domingo, 20 de dezembro de 2009

35. Brancos avançam, índios defendem-se

Algumas das violentas enfrentações entre brancos e indígenas no sertão
Reação indígena contra bugreiros em Campos Novos. 
Acervo: Luiz Carlos de Barros 
José Theodoro de Souza era exterminador de índios, através das razias e dadas, para lhes tomar as terras e prepara-las para a chegada do homem civilizado e a promoção do progresso.
Segundo memórias regionais, partes expressas conforme narrativa de Francisco Marins (Clarão na Serra, 1985), para o combate ao índio Theodoro levava consigo os bugreiros, armados com o que havia de mais moderno e mortal dentre os equipamentos de guerra, que pudessem carregar às costas, em busca da aldeia pretendida.
Certa feita, o bugreiro Vicente Lourenço à frente de um bando, teria se deslocado até o Rio de Janeiro para obter "armas e munições e mais homem, se conseguisse, para enfrentar o gentio do sertão" (Leoni, Contos do Tio Chico, 1984: 83).
Os bugreiros, ainda, valiam-se dos índios pacificados para dar combate às tribos selvagens ou opositoras ao homem branco. Algumas situações comprovam isto: a família Vieira, da região atual de Paraguaçu Paulista, socorreu-se de índios requisitados do Aldeamento São Pedro de Alcântara, de Jataizinho-PR (Jorge Junior, Um pouco de história, 19/11/1967), para dar combate ao Caingangue.
O Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, de Campos Novos do Paranapanema (localidade de tantos nomes e mais conhecida por Campos Novos Paulista), possuía índios aldeados que o auxiliavam nas guerras e preações contra tribos inimigas. Em São Domingos índios oti-xavantes e brancos protegiam-se, e José Theodoro de Souza "usava índios contra índios" (Nantes, dados de 24/09/2007).
Revelações de descendentes sertanejos, netos e bisnetos, ainda mantêm relatos como ocorriam os combates aos índios. A incursão era cautelosa, rápida e silente, procurando postarem-se nas cercanias do aldeamento altas horas da noite, para distribuição dos homens em pontos estratégicos. Eram invasões ligeiras, menos de dez dias, pelas dificuldades de se levar mantimentos, armas e munições às costas de cada soldado.
Para bons efeitos das táticas de guerras em cercar os inimigos, Theodoro colhia informações de seus índios pacificados, que lhes serviam de espiões e partícipes de ataques. Por isso sabia quando e como se deslocar pelos campos, cerrados e matas, bem como dividir seu exército.
Nas matarias não usavam animais para qualquer tipo de cerco pela vulnerabilidade nos ataques, dificuldades de movimentação e presença facilmente denunciada.
Os atacantes aguardavam o amanhecer para dar sinal de ataque, procurando surpreender o inimigo ainda na indolência do sono, quando uns atiravam e outros invadiam os ranchos com ataques a facões e punhais, pondo em fuga os sobreviventes que iam exatamente à direção pretendida, ou seja, num beco sem saída, onde eram abatidos pelos atiradores, sem piedade.
Não era fácil algum indígena sobrevivente, como difícil algum branco ferido sob proteção da coura e o gorro, gibão e capuz de couro de anta revestido de grosso tecido de lã, praticamente imune às flechas indígenas atiradas de longa distância. As calças eram de tecidos e cobertos por perneiras de couro.
Os bugreiros, braço armado do capitalismo (fazendeiros e latifundiários), à moda dos bandeirantes e entradistas não usavam botas em seus deslocamentos, preferindo os pés descalços, postos mais "apropriados para as veredas nos matos, facilitando o deslocamento rápido em meio ao emaranhado de plantas e ao solo úmido" (Garcez Marins, 2004: 2). 
Dentro dos ranchos mulheres e crianças eram mortas a golpes de facões e os velhos, geralmente, degolados. Disto advinham as crueldades: ventres rasgados, corpos infantis atravessados por punhais, empalações, membros decepados.
Algumas vezes os brancos incendiavam as moradias indígenas, enquanto os soldados colocados em pontos estratégicos aguardavam os fugitivos, para abatê-los a tiros. Noutras, quando não incendiavam tudo, os assassinos deixavam água e vitualhas envenenadas, caso algum sobrevivente ou ausente necessitasse delas.
Os índios temiam as dadas e as razias, o que os levava para bem longe da região, assim a salvos da morte, não sendo incomum encontrar aldeias desabitadas recente ante a simples ameaça que Theodoro precisava de índios, ou estava na região.
Por isso os xavantes e os guaranis-caiuás, dos campos e cerrados, quando não podiam fugir, bem rápidos vinham se colocar ao dispor para preamento, tão logo o caçador saísse para as costumeiras 'caças aos bugres'.
Para preação Theodoro preferia os campos abertos porque assim era mais fácil combater índios cujas defesas e ataques tinham pouca eficácia diante das armas de fogo do sertanista. Mais que isto, quase não encontrava resistências, pois que os xavantes e caiuás temiam-no, certamente em lembranças às investidas mortíferas que o sertanista lhes aplicara em 1850 e 1851.
Os destroços xavantes e caiuás, fugindo de Theodoro, não podiam entrar nas matas dos rios do Peixe e do Feio sem defrontarem com outro inimigo igualmente cruel, os Caingangues, preferindo a escravização pelos brancos, nem todos maus, que capturados pelos Caingangues.
José Theodoro não temia os Caingangues, também chamados Coroados, mas raramente os apanhava para servidão, preferindo matá-los todos, porque eram os terrores dos sertanistas e atrapalhavam o progresso do sertão.
Pelas atitudes do sertanista-mor pouco lhe importava o direito indígena de viver, ter sua liberdade, o seu zelo pelas terras, os seus apegos familiares, o respeito pelas crianças e as gratidões aos velhos. Theodoro mostrava-se implacável, sem nenhum outro fito que não matar índios, escravizá-los e tomar-lhes toda a terra, porque deixá-los viver em liberdade era a quase certeza que eles voltariam, mais fortes e unidos, para os contra-ataques.
A progressiva entrada e fixação do branco em terras subtraídas aos índios trouxeram, inevitavelmente, imprevistos ataques indígenas e violentas reações dos bugreiros. Aliás, a invasão territorial branca já era sinônima de mortandade aos índios, que então reagiam.
Assim descreveu Sampaio que "a conquista destes sertões é uma obra que se vai effectuando dia a dia, lentamente, luctando o sertanejo com o indio, cahindo quase sempre o primeiro victima da emboscada do segundo, mas ficando sempre a terra em poder da civilisação que avança" (1890, 4: 88). Porém os índios também matavam brancos, em defesa territorial e um ou outro caso de vinganças, apesar da desigualdade de armas e dos objetivos de lutas.
No sertão aconteceram violentos ataques que muitos autores, Giovannetti entre eles, dizem dos bárbaros selvagens aos homens civilizados e progressistas, em verdade ataques quase todos dos Caingangues contra indivíduos ou grupos reduzidos, eivados de extremas crueldades, como empalações, degolas, crucificações, esquartejamentos, práticas que os indígenas aprenderam dos brancos.
Os Caingangues não tinham por regra atacar os povoados, embora alguns registros de ataques de grandes proporções, por exemplo, contra a Vila de São José do Rio Novo (Campos Novos Paulista) em 1874 no citado episódio conhecido em todo sertão, por 'Batismo de Sangue de Campos Novos'.
São muitos os relatos de ataques indígenas contra os brancos nos Vales do Pardo, Paranapanema, Peixe, do Feio /Aguapeí e Capivara, alguns célebres na região de Conceição de Monte Alegre, em atual município de Paraguaçu Paulista. 
—"O municipio de Santa Cruz do Rio Pardo, que já este anno foi theatro das correrias de indios bravios, acaba de ser invadida por um bando d’esses selvagens, que immolaram em cruel hecatombe 14 vidas, estragando plantações e gado!" (RG, BMIP 1022, 1877/1878: 58).— 
"Este anno [1878] os índios de CamposNovos, por três vezes, atacaram trabalhadores e proprietários do município de Santa Cruz do Rio Pardo" num assunto prosseguinte "Os índios de Campos-Novos, consta-me que já conhecem e fallam o nosso idioma; e accossados como vivem por algumas raças selvagens e inimigas, com muito pouco esforço são capazes de estabelecer relações que os tirem d’aquella vida nômade, augmentando a prosperidade do lugar" (RG, BMIP 1022, 1878, Incursão de Índios,1878: A 15 - 15).—
O massacre na Água das Mortes, embate de sérias proporções e consequências entre índios e brancos, já morto o pioneiro Theodoro, aconteceu nas proximidades do atual município de Paraguaçu Paulista, no ano de 1878, na Fazenda Água das Mortes - nome posterior aos acontecimentos, quando do inesperado ataque caingangue a José Theodoro de Souza Junior [Theodorinho] e suas gentes, com saldo de quatorze brancos mortos, inclusive o Theodorinho e sua família ali presente, com um único sobrevivente, uma criança levada pelos índios, de acordo com Giovannetti (1943: 67-68) ao mencionar os fatos, evocando testemunhos dos irmãos Joaquim e Jerônimo Vieira, os primeiros que chegaram no local da tragédia.
Jorge Junior (Um pouco de história... 15/10/1967) descreve dos horrores, em que o filho de José Theodoro de Souza morreu flechado e teve o corpo esquartejado, igualmente seus camaradas, enquanto mulheres e crianças refugiaram-se numa das casas, logo cercada pelos índios que ali consumaram a matança, inclusive a esposa e filhos de Theodorinho, salvando-se apenas uma mulher e seu filho de três meses, escondidos numa moita salvadora.
O autor Jorge Junior teve, por fonte primária, testemunhos de pioneiros descendentes da primeira e segunda geração de João Batista Vieira, com lembranças que a mulher sobrevivente com a criança, já em Minas Gerais, procurou pela família Vieira para contar-lhe o acontecido e dissuadi-la, em vão, de fazer sertão.
Leoni, igualmente detalhou o massacre na Água das Mortes, contando os mortos: José Theodoro da Silva Junior, sua mulher Mariana de Souza Pontes, dois filhos, uma filha cujo marido também morto, um menino de doze anos, quatro escravos e duas outras mulheres. Sobreviveram apenas a doméstica Nicolaia, e uma criança de colo, escondidos no mato, sem revelar grau de parentesco.
José Laureano [ou Lauriano], genro de Theodorinho, e sua mulher não estavam presentes quando dos acontecimentos em causa de uma desavença entre sogro e genro o que levou este ultimo, juntamente com a mulher, abandonar o local no dia anterior (Leoni, Contos do Tio Chico, 1984: 252-263).
Teodoro Sampaio, em 1890, descreveu a chacina, com variantes de local e ano do acontecimento, além de detalhes e acréscimos:
—"De José Theodoro, estabelecido no rio Capivara mataram, de uma vez, em 1881, treze pessoas da familia entre homens, mulheres e meninos. Os cadaveres foram achados despidos e mutilados de um modo horroroso; uma mulher, ainda moça, foi encontrada espetada em aguda estaca que vinha sahir ao pescoço. Com a furia de cannibaes mataram as creanças despedaçando-lhes o craneo, mataram tambem os bois do carro, os cavalos, roubaram toda a ferramenta, toda a roupa, arrancaram até as ferragens do carro, as ferraduras dos animaes, as guarnições metálicas dos arreios. Foi uma carneficina horrível" (Sampaio, 1890: 107).—
Publicação trinta dias após o ocorrido com Theodorinho reproduziu a seguinte matéria:
—"Na Tribuna Liberal, de hontem, lê-se o seguinte:
Morticinio - No districto de S. José do Rio Novo, do termo de Santa Cruz do Rio Pardo, no dia 14 do mez passado [outubro de 1878], foram assassinados pelos indios selvagens 14 pessoas, além de estragarem um rancho de trabalhadores e gado que encontraram.
Foram victimas José Theodoro de Souza [Junior], dono do sitio Capivara, sua mulher e cinco filhos, um maior e quatro menores, José Luiz Barbosa, sua mulher e alguns trabalhadores, cujos nomes ignora-se.
Desappareceu uma menina, que se suppõe ter sido conduzida pelos selvagens.
Escapou uma mulher que pôde esconder-se com uma criança. Os cadaveres foram conduzidos em um carro e dados à sepultura".
(Jornal - A Reforma, RJ, 13/11/1878: 3).—

A chacina da família de Vieirinha, ocorrida no ano de 1880, quando os Coroados (Caingangue) atacaram o rancho de José Vieira, conhecido por Vieirinha, agregado do fazendeiro Joaquim Vicente Ferreira, na Água do Brejão, região de Paraguaçu Paulista. Na tragédia foram mortos o casal e cinco filhos:
—"A mulher sucumbiu no próprio leito, e, ele, não passou da porta do seu rancho em chamas, caindo flechado pelos índios. Os pequenos, à medida que se libertavam da fornalha, iam sendo massacrados impiedosamente. A filha mais velha, entre menina e moça, em desabalada carreira foi mais longe na sua fuga (...) a sua sorte, porém, estava selada. Ao atra-vessar a pinguela certeira flecha traspassou-lhe o corpo franzino" (Jorge Junior, Um pouco de história... 22/10/1967).—
O esquartejamento na descoivara, por volta de 1883, os Caingangues atacaram o fazendeiro Joaquim Vicente Ferreira e dois agregados, um deles por nome Vicente Garcia, e família, quando faziam o preparo final da terra. Os índios caíram-lhes em cima matando-os a golpes de bordunas, retalharam os corpos e decapitaram Vicente e sua cabeça levada pelos atacantes. Um filho de Joaquim, que estava mais distante do grupo, conseguiu empreender fuga (Jorge Junior, Um pouco de história... 29/10/1967).
O trágico ataque à família Pereira Alvim, em 1887, quando os Caingangues atacaram de surpresa ao fazendeiro Manoel Pereira Alvim e seus ruralistas, pondo em fuga os brancos, os indígenas pacificados e os escravos negros, à exceção de Luiza, que ficou junto do seu senhor e de Antônio Luiz Ferreira, genro de Alvim, que foram então mortos e esquartejados, sendo a cabeça de Luiz levada pelos índios. A mulher de Alvim ficou ensandecida, e sua filha, esposa de Antonio Luiz, entrou em choque vindo falecer três dias após (Jorge Junior, Um pouco de história... 5/11/1967).
Os familiares e agregados da família Pereira Alvim foram à forra, seguindo trilha dos assassinos, com sessenta homens fortemente armados, para além do rio do Peixe e, já nas vertentes do Feio, encontraram uma única aldeia, com velhos e feridos, imediatamente mortos. Sem outros índios à vista ou saciada a vingança, fizeram pouso a margem do rio do Peixe e, ao amanhecer do dia foram surpreendidos pelos índios, num ataque rápido com dois brancos mortos e os demais postos em fuga (Jorge Junior, Um pouco de história... 05/11/1967).
Tradição regional diz que os membros da família Pereira Alvim deixaram venenos nos vasilhames e minas de água dos Caingangues, certos que eles retornariam ao local. Marques confirma a memória familiar numa versão simplista dada por Adauto Davini, descendente de Manoel Pereira Alvim: "O irmão da vítima, residente na cidade de Santa Cruz do Rio Pardo, retornava de uma romaria a Aparecida do norte. Quando se inteirou do fato, foi ao local onde ocorreu a chacina e envenenou o cocho de mel dos índios" (Marques, 2009: 16). 
Noutra feita, os índios atacaram o povoado, próximo onde viria ser Paraguaçu Paulista, mais ou menos meio quilômetro de distância, com mortes para ambos os lados, sendo os índios rechaçados contudo o povoado aparentemente abandonado (Giovannetti,1943: 68).
Theodoro Sampaio menciona atos de violência indígena num ataque ligeiro por índios Caingangues: "Em S. Matheus do Sr. José de Paiva os indios assaltaram uma vez em 1884 a sua fazenda, mataram dous escravos que trabalhavam nas plantações e roubaram toda a ferramenta" (1890 – 4:107).
Diz-se, ainda, de violenta represália da família Vieira contra os índios, por volta de 1888, quando o patriarca João Vieira fora vitima de ataque indígena, mas socorrido pelos parentes escapou ileso das mãos dos assaltantes. Apesar de ter sido ocorrência sem maior consequência, poderia ter sido pior, João Vieira optou pelo ataque punitivo contra os índios, organizando uma expedição de voluntários formada por negros, escravos e libertos, índios catequizados em São Pedro de Alcântara (Jataizinho-PR), e mais o famigerado bugreiro Francisco Lourenço Nogueira ou Ferreira, o Tio Chico das histórias descritas por Leoni, homem experimentado nas razias e dadas (Jorge Junior, Um pouco de história... 19/11/1967).
Sob as ordens de Jerônimo Vieira e Chico Lourenço a tropa partiu rumo a atual Tupã, atravessou o Rio do Peixe para encontrar uma aldeia nas vertentes do Rio Feio, onde numa emboscada nunca esclarecida de modo convincente, exterminaram todos os Caingangues ali postados, velhos, mulheres e infantes, à exceção de uma criança, de quatro anos aproximadamente, tomada pelos índios mansos com objetivos em criá-la. O grupo atacante sabia, por antecipação, que naquela aldeia não se encontravam guerreiros, mas optou pelo massacre como lição aos índios.
Praticada a matança o bando pôs-se de volta por um caminho interceptado por outros Caingangues que os aguardavam, tocaiados próximos a um rio desconhecido. O primeiro a tombar foi um índio catequizado, depois outro ferido e assim começou a batalha, até que os atacantes se retiraram mata adentro.
Os índios catequizados vingaram-se na criança Caingangue capturada, fazendo-a aos pedaços, antes que algum membro da comitiva, dizem, pudesse impedir a barbárie.
Jerônimo Vieira, ferido num dos braços durante confronto, jamais comentou os horrores daquela dada, mas antigos moradores da região, amigos da família, creditavam o massacre realizado pelos índios mansos e os negros, sem participação dos brancos, talvez para abrandar o sofrimento que acometera ao Jerônimo, que jamais presenciara tantos horrores quanto àqueles praticados por Chico Lourenço e os demais participantes (Jorge Junior, Um pouco de história, 19/11/1967).
Os Caingangues e os Vieira travaram vinte anos de guerras na região de Paraguaçu Paulista. João Baptista Vieira e Silva, os filhos Jerônimo, Domingos [Minguta] e Joaquim, mais o genro José Antonio da Costa Vasconcelos, não apenas dispunham de bugreiros contratados e de índios pacificados para os serviços da família contra os selvagens, como arrendavam seus homens aos demais interessados. O Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, de Campos Novos, também tinha exército bugreiro disponível para aqueles que dele necessitassem.
Os embates particulares entre os Coroados e a família Vieira eram constantes, porque os Vieira fixaram residência, por volta de 1880, bem a meio do caminho e de comunicação entre as tribos do Peixe com as do Paranapanema (Giovannetti, 1943:. 68). O último combate entre coroados e brancos na região de Paraguaçu Paulista ocorreu por volta de 1901, novamente com a família Vieira, sem conseqüências maiores (Jorge Junior, Um pouco de história... 26/11/1967).
No ano de 1896 novo ataque indígena em Paraguaçu Paulista, de proporções, perpetrados contra ex-escravos que teriam invadido e destruído roçado dos índios iniciado às margens do Rio Alegre, afluente do rio Capivara (Jorge Junior, Um pouco de história... 26/11/1967). Relatos de 1960 destacavam as vítimas moradoras no Quilombo do Ribeirão das Antas, em atual município paraguaçuense, quando intentavam desmanchar o roçado indígena nas suas cercanias.
Também constam relatos de índios bravos atacando os mansos, escravizados ou aldeados, a exemplo de  ocorrência em 1898, num ataque acontecido no bairro rural do São Mateus [Paraguaçu Paulista], no local denominado Aldeia, reduto de índios pacificados, onde Caingangues selvagens atacaram e mataram dez famílias da mesma tribo que se deixaram civilizar, portanto a quebrar regras tribais (Giovannetti, 1943: 58). Essa ação confunde-se com aquela narrada por Sampaio como acontecida em 1884.
Os índios massacrados pertenciam antes ao Coronel Francisco Sanches de Figueiredo e moravam na Fazenda do Coronel, em Palmital, sendo removidos, por motivos de segurança, para a Aldeia, em terras das famílias Alvim e Paiva, porque já ameaçados pelos Coroados selvagens.
A tradição diz que dois negros ex-escravos do fazendeiro José Antonio de Paiva, nas imediações, abriram fogo contra os índios atacantes.
Retorno para matança – Os índios Caingangues, ainda no ano de 1898, segundo as tradições, atacaram e mataram três ex-escravos negros do fazendeiro José Antonio de Paiva, na margem direita do São Mateus, aparentemente por vingança pela intromissão em assuntos tribais.
Outras ações indígenas são igualmente estarrecedoras, como as matanças no Vale do Feio/Aguapeí, em 1898, à margem do rio Dourado, quando os Caingangues atacaram e mataram dois roceiros, com alto grau de crueldade, mutilando os corpos; ao primeiro degolaram, descalçaram uma bota, enquanto que a outra foi cortada com a própria perna e tiraram-lhe todas as roupas e o submeteram ao suplício da empalação. Ao segundo cortaram e levaram um braço, cortaram mais a mão e os pés, rematando as atrocidades com a empalação (Gentil Moura, Relatório...).
Ainda no Feio/Aguapeí, num bairro chamado Pires, próximo á fazenda Acampamento, os Caingangues atacaram dois jovens roceiros, degolando-os e dando-lhe fortes mordidas no rosto, desfigurando-os; também lhes amputaram as mãos e os pés. A mãe viu ao longe a morte dos filhos, reuniu gente armada se pondo ao encalço dos assassinos, enquanto estes numa estratégia de fuga pensada, retornaram ao povoado para saqueá-lo enquanto vazio de homens, com especiais atenções na residência daquela mãe enlutada.
Mas o presente estudo focaliza as ações mais para o Vale do Paranapanema, e estas não se resumem apenas no campo de batalhas. O assunto indígena era palco de discussões na Assembleia Legislativa da Província de São Paulo e, não raramente, preocupava políticos imperiais, ganhava manchetes na Capital do Império e até da mídia internacional.  
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