domingo, 20 de dezembro de 2009

45.4. Sanches: o coronel das 'dadas'

1. O etnocida
Foto: Cortesia de Luiz Carlos de Barros  
Segundo Leoni (1979: 265), a história do mineiro Francisco Sanches de Figueiredo, na região, teve início pouco antes de 1875, em terras que teriam sido adquiridas diretamente do pioneiro José Theodoro de Souza, denominada Fazenda Palmital, ou um 'grande grilo'.
Nogueira Cobra identificou Sanches na região:
"(...) que para alli chegou pouco depois da morte de Theodoro. Com seu pae, Francisco Lourenço e tios, comprou as terras que chamaram 'dos Figueiredos', em 1876, próximo ao Taquaral. Era simples lavrador e eleitor até poucos anos antes de assumir a chefia política que conservou até 1912, quando foi assassinado" (1923: 114 notas).—
Leoni ensejava a legalidade da transação das terras entre Sanches e José Theodoro de Souza, enquanto Nogueira Cobra dava a certeza de ilicitude, o que atualmente pouco significa, pois as terras foram adquiridas de João da Silva Oliveira, quando não tinha mais a procuração de José Theodoro de Souza para negociar terras em seu nome. 
O Sanches apenas assumiria posse em 1876, apossando de outras propriedades, através de 'grilos articulados', desde as imediações de Campos Novos, desde as beiras do rio do Peixe e a atual Platina, pelo Rio Pari-Veado onde a confrontar-se com o Capitão Francisco de Assis Nogueira, prosseguindo suas divisas até a margem paulista do Paranapanema, para se unir com a fazenda Palmital.
O sertão exigia homens fortes e corajosos para conquistá-lo, capazes de enfrentamentos aos índios e demais perigos de se habitar regiões inóspitas e proteger aqueles que lhe eram subservientes e correligionários, com o que se justificam os autores regionais que Coronel Sanches foi tanto um matador de índios, quanto implacável com seus adversários, porque o meio assim exigiu dele, homem destemido, progressista e fadado ser líder.
O Coronel cedo meteu-se a autoridade do lugar. Feito delegado suplente teve comportamento e feitos não compatíveis com o cargo, ele e seu parente, "Foram exonerados a bem do serviço publico, Francisco Lourenço de Figueiredo e Francisco Sanches de Figueiredo, dos cargos aquelle de subdelegado e este de 1º supplente do mesmo, do districto de S. José dos Campos Novos." (Correio Paulistano,  02/06/1882: 2).
Não são poucas as referências históricas ao Coronel Sanches e sua obsessão em caçar, matar, escravizar índios e tomar-lhes as terras, que considerava suas por compra ou fosse a qualquer modo, com extremada violência que até o Giovannetti (1943: 52 - nota de rodapé), admirador de Sanches, admitiu: "O Cel. Francisco Sancho de Figueiredo, iniciou uma luta sistemática contra os indígenas, organizando expedições que denominou dadas. Nas investidas trouxe para sua fazenda vários índios, talvez com o fim, de civiliza-los encaminhando-os para os trabalhos agrícolas".
Do Coronel Sanches contavam horrores de suas empreitadas contra indígenas. Tidei Lima transcreveu uma das matanças: 
—"Numerosos grupos chefiados pelo Coronel Francisco Sanches de Figueiredo, partiu de Campos Novos, atravessou o rio do Peixe, seguindo rumo noroeste alcançou as vertentes do rio Feio e pela madrugada aproximou-se da aldeia [dos Caingangues]. Esta era composta de 5 [cinco] linhas de rancho, de uma cerca de 40 [quarenta] metros de comprido, roça de milho calculada em 12 [doze] alqueires, animais domésticos, 500 [quinhentos] índios (...). Pereceram todos os capitães da aldeia" (1978:146 - referência 118).—
Tidei Lima prosseguiria: 
—"Mais tarde, o superior dos capuchinhos, Fr. Bernardino de Lavalle, ao se referir ao massacre de 1886 [o acima citado] acrescentaria também a utilização de ‘1 kg de Strychnina, para extinguir, com um intervalo de 5 a 6 meses’, a população de mais duas aldeias Caingangues."
—"(...)".— 
—"Nestes horrores teriam perecido, em conseqüência do envenenamento dos suprimentos de água, mais de 1000 [mil] Caingangues" (Tidei Lima, op.cit. 146 - referência 119).—
Tremendo morticínio, denunciado às autoridades, ganhou manchetes de jornais da época, inclusive imprensa estrangeira:
—"Indios de S. Paulo"—
—"Sob esta epigraphe escreve o Jornal do Comercio:"—
—"Na correspondencia de Londres, que hontem publicamos, vem a noticia de haver o dr. Barão de Penedo, na sua qualidade de enviado extraordinario, e ministro plenipotenciario do Brazil, protestado sem demora contra as duras apreciações que suggerio ao Times supposto envenenamento de grande numero de indigenas em S. José dos Campos Novos, da provincia de S. Paulo.
—(Correio Paulistano, 22/05/1888: 2).—
O Governo da Província de São Paulo declarou-se incrédulo: "Procurando colher informações seguras sobre tão grave assunto, não obtive, felizmente, confirmação da notícia que aliás parecia à primeira vista inverossímil" (Tidei Lima, 1978: 146 - referência 120).
Pouco depois, assegurou Tidei Lima, "a mesma fonte admitia implicitamente a procedência da denúncia, ao justificar a necessidade das missões religiosas como meio de abrandar o ódio dos nacionais contra os selvagens" (1978: 146-147 – referência 121).
Desta prática de Sanches já anteriormente afirmava Nogueira Cobra, que o sistema de combate, frente a frente:
—"(...) não acabavam com os indígenas, que eram em grande numero no valle rio do Peixe, principalmente no divisor das águas deste com o rio Feio. Foi mister adoptar, ao lado da antiga tática [dadas], uma outra (...) deitavam substâncias venenosas nos utensílios de cozinha e nos alimentos alli guardados, para que fosse victimado no comer algum que porventura sobrevivesse" (1923: 142-143).—
Também são muitos os informes de confrontos com indígenas, quando Sanches comandou a abertura da Estrada Boiadeira concluída em 1884, a acuar restos tribais Oiti e Caiuá para além dos rios Paraná e Paranapanema, em horríveis matanças naquelas investidas em nome da civilização progressista.
Sanches foi extremamente rico e dos mais poderosos coronéis do Vale Paranapanema, quando em 1906, contratado pela Companhia de Viação São Paulo - Mato Grosso, como empreiteiro, porque Sanches não hesitava matar os índios que ainda insistiam lutar contra os brancos, nos caso os últimos Caingangue. 
Outros grupos indígenas, destroços tribais, fugiam apenas em saber da presença de Sancho e seus homens. 
Francisco Sanches foi, talvez à exceção de José Theodoro de Souza e João da Silva, o maior matador de índios dos Vales do Peixe e do Paranapanema, sendo famosas suas dadas a arrasar tribos inteiras, além das razias praticadas sobre caingangues em terras do rio do Peixe. A guerra do branco contra o índio sempre foi desigual, "terminada sempre com a vitória dos atacantes" (Tapajós, 1963: 96), e os armamentos do Coronel eram próprios para a guerra, recebidos do governo paulista quando da Revolução Federalista, e seus homens eram todos experimentados bugreiros.
Sanches, homem inquieto, de varações e conquistas, sua progressão econômica ocorreu mais rapidamente entre 1880 e 1890, quando subtraiu diversas propriedades dos legítimos donos das posses, ou nelas fez entrar prepostos - falsos agricultores, para torná-las mais seguras e, portanto, mais valorizadas, para vendê-las aos colonizadores que chegavam, método que ficou conhecido como 'grilo articulado'.
Do golpe militar de 1889, com a implantação republicana, a vila de Campos Novos experimentou profunda mudança política, com a queda do então chefe João Fernandes de Araújo Leite, o João Gordo, que embora republicano de primeira chamada, se viu substituído pelo Coronel Francisco Sanches Figueiredo.
A história revela que a família Sanches, antes da proclamação da República, era do Partido Conservador Monarquista, liderado pelo parente José Vicente Figueiredo em oposição aos liberais comandados pelo italiano Nicolau de Maio, e apenas João Gordo tinha idéias republicanas declaradas, todavia, enredado e posto em descrédito, deu azo para a família Figueiredo assumir controle e mando político regional, na pessoa do Coronel Francisco Sanches de Figueiredo.
Em desgraça João Gordo encontrou-se na obrigação de deixar a Comarca, sob risco de morte, porque  o jagunço Vicente Lena fora encarregado por Sanches de assassiná-lo (Nogueira Cobra, 1923: 114), porém lhe foi permitido partir em segurança dentro de determinado prazo. Consta que Lena ficou próximo da casa de João Gordo até que este veio se mudar, acompanhando-o até a divisa com a Comarca de Santa Cruz do Rio Pardo.
Historicamente o poder de Sanches consolidou-se a partir de 1893 (Nogueira cobra, 1923: 138), quando Campos Novos tornou-se Comarca desmembrada de Santa Cruz do Rio Pardo, conquista de Sanches e consequência dos fatos, tanto pelo expansionismo sertanejo adiante, quanto pela opção campos-novense em suas relações comerciais com Lençóis, sinais evidentes de rivalidades com Santa Cruz do Rio Pardo.

2. No exercício absoluto do poder
O Coronel Sanches, um homem de índole violenta e intolerante com os adversários, era também conhecido praticante de dadas contra os indígenas. Quando da elevação de Campos Novos à condição de Comarca tornou-se dono absoluto do poder, e até convenceu o Juiz de Direito, Dr. José Balthazar de Abreu Cardoso Sodré, deixar a magistratura para advogar a seu favor e assumir o comando político em seu nome, numa importante estratégia para beneficiar os apadrinhados do grupo político nas inúmeras querelas contenciosas que se viam juridicamente envolvidos (Nogueira Cobra, 1923: 167).
Revelou-se patriota, por ocasião da Revolução Federalista de 1892/1893, ao comunicar o Comandante em Chefe das Tropas de São Paulo, Coronel Emygdio José da Piedade "receando que as nossas fronteiras sofressem o insulto da invasão do inimigo que se achava em Tibagi, cuja povoação havia aderido ao movimento revolucionário, organizava um batalhão de guardas nacionais voluntários, para guardar as fronteiras do Tibagi" (Giovannetti, 1943: 102).
O gesto do Coronel Sanches o levou como herói à presença do Presidente de São Paulo onde expôs suas preocupações ante os perigos "que os sertões do Paranapanema viessem a soffrer com a invasão das tropas federalistas" (Cobra, 1923: 118-119). Unido ao Coronel Emygdio Piedade conquistou o apoio necessário do governo para armar seus homens e guarnecer sentinelas do lado paulista em pontos julgados vulneráveis.
O coronel campos-novense recebeu algumas dezenas de carabinas, munições fartas e 60 contos [de réis] em dinheiro, importância retirada diretamente do Tesouro do Estado, uma grande soma para a época, da qual o Coronel afirmaria ter recebido apenas 30 contos recebidos. 
Nogueira Cobra indagaria:
—"E os outros trinta onde foram parar! Na algibeira do portador do cheque que, em companhia do destinatário da quantia, foi recebel-a no banco. O chefe político de Campos Novos dizia que achou exquisito o caso, mas não teve remédio senão concordar com a divisão a meio, pois que o sócio era graúdo, cujo nome declinava; contra esse, cousa alguma podia fazer" (Nogueira Cobra, 1923: 120 – notas 1).—
Finda a revolução não havia dinheiro para restituir, enquanto as carabinas e munições restantes ficaram sob a guarda do Coronel, enfim, não houve nenhuma prestação de contas. Consta, no entanto, que Sanches armou seus voluntários, intimou outros, mais de duzentos homens postos diante da barra do Tibagi, por alguns meses, durante os quais nenhum só tiro de batalha (Cobra, 1923: 120).
O Coronel Sanches tinha grande prestígio político. A rebeldia do povoado de Conceição de Monte Alegre em aceitar um designado seu para a chefia política do lugar, bem demonstrou essa capacidade. Conceição havia sido elevada às condições de Villa e Município, em 1896, mas somente conquistou a emancipação de fato aos 22 de março de 1913, já falecido o Coronel, e realizada a primeira eleição: 
—"Esta incompreensível demora de autonomia de Conceição deve-se, além da falta de contatos políticos entre os seus líderes e a capital, os trabalhos de obstrução praticados pelos políticos de Campos Novos" (Jorge Junior, publicação de 11/02/1968).— 
Sanches prevaleceu sua vontade sobre Conceição de Monte Alegre e para lá nomeou seu preposto político o Capitão-Ajudante da Guarda Nacional, Viriato Olympio de Oliveira, o qual desde antes servil e sempre à sua disposição. Benício afirmaria que o "Capitão Viriato se projetou no cenário político, granjeando a simpatia e a confiança dos munícipes, e notadamente do 'staff' político regional, na ocasião liderado pelo Coronel Francisco Sanches Figueiredo" (Benício, 2004: 90).
Sanches de Figueiredo residiu por anos em Campos Novos e, por fim, decidiu fixar residência numa fazenda próxima da vila Saltinho do Paranapanema, que ele mesmo fundou e logo se chamaria Platina.

3. O poder contestado
Apesar de bem protegido por jagunços, Coronel Sanches sofreu sério atentado em 1897, tocaiado e ferido, no entanto pondo a correr seus assaltantes, segundo Leoni (1979: 275) de sua obra, ocasião que o Coronel fez vir o primo Vicente Lourenço Ferreira, integrante do grupo primitivo dos pioneiros, para cuidar os seus ferimentos. Sanches e Vicente mais tarde se desentenderiam.
O atentado sofrido pelo Coronel o foi em razão de disputas de terras à margem esquerda do rio Pari, que adquirira ilegalmente de João da Silva Oliveira, cunhado e ex-procurador de José Theodoro de Souza, em prejuízo ao herdeiro póstumo, José Luiz de Souza. O Coronel confiava na ação do tempo para tornar efetivamente sua aquela imensa fazenda usurpada do legítimo herdeiro, antes mesmo de nascer.
De imediato 'à compra' o Coronel fizera povoar aquelas terras através de representantes de falsos donos de títulos, para a garantia das posses, até se consumar a prescrição aquisitiva  e elas lhe retornassem limpas, a típica forma do 'grilo articulado'.
No entanto, quando atingida a maioridade, o herdeiro José Luiz de Souza apresentou-se titular daquelas terras, alienando-as a um aparente cultivador. O Coronel Sanches reagiu, certamente, porque era isto que se esperava dele, além de não tolerar alguém confrontá-lo com títulos de domínios, verdadeiros ou não, de uma propriedade que considerava sua ou de seus correligionários.
Amador Nogueira Cobra  (1923: 160-165)  assim descreveu os acontecimentos:
"No município, quando se soube do ocorrido, o espanto foi geral. O adquirente dos bens dizia estar na mesma incluída a margem esquerda do Pary, toda ou porção della; viu-se, por isso, ameaçado em sua vida e teve que sair da comarca. De fora deu passos necessários e, por intermédio de terceiros [compradores de partes das suas terras], foi entrando nos lugares em que dizia haver terras pertencentes ao espólio que representava".—
—"Dirigindo suas vistas para os lados do Pary, seus interesses collidiam com os de todos [os homens do Coronel] que ocupavam a faixa, desde Platina até o Paranapanema".— — "Surgiu dahí tremenda lucta entre os intrusos [os homens do Coronel] e o pretendente ao qual homens de Piraju, compraram partes dos terrenos provenientes de José Luiz, no centro dos quaes se collocaram com o fim de desfrutar o seu e o mesmo tempo vigiar o resto que o vendedor ainda possuía".— 
— "Mas não convinha aos direitos dos contrários esse estado de cousas e a hostilidade recrudesceu. O povo do lugar relacionou com a questão a tentativa de morte de que foi victima o chefe da política [Coronel Sanches], quando viajava de Platina para a fazenda. Ao passar por uma porteira recebe um tiro de emboscada que lhe não produziu mortal ferida. O companheiro, pedindo socorro, em altos brados, parece ter concorrido, com isso, para que os assassi-nos não secundassem a descarga e fugissem".— 
Parece certo que os jagunços do Coronel, pela mesma fonte e referência, foram atraídos por alguns movimentos suspeitos mais adiante e para lá acorreram, enquanto os assassinos tocaiados atingiram a vitima. As providências não tardaram:
— "Procedeu-se impiedosamente no castigo que se infligiu aos auctores, afim de não se repetir o facto e servir de exemplo a repressão. Abriu-se inquérito rigoroso, com feição inquisitorial. Uma escolta de civis foi até a morada dos indigitados criminosos acompanhando o subdelegado. Aos moradores que encontrou conduziu até Platina, debaixo dos maiores vexames e pancadas. Um destes recebeu descarga [tiro], da parte dos encarregados da prisão, chegando a villa, quase morto. Atirado ao chão, em redor de uma fogueira, os circunstantes, querendo certificar-se se estava vivo ou não, levavam-lhe à boca cigarro acceso - o lado que queimava divertindo-se com os movimentos que a vitima fazia, devido as queimaduras. Dahi foram todos transportados para Campos Novos, metidos na cadeia, na qual passaram por torturas, não se respeitando nem mulheres [dos suspeitos], segundo ouvimos".— 
Os acusados foram libertados até o julgamento, ocorrido três anos depois, período qual estiveram ausentes da região. Absolvidos, quando já se sabiam serem outros os autores do atentado, voltaram residir nas terras que consideravam suas, com a devida permissão do Coronel acatando sugestão de seus conselheiros, mais como forma de recompensar injustiças feitas.
Para muitos, com esta ação de benevolência começou a cair o poder do Coronel, mas o pirajuense ainda dono da maior parte das terras adquiridas do filho do pioneiro, abandonou a Comarca e a outrem vendeu seus direitos, sendo que o Coronel Sanches de imediato espalhou seus jagunços por todo o latifúndio, no mesmo sistema 'grilo articulado' outrora concebido, forçando renúncias dos pequenos proprietários que por lá permaneceram.
O novo adquirente não se intimidou ante as ameaças do Coronel, metendo-se a reconhecer a propriedade, respeitando divisas com os donos menores, então avaliá-las e, em juízo reclamar as realmente suas, por fim determinando o Judiciário processar a respectivas divisões e entregá-las às partes legitimadas. 
Os que se entenderam esbulhados tomaram as terras do outro lado do rio Pari, e logo teriam a contestação do Capitão Francisco de Assis Nogueira que, à mesma época que Sanches, teria adquirido aqueles lados juntamente com José Machado de Lima, antigo sócio de José Theodoro de Souza.
Quando em 1912, o processo ainda por concluir, Coronel Sanches sofreria novo atentado, desta vez fatal.

4. O assassinato do 'Coronel Sancho'
De um homem que colecionou tantos inimigos, quaisquer deles que se visse prejudicado, ou sua parentela, seria potencial mandante da execução do rival poderoso; "e há notícias de que muitos crimes tinham ligação com este assassinato, segundo relatório do Doutor Cobra. (...) entretanto não nos interessa averiguar tais fatos" (Leoni, 1979: 273-274).
As atrocidades de Sanches foram muitas, porém, do ponto de vista político, nenhuma delas maior que a tal supostamente cometida contra o Coronel Marciano, o homem que o livrara da morte naquele atentado por ordem dos Coronéis rivais, na Fazenda Palmital, e quem o ajudara firmar-se líder político em Campos Novos.
Do Coronel Marciano José Ferreira, diz Amador Nogueira Cobra que ele "Viera de S. Simão para o Paranapanema, em companhia de outros parentes, entre os quaes o cel. Antonio Evangelista da Silva, chefe político de prestígio em Santa Cruz do Rio Pardo" (Nogueira Cobra, 1979: 247, notas 2).
Coronel Marciano fora homem destemido, falador e dado a confusões; trabalhou como agrimensor de terras no Vale Paranapanema, partes do Peixe, com a técnica de medir espigões secundários como primários, com isso a determinar a área e deixar terras de fora (Cobra, 1979: 249, esclarecendo referido método), ou medir espigões ignorando baixadas, para concluir menor o tamanho da propriedade em questão, embora com mais terras.
Coronel Sanches, dado a compras e vendas de terras, tinha seus interesses em Marciano, também por isso, além da gratidão por lhe ter salvado a vida, até que se desentenderam, por motivo ignorado, e Marciano mudou-se para São Pedro do Turvo.
Depois disto, coronel Marciano e sua equipe, em número de trinta pessoas, foram contratados para medir e divisar terras para os lados do rio das Anhumas, adiante das terras dos Medeiros, a ultima sentinela do sertão. 
Nessa empreitada, no ano de 1911, durante as medições, o Marciano desapareceu, misteriosamente, de nada a adiantar tantas expedições procurá-lo. Encontraram roupas e armamento de Marciano, viram restos de fogueira recente à maneira dos brancos, mais nada. Outras expedições foram convocadas, inclusive do Exército Brasileiro e membros da Comissão Rondon (Nogueira Cobra, 1923: 145 notas 2), e depois até recorreram ao Coronel Sanches, sempre o principal suspeito, que tinha os melhores homens do sertão.
Dos componentes da expedição de Sanches, Nogueira Cobra descreveu-os:
—"[Vieram] os mais afamados conhecedores do sertão, tendo à frente o cel. Sanches de Figueiredo, Domiciano Luiz da Rosa e tantos outros; sua opinião não podia ser fructo de um erro de observação; conheciam perfeitamente os hábitos dos silvícolas, por ter dirigido campanha contra elles durante muitos annos! Com que fundamento regressou Sanches affirmando que, a seu inimigo Marciano, o indígena capturara e conduzira para aldeia? Ninguem deu credito a essa balela" (Cobra, 1923: 251, notas 2).—
O Coronel Sanches teria motivos para matar Marciano, porque este teria ameaçado denunciá-lo ao governo central das praticas das suas dadas e escravização indígena, como informa Nogueira Cobra (1923: 143); no entanto, mais propriamente, acredita-se que o desentendimento, entre Marciano e Sanches, tenha ocorrido em razão das delituosas medidas de terras e divisões das posteriores entre eles.
A história merece um aparte. Outros moradores do sertão igualmente tinham interesses no sumiço do Coronel Marciano, e até circularam comentários que Marciano teria feito desaparecimento de seu genro Augusto, e a família deste resolvera pelo revide.
Marciano esteve suspeito, igualmente, no assassinato de João Pedro, o líder político de São Pedro do Turvo, além de outros entreveros em Campos Novos e região (Nogueira Cobra, 1923: 253 e notas 1), e até suspeito na morte de Emygdio Piedade Filho, como favores prestados ao primo Tonico Lista, o maior beneficiado com as mortes de João Pedro e Emygdio Piedade.
Nenhum argumento, todavia, foi mais forte para livrar suspeitas que Sanches tenha feito sequestrar e matar Marciano, e o executor seria José Soares Monteiro, vulgo Valdomiro Bandeira, mas não existem provas e nem indícios, senão vagos relatos familiares.
Para alguns descendentes de sertanistas Tonico Lista, em razão do desaparecimento de seu primo Coronel Marciano, teria investido contra Sanches. Na dominação regional, sem dúvidas Sanches e Lista eram igualmente cruéis, não perdoavam traições nem inimigos, ambos eram vingativos, e onde Sanches era tido absoluto, Lista mantinha o seu fiel José Antonio Garcia, antes residente em Santa Cruz do rio Pardo.
Amador, em entrelinhas, deixou transparecer que Nicanor da Silva Ribeiro, tipógrafo, jornalista e diretor do jornal 'O Paranapanema', teria informações seguras que Sanches seria assassinado por aqueles dias.
Explica-se melhor: a mulher de Nicanor da Silva Ribeiro, antes de viajar às pressas de Campos Novos para Santa Cruz do Rio Pardo e seu marido para a Capital, passou informações ao advogado Amador Nogueira Cobra, "que ia se dar um barulho, naqqueles dias, em Campos Novos" (Nogueira Cobra, 1923: 258-260), ou seja, o assassinato do Coronel Sanches, com detalhes e mandantes do crime, que Amador não ousou revelar nem a si mesmo como escritor, a furtar-se dos detalhes mais comprometedores, e nem ao menos insinuou o nome de algum possível mandante do crime.
Obviamente o Coronel Sanches sabia que os inimigos pretendiam sua morte, por isso sempre cercado de capangas, guarda reforçada desde 1897, quando que lhe atentaram contra a vida, até a fatídica noite de 22 de fevereiro de 1912 em que foi alvejado por dois pistoleiros, João Antonio de Campos e Brasiliano da Silveira Castro, que o encontraram, estranhamente desacompanhado, num trecho da Estrada Boiadeira entre Campos Novos e Platina. Foram vários os tiros certeiros, o primeiro em sua mula outros dez ou mais em seu corpo.
Sanches também metido a médico do sertão, na data de seu assassinato fora chamado, às pressas, para atender o filho de um amigo fazendeiro (Leoni, 1979: 272), permanecendo no local até o iniciar da noite, aparentemente uma coincidência para sua morte inexplicável, porque estava só, sem nenhum segurança, quando atacado e morto, provavelmente por aqueles dois homens que já o procuravam desde manhã, em Platina e depois na Fazenda Água do Matão, como se desejassem encontrá-lo para algum recado, talvez pedido de empregos, e nenhuma suspeita daquilo que realmente pretendiam fazer, nem se eles o fizeram de fato.
Aqueles homens tidos assassinos, João Antonio de Campos e Brasiliano da Silveira Castro, foram acusados do assassinato. O primeiro foi preso em Pereiras nas proximidades de Botucatu, morrendo na cadeia pública, antes do julgamento, de acordo com Amador Nogueira Cobra (1923: 260 notas 1), enquanto o Brasiliano se refugiou na Argentina e nunca foi preso pelo crime cometido (Leoni, 1979: 273).
Leoni relata, à mesma página, que João Antonio de Campos foi a júri e condenado a seis anos de prisão; depois absolvido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, tendo Amador Nogueira Cobra por defensor. Nogueira Cobra, conforme vista, afirmava que o acusado morrera na cadeia, antes de ir a julgamento.
Documentos forenses indicam prisão de João Antonio de Campos, por roubo seguido de morte, com fuga do comparsa (Justiça Pública: réu João Antonio de Campos e outro, Processo 010/1912 de 03/julho/1912, Platina - SP, Arquivos CEDAP/Assis, Referência III C12, Caixa 25/26). O desfecho ocorreu conforme informações de Cobra que se recusou atuar em defesa do réu.
Descobertos os assassinos, um deles preso e outro em fuga, soube-se do desaparecimento de grande soma de dinheiro que o Coronel guardara em sua casa, num lugar de costume, fruto da venda de terras, sendo improvável que na data de sua morte tivesse ele saído com tanto dinheiro na guaiaca, algo em torno de 30.000$000.
O crime repercutiu em todo o Brasil e exigiu-se providências do governo paulista, que então encaminhou para Campos Novos o Alferes João Antonio de Oliveira, famoso cognominado 'Tenente Galinha', que se achava comissionado no posto de 'Chefe do Serviço de Captura da Polícia de São Paulo'. 
—'Galinha' ganhara fama como caçador de homens procurados pela justiça ou cometedores de crimes. e atuou na polícia paulista entre 1888 a 1913 quando assassinado.—
O 'Tenente Galinha' chegou a região de Platina e Campos Novos, fez levantamentos na região de Conceição de Monte Alegre, usando de violência contra aqueles considerados suspeitos, posseiros e desapossados de terras, principalmente os fixados mais próximos do Pari.
Nogueira Cobra (1923: 233-235 e notas de rodapé), diz da presença e objetivos do Tenente Galinha na região destacando que além da violência e qualquer simpatia granjeada, não apresentou nenhuma solução esperada para o crime.
É entendimento final, inclusive de Cobra, que o dinheiro desaparecido foi distribuído entre chefes políticos de Campos Novos. Quanto ao mandante ou mandantes do atentado nenhuma solução dada. 
Sanches, conhecido como Coronel Sancho, nasceu em Minas Gerais, por volta de 1847, chegou ao sertão em 1876, e foi morto aos 22 de fevereiro de 1912.

5. Assassinato - o manuscrito denunciatório
Do inventário de José Theodoro de Souza, ouvidas as testemunhas apresentadas, o Juiz despachou favorável à viúva e ao herdeiro póstumo, convencido que João da Silva Oliveira, outrora procurador de pioneiro-mor agiu de má fé com apresentações de dívidas e ocultações de bens em prejuízo aos herdeiros.
Dentre os bens não revelados estariam as fazendas às margens do rio Pari-Veado, sendo aquelas do lado esquerdo vendidas por João da Silva Oliveira ao Coronel Sanches, e as da direita ao Capitão Assis em sociedade com José Machado de Lima, este antigo sócio de José Theodoro de Souza.
Posteriormente foram comprovadas ilegais as propriedades dos Figueiredos adquiridas de João da Silva, que o Coronel Sanches de imediato fez povoá-las através de prepostos de titularidades, ou seja, de falsos e mesmo inexistentes agricultores, para garantir posses até se consumar a prescrição aquisitiva, para que ela lhe retornasse limpa.
José Luiz de Souza quando completada maioridade, "induziram-no a tomar conta da herança que desconhecia e, em seguida, alienou dando origem esse acto a uma contenda" (Nogueira Cobra, 1923: 57). O autor ainda informa, página 99: "No espólio do mineiro, sobre tudo, sabemos que existiam muitas águas que reunidas às outras, irregularmente alienadas, por falta de registro, formavam bloco, assaz considerável".
O herdeiro sabia, portanto, aquilo que reclamava, orientado pelo próprio Doutor Amador Nogueira Cobra, o irmão deste, José Vital Nogueira, e o político de oposição José Antonio Garcia, todos acusados de intrigas, atentados e morte do Coronel Sanches, conforme se depreende do trabalho "Sobre a vida do Cel Sanches" (Aníbal Jacques Sodré, manuscritos de 10/01/1951 - CD: A/A)com autorização do descendente Francisco Figueiredo para publicação.
Envolvido na disputa judicial a favor a favor da própria família adquirente das terras de José Luiz de Souza, Dr. Amador Nogueira Cobra sofrera um atentado, pelos lados de Conceição de Monte Alegre, mais como aviso, o que não intimidou o ilustre advogado memorialista. 
A partir do atentado contra o advogado, 'a guerra' entre os disputantes tornou-se declarada, com agressões físicas, ameaças e ações judiciais com os tantos recursos e outros expedientes protelatórios, e das divisões de propriedades inseridas no contexto processual, com gerações de outras ações periféricas.
Para Jacques Sodré (1951: 9) o Coronel, que era versado nas artes de curar "posto que exercera em Alfenas o 4º ano de medicina"* vinha sofrendo pressões políticas de seus adversários que pretendiam sua destituição da Chefia do Diretório Político: 
—"engendraram contra ele, o plano diabólico de assassiná-lo. Sabedores os adversários, que os indivíduos, Brasiliano da Silveira Castro e João de Campos, eram facínoras mercenários, e mantinham falsa relação de amizade com o Cel Sanches Figueiredo, contrataram-nos pela importância de 30 contos de réis".—
Os assassinos, portando uma carabina 44 e uma espingarda de fogo central calibre 24, consumaram o ato na tarde do dia 10 de agosto de 1912, por volta das 17,00 horas, segundo Jacques, e cortaram as pontas do bigode da vitima para levar de prova aos mandantes que, então, se regozijavam num banquete na casa de José Antonio Garcia:
—"José Antonio Garcia, atendendo ao chamado dos facínoras, mandou-os que entrassem em sua casa, recolheu-os a um quarto secreto, após ouvi-los, exigiu-lhes à prova combinada para a prática do crime. Os facínoras tiram do bolso, um pequeno embrulho, abriu-o e retirou dele as pontas do bigode do morto, entregando-as em mãos de José Garcia, como recibo da empreitada que fizeram mediante a macabra prova, Garcia entregou aos dois facínoras a importância de 30 contos de réis, que no mesmo momento, eles repartiram o dinheiro entre si, prevenindo-os, Garcia, para que eles fugissem essa mesma madrugada, para o Estado do Paraná, antes que fosse dado o alarme do assassinato do Coronel Sanches, ordem essas que os assassinos cumpriram imediatamente".—
Amador Cobra não escapou da fúria de Jacques: 
—"Todas as mentirosas bandalheiras, escritas por Amador Nogueira Cobra, em seu livro intitulado em Um Recanto do Sertão Paulista, contra a inesquecível memória do nosso preclaro saudoso Chefe, Coronel Sanches de Figueiredo, são verdadeiras infâmias nascidas da inveja, do despeito e da cobiça".—
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*O texto que informa o Coronel Sanches quarto anista de medicina em Alfenas - MG, coloca em dúvida a autenticidade do manuscrito de Aníbal Jacques Sodré, ou seja, não foi ele o autor, pois referido curso médico mineiro somente criado em 15 de dezembro de 1988 (Resolução CAP 1). Ainda que fosse a Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas - 'EFOA', sua fundação ocorreu aos 03 de abril de 1914, portanto, já passados dois anos da morte de 'Sancho'.
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