domingo, 20 de dezembro de 2009

44.7. Timburi

1. A lenda dos posseiros do século XVIII
'História do Distrito de Timburi' - Pde. Bento Gonçalves Queiroz
Cópia do original oferecido por Noir José Rodrigues 
Segundo as lendas do Sertão do Paranapanema, no ano de 1799/1800 certo Francisco Ferreira dos Santos, sua mulher Maria Prudência de Oliveira, conhecida como Maria Ferreira, esta com idade de 16 anos, e o filho Antonio, ainda de colo, chegaram aonde atual município de Timburi, provenientes de Ouro Fino, Minas Gerais, após rápida passagem por Jaú (SP).
Francisco Ferreira dos Santos teria cometido grave crime de morte em Ouro Fino - MG, homiziando-se com a família no sertão Paranapanema, precedendo a todos os demais desbravadores por meio século.
O Reverendo Padre Bento Gonçalves Queiroz, em exercício religioso em Timburi, escreveu a 'História do Distrito de Timburi', por aquilo que se sabia na época, 1922, sendo o texto compilado por João Vianna Simões, em 1949, depois publicado pela Prefeitura Municipal em outubro de 1961.
O historiador J.C. Pedro Grande confirmou, em seus levantamentos, que a localidade de Timburi, próxima do limite com o Estado do Paraná, devia sua origem, "por volta de 1800, aos mineiros Francisco Ferreira dos Santos e Maria Prudente de Oliveira, de Ouro Fino, no Sul de Minas, que, fugindo à justiça, se estabeleceram naquela região, então inóspita" (Diário de Notícias, 20/09/1953: 27, 'Mineiros fundam cidades paulistas', de J.C. Pedro Grande, do Conselho Nacional de Geografia).
O rancho, onde residia Francisco Ferreira e os seus, situava-se a seis quilômetros acima da confluência dos rios Itararé e Paranapanema. Já no sertão, o casal teve, depois, os filhos Emigdio, Bento e José Maria Ferreira, pela ordem. Viúva, Maria Ferreira concebeu, ainda, os filhos João Baptista e Sebastião.
Durante décadas sustentou-se que a família vivera sem contato algum com a civilização, explorando as margens do rio Itararé, apossando as bacias de vários córregos e correntes d'água, inclusive partes no atual estado do Paraná, mas marido e mulher não podiam apresentar-se para legalização de direitos sem receios de traírem a identidade do 'cabeça'. 
Na década de 1920 o Reverendo Padre Bento Gonçalves Queiroz, em sua ‘História do Distrito de Timburi’ (1922), contrapondo-se ao confirmar o isolamento familiar, registrou presenças de outros moradores na mesma época: 
—"Francisco Ferreira dos Santos e seus companheiros, pois consta que, aposseando a água que nasce onde está a sede da Fazenda Domiciano, a qual na barra também se chamou Ribeirão do Saltinho e das Cinco Ilhas, chegando ao alto da serra em um domingo, declararam que esta parte seria para São Domingos, do que não se lavrou documentos." (Queiroz - Padre, 20/09/1922).— 
Apenas com a morte precoce de Francisco Ferreira dos Santos, entre 1848/1850, os demais posseiros puderam registrar suas posses sem comprometimentos, em Itapeva, ainda antes de se traçar planos para ocupações das terras adiante da Serra, a partir de 1850/1851.
Além de Timburi outra localidade formou-se sob a liderança do casal pioneiro, ou pelo menos da mulher, o Espírito Santo do Itararé, em atual Estado do Paraná, que tornou-se, inclusive, município e teve no local a Loja Maçônica 'Amor à Virtude'.
Segundo publicação da 'Loja Maçônica Amor à Virtude', Maria Prudencia de Oliveira, a Maria Ferreira, foi "a primeira posseira que veio residir nas margens do Rio Itararé em 1842" (A Republica, 15/09/1902: 2, artigo: 'Com 118 anos' – quando da morte de Maria Ferreira, publicação pela Loja Maçônica 'Amor à Virtude' instalada em Espírito Santo do Itararé). Na matéria publicada, Maria Prudencia de Oliveira ou Maria Ferreira era natural de Pouso Alegre - MG, nascida em 1784, e: 
—"Maria Ferreira, veio para estas mattas até então incultas; devido á sua constancia, e á coragem de que era dotada, não temeu os perigos daquellas paragens para nellas localisar-se; luctou contra as emergencias da sorte, como muitos homens não teriam luctado: 1º, por ter que percorrer uma distancia de 50 leguas mais ou menos pelos rios, Paranapanema e Itararé; 2º, por haver nestes rios, grandes saltos e corredeiras, tendo para prosseguir sua marcha, de fazer grandes distancias de picadas, por serras escabrosas; 3º, com a arrojada coragem que possuia, não temia as grandes aldeias de indígenas, alojádos de um e outro lado os referidos rios, havendo elles por muitas vezes, assaltados grandes, turmas de homens armados, fazendo nellas muitas victimas; 4º, não temendo ainda as garras das onças e tigres que naquelles tempos abundavam nas brenhas do sertão. 5º, finalmente Maria Ferreira foi admirada de todos que a conheciam, pela sua coragem, bom coração, sentimentos de verdadeiro heroismo e bondade" (A Republica, op.cit).—
Maria Ferreira faleceu aos 31 de agosto de 1902, com 118 anos, conta a folha paranaense 'A República' e confirma o Registro de Óbito (Cartório de Registro Civil de Ribeirão Claro - PR), sendo declarante o seu filho Sebastião. Entre outros noticiosos, o hebdomadário santacruzense Correio do Sertão (04/10/1902: 2) também noticiou a morte da mulher símbolo do sertão.
A biografia ou história real de Maria Prudencia de Oliveira encontra-se num capítulo próprio desta Razias: 'Maria Ferreira - mulher símbolo do sertão'.

2. A verdade histórico-documental
Os homens de José Theodoro de Souza chegaram para os lados de Timburi, quando dos avanços sertanejos na 'Guerra ao Índio', de 1850/1851, mas Francisco Ferreira dos Santos já estaria morto e não existe, documentalmente, qualquer registro de sua presença no lugar, ao contrário de sua mulher Maria Prudencia de Oliveira ou Maria Ferreira, fartamente demonstrada após 1852.
De outra maneira, documentos eclesiais comprovam o casal residente no Bairro do Jacaré, em Araraquara, entre 1832/1848, onde nascidos os filhos: Emigdio (1833), Manoel (1834), Maria (1836), Maria (1838 por provável falecimento da homônima), Bento (1845) e Antonio (1848)  – (Araraquara, Livro de Batismos, 1830/1854). 
Não constam nas tradições o Manoel, e não localizado registro do filho José, do qual escreveu o Padre Queiroz: "José Ferreira, o mais novo dos filhos do casal vindo de Ouro Fino, foi avô materno da atual Ana Graciana, a qual já por sua vez tem que lhe chame de avó." (Pde. Queiroz, op.cit).
Afora os filhos do casamento, Maria Ferreira, enviuvada, concebeu João Baptista e Sebastião, nos anos de 1850. Esta assertiva, por documentos eclesiais, corrobora com a impossibilidade de Maria Ferreira ter chegado ao sertão já com o filho que lhe seria o primogênito, em 1800, aos 15/16 anos de idade, e ainda gerar outros meio século depois. Nestes considerandos, a origem histórica timburiense em nada diferiu das demais regiões primitivas conquistadas pelo bandeirismo de José Theodoro de Souza, de 1850/1851, e seus primeiros nomes constam em transações de terras, compras, vendas e permutas, articuladas ou não, após 1851, quando os irmãos Joaquim e José Ribeiro Tosta registraram "a posse das terras com a partilha dos bens apurados" (IBGE - Enciclopédia dos Municípios Brasileiros - EMB, Timburi – São Paulo, Volume XXX, 1965: 361).
Outros posseiros também fizeram registros paroquiais de terras apossadas, em Faxina, atual Itapeva, com retroatividade de datas, entre os quais citado o Ferreira dos Santos [sic] que vendera, aos 06/11/1849, parte de sua propriedade, aproximadamente ¼ da área total de Timburi, à margem direita do rio Itararé, a Benedito de Tal – vulgo Chapéu de Couro, que de pronto as repassou para João Batista de Paiva, com a data de 06 de novembro de 1849, em Faxina (Apud Padre Queiroz, op.cit).
—João Batista de Paiva e sua esposa Maria Rita Borges vieram de Alfenas (MG), com oito filhos e numerosos escravos, destacando-se de sua prole Francisco [de] Paiva que fez, na área que lhe foi destinada, um retiro para criação de porcos, o que veio trazer por Retiro o primeiro nome para a região, "cujas terras foram transferidas a vários sucessores da família até Pedro Dias Ribeiro" (IBGE / EMB - Timburi, 1965: 361), doador de pequena área para formação de patrimônio em torno da primeira capela erigida.—
O padre Queiroz assevera que "Francisco de Paiva, filho de casal de Alfenas, vendeu este terreno [aonde viria se instalar o Distrito de Timburi] a Ildefonso José de Mello, que vendeu para Antonio Pinto da Fonseca, e este a Antonio Theodoro de Souza, cujos herdeiros a venderam a Pedro Dias Ribeiro, que fez a primeira doação para o Patrimônio Eclesiástico", intenção vinda de comprador a comprador, para o povoado rudimentar já existente desde os tempos do apossamento primitivo.
Nesta transação, segundo o padre Queiroz, o 'Chapéu de Couro' figurou como posseiro, pois "Sendo Francisco Ferreira dos Santos um criminoso, as posses eram registradas por outros, entre os quais, além dos Tosta, Pedro Rodrigues, João Antonio Leal – conhecido por João Delgado, e seu irmão Daniel. João Rodrigues, Salvador Rodrigues e Juca Euzébio". 
Tratava-se de posse articulada, ou seja, as terras em nome de um intermediário cujo nome utilizado por terceiros para a prática de transação burlista. Os caboclos entendiam-se, e não constam informes de algum tipo de desavença entre eles por questões de terras.
Nos anos de 1850 outras famílias chegaram em Timburi adquirindo posses de herdeiros e sucessores: 
—"A posse de Água Preta foi feita por João Antônio Leal; a água do Poço do Dourado foi apossada por Domingos Antônio de Lima e da Areia Branca por João da Cruz Pereira."—
—"A Água do Palmital pertenceu, inicialmente, a José Alves Machado, do Rio de Janeiro, que por sua vez foi vendida a Domingos Pereira Fernandes, de Botucatu, a cujos herdeiros pertenceu a maior fazenda deste Município. Um deles, o Major José Pereira Fernandes, deu ao Retiro o nome de Santa Cruz do Palmital. Estava, assim, estruturada a povoação do nascente Distrito." (Mello - Marileide, 1973), 'onde erigida outra capela, ao centro de uma área doada à Igreja para formação do novo povoado, extinguido que foi o antigo Retiro'.—
—De João Antonio Leal, consta proprietário primitivo "no lugar denominado Ilha Grande, nas margens do Paranapanema", e que a permutou com João da Cruz Pereira dono de "Uma sorte de terras na barra do rio Itararé, que houve de Vitoriano Garcia" (Pupo e Ciaccia, 2005: 168 – E 72, 30 de dezembro de 1854).—
Santa Cruz do Palmital tornou-se Distrito de Paz do município e comarca de Piraju, pela lei 869 de 21 de agosto de 1903, publicada apenas em 11 de outubro de 1916, já com a nominação Timburi em razão de grande quantidade de madeira com esse nome 'Timbury' na região.
A historiógrafa Marileide Mello assinala um nome intermediário, entre Santa Cruz do Palmital e Timburi: 
—"(...) existe na cidade, em, poder do Sr. Lindolfo Camargo Alves, um documento de escritura pública de compra e venda de um imóvel, no livro de notas n° 03 fls. 62 e verso 63, referência a um terceiro nome, dado ao referido distrito, de Santa Cruz do Paraíso datado de 20 de abril de 1901 tendo como vendedores Manoel Simões da Silva e sua mulher Maria Pereira de Brito, e como comprador, Antônio Martins Estevão; transação feita no valor de um conto de réis. Esta escritura foi feita pelo tabelião Manuel Luiz Valim."—
Aparentemente trata-se de erro informativo ou cartorário, e, assim, Timburi atingiu a sua emancipação política, através de um plebiscito, pela lei 233 de 24 de dezembro de 1948, e sua primeira eleição em 13 de março de 1949 com posse aos 02 de abril do mesmo ano.
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