domingo, 20 de dezembro de 2009

12. Estado Teocrático do Guayrá

A pretensão jesuítica na América do Sul
A Ordem [Religiosa] Inaciana ou Companhia de Jesus foi criada após a Reforma Protestante por Ignácio de Loyola em 1534, oficialmente em 1540 (Centro Apologético Cristão de Pesquisas - CACP), portanto no contexto da reação católica apostólica romana, conhecida como contrarreforma. 
À Santa Sé importava desde logo não só expandir o catolicismo, abalado pela reforma protestante na Europa, como também organizar um estado teocrático em terras americanas. A fundação da Ordem e a sua missão firmavam-se neste princípio, além da evangelização dos povos recém contatados pelas grandes descobertas, estava em conter o avanço protestante. 
A primeira leva de padres jesuítas chegaram à América do Sul, portuguesa e espanhola, por volta de 1549, quando o rei de Espanha iniciava o povoamento de brancos na Província Del Guayrá, o Paraná espanhol, como medida estratégica para conter as investidas portuguesas além Tordesilhas.
Um quartel de século após a pretendida fixação branca constatava-se, ali, um vazio gente civilizada com interesses em povoar e trabalhar aquele sertão, sem os atrativos do ouro ou riqueza fácil, a não ser a caça ao índio para escravização. Então permitiu-se o uso territorial pela Igreja, pensando-se originariamente em comunas religiosas sujeitas à coroa espanhola, porém com vida e direção espiritual ajustadas conforme mandamentos eclesiásticos.
Os padres jesuítas chegaram à região em 1576, com as patrulhas militares espanholas, em missões de reconhecimentos nos rios Iguaçu, Piquiri, Paranapanema e Tibagi, onde fundaram povoados, denominados de reduções, com finalidades em atrair, catequizar e educar índios para o trabalho. 
Com o beneplácito da Coroa espanhola viabilizaram-se, então, as primeiras reduções jesuíticas no Guayrá, ou o Paraná espanhol, onde o indígena livre não apenas entregava suas terras e riquezas à administração dos padres, como também capaz de produzir lucros e geração de impostos. Consta, por Maack, que "já em 1578-1579 foram radicados, só no distrito de Vila Rica [do Espírito Santo], 200 mil guaranis." (Maack, 2002: 70).
Há certa relutância em dizer livre o índio forçosamente reduzido, ou obrigado a se auto-reduzir para não cair em mãos de escravocratas. Padre Montoya justificou a ação jesuítica:
"(...) às reduções chamamos aos povoados dos índios, que vivendo à sua antiga usança, em matos, serras e vales, em escondidos arroios, em três, quatro ou seis casas apenas, separados uma, duas, três e mais léguas uns de outros, os reduziu a diligência dos padres a povoações grandes e a vida política e humana, a beneficiar algodão com que se vistam, porque comumente viviam em nudez, ainda sem cobrir o que a natureza ocultava" (Montoya, 1609/1675, apud Capistrano de Abreu).—
Por volta de 1588, quando alguns dos padres jesuítas – Manuel Ortega, Juan Saloni e Thomas Fields -em seus primeiros contatos com os nativos na região do norte e noroeste do atual estado do Paraná, "informaram aos seus superiores a existência de milhares de índios guaranis na região, bem como reconheceram uma série de peculiaridades culturais, sociais e políticas que seriam úteis alguns anos depois" (Noelli e Mota, 1999). 
Se bastante claras as pretensões da Igreja, nunca esteve bem certo o objetivo da coroa espanhola em atender as pretensões jesuíticas de um estado independente na Província de Guayrá, mas entendem os especialistas que o principal objetivo seria conter Portugal em avançar suas posições, com a fixação de seus homens o mais distante possível e nelas impor sua cultura, falar seu idioma, enfim, sabidamente entendido jamais Portugal e Espanha um só reino, como estavam, nem suas colônias uma só dominação.
Nestes considerandos, em 1608 o rei espanhol entregou aos jesuítas toda a Província do Guayrá, abrangendo partes da região norte e todo noroeste do atual estado do Paraná, sendo esse o início das atividades político-religiosas, onde "os conquistadores passaram a veicular os elementos básicos da sua cultura através dos padres jesuítas." (Noelli e Mota, 1999).
Guayrá jamais se tornou um estado independente, devendo obediência direta ao rei de Espanha e lhe pagar impostos, mas foram evidentes as pretensões jesuíticas de emancipação até pela rapidez com que os padres fundaram as primeiras reduções, com os índios, junto aos vales dos rios Paranapanema, Ivaí, Corumbataí, Piqueri, Iguaçu, Tibagi e Ribeira, deixando fortes suspeições históricas que a Companhia de Jesus já vinha agindo anos antes, a partir dos núcleos oficiais espanhóis de Ontiveros, Real Ciudad Del Guayrá, e Vila Rica Del Espiricto Santo, já existentes desde 1554 (Giovanneti, 1949: 84).
Para Maack, Ontiveros foi a primeira colônia espanhola no Alto Paraná [1554], a oeste do rio Paraná defronte a barra do Piquiri, desativada quando à margem sul da foz deste rio, fundou-se, em 1557, a redução que se tornou Ciudad Real Del Guayrá, nome que se estendeu para toda região entre os rios Paranapanema e Uruguai a Província Del Guayrá. No ano de 1576 fundou-se Vila Rica Del Espiricto Santo, às margens do rio Ivaí nas proximidades da foz do Corumbataí (Maack, 2002: 69-70).
Deste modo, pelo menos desde 1608 já existiam algumas reduções jesuíticas na Província de Guayrá como cidades feitas, vindas outras a seguir, todas assinaladas no célebre mapa espanhol 'Paraquaria' (Padre Luis Ernot, 1632):
Guayrá as missões no  Paraná espanhol 
-esboço: adaptação da imagem 
em http://wibajucm.blogspot.com.br/
—Vale do Tibagi: São José, São Francisco Xavier, Encarnación e São Miguel.
—Às margens do rio Ivaí: Jesus Maria, Santo Antônio e São Paulo.
—Rio Corumbataí: São Tomas e a dos Sete Arcanjos.—
Nas cabeceiras do rio Piquirí: São Pedro e Concepção.
—No médio Piquirí: Nossa Senhora de Copacabana.—
—Rio Paranapanema: Nossa Senhora do Loreto, Santo Inácio e São Tomé [à barra do Tibagi], todos à margem esquerda, enquanto do lado paulista, margem direita, São Pedro nas proximidades de Santo Inácio e Loreto.—
Dantas cita fixação jesuítica em terras hoje paulistas (Dantas, 1980: 22), na mesma época de Santo Inácio e Loreto, onde foram encontradas ruínas d’uma redução que, diz Bruno Giovannetti, chamava-se São Pedro (Giovannetti, 1949: 82), localidade e denominação ratificadas por Maack (2002: 71).
A redução São Pedro paulista foi transferida, posteriormente, para as cabeceiras do rio Piquiri, porque a Província del Guayrá, conforme concessão real, tinha por divisa natural o rio Paranapanema e não era de bom sentido desrespeitá-la.
Não é improvável tratar-se a São Pedro do Piquiri de localidade homônima, ou que tenha sido povoação levantada após destruição da primeira São Pedro, todavia faltam documentos para qualquer disposição final.
As reduções de Santo Inácio e Nossa Senhora Loreto são vistas, por muitos estudiosos, como modelos das demais missões jesuíticas fundadas entre 1610 a 1625 às margens daqueles rios, para depois adentrarem os atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Segundo Capistrano de Abreu:
"Por 1610, jesuítas castelhanos partidos de Asunción começaram a missionar na margem oriental do Paraná. Fundaram Loreto e San Ignacio, no Paranapanema, e em compasso acelerado mais onze reduções no Tibagi, no Ivaí, no Corumbataí, no Iguaçu. Transposto o Uruguai, assentaram outras dez entre o Ijuí e o Ibicuí, outras seis nas terras dos Tape, em diversos tributários da lagoa dos Patos. De San Cristóbal e Jesús María, no rio Pardo [RS], poucas léguas os separavam agora do mar" (Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial: 58).—
Jorge Junior (Um pouco de história... - 06/08/1967) refere-se a outras reduções nas vertentes do rio Ribeira, Iguaçu e Ivaí, na região hoje curitibana.
As facilidades de comunicações e transportes entre as reduções jesuíticas eram eficientes pelos seus muitos caminhos fluviais e terrestres, alguns destes unindo rios e outros destinos por terra, bastante conhecidos e assinalados em antigos mapas jesuíticos e espanhóis, descritos por Noelli e Mota:
"A comunicação das Reduções das margens do Paranapanema com as localizadas ao sul na região dos rios Corumbataí e Ivaí, ou vice-versa, podiam ser feitas subindo o rio Pirapó, até os ribeirões Maringá-Mandacaru, Morangueira ou Sarandi, e por estes chegar até o platô onde está Maringá, para descer pelos córregos Borba Gato, Cleópatra e Mascado até o ribeirão Pingüim e por este até o rio Ivaí, em direção à cidade espanhola de Vila Rica do Espírito Santo ou às Reduções do Ivaí e Corumbataí. Uma outra rota possível seria subir o rio Pirapó até suas cabeceiras no rio Dourados, até alcançar o platô onde está Mandaguari e descer pelo rio Keller até o Ivaí. Com toda certeza essas rotas eram conhecidas e utilizadas pelos índios e delas se aproveitaram os padres jesuítas nas suas andanças e pregações nas aldeias da região" (1999).—
Assinala Jorge Junior (publicação de 06/08/1967), que Santo Inácio e Loreto, como prósperas comunas jesuíticas, se sustentavam das produções agropecuárias, de comércios e manufaturas, e nelas haviam escolas e eram ensinadas as artes de ofícios e profissões, como pedreiros, carpinteiros, oleiros, tecelões, professores e artesãos. Possuíam grandes lavouras de milho, arroz, feijão, mandioca, frutas e leguminosas, além do cultivo do algodão com que faziam seus vestidos.
O mesmo Jorge Junior naquela edição teve mais a relatar que "além das roças de cada família, havia as coletivas, cujo produto era armazenado para atender a necessidade de todos", sem dificuldades para entendimento de comércio interno e externo para os produtos excedentes; também eram prósperas em Santo Inácio e Loreto, as criações de gado bovino, suíno, caprino, ovino e galináceo.
Eram cidades planejadas, divididas em quadras cujas ruas, umas e outras, davam para praças centrais, quadradas ou retangulares, situadas nos centros das povoações; nas praças se encontravam as casas dos padres, as escolas, as oficinas e as igrejas, de tal magnitude que próprio governador do Paraguai, Luiz Céspedes y Xeria, quando em visita àqueles povoados de Santo Inácio e Loreto, muito se impressionou com as "hermosisimas Iglesias, que no las visto mejores em las Índias que he corrido del Peru y Chile" (Apud Capistrano de Abreu, Capítulos de História Colonial, IX: 58). 
A despeito dessa arquitetura quase uniforme para os primeiros centros urbanos jesuíticos, conforme apologéticas descrições, há que se observar o caráter incipiente dessas primeiras construções, onde o predomínio duma tecnologia mais próxima das construções guaranis, cujas casas, construída de taipa, apenas cobertas de telhas de barro cozido, divididas em compartimentos de madeira, onde se alojavam as famílias. Eram edificações frágeis tanto que delas, afora as pilhagens de cacos de telhas e cerâmicas, tecnicamente quase nenhum outro vestígio. 
Os reduzidos eram instruídos como pedreiros, marceneiros, oleiros, carpinteiros, e muitos tornaram-se hábeis artesãos. Jorge Junior, sem nenhuma menção, fundamentou seus estudos em Del Sampaio, para descrever que doze mil pessoas moravam nas localidades de Loreto e Santo Inácio, em 1628, quando São Paulo - a título comparativo tinha apenas dois mil e quinhentos habitantes.
Algumas outras localidades jesuíticas no Paranapanema, afluentes e subafluentes, tinham base e paiol militar, conforme observado nas defesas dos reduzidos ante as ameaças bandeirantes, algumas vezes repelidas. Tais reduções não contavam apenas com missionários e índios, pois nelas também grupos militares, justificados para conter o expansionismo territorial luso-brasílico de partes das terras espanholas não exploradas, entre os rios Paraná, Paranapanema, Tibagi e além Piquiri, tendo os índios por aliados numa troca mútua de defesa e proteção.
Jesus Maria era uma cidade militar com quartel, campos de treinamentos e depósitos de armas, ao mesmo nível de Vila Rica do Espírito Santo, e as demais povoações também tinham sentinelas avançadas e se defendiam diante do agressor, como bem entenderam os preadores que, antes da bandeira de Raposo Tavares, "haviam tentado, sem êxito, apossar-se dos convertidos das reduções" (Silva e Penna, 1967: 128 - notas).
Maack relata que desde o princípio formador das pretensões para algum estado teocrático, "Patrulhas militares espanholas e jesuítas começaram a subir os rios Iguaçu, Piqueri, Paranapanema [Paraquario] e Tibagi e fundaram povoados, denominados reduções, onde os índios das vastas regiões eram catequizados e educados para o trabalho" (Maack, 2002: 70).
A catequese jesuítica, portanto, jamais foi apenas traduzir orações cristãs do latim para a língua guarani, ou o ensino de ofícios e trabalhos da terra, nem nas belas construções ou em uma nova sociedade de apenas paz, pois que das arremetidas dos bandeirantes contra as reduções, nunca encontraram índios e padres indefesos e sim a bravura daqueles que defendiam e atacavam por seus interesses (Folha de São Paulo, Acervo... 1935). 
Sob todos os aspectos, portanto, o desenvolvimento, a organização social, política, econômica e territorial de Guayrá apontavam para objetivo de um Estado Teocrático Independente, com limites geográficos estrategicamente intrometidos dentro da esfera de interesses expansionistas de portugueses e espanhóis, situação que em nada interessava a nenhum dos dois povos.
Foi assim que Manuel Preto e outros bandeirantes, além dos 'encomienderos castelhanos', todos rechaçados anteriormente de Guayrá, ou com êxitos parciais, insistiram invadir o estado em formação, para lhe roubar os índios e destruir suas cidades. Preto, com maior empenho nos anos 1618 e 1623, até que em 1628, juntamente com o jovem Raposo Tavares veio montar um grande e bem preparado contingente para a guerra final, dividido em diversas frentes e postas estacionadas, ameaçadoramente, diante das principais reduções, razões que teriam levado o Padre Cristóbal de Mendoza, da missão de São Miguel, perplexo a indagar das razões daquela guerra, para receber de Raposo Tavares a célebre que entrou para o anedotário histgórico: "Viemos aqui para expeli-los desta região inteira, porque esta terra é nossa e não do rei de Espanha". 
A interiorização tão distante das reduções seria, portanto, para dificultar invasões de sertanistas e desbravadores espanhóis e portugueses que buscavam índios pacificados e convertidos, como os melhores para a escravidão. Os apresadores optavam por índios mansos e iniciados nas artes e ofícios pelo seu alto valor no mercado escravagista.