domingo, 20 de dezembro de 2009

08. Cosme Fernandes Pessoa - o bacharel e 'el rey' em Cananéia

O Bacharel e 'El Rey' em Cananéia
Antigo mapa da América do Sul e a linha do Tordesilhas. 
Imagem de domínio público
O historiador português Jaime Cortesão informa que certo Cosme Fernandes Pessoa entrou no Brasil em 1498 ou 1499, como degredado, trazido numa viagem portuguesa não oficial de Bartolomeu Dias, de acordo com documento, de 24 de abril de 1499, encontrado em Portugal. Cosme, o lendário 'Bacharel de Cananéia' ou 'Mestre Cosme', ou, ainda, 'El Rey' tratava-se de judeu-espanhol, maçom e desordeiro político em Portugal (Obras Completas Livro III - Os Descobrimentos Portugueses).
Cuida tal desterro ao cumprimento do Decreto Real Português, de 5 de dezembro de 1496, que dava aos judeus indesejados prazo de dez meses para abandonar o reino e, muitos dos que insistiram ficar ou não tinham para onde ir, foram presos em 1497 e degredados alguns, como consta no Livro dos Degredos arquivado no museu do Tombo em Portugal, à 25º de latitude na Costa Sul do Grande Mar Oceano, a coincidir com a Ilha do Bom Abrigo – depois Ilha do Meio, a sul de Ilha Comprida no litoral sul paulista de Cananéia (IPeC - Instituto de Pesquisas Cananéia (...) Ano I / Junho de 2002 - n.º 01).
—Conforme citação de Laerte Magno Ribeiro em "20 Gerações de João Ramalho e Bartyra, seus descendentes mineiros de Andrelândia e outras grandes famílias" (1993: 9), informa das presenças de João Ramalho e Antonio Rodrigues no Brasil, desde o ano de 1490, embasado nas 'Notícias dos Anos em que se Descobriu o Brasil' do Frei Gaspar da Madre de Deus, publicações de 1715 e 1800 (Ribeiro, 1993: 9).—
Portanto, antecedendo ou não aos demais judeus degredados e presos comuns, banidos de Portugal e confinados em Cananéia, ou em algum outro ponto do litoral brasileiro, Cosme Fernandes Pessoa logo se revelou líder, conquistou os indígenas regionais, teve muitas mulheres nativas e com elas gerou filhos e filhas.
De início, presa fácil em território desconhecido, Mestre Cosme percebeu, em curto tempo que esteve prisioneiro de índios e lhes ganhou confiança, que a união com seus aprisionadores contra inimigos outros, o uso das artimanhas e os terrores aplicados pela armas de fogo e as dadas, e futuramente uso de cavalos, eram os meios mais eficazes para subjugar tribos hostis e se tornou ele o primeiro traficante de escravos indígenas do Brasil, grandemente fortalecido tanto que, por volta de 1510 invadiu e assumiu controle da feitoria portuguesa de São Vicente [então Gaiaó ou Guaiaó] – com uns poucos habitantes (Santos, História de Santos, 1986), onde ergueu pelo menos um forte, construiu estaleiro e instalou porto de tráfico de escravos aborígines, com capacidade de abastecer todos os interessados europeus em qualquer ponto do mundo conhecido.
Seis anos depois daquela invasão, São Vicente já era povoado promissor, com moradias e ruas organizadas, comércio de variedades, além do viveiro de escravos, o que certamente levou aportar por lá o navegador Diego Garcia, em 1528, para reabastecimento, vindo adquirir de Cosme um bergantim e mais de oitocentos índios aprisionados para mão de obra escrava, negociação relatada em documento 'Texto da Memória de Diego Garcia', assinado pelo próprio:
—"E daqui fomos tomar refresco [provisões] em S. Vicente que está em 24 graus, e ali vive um Bacharel e uns genros seus há muito tempo que há bem uns 30 anos, e ali estivemos até 15 de janeiro do ano seguinte de 27 [1528, segundo estudiosos] e aqui tomamos muito refresco de carne e pescado e de vitualhas [alimentos] da terra para provisão de nossa nau, e água e lenha, e tudo o que tínhamos necessidade, e comprei de um genro deste Bacharel um bergantim que nos prestou muito serviço, e mais o próprio se acertou conosco de ir como intérprete ao rio [da Prata] e este Bacharel com seus genros fizeram comigo um contrato de fretamento para que trouxesse a Espanha com a nau grande oitocentos escravos, e eu o fiz com o acordo de todos meus oficiais e contadores e tesoureiros que chegando no rio mandássemos a nau porque a nau não podia entrar no rio, porque muitas vezes o disse o Conde D. Fernando e os feitores que montaram a armada, que aquela nau não podia entrar no rio que era muito grande, e eles não quiseram senão fazê-la levar carregada de escravos, por que eles não fizeram nem me deram a armada que S. M. mandou que me dessem, e o que com eles eu tinha acertado e assentado e firmado de S. M., mas antes fizeram o contrário que me deram a nau grande e não conforme o que S. M. mandava, e não me deram no prazo que foi determinado por S. M. que me a dessem entrando setembro, e eles me deram em meados de janeiro que não mais podia eu aproveitar dela porque aqui V. M. o verá por esta navegação e está ali uma gente com o Bacharel que come carne humana e é muito boa gente muito amigos dos cristãos que se chamam Topies [Tupis] (...)" (Simpózio Enciclopédia UFSC Universidade Federal de Santa Catarina, Texto da Memória de Diego de Garcia de Moguer).—
Entre 1520/1530, "De São Vicente, saíram colonos que se estenderam para o norte, até Angra dos Reis, e para o sul, até Laguna." (Tapajós, 1965: 90), estabelecendo os pequenos arraiais e grandes propriedades pelos caminhos que bem destacam a importância de Cosme em controlar caminhos e terras das Minas Gerais, Rio, São Paulo, Paraná e Santa Catarina, antes da chegada de Martim Afonso de Souza. 
Cosme conhecia os caminhos que levavam aos Andes, juntamente com seu genro Francisco Chaves e o companheiro Pero Lobo, de onde traziam riquezas, ouro, prata e escravos - estes tomados pelos caminhos. Foi rumo ao Peru que aconteceu os primeiros apossamentos de terras, já alcançados o Planalto Piratininga e adjacências, onde moradores o João Ramalho (Taunay, 2004: 23-24, volume 23) e agregados, aos quais somados os homens de Cosme, então já conhecido como 'El Rey'.
Em 1531 chegou ao Brasil o colonizador Martim Afonso de Souza, designado e investido de todos os poderes pelo rei de Portugal, para governar e colonizar o Brasil a partir de São Vicente, também trazendo a determinação real de expulsar Cosme Fernandes e fazê-lo voltar a Cananéia, local de seu confinamento legal (Maack, 2002: 60).
Mestre Cosme fora denunciado às autoridades portuguesas, por seus amigos Pero [Pedro] Capico e Henrique Montes (Santos, 1937), de estar aliado aos judeus expulsos de Portugal que residiam em terras espanholas, mais ao sul de Cananéia, para onde a Espanha também já estaria enviando seus judeu-espanhóis, num acordo mútuo de interesses, além de oportunidades a judeus de outras nacionalidades, para se apossarem de terras abaixo de Iguape e Cananéia até Laguna [SC], espécie de terras de ninguém ou em discussão onde realmente o imaginário Tordesilhas (IPeC).
Cosme Fernandes Pessoa retornou ao seu degredo sem nenhuma resistência, em agosto de 1531, depois de ouvir concidadãos que estiveram reunidos com Martim Afonso de Souza, em Bertioga. A História, no entanto, informa que Mestre Cosme ao se retirar fez incendiar São Vicente, como vingança, o que hoje não se sustenta vista que em registros de 1532, tempos depois localizados, não consta destruição daquela Vila via fogo; antes a descreve próspera e que nela se fez realizar, naquele mesmo ano, a primeira eleição parlamentar da América pelo voto popular (Ferreira, 1972: 91). 
Parece óbvio que Portugal jamais admitiria a fundação de uma localidade, tão importante, por um judeu subversivo com pretensões de criar um reino na América, conforme seus denunciantes. A história oficial informa que em 1532 Martim Afonso refundou São Vicente sobre os escombros da antiga feitoria de Guaiaó, mas o incêndio somente viria ocorrer em 1533 por razões de guerra.
América do Sul: destaques a Porto Seguro 
e Cananéia
Imagem de domínio público
Com a retirada de Cosme, Martim Afonso avançou o domínio português às terras de Iguape e Cananéia, obrigando seus ocupantes prestar obediência ao rei de Portugal sob pena de expulsão, confisco de bens ou a morte em caso de resistência, sendo naquela ocasião, dezembro de 1531, na Ilha do Bom Abrigo, que Martim avistou o alcantil Itacuruçá, Ilha do Cardoso, onde fez colocar o marco de pedra, com as quinas de Portugal, por ponto sul divisor da América entre portugueses e espanhóis (Borges, Cananéia: Cidade Ilustre do Brasil, Folheto Informativo publicado pelo IPeC).
A atitude de Martim Afonso foi decorrente dos acontecimentos à expedição de Pero Lobo rumo ao Andes, dizimada pelos índios guaranis [carijós], nas proximidades de atual Foz do Iguaçu, durante a travessia do rio Paraná, tragédia subentendida a mando de Cosme. Pero Lobo que conhecia a rota Peabiru e sabia do Peru, em setembro de 1531 vendera seus serviços a Martim Afonso, com a promessa de riquezas e escravos, contrariando interesses de Cosme. 
Prosseguindo intento intervencionista, Martim Afonso de Souza deu ultimato ao espanhol Ruy Garcia Moschera, estabelecido ao sul de Iguape, para que este deixasse a região em trinta dias, por considerá-la dentro do território português pelo Tratado de Tordesilhas. Tudo parecia fácil quando Cosme, aliando-se a Moschera, a outros espanhóis e demais descontentes, capturou um navio de guerra francês e todo seu armamento, construiu trincheiras e organizou uma resistência, tão feroz, que os soldados a serviço de Martim Afonso, inadvertidos, perderam de pronto oitenta homens e teve ferido e aprisionado seu comandante Pero de Góis, alguns sobreviventes e a própria embarcação de guerra (Carvalho, A Verdadeira História de Cananéia, publicação eletrônica). 
O embate ganhara proporção duma guerra de interesses territoriais americanos entre espanhóis e portugueses, a 'Guerra de Iguape', com os homens de Cosme, de Moschera e aliados resolvidos a atacar São Vicente, num ardil com o navio de Pero à frente como num retorno vitorioso da empreitada, para desfechar violento ataque surpresa que deixou o lugar sob cinzas, depois de saqueada "pelos espanhóis vindos do sul, do Iguape" (Tapajós, 1963: 51-52), obrigando Portugal fundar novo porto em outra localidade, Santos, por Braz Cubas em 1536. 
Martim Afonso, desgostoso, partiu para a Europa em maio de 1533, deixando para trás todos seus bens e nunca mais retornou ao Brasil, como testemunha ímpar que o poder de 'El Rey' Cosme Fernandes Pessoa era superior às pretensões portuguesas, em valer seus direitos, nas terras do Brasil a partir de São Vicente rumo ao sul.
Cosme manteve São Vicente sob seu domínio até 1537, quando provavelmente morto pelos Carijós (Carvalho, ibidem), que lhe davam sustentação militar e segurança pessoal. A partir de então, São Vicente perdeu sua importância estratégica entre Portugal e Espanha, para aos poucos retornar ao domínio português.