domingo, 20 de dezembro de 2009

45.10. O desditado Frei Mariano Bagnaia

1. Desejos de vida missionária
Imagem atribuída ao Frei Mariano de
Bagnaia - de domínio público
Frei Mariano foi batizado Saturnino, na localidade de Bagnaia, província de Viterbo [Itália]. Vocacionado, aos 15 anos optou pela vida religiosa ao entrar para a Ordem dos Capuchinhos, onde concluiu os estudos em Teologia, Filosofia e Letras. Adotou nome religioso de Mariano de Bagnaia, requerendo autorização da Ordem para integrar o quadro de Missionários Estrangeiros.
Giovannetti (Esboço Histórico da Alta Sorocabana, 'A Catequese dos Índios', 1943: 43-56) discorre com propriedade a saga de Frei Mariano de Bagnaia. Todo o texto presente está fundamentado na narrativa de Giovannetti, desconsideradas quaisquer outras fontes acessadas pelos autores.
Bagnaia chegou ao Brasil, capital Rio de Janeiro, em março de 1847 e, desde logo, ensejou vida missionária de catequização ao índio, no atual estado do Mato Grosso, primeiro Cuiabá depois Diamantino, antes de partir para a aldeia dos Kinikinos, futura Vila do Bom Conselho, na região do Baixo Paraguai.
Precisando retornar ao Rio de Janeiro, Mariano o fez pelo caminho dos rios Paraguai, Paraná e Prata, para depois subir o litoral até o destino proposto. Teve problemas de saúde, 'febres', que o obrigou permanecer semanas em tratamento no Convento dos Capuchinhos em Buenos Aires.
Prestando contas aos superiores e autorizado voltar para o interior do Mato Grosso, com os companheiros freis Ângelo Antonio de Caramanico e Jerônimo S. Columba que permaneceu em Sorocaba, enquanto  Mariano e Ângelo Antonio se dirigiram a Corumbá, em atual Mato Grosso do Sul, onde se separaram: Ângelo com destino a Vila do Bom Conselho [Kinikinos] e Mariano a Cuiabá.

2. Prisioneiro e torturado na Guerra com o Paraguai 
Com a declaração de guerra do Paraguai contra o Brasil, a tropa de Solano Lopez encontrou o frei Mariano em Miranda, como vigário e com jurisdição sobre todo o sul circunvizinho.
Teria resistido a invasão, porém preso, torturado e conduzido para o presídio de Niasc [Paraguai], onde se encontrou com frei Ângelo, também capturado, e eles passaram por diversas prisões paraguaias, conforme movimentações do exército. 
Giovannetti relatou que a derrota paraguaia, na batalha de Lomas Valentinas, fez com que Lopez ordenasse matança diária de prisioneiros, inclusive religiosos, sendo frei Basilino Landini o primeiro sacrificado em Assunção.
Frei Ângelo foi decapitado e Mariano conduzido com outros prisioneiros para Parrero Grande, onde seria executado. Quis o destino que soldados brasileiros se encontrassem com aquela ala do exército paraguaio, dando inicio a um inesperado combate, facilitando fuga de frei Mariano que, perseguido e sem alternativas se lançou em águas do rio Apa, mesmo sem saber nadar, porém salvo por um soldado brasileiro.
Visivelmente abalado pela guerra, Mariano retomou suas atividades em Corumbá, como herói de guerra e nomeado 'Pregador Imperial e honras de Major do Exército Brasileiro, por Carta Imperial de 08 de outubro de 1873'.

3. Sua morte, talvez para sempre inexplicada
Na capital do Império em 1886 foi designado para substituir o diretor do Aldeamento São Pedro Alcântara, em Jataizinho - PR, às margens do rio Tibagi, porém, meses depois retornou para a Capital do Império, Rio de Janeiro, para receber ordens de fundar Catequese em Campos Novos. Giovannetti disse que Mariano, mesmo adoentado, "deliberou obedecer às ordens superiores".
Confuso mentalmente, perseguido pelas visões noturnas e terríveis lamentos dos tantos torturados de guerra que presenciara no Paraguai, frei Mariano quando de passagem por São Pedro do Turvo rumo a Lençóis Paulista não resistiu às tentações que o acusavam indigno de viver, enquanto seus discípulos e companheiros de fé sofreram o martírio, e quis ir ao encontro deles e, "num momento de forte desespero, suicidou-se cortando com uma navalha a carótide" (Giovannetti, 1943: 51).
Noticiário da época, na grande imprensa (Correio paulistano, 21/08/1888: 2) traz:
—No dia 08 [de agosto de 1888] falleceu frei Marianno de Bagnaia, em consequencia do medonho golpe em si deu a 18 de mez passado [julho de 1888] quando accommettido de um accesso de loucura."—
Versão variante, religiosa e corrente em Campos Novos Paulista, não menciona o suicídio de frei Mariano, e sim que tenha assaltado e gravemente ferido por ladrões, a mando, que o sabiam ecônomo da Ordem e que levava consigo elevada soma em dinheiro para entregar ao Padre Bernardino de Lavalle para a restauração do aldeamento em Campos Novos ou mesmo a fundação de outro onde melhor aprouvesse àquele sacerdote. O dinheiro, dizem, nunca foi encontrado.
A morte do frei Mariano de Bagnaia ainda causa constrangimento aos católicos de Campos Novos Paulista, de ascendência italiana, descendentes daqueles que conheceram o religioso.
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