domingo, 20 de dezembro de 2009

19. Fazendas Jesuíticas em Guareí e Botucatu

1. A 'Ordem dos Inacianos' e os problemas financeiros
O estabelecimento dos padres jesuítas como fazendeiros, nas regiões de Guareí e Botucatu, nada tinham a ver com as missões político-religiosas gestadas entre 1608/1628 no Paraná espanhol, o Estado Teocrático do Guairá, permitido e incentivado pela Coroa espanhola, nem com o processo educacional instalado no Brasil, firmado no exitoso modelo europeu, ao lado de intenso programa de apostolado e vocações.
Os padres ali estavam como fazendeiros, em Guareí e Botucatu, para acudir as exauridas finanças da Ordem, na primeira vintena do Século XVIII, com o não cumprimento dos repasses financeiros por parte do governos.
Antigo mapa, provavelmente do final do século XVIII, mostrando dados cartográficos entre os anos
1608/1791, nele notadas as fazendas jesuíticas em Guareí - São Miguel e Botucatu - Santo Inácio
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart325602/cart325602.jpg
Do mapa apresentado os autores extraíram as seguintes observações, para o Paranapanema e o Pardo, cujas cópias serviram aos bandeirantes, entradistas, religiosos e outros demandadores do sertão. Algumas informações são inéditas:
Recorte do mapa acima, extraído para as regiões de interesses neste trabalho
1. Na barra do Paranapanema no Paraná, a indicação que, dali até o Salto da Canoa – em atual Salto Grande, a demora era de 20 dias. Também a informação que era aquele o velho caminho para Minas do Cuiabá - Mato Grosso, mostradas nas anotações. 
2. Um rio, tributário à margem direita do Paranapanema, tomado por referência para um caminho entre o Paranapanema e o Tietê; pela imprecisão do mapa, para alguns trata-se do Rio Cuiabá Paulista, para outros o Jaguaretê. 
3. O Rio Capirindiba, antigo nome do Rio Pardo, desde sua foz do Paranapanema em rumo a Serra Botucatu, cuja região fartamente informada, citando as Fazendas São Miguel em Guareí e Santo Inácio em Botucatu, os currais – campos de criar gado, sendo as sedes já destruídas. 
4. Apresenta as antigas reduções jesuíticas espanholas ao longo do Paranapanema no então Paraná espanhol.
5. Para Sorocaba traz a informação: “Esta Vila foi feita cidade por El Rei Felipe 3º, para dar-lhe o nome São Felipe, no tempo de Dom Francisco de Souza, Conde do Pardo, em 1611”. 
6. Das cabeceiras do Paranapanema, aponta suas descobertas pelo bandeirante Salvador Jorge [Velho], que se sabe falecido em 1705.

1.1. A Fazenda São Miguel em Guareí
Mapa de 1719 - primeira assinalação jesuítica na região Botucatu/Guareí
http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/cart513777.htm


O entradismo exterminador de tribos indígenas no ano de 1706, chefiada por João Pereira de Souza, avançou pelos campos de Guareí e a região de Botucatu, praticamente dizimando os índios da região. 
Sem a incômoda presença indígena, as terras de Guareí ao alto da Serra de Botucatu, tornaram-se propriedades de sesmeiros, em sua maioria da família e aparentados da família Campos Bicudo.
Sem dúvidas era intenção de o governo ocupar terrenos e distribuir sesmarias àqueles dispostos explorar terras e levantar povoados, para melhor infraestrutura quanto ao processo de interiorização. Mas os sesmeiros, donos de outras lucrativas propriedades em lugares mais civilizados, raramente eram povoadores, antes dividam as posses distantes para repassá-las com bons lucros aos fazendeiros que faziam de pronto instalar os arranchados para algum futuro povoamento, entretanto apenas indivíduos se propunham aos enfrentamentos dos perigos do sertão, as famílias não vinham.
Nos idos de 1700 a Companhia Jesuítica no Brasil enfrentava dificuldades financeiras, a necessitar urgente fonte de rendas para sanar problemas do Colégio de São Paulo, principal centro formador jesuítico do Brasil e gerenciador de recursos para manutenção da Ordem.
O Padre Tenente Estanislau de Campos Bicudo, Reitor da Ordem no Brasil, recorreu aos parentes possuidores de sesmarias inexploradas adiante de Tatuí, para instalação de fazenda de gado e agricultura para sustentação, vendas de produtos e exportações de excedentes. 
Em 1713 o célebre bandeirante e rico sesmeiro, Antonio Pires dos Campos concedeu uma de suas sesmaria, em Guareí, à Ordem dos Jesuítas no Brasil, cujo Reitor era o seu parente, Padre Tenente Estanislau de Campos. Não há documentos conhecidos que possam atestar o repasse dessa sesmaria aos padres inacianos.
Mais comumente aceito, e aí se inicia a história, no mesmo ano de 1713, quando o "Padre Estanislau convenceu seu irmão José de Campos [Bicudo], morador na Vila de Nossa Senhora da Candelária de Itu a doar uns terrenos situados junto ao Rio Guayary (Guarehy), nas terras do município que hoje tem o mesmo nome." (Figueiroa, Revista da História de Botucatu, 2009: nº 6), também sem documentações conhecidas, mas a propriedade, efetivamente jesuítica, situava-se entre as margens direitas do Guareí e do Paranapanema até o Morro do Ubatuabaré (Avaré), de onde para o norte às encostas do Morro do Hybyticatú.
—A origem e significado de Guayary, de cujo aportuguesamento fonêmico a corruptela Guarey, atual Guareí, parece incerta:-O guareiense entende Guareí oriundo do tupi 'Guara-y', ou seja, 'Rio do Guará' (lobo brasileiro). Certa ou errada, é a versão oficial em Guareí;-Theodoro Sampaio aponta o original, também tupi, 'Guari-y', como o 'Rio dos Macacos' (Prefeitura Municipal de Guarey, http://www.guarei.sp.gov.br).—
—O autores SatoPrado entendem 'Guayr'y', do tupi, com fonema Guajará-y, onde 'Guajara = homens pintados e Y = rio', 'assim, rio dos homens pintados – ou que se pintam'.—
Se nenhum documento primário de concessão de sesmaria a José de Campos Bicudo em Guareí, anterior a 1713, dez anos depois o mesmo José de Campos Bicudo obteve outras duas sesmarias na região do Guareí
—1º) "José e Campos Bicudo, Villa de Itú. Tres léguas de terra de comprido e uma de largo nos campos que se acham juntos a um rio chamado Guajaré ... (L. 1 fls 32-v)"; 2º) "José de Campos Bicudo, morador em Itú. Tres leguas de terra de comprido e uma de largo começando a sua demarcação algumas braças abaixo da passagem do rio Guajary ... (Repertório das Sesmarias, L. 16 fls. 18)".—
Os padres em Guareí construíram um casarão para o abrigo dos padres e os cuidados administrativos, um templo religioso, cemitério e casas para os seus empregados e agregados, além das instalações para escravos e indígenas, como características de bairro rural que ali se desenvolveria, nas proximidades do rio ou ribeirão Guareí. À fazenda deu-se o nome de São Miguel, cuja sede de igual nome, posteriormente conhecida por Capela Velha. 
O gado se desenvolveu fácil nas morrarias de Guareí, com ótimas aguadas, boas pastagens e barreiros salinos, mesmo sem os cuidados especiais que seriam posteriormente adotados pelos padres em 1719, quando instalada a Fazenda [em] Botucatu.
Portanto, menos esforços para os trabalhos agro-pastoris em Guareí, os padres dedicaram-se à mineração, usando para bons termos de exploração os desvios dos rios por canais (História  de São Manoel: Aspectos Históricos, Os Precursores, 1996: 1 - CD: A/A).

1.1.1. Tempos da mineração e os descuidos com a Fazenda São Miguel
A fazenda não se fez tão próspera quanto o esperado. As achadas de ouro e diamante no Tietê, abaixo do despejo do Piracicaba e afluentes menores, talvez tenham justificado as desatenções dos padres na criação de gado em Guareí. Com menos esforços e expectativas de lucros maiores, os inacianos se dedicaram à mineração, através de desvios de águas por canais (São Manoel, História: Os Precursores, 1996: 2-3). 
Não era terra dada aos padres, mas por lá se estabeleceram, ainda que a eles proibido se fixarem em zonas de mineração, ou nelas trabalhassem, para se evitar o contrabando de ouro e outras riquezas, de conformidade com as normas vigentes (AESP, Documentos Interessantes para a História e Costumes de São Paulo, 1929: volume 50). 
A despeito da proibição, os jesuítas estiveram às margens do Rio Tietê, com pelo menos um arranchamento de mineradores, entre os anos de 1713 a 1719, quando cessada a exploração, então deficitária, coincidindo com os repasses de novas sesmarias à Ordem dos Inacianos, na região de Botucatu.

1.1.2. A proibição dos padres na mineração e mais sesmarias para novas fazendas
Os padres abandonaram a zona mineradora e aquele espaço transformou-se em lugar de negócios onde contados "(...) dois moradores que colhem milho e feijão, criam porcos e galinhas que vendem aos Cuiabanos [monçoeiros]" (Pupo 2002: 09, citando o monçoeiro João Antonio Cabral Camelo, em relatos de 1727).
Outro monçoeiro, Manoel de Barros, no ano de 1736 refere-se ao lugar onde "Faz-se pouso abaixo da barra do Piracicaba (...)" (Pupo, op.cit).
Os números dados indicavam famílias, sem precisar quantos eram os seus membros, os agregados e os escravos. 
Negócio lucrativo. Os monçoeiros desde o Araritaguaba – Porto Feliz, no Tietê, necessitavam de considerável quantia de suprimentos para a longa jornada fluvial para os lados do Mato Grosso, embora confiassem nas pescas cotidianas e nas caças quando das paragens. 
Tais sucessos não passaram desapercebidos pelos religiosos.

1.2. As fazendas Santo Inácio e Sobrado na Serra Botucatu
Fazenda Jesuítica em Botucatu, mapa elaborado em meados do  Século XVIII 
Biblioteca Nacional, RJ, apud Dr. Toledo Piza*
A concessão de sesmarias, ou cartas de cessão, obedecia ao regulamento da coroa portuguesa, de 15 de junho de 1711, e a Resolução de 26 de junho de 1711, permitia que as Ordens Regulares, religiosas, possuíssem terras de sesmarias, com a obrigatoriedade de pagamento do dízimo.
O Colégio [Jesuítico] de São Paulo obteve, por outorga, pelo menos uma sesmaria conforme documento de 21 de agosto de 1719, pelo Capitão-Mor e Governador Sesmeiro, loco-tenente da Capitania de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém, Antonio Caetano Pinto Coelho, por sua Majestade, cujo ato:
—"(...) concedeu ao Colégio dos Padres Jesuítas de São Paulo, uma sesmaria de três léguas de terras." —
—"Situava-se nos campos de Botucatu, adiante de Guareí (...), no Paranapanema." (Di Creddo - Maria do Carmo Sampaio, Terras e Índios, publicação Arte e Ciência, 2003: 51).—
A propriedade em Botucatu tinha largura confinada entre os rios Tietê e Paranapanema, a partir da Fazenda Jesuítica Guareí, vindo a propriedade estender-se até os campos e matos no alto da Serra Botucatu, sempre dentro da largueza entre os rios.
Mais adiante, em 1759/1760, quando os jesuítas expulsos do Brasil e seus bens confiscados, verificou-se:
"Alem destas terras doadas nos campos de Ibutucatu pessuhião os mesmos Padres outras que lhe forão concedidas por cismarias; porem em hûas e outras não davam rendimento algum de que haja noticia e sô Sim que a poucos annos que estes Padres fizerão nestas terras curraes de gado, e consta que fazendo se nellas suquestro aos nove dias do mez de Janeiro de mil sete centos e sessenta se acharão trese escravos e quatrocentas e quatorze rezes, e assim mais quarenta e trez animaes cavallares, cujo gado declarou o Padre que administra a dita Fazenda que este gado pertencia a quatro partes hûa do Collegio, outra das Santas Virgens, outra de S. Jozé, e outra do Santo Cristo e que pelas marcas se averiguarião: Por informaçõens que elle Dezembargador tomou desta fazenda ou campos do Ibutucatu adiante de S. Paulo des ou doze dias de viagem a respeito do seo augmento achou haver mayor multidão do gado no tempo prezente."
Também partes que se diziam da Fazenda Botucatu pertenciam à família Campos Bicudo e não à Ordem dos Inacianos.

2. Os objetivos das fazendas jesuíticas
Oficialmente a fazenda era voltada à criação bovina para autossustento, abastecimento do Colégio Jesuítico de São Paulo, auxílio financeiro às missões estrangeiras e comercialização de excedentes, além das atividades agrícolas para o mesmo fim (Donato, 1985: 40).
Toda a história do sertão paulista, adiante das divisas do Guareí, decorreu a partir de Botucatu quando os jesuítas ali assumiram sesmarias, através de seu superior o padre tenente Estanislau de Campos, para desbravamento das terras e criação de infraestrutura voltada à criação de gado vacum para subsistência e exportação, além de culturas agrícolas com a mesma finalidade. 
Pelas regras de direitos e obrigações dos sesmeiros lhes eram exigidos grandes capitais para desbravar a terra, fundar povoados e aquisicionar escravos, de modo transformar isso num empreendimento de altos custos e riscos, tanto pela feroz resistência imposta pelo índio, quanto pelas dificuldades naturais e insalutíferas do sertão bruto.
Os padres, conforme observável, elevaram duas sedes para administrar a propriedade, Sobrado, rumo ao Tietê, e Santo Inácio em direção ao Paranapanema. As duas sedes estavam localizadas em caminhos de passagens obrigatórias àqueles que ousavam os sertões, em busca de riquezas, preações indígenas, ou nas andanças tropeiras.
A Fazenda Jesuítica Botucatu se fez próspera como entreposto comercial agropecuário e o estabelecimento de compras, trocas e vendas de ouro e pedras preciosas.
Não podia ser diferente; bons empreendedores, os padres logo ativaram comércio de gado vacum à venda para os passantes, além de tropas [cavalos e muares] e demais mercadorias negociadas no local - Sobrado e Santo Inácio, ou nos portos estabelecidos no Tiete, aquele próximo à embocadura do Piracicaba e outro em Lençóis com passagem para Potunduva, onde "viviam dois brancos com dois carijós" (Pupo, op.cit. pg. 09), ambas as localidades servidas de estalagens para pouso.
Os padres deixando o garimpo se estabeleceram aproximadamente duas léguas adiante, à beira de remoto caminho que levava ao Porto dos Lençóis, no Tietê, onde possível a travessia e prosseguimento de jornada às Minas Gerais e Goiás. Ali os padres construíram um casarão assobradado, daí o nome Sobrado, um santuário, cemitério e casas para trabalhadores, livres e agregados, além dos próprios para escravos e indígenas, sendo o prédio principal sede administrativa, albergaria e empório para os transitantes (São Manuel, História, 1996: 2). 
A grande movimentação de gentes na região deu ao Sobrado infraestrutura oferecendo estalagens, currais, animais de carga, guias nativos e entreposto comercial.
Para se chegar ao Sobrado, rumo ao sertão, o melhor caminho era um desgarro da Peabiru a ladear a Serra Botucatu, pelo Norte, em direção a Serra dos Agudos até onde o local, para interiorizações pelos Vales do Feio e Aguapeí, do Peixe, do Batalha e do baixo Tietê. Acertaram os jesuítas. 
Outro caminho, desde que avistada a serra, era a antiga trilheira jesuítica, do século XVII, deslocada da Peabiru às cabeceiras do Rio Pardo e daí a descer acompanhando seu curso, pelo espigão, para, no atual município de Santa Cruz do Rio Pardo, atravessar o raso do Turvo, abaixo do desague do Alambari, e sair no Paranapanema, onde as quedas d'água Paranan-Itu, também conhecida como Salto das Canoas, no território hoje de Salto Grande, a partir de onde navegável o Paranapanema.
Referido trajeto, religioso ou missioneiro, às reduções jesuíticas espanholas no Paranapanema, entre os anos de 1608 a 1628 (Aluísio de Almeida 1959: 168), também foi utilizado pelos bandeirantes e entradistas ao Rio Paraná e afluentes, inclusive às minas de Cuiabá, conforme cartografia oficial das rotas paulistas, séculos XVII e XVIII (AESP, BDPI: Cart325602).
À beira dessa passagem, na sede da fazenda jesuítica, teria surgido lugar de pouso, onde bandeirantes e entradistas faziam seus ajustes.
—"Quanto à sede, local dos currais e dos ranchos moradia, a tradição e a toponímia situam-nas junto ao Rio Santo Inácio, numa fazenda ainda chamada Boa Vista, nome com que, depois do confisco pombalino, foi levada a hasta pública a propriedade dos jesuítas." (Donato, 1985: 40).—
Este seria o princípio da exploração da Fazenda Botucatu, a Santo Inácio depois Boa Vista, com dois centros, Sobrado e Santo Inácio, para comercialização de produtos às beiras dos caminhos para Goiás, pelo Tietê e Mato Grosso, via Paranapanema. As duas sedes não se confundem.
Conclusões complementares indicam que os padres jesuítas se colocaram nos lugares, não apenas onde transitavam demandadores do sertão, mas, também, o contrabando de muares vindos das estâncias jesuíticas argentinas de Córdoba, então relacionados pela mesma Ordem, cientes da importância desses animais nos garimpos mineiros, ou seja, da experiência espanhola junto às minas de Potosi.

3. Sedes das fazendas - locais de ajustes e 'rotas do contrabando'
Nunca suficientemente esclarecido se os padres inacianos participaram efetivamente do contrabando, mas era através deles que se conseguiam muares da criação dos padres da mesma Ordem, em Argentina. Seja como for, a Fazenda Jesuítica Botucatu estava na Rota do Contrabando e por ela andava o bandeirante candongueiro Bartholomeu Paes de Abreu, parente do Padre Reitor da Ordem Inaciana no Brasil.
Homem de visão, em 1718 ou 1720 Paes de Abreu solicitara à coroa portuguesa autorização de se abrir uma estrada desde o sul até Sorocaba, e desta seguir os destinos oficiais às Minas Gerais e Rio de Janeiro, pelo Vale Paraíba, na condução de tropas e gados.
A estrada proposta seria, em parte, calcada sobre trilhas da Peabiru de Santa Catarina e a ligação desta a partir de Ponta Grossa [PR] com a Peabiru São Vicente em Sorocaba [SP]. Não obteve a autorização desejada, mesmo dispondo-se arcar com as despesas em troca do direito de explorar o uso delas, através de taxas, pousos e pedágios.
O rei português teria fortes motivos para vetar as pretensões do bandeirante, primeiro porque tais autorizações permitiriam, oficialmente, avanços e domínios de Portugal em terras da Espanha, embora sabidamente fazendeiros e sesmeiros, brasileiros ou reinóis, já explorassem quase a totalidade das terras do sul, ainda oficialmente espanholas. 
Por razões outras, também, a estrada de Sorocaba ao sul da Colônia feria os interesses monopolistas dos comerciantes que exploravam transportes de gados e tropas através dos portos. Somente em 1772/1773 se concretizou a estrada real Sorocaba-Viamão, num trajeto praticamente idêntico ao concebido e solicitado [em 1720] por Paes de Abreu.
Apesar da não permissão exploratória, na realidade apenas a oficialização de trajeto já existente em terras particulares das famílias Taques, Paes de Abreu e aparentadas, usuárias do percurso desde Vacarias, passando por Lages e Campos Gerais até Sorocaba. A história reconhece que tal parte transitada seria o percurso maior da futura estrada Viamão [RS] a Sorocaba [SP], enquanto outros caminhos atribuídos aos índios guarani, depois usados pelos jesuítas, ligavam Vacarias até Sacramento [hoje território do Uruguai] e daí a Córdoba [Argentina], sendo estes os trechos interligados que formavam a rota do contrabando de tropas muares.
Gentes de Paes de Abreu transportavam muares até Sorocaba, por entre propriedades da família, com destinações às Minas Gerais e Rio de Janeiro. A partir de Sorocaba, Paes de Abreu, em represália à Coroa, evitava as estradas oficiais que encareciam seus produtos com fiscalizações, pedágios e taxas, optando por rotas alternativas sempre através das propriedades sesmariais da família, de Sorocaba à Fazenda Jesuítica de Botucatu.
Da Fazenda Botucatu a rota da traficância seguia para os lados do rio Tietê, onde os portos de Lençóis e Potunduva, e assim prosseguir do outro lado do rio às Minas Gerais passando por Jaú, São Carlos e Franca, terras todas sob domínios ou influições da mesma família dos Campos Bicudo, da qual o Padre Reitor Estanislau de Campos um membro influente.
De igual maneira, foi pelos caminhos da Fazenda Jesuítica que o mesmo Paes de Abreu, ainda em 1719, intentara construir e explorar, a partir de Sorocaba, o terrenho "Caminho pr Goyases" que "teria como referência o curso do rio Tietê, costeando pelo norte a serra de Botucatu, aproximando-se daquela dos Agudos." (Donato, 1985: 35), para prosseguimento até o rio Paraná, entre as barras do Tietê e Feio/Aguapeí, conforme requerimento do bandeirante ao então governo da Capitania de São Paulo.
Tal pretensão tornou-se projeto descontinuado quando já, "a uma distância de 80 léguas de Sorocaba, [Paes de Abreu] ficou sabendo que o governador da Capitania concedera a Gabriel Antunes Maciel abertura do mesmo caminho e com direito de explorar as margens dos rios" (Conde, 1998: 22).
Enquanto reclamava prejuízos e demandava direitos Paes de Abreu apresentou o novo requerimento à Câmara Municipal de São Paulo, em 1721:
—"(...) solicitando autorização para a abertura de um caminho, por terra, ligando o centro da Capitania às minas do Mato Grosso, recém descobertas. (...) O bandeirante, ao declinar o local do início da abertura do que ele mesmo chamou de 'Picadam' diz que seu caminho deveria ser iniciado a partir da ‘ultima povoaçam’, da última vila e, também, a partir do morro do Hibiticatú." (Figueiroa, Revista A História de Botucatu, 2009: nº 4).—
Sendo Sorocaba por última vila mencionada, numa época anterior às fundações de Botucatu, Piracicaba e Itapetininga, ainda hoje se desconhece qual a última povoação ditada pelo bandeirante, a partir da Serra de Botucatu; para uns seria a São Bom Jesus do Ribeirão Grande, localidade extinta, em atual município de Pardinho, para outros a extinguida São Domingos - em atual território agudense, ou, talvez, algum bairro rural da Fazenda Jesuítica Boa Vista [Botucatu], hipóteses todas sem sustentação histórica.
Compreende-se Paranan-Itu como a última povoação citada, por ser o mais remoto lugarejo, conforme relatos históricos da época, aonde porto e estalagem, o que significava conjunto de ranchos ou lugar de pouso próximo de um rio navegável, com saída comum para alguma ruela.
Dão provas do alegado que o tal 'Picadam', adiante da Serra de Botucatu, se dirigia a Paranan-Itu ou Quebra Canoas, aonde construído "Ao fundo, à beira do Paranapanema, um rudimentar porto para as canoas que iam e vinham. Nas instalações, uma espécie de estalagem", para dali se chegar "(...) ao rio Paraná onde instalou três roças de milho, feijão, legumes e deixou 250 bois em uma delas" (Figueiroa, Revista A História de Botucatu, 2009: nº 4), a caminho para as minas de Cuiabá
Mas o bandeirante não teria se contido apenas com o caminho fluvial conquistado e, assim, desde Paranan-Itu, abriu-se uma vereda por terra ao vale do Rio Santo Anastácio, para chegar às margens do Paraná, defronte a barra do Pardo mato-grossense.
Consta no relatório oficial do Gentil Moura, Chefe de Turma da Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo:
—"Parece que o sertão, na epocha de abertura d'aquella estrada, não estava infestado de indios ou elles viviam em boa amizade com os brancos, tanto assim que a camara, ao pedir a abertura do caminho a que se propunha Bartholomeu Paes, allegava ser melhor que o do projecto Manoel Godinho [de Lara]."—Projetos distintos, ambos a partir da Serra de Botucatu, o de Godinho de Lara rumo ao Goiás, com o Tietê e Feio/Aguapeí por referências, e o de Paes de Abreu, o Pardo e o Paranapanema, para chegar ao Mato Grosso; um e outro em direção ao Rio Paraná em pontos diferentes para travessias.
O trecho pretendido por Paes de Abreu calcava-se na trilheira jesuítica do século XVII e sobre ela se fez a Rota das Bandeiras, em 1721, a Caminho das Minas do Mato Grosso. A história confirma: 
—"Quando Pascoal Moreira Cabral descobriu as minas de ouro em Cuiabá, o bandeirante Bartolomeu Paes de Abreu, pai de Pedro Taques, requereu às autoridades a permissão para abrir uma estrada visando encurtar a distância entre São Paulo e Cuiabá, o que antes só era feito por via fluvial." (Conde, 1998: 22).—
Paes de Abreu chegou ao rio Paraná em cuja margem paulista instaladas suas roças, o lugar de pastagens e, obviamente, arranchamento [estalagem], como lugar de pouso, com potreiro, e o porto onde seria instalada a balsa de passagem; porém a concessão de abertura e exploração da via terrestre, assim como a fluvial com passagem para a outra margem do Rio Paraná, lhe foram negadas.
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*Toledo Piza - Dr. João Fernando Blasi de, 'Nos sertões de Botucatu: Arquitetura e território das sesmarias pioneiras às grande instalações cafeeira 1830-1930', Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, 2015: 45, publicação eletrônica, CD: A/A, texto reproduzido com a permissão liberada pelo autor, "Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho por qualquer meio convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. E-mail: j.piza@ifsp.edu.br e jaopiza@yahoo.com