e fala mansa, tipo caboclo com fronte larga, olhos miúdos e queixo fino, pele clara com sardas, quase imberbe senão uma barba rala a cobrir-lhe o rosto e fios esparsos de cavanhaque no queixo (Leoni, 1979:2).
Vestia roupas simples e rudes, pés quase sempre descalços.
Tal homem, lavrador residente em Pouso Alegre (MG), à frente de um bando de mineiros "teve ideia de se aventurar até a região do Paranapanema, á procura de terras de culturas a fim de tomal-as por occupação originaria" (Nogueira Cobra, 1923: 7-8), de forma branda e pacífica.
Inteligente embora analfabeto, religioso, bom chefe de família, cidadão probo e estimado, que atendia a todos que a ele socorriam-se, e em sua entrada desbravadora não quis maltratar os índios, mas sim, com amor cristão, atraí-los à civilização, de modo reconhecido que os próprios nativos o tratavam, respeitosamente, por 'Pae'. Abriu estradas, fundou povoados e fez progredir o sertão.
Todos o diziam intrépido, alegre, folgazão, festeiro e perdulário tanto, e que chegou a trocar enorme fazenda por um negro escravo, violeiro e cantador de cateretê.
Um quartel de século após sua entrada triunfal em terras no centro sudoeste e oeste paulista, este homem morreu pobre e imêmore por todos, exceto talvez por alguns indígenas renegados que o mataram, a golpes de borduna, em abril de 1875, deixando o corpo no local para ser sepultado no antigo cemitério de São Pedro do Turvo, numa cova que de tão simples, pouco tempo depois ninguém mais sabia onde encontrá-la.
Esta única descrição daquele homem lendário, típico herói sertanejo, figura frágil, que diante de uma necessidade se transformava num poderoso e destemido guerreiro, defensor dos brancos contra as atrocidades indígenas, e somente cento e trinta anos depois ganharia contornos visuais, à semelhança da foto que lhe foi atribuída pelo memorialista Luiz Carlos de Barros ('Memórias do Legislativo paraguaçuense', 2006: 14).
Seu nome, José Theodoro de Souza.

2. A verdade sobre suas origens 
Desfazendo tradições e pressupostos, os autores SatoPrado, com as colaborações dos estudiosos Joaquim dos Santos Neto, Paulo Pinheiro Machado Ciaccia e Padre Hiansen Vieira Franco, concluíram a origem de José Theodoro de Souza firmada em documentos eclesiais (Igreja Católica - SGU, 1640/2012), harmônicos com estudos genealógicos de Barthiyra Sette e Paola Dias (Projeto Compartilhar, § 2º - Bernarda Maria de Almeida: 3.9).
-Os autores encaminharam resultados das pesquisas ao Projeto Compartilhar, a título de colaboração, em data de 10 de abril de 2011 (SatoPrado, CD: A/A).

2.1. A família 
José Theodoro de Souza, filho de João de Souza Barboza e de Maria Theodora do Espírito Santo, nascido em Juruoca [Aiuruoca] – MG, batizado na Capela do Senhor do Porto do Turvo, aos 27 de maio de 1804, teve por padrinhos Manoel Joaquim da Silva e Margarida de Souza. 
Com a idade de dezenove anos casou-se com Francisca Leite da Silva, aos 07 de fevereiro de 1823, em Camanducaia, MG, sendo ela nascida em Campanha, MG, batizada a 1º de dezembro de 1801, filha de João Tavares da Cunha e Anna Maria do Nascimento. 
O casal teve filhos e filhas relacionados no inventário do pioneiro (I/JTS: 1875) e assentos eclesiais:
Francisco Sabino de Souza: nascido em 07 e batizado aos 21 de agosto de 1825 (Eclesial, Batismos, Capela do Alambari, Camanducaia – MG), casado com Maria Francisca do Carmo.—
—Flausina ou Frazinda Maria de Souza, nascida aos 02 e batizada em 20 de julho de 1828, em Cambuí - MG (Eclesial, Batismos, Camanducaia, MG), casada com Josué [ou José] Antonio Diniz.—
—Maria: nascida aos 26 de dezembro de 1829 e batizada aos 03 de janeiro de 1830, em Capivari, MG (Eclesial, Batismos, Camanducaia, MG), possivelmente tratar-se de Maria Theodora de Souza, também conhecida por Maria - Theodora do Espírito Santo, casada com Francisco de Paula Moraes.—
—José Theodoro de Souza Junior, nascido aos 22 e batizado aos 30 de abril de 1836 (Eclesial, Batismos Consolação, MG), casado com a prima Marianna de Souza Pontes.—
—Agostinha [Maria] Teodora de Souza, casada com José Ignácio Pinto. Tem um primeiro registro no sertão, aos 08 de março de 1857, em Botucatu no batismo de sua filha Anna, nascida aos 26 de janeiro de 1857 (Batismos, 1856/1859: 20); depois em São Pedro do Turvo - Capela de São Pedro aos 02 de abril de 1862 no batizado da filha Maria, de 07 meses (Livro Santa Cruz do Rio Pardo, 1859/1879: 29). 
Theodoro e Dona Francisca tiveram, ainda as filhas, Leopoldina, nascida aos 09 e batizada aos 20 de novembro de 1831 (Batismos, Capivari/Camanducaia, MG); Balbina, nascida aos 25 de março e batizada em 08 de abril de 1833 (Batismos, Consolação, MG); e Anna nascida ao 21 e batizada aos 29 de maio de 1835 (Batismos, Consolação MG, Livro 1826-1866: 26). Nenhuma delas teve história registrada no sertão e nem descendentes citados no inventário do pioneiro.
Dona Francisca faleceu aos 16 de dezembro de 1868. Enviuvado, o sertanista casou-se em 1871 com Anna Luiza de Jesus (DOSP, 20/10/1939: 34), nascida aos 20 de janeiro e batizada aos 09 de março de 1857 (Eclesial, Batismos/Botucatu, L 1856/1859: 21), filha de Manoel José de Jesus e dona Maria Luiza da Conceição (Nogueira Cobra, 1923: 64 nota 1). 
De José Theodoro de Souza e Anna Luiza de Jesus nasceu José Luiz de Souza, aos 23 de junho de 1875.
São conhecidos os irmãos e irmãs de José Theodoro de Souza, relacionados no inventário do pai, em 1830 (Projeto Compartilhar, § 2º - Bernarda Maria de Almeida: 3.9), todos com história no sertão
—Justina Maria de Souza (Batismo, Aiuruoca - N.S Conceição, Livro 1797/1808 imagem 37), casada com Jerônymo José de Pontes (Aiuruoca, Livro Misto - Processo Matrimonial: 1815/1816, imagem referência 148), vistos em outros diversos documentos de transações de terras (Pupo e Ciaccia, 2005: 129-130 E 20), e assentos eclesiásticos;—
João Vicente, casado em Camanducaia-MG, aos 07 de fevereiro de 1823, com Emerenciana Maria de Jesus, irmã de Francisca Leite da Silva, esposa de José Theodoro de Souza; enviuvado João Vicente casou-se com Marianna Felisbina de Jesus, aos 12 de fevereiro de 1839, em Pouso Alegre - MG. No sertão foi mencionado proprietário de terras divisantes com o irmão José Theodoro de Souza (RPT/BT 520: 171-a).—
—Francisco de Souza Ramos, casado em Minas Gerais, aos 28/10/1827, com Maria Thereza de Jesus, irmã de Francisca Leite da Silva (Matrimônios, Camanducaia - MG), mulher de Theodoro. Foi citado proprietário de terras divisas com o irmão famoso, morreu esquartejado por índios em São Pedro do Turvo (Correio Paulistano, 06 de setembro de 1865: 2).—
—Manoel  Silverio ou Theodoro de Souza, casado com Anna Jacinta de Jesus, ele partícipe num batizado realizado em São Domingos, aos 02 de agosto de 1862 (Batismos, SCRPardo, Batismos 1859/1879: 25).—
—Joaquim Theodoro de Souza, sem algum outro detalhe, aparece no rol de eleitores de 1852, em São Domingos (Pupo e Ciaccia, Índice Onomástico: 324).—
—Antonio Theodoro de Souza, casado com Anna Francisca da Silva (Batismos, Ouro Fino - MG, 20 de dezembro de 1837), em transações de terras (Pupo e Ciaccia, Índice Onomástico: 324).— 
—Anacleta Maria de Souza, batizada aos 18 de junho de 1832, em Aiuruoca (1816-1830: 32), casada com Joaquim Antonio Miranda, vista no batizado do sobrinho Pedro - filho de Bernardino de Souza e Theodora Maria de Souza, aos 04 de julho de 1860: 72-73 (SCR. Pardo, Batismos, Capela São Pedro - atual São Pedro do Turvo);—
—Bernardino de Souza, casado com Theodora Maria de Jesus [Souza e ou Nascimento], vistos no batismo do filho Joaquim (Consolação, 1836-1855: 47, data de 04/11/1841). Bernardino não foi relacionado no inventário paterno, conforme observado (Projeto Compartilhar, op.cit).—
—Dionizia Maria de Souza, batizada aos 23 de janeiro de 1820, idade de 08 dias, no então Bairro de Cambui - Paróquia de Camanducaia (Batismos, 1813/1821: 120). Em 1842 apresentou-se casada com José Estevão de Pontes, como madrinha no batizado de Joaquina, filha de Joaquim Theodoro de Souza e Maria Esmeria de Pires, aos 26 de abril de 1842 (Consolação, Batismos, 1836-1855: 52).—

2.2. As presenças, dele e parentela na província paulista
No ano de 1849, José Theodoro de Souza, sua mulher dona Francisca Leite da Silva e muitos de seus parentes já residiam na província paulista, conforme localizados o próprio Theodoro e sua mulher, fregueses em Botucatu, conforme assento eclesial de 02 de julho daquele ano, como padrinhos de batizado da menor Maria, da família Nolasco (Botucatu, Livro 1849/1856, 02/07/1849: 26). 
Flauzina, filha de José Theodoro de Souza e Dona Francisca Leite da Silva, casada com Josué ou José Antonio Diniz, também residia em Botucatu no ano de 1849, conforme Registro de Batismo da filha, de nome Maria, nascida em 20 de fevereiro de 1849 (Botucatu, Livro 1849/1856, 09/07/1849: 28).
Com certeza documental, uns e outros parentes entre sobrinhos, primos, cunhados e sogros de José Theodoro de Souza, se fixaram no sertão, alguns mencionados em Pupo e Ciaccia (2005, Índice Onomástico: 310-325). 
Muitos compadres e amigos que se tornariam parentes indiretos de Theodoro, pelos filhos e netos, além dos próximos e afastados, participaram da conquista sertaneja paulista de 1850/1851.
Também a mãe de Theodoro, Dona Maria Theodoro do Espírito Santo, exceto homonomia, estava presente na região botucatuense, em 1857, figurando como madrinha de batismo da parente Maria, filha de Messias José de Souza e Mathildes Severina de Souza (Botucatu, Livro de Batismos, 1856/1859: 20, 08 de março de 1850).

3. 'Cabeça de Bandeira'
José Theodoro de Souza não entrou no sertão por conta própria, posto dependente do financiamento de fazendeiros e capitalistas, para as despesas diversas como armas e munições, portanto sua missão considerada bandeira e não entrada. 
Dão provas de colaboracionismo financeiro na campanha de Theodoro os 'fazendeiros de Cima da Serra Botucatu' e outros, por si, herdeiros ou sucessores, que ocuparam posses tão logo livres as terras da presença indígena, destacando-se o Raymundo de Godoy Moreira e o genro Major José Inocencio da Rocha, pelos lados de Borebi; Francisco Antonio Ramos e Eliseo Antunes de Oliveira Cardia - descendente do sesmeiro Antonio Antunes Cardia (Lençóis Paulista); Faustino Ribeiro da Silva (Agudos); Sebastião Pereira, Pedro Francisco Pinto, também chamado Pedro Francisco Franco e os irmãos associados a José Theodoro de Souza, Antonio e Francisco Rodrigues de Campos (Bauru); Francisco de Assis Nogueira e José Machado de Lima - este sócio de Theodoro nas terras na região da atual localidade de; e outros.Para si Theodoro recebeu e teve respeitado o seu quinhão de terras, um latifúndio, também com o compromisso em amanhar o sertão, abrir estradas e fundar povoados. 
Aos comandados, conhecidos bugreiros - matadores de índios, sabe-se, o pioneiro-mor pagou-os todos com sortes de terras conforme combinações.

3.1. 'O Senhor das Terras' - as posses
José Theodoro de Souza estabeleceu-se no sertão em junho de 1851, imediatamente após a Guerra ao Índio (1850/1851). Theodoro assentou seus principais homens no Turvo, Pardo e Paranapanema, estrategicamente, como chefes bugreiros para garantias e cuidados iniciais do sertão, e também repassou partes combinadas aos envolvidos na conquista sertaneja, conforme graus de participações, para então dimensionar as terras, conferir divisas e reconhecer os rios, tributários paulistas do Paranapanema. 
Ardilosamente Theodoro promovera quatro registros paroquiais de suas terras, sob os números 516, 518, 519 e 520, sendo o primeiro conhecido como 'a grande posse'. Com a propositada divisão o declarante indicava outros posseiros na região, como artifício para adequações à 'Lei das Terras - nº 601, de 18 de setembro de 1850, e o Decreto regulamentador nº 1.318, de 18 de 30 de janeiro de 1854', demonstrando o sertão já habitado, e cada confrontante, no seu respectivo assento, declararia as mesmas e outras vizinhanças como provas de moradia habitual. Não sem razões os divisantes iniciais eram todos parentes, bugreiros e aqueles vinculados pelo compadrio. 
Foram os seguintes registros em nome de José Theodoro de Souza:
—Registro Paroquial de Terras nº 516: "Principiando esta divisa no barranco do Rio Turvo, barra do Correguinho da Porteira, divisando com os herdeiros e meeira de José Alves de Lima, e cercando as vertentes com quem direito for até encontrar terras de José da Cunha de tal até atravessar o rio Pardo, por outro lado até o espigão fóra com quem direito for até cahir no mesmo barranco do Paranapanema, por este abaixo até frontear a barra do rio Tibagy, e daqui cercando as vertentes desta agua que se acha dentro deste círculo até encontrar-se com terras de Francisco de Souza Ramos, daqui descendo até o barranco do São João, por elle abaixo até sua barra no Turvo, por este acima até encontrar com a barra do Correguinho da Porteira donde foi o princípio e finda esta divisa." (RPT/BT nº 516: 168-v).—
—Registro Paroquial de Terras nº 518: "Principiando no lado de cima divisando com Messias José de Andrade, e pelo alto, com quem direito for até encontrar com terras de Manoel Alves dos Reis, e pelo espigão abaixo com o mesmo Alves até o rio, e pelo veio do rio acima até encontrar o princípio desta divisa." (RPT/BT 518: 170-v).—
—Registro Paroquial de Terras nº 519: "Principiando na barranca do rio São João e seguindo por um espigão divisando com Matheus Leite de Moraes e rodeando as vertentes de um braço do São João até encontrar com terras de Francisco de Souza Ramos, até o veio do rio São João e por este acima até onde principia e finda esta divisa." (RPT/BT 519: 170-v).—
—Registro Paroquial de Terras nº 520: "Principiando esta divisa no barranco do rio São João defronte de um pau de cabiúna aonde faz ponto de divisa com Francisco de Souza Ramos até encontrar com terras de João Vicente de Souza daqui seguindo por um espigão dividindo com o mesmo Souza até encontrar com terras de Manoel Joaquim da Cunha até a barranca do rio São João e por este acima até encontrar com terras de Anastácio José Feliciano, divisando com José Antonio Diniz até encontrar com terras de Francisco de Souza Ramos onde fez princípio e finda esta divisa." (RPT/BT 520: 171-a).—
O Registro de nº 517 foi emitido a favor do posseiro 'José Joaquim de Faria, no Ribeirão de São João – afluente do Turvo'. 
Consta naquele mesmo 31 de maio de 1856, que:
—"José Theodoro de Souza obtém semelhante registro paroquial [de terras] junto ao vigário Modesto Marques Teixeira, de Botucatu (então, uma vila), para a vastíssima área entre a cidade de Bauru e as margens do rio Paraná. O registro denomina a área Fazenda Rio do Peixe, ou Fazenda Boa Esperança do Aguapeí" (Silva, 2008: 34).—
Os historiadores, quase todos, nada sabem ou pouco mencionam José Theodoro de Souza nesta transação, ou que ele fosse titular de terras em regiões de Bauru, todavia documentos oficiais confirmam Theodoro na região do Rio Batalha, dando combate aos índios. 
Documento do Juízo Municipal de Botucatu ao Presidente da Província de São Paulo, datado de 23 de agosto de 1861, denunciava que em Bauru, "esta imensa área na sua quase totalidade tem sido apropriada e vendida por José Theodoro de Souza e pelos irmãos Francisco e Antonio de Campos" (Carta de 03/09/1861, do Juiz Municipal de Botucatu, Filippe Correa Pacheco, à Presidência da Província se São Paulo, DAESP/BTCT, Doc. 41-B, Pasta 2: 0225-0226).
As posses de Theodoro eram todas livres de ocupações primárias e nelas não havia sinais de entradas e assentamentos de exploração, a não restar dúvida ser ele o primeiro branco a entrar nelas e apropriar-se, sendo o fundador das atuais localidades de São Pedro do Turvo, Campos Novos Paulista - Estância Climática, e Conceição de Monte Alegre no município de Paraguaçu Paulista. Consta ainda reconhecido desbravador, porém não o instituidor das paragens de Agudos, Avaré, Bauru, Cerqueira Cesar, Lençóis Paulista, Salto Grande, Águas de Santa Bárbara e Santa Cruz do Rio Pardo, nas quais sem apossamentos reconhecidos, à exceção de partes em Bauru.
Desconhecendo a geografia regional e as antigas denominações contidas no declaratório, por cento e cinquenta anos os estudiosos entenderam que a grande posse de José Theodoro de Souza, partia do Rio Turvo e Ribeirão das Antas, tributário do Alambari, pelo divisor Peixe/Paranapanema, até Água Boa, pouco abaixo da barra do afluente paranaense Tibagi, no Paranapanema, posse estendida até o Ribeirão das Anhumas, totalizando algo em torno de 60 quilômetros de testada por 150 de fundos, ou seja, quase nove mil quilômetros quadrados de terras, muito acima dos limites legais de posses permitidos ou tolerados pelo Império. 
Para os pesquisadores e historiadores outros, cujas obras consultadas por SatoPrado, Theodoro não teria assumido terras no Pardo santacruzense, contraditando o Registro Paroquial de Terras nº 516 que marcava o início da grande posse no Turvo, onde a barra do Córrego da Porteira – posteriormente denominado Ribeirão de Santa Clara, daí seguindo e cercando as vertentes e descer, de tal a despassar o Rio Pardo e, depois do espigão, chegar ao Paranapanema, para seguir curso até a barra do Ribeirão das Anhumas - mais propriamente até Água Boa, toda esta extensão confinada entre o Paranapanema e o divisor com o Peixe, inexistindo qualquer outra maneira em conciliar a travessia do Pardo com aquele declaratório de posse (SatoPrado e Costa, 2006).
Documentos de transações e regularizações de terras corroboram que propriedades desde o Pardo santacruzense situavam-se dentro da grande posse de José Theodoro de Souza, a exemplos entre outros, as fazendas Jacu, Furnas, Paredão e Chumbeada, em atuais municípios de Ipaussu, Chavantes e Ourinhos (DOSP, 03/08/1909: 23-24); a fazenda Santa Tereza, desde a barra do Pardo e partes do rio acima, em Salto Grande (DOSP, 17/06/1908: 1869); terras à margem esquerda do Pardo, porção onde a Fazenda Água do Pires, em Santa Cruz do Rio Pardo (DOSP, 18/06/1909: 4310-4311); e porções às margens direita e esquerda do Pardo identificadas na Fazenda São José do Rio Pardo (DOSP, 16/02/1908: 451).
Foram levantadas documentações das seguintes propriedades, originariamente de José Theodoro de Souza, repassadas aos genros: 
—1) - Francisco de Paula Moraes, casado com Maria Theodora de Souza ou do Espírito Santo, em Santa Cruz do Rio Pardo à margem esquerda do rio do mesmo nome, propriedade que se tornou conhecida como 'Fazenda Água do Pires', parte hoje em zona urbana da sede do município santacruzense (http://satoprado-ebook.blogspot.com.br/2013/07/os-primeiros-fazendeiros-e-fazendas.html);—
—2) José Ignácio Pinto, casado com Agostinha Theodora de Souza, propriedade no denominado Ribeirão do Palmital, em requerimento de legalização de posse: "Capitão Balthazar de Abreu Sodré, residente em Santa Cruz do Rio Pardo, com a seguinte descrição, 'Certidão passada pela Repartição do Estatística e Archivo do Estado do registro feito em 1º de Maio de 1856 na parochia de Botucatú, por José Theodoro de Souza. Certidão extrahida das notas do 1º tabellião de Santa Cruz do Rio Pardo, da escriptura de doação das terras da fazenda do ribeirão do Palmital feita em 3 de Setembro de 1860 por José Theodoro de Souza e sua mulher a seu genro José Ignacio Pinto e sua mulher. Traslado da escriptura de venda feita por José Ignacio Pinto e sua mulher ao registrante e outros'-" (R-SNA... 1903: 98-99, publicação 1903). Tal propriedade tornou-se parte de um dos grande grilos no sertão (http://celsoprado-razias.blogspot.com.br/2009/12/razias-falsas-escrituras-e-os-grandes.html).—

3.2. João da Silva e Oliveira - o 'grileiro', sobrinho e procurador 
O pioneiro-mor não sabia ler e nem escrever, portanto, para as transações de terras, recorreu ao sobrinho alfabetizado, João da Silva e Oliveira, nomeando-o seu bastante procurador, com amplos poderes para alienar propriedades.
João nasceu aos 02, batizado a 12 de agosto de 1827, em Camanducaia - MG, filho de José da Silva e [de] Oliveira e Maria Silveria (Livro 1823-1831: 90), sendo esta uma das irmãs de José Theodoro de Souza (http://www.projetocompartilhar.org/Familia/p02BernardaMariadeAlmeida.htm - 3.7.3); [João] foi casado com Rosa Maria de Jesus, falecida em data anterior a 18 de setembro de 1880 (DOSP, 20/10/1939: 30-35 - item 7), deixando os seguintes filhos conhecidos no sertão: 'José da Silva - casado; Maria - casada com Antonio Rodrigues, vulgo Antonio Ourives; Rita - casada com José Manoel da Luz; Manoel da Silva, casado; e Anna - casada com João Manoel Claro' - (DOSP, op.cit: 31 - item 12).
—O Ourives, a título de informação, era irmão de Francisco de Paula Moraes, o Chico Paula, genro de José Theodoro de Souza.
Com a idade de 57 anos, João, "já viúvo, veio a falecer no ano de 1884, em São Pedro do Turvo [ainda não localizado este documento], distrito de Santa Cruz do Rio Pardo, então no termo da antiga comarca de Lençóis" (DOSP, op.cit: 31 - item 11), sendo procedido inventário "para o qual foi, pelo juiz, nomeado inventariante o cidadão Bernardino Silva Oliveira, irmão do inventariado (...)." (DOSP, op.cit: 31 - item 12).
João, entre 1868/1873, 'traiu' Theodoro ao declarar suas as terras pretendidas pelo pioneiro-mor, adiante de suas próprias posses findadas no Ribeirão Água Boa, ou Ribeirão das Anhumas, sem uma definição coerente do início: 
—"[Terras que] começavam duas leguas abaixo da barra do fronteiriço Rio Tibagi, dividindo com eles vendedores, desciam o Paranapanema até o espigão por baixo do Ribeirão Cuiabá, de onde seguiam pelo espigão, acima até as últimas vertentes, daí continuando pelo espigão adiante, cercando todas as vertentes até frontear as duas leguas abaixo da barra do Tibagi e daí desciam em rumo direito até o ponto inicial." (DOSP, 20/10/1939: 31).— 
Para consolidar o 'golpe' João da Silva apresentou escritura de 04 de outubro de 1868, que as terras eram suas, adquiridas do próprio José Theodora de Souza e sua mulher Francisca da Silva Leite, documento falso, assentado e melhorado em cima de expediente particular, anterior, datado de 11 de janeiro de 1853, citados os mesmos vendedores e comprador, e só mais tarde transcrita em notas públicas (DOSP, 20/10/1939: 31-32). 
—Citado Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 20/10/1939: 30-35, sem discussões de méritos pelos autores SatoPrado, trata-se de Edital de citação de interessados na ação demarcatória com queixa de esbulho, etc, citados e juntados os documentos inerentes.—
Também João induziu seu genro Ourives e o irmão deste, Chico Paula - genro de Theodoro, para a ocupação de todo o Vale do Peixe, extensão intentada por Theodoro após 'o golpe' que lhe fora dado por João (SatoPrado, 'Razias, Falsas escrituras e os grandes grilos').
—As pretensões de Theodoro e os feitos de João, Ourives e Chico Paula, eram atos ilegais, quando não mais vigoravam posses firmadas na 'Lei das Terras, 601/1850, e seus regulamentos - Decreto 1.318/1854'.
João da Silva, perdida a confiança, deixou de ser procurador de Theodoro, porém sem a destituição, oficial, o que gerou, após a morte do pioneiro-mor, muitos casos de falsas escrituras de compras, vendas e permutas de terras, favorecendo 'grilos' e atos de extremadas violências, assunto melhor observado em SatoPrado (Razias, idem, 'Falsas escrituras e os grandes grilos'). 
A despeito do rompimento entre Theodoro e João, aparentemente ambos teriam se reconciliado, tanto que pioneiro-mor passou seus últimos dias de vida na casa e sob os cuidados do sobrinho João, em São José dos Campos Novos [do Paranapanema] - atual Estância Climática de Campos Novos Paulista, conforme ditam registros e testemunhos no inventário de José Theodoro de Souza (I/JTS, 1875).

3.3. A morte do pioneiro-mor
O inventário de José Theodoro de Souza revela-o falecido na localidade de São José do Rio Novo - atual Estância Climática Campos Novos Paulista, aos 24 de julho de 1875, e não em São Pedro do Turvo, no mês de abril daquele ano, conforme se pensava. 
A data da morte foi informada em expediente de 23 de setembro de 1875: "Dona Anna Luiza de Jesús, passou a mesma a fazer perante o Juiz suas primeiras declarações pela maneira e fórma seguinte: que seu finado marido José Theodoro de Souza, no dia vinte quatro deste, fazem dois meses que faleceu (...)." (I/JTS, 1875: 5-7), ou seja, aos 24 de julho de 1875, um mês após o nascimento do filho José Luis.
Também, Theodoro não foi morto por nenhum indígena, e sim por doença "em estado paralytico", de acordo com o testemunho do Padre Francisco José Serôdio, prestado aos 10 de setembro de 1877 (I/JTS: 111). 
Aos 22 de junho de 1875 Theodoro, doente e paralítico, teria feito testamento, em São José dos Campos Novos, perante Juventino de Oliveira Padilha, Escrivão do Juízo de Paz e Tabelião de Notas da Freguesia de Santa Bárbara do Rio Pardo, sem testemunhos, exceto Antonio Alves Nantes que assinou a rogo do testador. 
O testamento sugere falcatruas pelas exclusões de fazendas que Theodoro sabia ainda existir.
Para a Procuradoria de Terras, face o testamento, José Theodoro de Souza morreu pobre, endividado e sem a menor referência a qualquer porção de terras, limitando-se pedir aos filhos do primeiro matrimônio para reporem a quantia que lhe faltava para inteirar o pagamento da sua terça deixada à segunda mulher, Anna Luiza de Jesus, que então renunciaram os direitos em favor da viúva inventariante e do filho José Luiz, de três meses, aquinhoado com o que restara, ou seja, "uma morada de casa assoalhada e coberta de telha na capella de S. José dos Campos Novos, no valor de seiscentos mil reis." (DOSP, 16/03/1938: 36).
A inventariante não arrolou fazenda alguma, que informou existir, mas não sabia onde, assim como desconhecia a localização das matrículas de escravos. Anna até reconhecera, num primeiro momento, parte das dívidas contraídas pelo marido, e de outras nunca ouvira dizer, para mais adiante contestá-las, quase todas, e requerer embargos, entendendo ela que o seu procurador, João da Silva e Oliveira,
apresentara débitos inexistentes e informações fraudadas.
Comprovaram-se as forjicações por parte de Oliveira e Silva, conluiado com outros interessados nas dissipações dos bens do falecido, e Theodoro de Camargo Prado, Juiz Comissário residente em Santa Cruz do Rio Pardo, requereu em nome da viúva Anna Luiza de Jesus, nova análise do processo, e o Juiz de Direito da Comarca de Lençóis Paulista, Dr. Joaquim Antonio do Amaral Gurgel, deferiu pedido de embargo e determinou novas providências, para declarar irregularidades e má fé praticadas pelo então procurador.
Diante dos recursos apresentados e as juntadas de novos documentos, o processo de inventário do pioneiro foi encaminhado de Santa Cruz do Rio Pardo ao Tribunal de Relações da Província de São Paulo, aos 16 de agosto de 1882, e quase três anos depois a sentença homologatória obteve a veneranda sentença: 
—"Accordão em Relação, vistos, relatados e discutidos estes autos, despresão a preliminar de se não conhecer da appellação, bem como o aggravo do processo de fls. 146, e dando provimento a mesma appellação interposta a fls. 211, reformão a sentença appellada de fls. 108, por não se fundar em prova legitima e mandar em consequencia, que subsista a sentença de fls. 79-v que homologou a respectiva partilha e rateio; indo, porém, a praça para ser arrematada a escrava Honorata, separada para pagamento do appellante credor; a quem não se admitte ser ella adjudicada contra direito expresso em inventario de órfãos. – Pagas as custas pela appellada. S. Paulo, 17 de julho de 1885. Villaça, P. Uchôa, A. Brito Melo Matos." (DOSP, 16/03/1938: 2).—
A decisão não teve o final satisfatório às partes conflitantes, e ainda hoje herdeiros, legítimos ou não, sustentam que os registros de propriedades advindas de José Theodoro de Souza padeceram de vícios, considerando que as transmissões de domínios teriam ocorrido de forma fraudulenta após a morte do sertanejo.
Os insinuados e os comprovados invasores de terras, no uso de artifícios criminosos, das violências físicas e mortes, ou de imposturas de títulos primitivos de posses, escudavam-se que José Theodoro vendera muitos de seus bens, a totalidade deles, e os títulos seriam legítimos.
Quanto a essa dissipação dos bens é preciso compreender que José Theodoro adentrara no sertão para desbravá-lo e povoá-lo, e, mesmo assim, "No espólio do mineiro, sobre tudo, sabemos que existiam muitas águas que reunidas às outras, irregularmente alienadas, por falta de registro, formavam bloco, assaz considerável" (Nogueira Cobra, 1923: 99).
Entre 1896/1897 o herdeiro José Luiz "Attingindo a maioridade, induziram-no a tomar conta da herança que desconhecia e, em seguida, alienou dando origem esse acto a uma contenda" Nogueira Cobra, 1923: 57). 
O herdeiro pressuposto apresentara e requerera, informam as fontes, 'direitos hereditários' (DOSP, 16/03/1938: 36), de propriedades que entendera suas, em partes não inventariadas nem postas em testamento de seu pai, contraditado inclusive pela Procuradoria de Terras, todavia obteve pronunciamento favorável da justiça, e depois vendeu as terras para residir em Botucatu e lá falecer.

4. Theodoro sob o ponto de vista histórico
A história não destaca maior importância ao bandeirismo de José Theodoro de Souza que, à frente de bugreiros, invadiu o sertão centro sudoeste e oeste paulista, mais especialmente o Vale do Paranapanema, para exterminar tribos indígenas através das razias e dadas, no mais cruento etnocídio paulista do século XIX.
Documentos oficiais recentemente 'resgatados' comprovam o pioneiro como figura controversa, porém sua sagacidade e força na promoção de certos modos, aplicados no tratamento aos índios, tornavam-no benquisto pelos fazendeiros e simpático à maioria das autoridades provinciais, apresentando-se hábil negociador em situações conflitantes, sem, no entanto, abrir mão de seus objetivos em ocupar terras e vende-las sob garantias de segurança relativa. 
No ano de 1862, quando denunciados alguns sangrentos combates entre brancos e índios, Theodoro, acompanhado de uns tantos selvagens já pacificados, apresentou-se ao governo paulista para entrega das principais reivindicações dos sertanejos, num abaixo assinado que dizia das hostilidades indígenas e a sugestão de aldeamento, em Salto Grande, à maneira sugerida pelo mensageiro. 
Os documentos oferecidos estavam firmados pela Câmara Municipal de Lençóis Paulista, pela Subdelegacia de Polícia e Guarda Nacional de São Domingos, inclusive declaração de idoneidade de Theodoro assinada pelo padre André Barra, que serviram de instrução, processual burocrática, na criação do Aldeamento para Salto Grande (ALESP, 64.22.1 e seguintes).
A viagem foi tão bem sucedida que impressionou positivamente a quase todos que conheceram o pioneiro. Dr. Joaquim Antonio Pinto Junior, Advogado dos Índios, político e historiador, autor da obra 'Memoria sobre a Cathechese e a civilisação dos indigenas da Província de S. Paulo' (1862), descreveu Theodoro como um homem de:
—"(...) coração bem formado, tem-se constituído o desvelado protector d'aquelles infelizes que com rasão lhe dão até o nome de pai; foi ele que á expensas suas conduzio á esta Capital os que á pouco se apresentárão ao Governo; é elle que os auxilia em suas necessidades mais urgentes; é em sua fazenda que encontrão todos os socorros: de uma modestia á toda prova, não faz ostentação de seus serviços, por isso o seu nome ficaria ignorado se no recinto dos representantes da Provincia não tivesse sido por mais de uma vez apontado como um cidadão prestante á quem o paiz deve relevantes serviços." (Almeida Junior, 1862: 20-21).—
Esta apresentação do pioneiro igualmente influenciaria posteriormente João Mendes Junior, em 'Os Indígenas do Brasil', como:
—"Um dos maiores posseiros, talvez o maior posseiro das regiões do Paranapanema, foi o sertanejo José Theodoro de Souza. Em 1862 elle apareceu nesta capital, seguido de alguns indios (...).
Este sertanejo poude pacificamente manter e registrar todas as suas posses, que por muitas transmissões deram origem a grande numero de fazendas actualmente estabelecidas naquelles sertões. Os indios, ate poucos annos antes de sua morte, nunca tiveram lucta nem queixas deste sertanejo, os seus parentes e adherentes, sob pretexto de represalia ao assassinato desse seu irmão (assassinato que não ficou provado ter sido feito pelos indios, por cabôclos, ou mesmo parentes e adherentes), principiram em uma série de vinganças contra os indios." (1912: 66).
Bruno Giovannetti menciona Almeida Junior e Mendes Junior por referenciadores de José Theodoro de Souza, em sua obra 'Esboço Histórico da Alta Sorocabana' (1943: 129).
A proposta do aldeamento para Salto Grande, ao gosto do governo, dos políticos e dos organismos indigenistas do Brasil e internacionais, tinha por objetivo evitar matança e integrar o índio à sociedade, tornando-o útil, através da prestação compulsória de serviços gratuitos.
Isto escondia a realidade e todos sabiam. As frentes de ocupações precisavam de mão-de-obra escrava para trabalhar o sertão, e o aldeamento a isto se prestaria, como conjunto de soluções, para se burlar a legislação a respeito da escravização indígena, e os bugreiros e preadores se transformaram em elementos de convencimento ao índio aldear-se, cabendo ao administrador repassá-lo aos interessados em 'colaborar na educação e profissionalização do bárbaro', com isso a evitar extermínios ou guerras desiguais entre índios e fazendeiros, mascarando o escravização nativa, proibida por lei. 
O parecer favorável das autoridades ao Aldeamento em Salto Grande satisfez as necessidades dos fazendeiros apressados em cuidar de suas terras e livrá-las de vez do perigo indígena à solta nas matas, sem problemas com políticos e imprensa. Theodoro guindado ao cargo de Diretor do Aldeamento teve a indignação do Diretor Geral dos Índios, José Machado d'Oliveira: 
—"Augmentou-se a minha repulsa à criação do projetado aldeamento, ao constar-me que seria nomeado como diretor um homem que, na primeira entrada que fez no sertão de Botucatu, cometeu contra os selvagens as mais horríveis e nunca vistas atrocidades, massacrando a tudo quanto encontrava, sem distinção de sexo e idade, só para assenhorear das terras do sertão e em seguida vendê-las aos mineiros que começaram a povoar aquelas matas" (ALESP, EE. 64: 22).—
O pioneiro abandonaria o Aldeamento pouco depois, quando a certeza da Guerra com o Paraguai, antevendo-se chegada em massa de famílias mineiras fugidas do recrutamento militar. 
Em 1872, diante do expansionismo sertanejo e o crescente interesse por mais terras, Theodoro intentou avançar posses para além do Ribeirão das Anhumas/Água Boa, e preparava-se para o processo de integração, sendo o primeiro passo a obtenção de documento expedido pela Câmara Municipal de Lençóis Paulista (Livro 1, 1872: 86), comprovante de sua idoneidade e dos relevantes serviços prestados por ele no sertão, à própria custa, como abridor de estradas, fundador de povoados, empregador em suas propriedades, colaborador com a fé católica e pacificador de índios (Apud Chitto, 1972: 23).
João da Silva e Oliveira, em algumas ocasiões procurador de José Theodoro de Souza, antecipara-se, no entanto, tornando 'ilegitimamente' suas as terras pretendidas, e o pioneiro então voltou-se ao Vale do Peixe para lá encontrar o genro, Francisco Paula de Moraes. 
Theodoro, duplamente traído, certamente conseguiria seu intento, 'de modo legalizado', pois agia sempre sob os olhares coniventes e tolerantes do Estado e da Igreja. 
Atualmente compreende-se que a atividade exercida pelo pioneiro-mor enquadrava-se na solução dos conflitos civilizacionais, sensível:
—"(...) às pressões dos proprietários e aos interesses do Estado para proteger as localidades ocupadas por gente civilizada, laboriosa e útil ao país – requisitos efetivamente não preenchidos pelos grupos indígenas na perspectiva do capitalismo – faz com que a presidência da Província oficialize a repressão, mesmo com os proprietários já usando das ações armadas das dadas, comandadas por bugreiros" (Brandão, edição 1989/1990: 2).—
De qualquer forma a ocupação sertaneja do centro sudoeste e oeste pauleista, com tudo de bom e de ruim, deve-se a José Theodoro de Souza.
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Obs: Todos os assentos eclesiais nesta página, créditos: https://familysearch.org/
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