domingo, 20 de dezembro de 2009

39. Produção Cafeeira

1. Ainda no século XIX
Foto representativa - Créditos LP Cascatinha e Inhana - música
Flor do Cafezal -https://www.youtube.com/watch?v=zgAOzmDyXZ0
No ano de 1870 as grandes lavouras cafeeiras de São Paulo ainda não ultrapassavam Botucatu, permanecendo concentrada no Vale Paraíba, porém se sabe das primeiras experiências em Santa Cruz do Rio Pardo, quando já estabelecido o plano para recebimento de linha férrea.
Segundo Leoni (1979: 28), no ano de 1874 são notadas plantações pioneiras de café no Vale Paranapanema, e as primeiras produções, a partir de 1877, nada significativa, porém somava-se a outros produtos transportados em carros de boi, carretões e lombo das tropas, que pelos espigões demandavam os tradicionais locais de embarques, como o 'Porto de Lançóes', o entreposto de São Manoel e mesmo à estação ferroviária de Rio Claro, em funcionamento desde 1875, conforme relatório pela Comissão Geográfica e Geológica do Estado de São Paulo:
—"(...) a direção ainda hoje [1890] preferida pelo comércio da zona do rio Pardo aos confins do Sertão povoado. Esta direção, que aliás nos não parece a mais conveniente, visto obrigar a grande circuito pelo centro do Estado antes de atingir a sua legítima saída no porto de Santos, terá de ser abandonada com o prolongamento da ferrovia Sorocabana, uma vez vencido o espigão divisor dos dois vales. Então todo o vale do Paranapanema não será mais do que um monopólio da mencionada ferrovia." (CGGESP, 1890: Boletim nº 4).—
A Comissão revelava: "O comércio, pela via fluvial do Paranapanema, é insignificante; mas vai crescendo aquele efetuado pela estrada do sertão às costas de animais e dos ronceiros carros puxados por bois." Entretanto, tudo poderia ser melhor e antes, senão o agravamento da Guerra com o Paraguai a impor atenções bélicas em detrimento ao avanço da estrada de ferro, rumo ao Planalto Ocidental Paulista.
O progresso teimara não chegar e as lavouras pouco progrediram e quase nada avançaram, pela distância e dificuldades de transportes: "O comércio no vale do Paranapanema ressente-se muito da falta de boas vias de comunicação; por isso escasseiam um tanto os produtos de exportação da lavoura e tomam a dianteira os da criação, que por si só fazem frente ao comércio de importação." (CGGESP, 1890: Boletim nº 4).
Depois surgiram as consequências pós-guerra, o endividamento do Brasil com a Inglaterra - financiamento da guerra, o elevado custo governo-igreja e o senado vitalício, a emissão de moedas, a inflação, os problemas militares e escravistas, como exemplos da ampla crise que envolveu todos os segmentos sociais e setores econômicos da vida nacional.
A despeito das dificuldades Santa Cruz do Rio Pardo mostrara-se região bem sucedida em outras culturas, na pecuária e criação de porcos, nos anos de 1877, até em causa da própria guerra, quando a produção deixara de ser 'economia de subsistência', e então lançados no mercado para satisfazer necessidades da população crescente e das caravanas que se embrenhavam nos sertões. Mas a produção cafeeira exigia muito mais que isto para se tornar eficiente, e assim, todo o sertão dependia da ferrovia para plantios em escalas de exportação. 
No ano de 1887 progrediram as grandes lavouras de café, com a inaugural de José Custódio de Souza, da Fazenda Santa Clara - denominada Clarínia, com mais de dez mil cafeeiros, cuja estrutura montada na mão de obra escrava disponível, com excelente produção e lucros em 1890/1891.
Outros fazendeiros seguiram os passos de José Custódio com algumas plantações anteriores a abolição e depois centrada nos forros que pagavam liberdade negociada – antes da Lei Áurea, e na mão-de-obra indígena disponível.
A despeito do sucesso do café, em 1890 tem-se o indicativo que a exportação regional era deficitária em relação à importação, segundo Theodoro Sampaio:
—"Enquanto do vale saem anualmente pouco mais de 3.000 toneladas de café, algodão e fumo, no valor de cerca de 1.900:000$, os produtos da indústria pecuária, só quanto ao gado suíno e bovino, apresentam um total de perto de 4.000:000$000. O comércio de importação, representado por tecidos de vários gêneros, chapéus, calçados, louça, ferragens, açúcar, farinha de trigo, bacalhau, sal, vinho, cerveja, licores, drogas medicinais etc., é bastante avultado (...). O pequeno comércio entre Botucatu e a barra do Tibagí, a não ser o do gado bovino que vem do Paraná e dos sertões novamente povoados para além de Campos Novos, pouca importância tem: um pouco de café que vai para o Jataí e para Mato Grosso, algumas fazendas, bebidas, ferramentas, etc., eis os principais artigos de importação. O café é entretanto o mais rendoso neste pequeno comércio: comprado a 4$000 por arroba em São Manuel ou Botucatu (sem ser ensacado) vem a valer com o transporte para a barra do Tibagi de 6$000 a 7$000, levado para Mato Grosso, por via fluvial, é vendido no porto de desembarque a 18$000 ou 20$000, geralmente a troco de gado, que, às mais das vezes, é preciso ir vender ao Paraguai." (CGGSP, 1890: Boletim nº 4).—
Para o equilíbrio das contas e saldo positivo o mesmo relatório CGGSP recomendava a necessidade de incrementar o comércio de importação e exportação, para o barateamento dos produtos:
—"A linha férrea Sorocabana, que ainda não penetrou no vale do Paranapanema, seu principal objetivo, é agora o natural escoadouro desta região, não obstante estarem ainda muito distantes do rio as suas estações mais favoráveis, o que ainda torna muito pesados os fretes para artigos de importação. (...)."—
E, evidentemente o da exportação.
O Brasil buscou então o socorro internacional, com garantias suficientes para o capital estrangeiro nele ampliar sua presença, através de grandes investimentos junto ao governo e aos grandes empreendedores nacionais, facilitando-lhes o crédito e financiando o desenvolvimento industrial vinculado à economia cafeeira. A cultura cafeeira somente seria compensadora em grande escala.
As necessidades foram supridas pela Inglaterra, nação capitalista e de recursos industriais. Relatórios britânicos apontaram o Brasil potencialmente viável para grandes investimentos, com garantias de bons lucros, e o Vale Paranapanema era visto como lugar de futuro às pretensões européias: terras para desbravamento e bons locais para estabelecimento de colônias estrangeiras em favor da Alemanha, Espanha e, principalmente, da Itália.

2. O sertão pronto para o progresso
A conquista do sertão centro sudoeste e oeste paulista, com a eliminação do índio, permitira a aplicação do capital inglês na região, financiando abertura de estradas de rodagem e férrea, construções de pontes e portos fluviais de maneira a incentivar produções excedentes, lucrativas, com garantias de escoamento rápido.
A extensão dos trilhos abrira novos povoados, enriquecendo os antigos, e, assim, a possibilitar as colocações de tecnologias inglesas como as máquinas a vapor para as industrias e fábricas, sinônimos de progressos e fenômeno agregativo de grandes lucros aliados às especulações imobiliárias.
Nisto se pode visualizar a nova ordem econômica mundial a ditar regras para o Brasil, ou seja, a implementação capitalista de produção em atividades organizadas nas grandes lavouras de café e outras culturas.
Na Alemanha, desde 1873 surgira o "primeiro consórcio internacional para controlar o comércio do café.", seguido após pelos norte-americanos [1880] para assim a "... formação de um truste de importação e de venda do café." (Tidei Lima, 1978: 107).
A valorização do produto no mercado externo tornara mais vigorosa a expansão cafeeira no sertão paulista - Pardo e Paranapanema, onde muitas terras ainda intocadas e adequadas para o plantio e melhor produtividade, sobretudo diante dos métodos mais racionais de se trabalhar o solo.
O fim da escravidão negra, em 1888, sem dúvidas fez cessar a base do modelo agrícola até então utilizado e fundeado na produção escravista o que garantia o barateamento do custo com mão-de-obra.
Em muitos lugares, mesmo aguardada, a abolição provocou crise na produção agrícola e promoveu a disputa de localidades para a importação de mão de obra. No Sertão Paranapanema parece não ter ocorrido assim, dada a transição entre a mão-de-obra escrava negra com a mão-de-obra livre, de 1888 até os primeiros anos do século XX, valendo-se dos contratos de libertação antecipada dos negros e a mão-de-obra indígena em substituição aos libertos.
Outrossim, enquanto em alguns lugares buscavam o 'branqueamento da raça' na região adiante do 'Pardo santacruzense' não aconteceu o fenômeno, optando os fazendeiros em contratar o negro já seu conhecido e muito mais camarada que os politizados 'anarquistas' italianos e suas querelas trabalhistas.
Desta maneira o sertão não sentiu a abolição, tanto que as primeiras famílias italianas, antes do final do século XIX, fixaram-se como negociantes e construtores e não trabalhadores rurais. Os imigrantes ruralistas dariam entrada apenas a partir de 1901/1902, na intitulada imigração espontânea.
Já no início do século XX o Brasil experimentava a primeira crise cafeeira. Em 1902 os pioneiros no plantio de café na região de Santa Cruz do Rio Pardo, José Custódio de Souza, o Coronel João Baptista de Souza e outros, foram à falência, com a queda internacional do preço do café e sem a garantia do governo brasileiro, no caso de Custódio de Souza em razão do débito com a empresa de investimentos 'Lidgerwod Manufacturing C.º Limited'.
O Brasil não vinha bem, financeiramente, quando assumiu Campos Salles assumiu o governo, 1898 -1902, com promessa de revitalização posta em prática numa equivocada política deflacionária, ao promover a revalorização do mil-réis frente à libra, com uma quase equiparação artificial, o que fez despencar a economia brasileira, refletida na imediata queda de preço do café no mercado externo, fazendo quebrar os cafeicultores iniciantes, como o caso dos irmãos Custódios e outros em Santa Cruz do Rio Pardo.

3. A primeira crise cafeeira
O café despencara de quatro para meia libra por saca, fazendo com que os cafeicultores recebessem menos pela venda de seus produtos. Não suportaram os cafeicultores Tenente José Custódio e outros condônimos das Fazendas Santa Clara e Cocaes, foi assim descrito os bens e valores para hasta pública:
—"(...) Oitocentos alqueires de terras, presumiveis, em mattas, sitos na Fazenda 'Santa Clara', desta Comarca, sendo ditas terras proprias para café a sessenta mil réis o alqueire, quarenta e oito contos de réis, setecentos alqueires de terras, presumiveis, na fazenda 'Cocaes', anexa a primeira, em mattas proprias para café a trinta mil reis ou vinte um conto de réis; quinhentos alqueires de terras, de serrado e samabaia, a quinze mil reis o alqueire, ou se contos e quinhentos mil réis, uma casa de morada, coberta de telhas, assoalhada, construcção de madeira, por tres contos de réis; uma machina de beneficiar café, serraria e accessorios, tudo funcionando e em bom estado, por doze contos de réis; uma casa, onde se acha a mesma machina, em muito bom estado, por seis contos de réis; um paiol, contruido de madeira, por quatrocentos mil réis; um moinho, por quinhentos mil réis; um momjollo e casa de telhas, por duzentos mil réis; uma casa de telhas, situada no campo, por cento e cincoenta mil réis; uma outra, construida de taboas e coberta de sapè, por cem mil réis; uma dita contruida de paus a pique e coberta de telhas, por quatrocentos mil réis; uma dita, em identicas circumstancias, por duzentos mil réis; uma dita, coberta de telhas, por quinhentos mil réis; tres casinhas, cobertas de sapè, com monjollo e pomar, por tresentos mil réis; uma outra, cercada de taboas e coberta de telhas, onde actualmente mora Joaquim Custodio, por um conto e duzentos mil réis; um paiol, por duzentos mil réis; um pasto gramado, cercado, quasi todo, de arame, por um conto e quinhentos mil réis, quatro potreiros, divididos, plantados de grama, por cinco conto de réis; umca casa em que mora João Custodio, por duzentos mil réis; vinte quatro mil pés de café, por doze contos de réis; um grande açude, com rego d'agoa, sendo esta sufficiente para mover qualquer machinismo, por quatro contos de réis; um outro rego d'agoa, independente do açude, por seiscentos mil réis, um gramado, cercado, em parte de arame, por um conto e quinhentos mil réis; oitocentas braças de vallo, por oitocentos mil réis; cem braças de cerca de arame, por cem mil réis; nove bois de carro, por setecentos e vinte mil réis; um carro e um carretão, por sessenta mil réis, prefazendo o total de cento e vinte oito contos duzentos e trinta mil réis, que com o abatimento de mais dez por cento, fica reduzido a somma e quantia de cento e tres contos oitocentos e sessenta e seis mil e tresentos réis."—
—"(...)."— 
—(Correio do Sertão ano I nº 39, 06 de dezembro de 1902, Edital de Leilão, página 3).—
Do arremate, O Correio do Sertão informa, em sua edição de 13 de dezembro de 1902, página 2 (ano I nº 40):
—"No dia 6, conforme edital,publicado nesta folha, foi à terceira praça, nesta cidade, a fazenda Santa Clara, avaliada por 128:230$000, sendo arrematada por 30:500$000".—
—"Esta fazenda se compõe de 2 mil alqueires de terras superiores, 24 mil pès de café formado, machina para beneficiar café, serraria, moínho, casas de moradia, de machinas e de empregados e muitas outras bemfeitorias. O seu antigo proprietário, antes de assentar as machinas, regeitou por ella 300 contos de réis:"—
—"Infeliz lavoura, em que estado te deixou o malfadado governo dos srs. Campos Salles, Murtinho e Cª!"—
A própria companhia 'Lidgerwod Manufacturing C.º Limited' tornou-se proprietária dos bens leiloados, com forte investimento na mesma cultura do café.
Da falência das fazendas Santa Clara e Cocaes salvou-se o condômino de uma segunda parte da Santa Clara, o Dr. Bento Barata Ribeiro, Procurador da República em São Paulo (DOSP, de 29/10/1892: 3), também dito Senador - Estado do Rio de Janeiro, em 1902, (Correio do Sertão ano I nº 6, 12 de abril de 1902, página 2), quiçá homônimo, que a havia repassado ao financista Claudio de Arruda Camargo.
O Barata Ribeiro teria informações privilegiadas para a compra de parte da Fazenda Santa Clara, como especulador. Da venda da propriedade a Arruda Camargo surgiu, pela primeira vez, o nome do Coronel Antonio Evangelista da Silva, o Tonico Lista, no noticiário jornalístico:
—"Secção Livre: Ao Publico"—
—"Quando vim receber a fazenda 'Santa Clara' que comprei do sr. dr. Bento Barata Ribeiro, pertencente a este municipio, encontrei como administrador o sr. Jeronymo José dos Santos, hoje residente em Avaré; este homem não quiz me fazer entrega da referida fazenda, allegando ter a Fazenda umas contas a pagar ao snr. Antonio Evangelista da Silva, negociante residente nesta villa, que havia passado duas ordens contra o dr. Barata e que não tinham sido cumpridas, ordens estas no valor da dita divida que a fazenda devia" (Correio do Sertão, nº 39, 06/12/1902: 3).—
O declaratório prossegue, porém sem interesses para o presente tópico, apenas que enquanto as providências tomadas ou pretendidas por Arruda Camargo, Tonico Lista fez retirar daquela fazenda o equivalente em café ao valor da dívida a receber.
Três anos após a entrada da 'Lidgerwod Manufacturing C.º Limited' diretamente na lavoura do café, o produto tornou-se novamente acreditável e fortemente lucrativo e a transformação santacruzense foi enorme, com o surgimento dos novos ricos ao lados dos coronéis agora os 'barões do café'.
A cultura cafeeira que estava entre uma das causas do suicídio do Coronel João Baptista Botelho, em 1902, agora transformava o seu herdeiro político Antonio Evangelista da Silva, casado com sua viúva, no maior cafeicultor regional, através da Fazenda Mandaguary [Mandaguahy], que atingiria mais de novecentos mil pés de café.
No período da crise cafeeira de 1901/1902, a policultura fez o sucesso santacruzense com a produção voltada para a exportação, desde os gêneros de primeira necessidade, às vendas do fumo, dos derivados da cana e também o algodão que, apesar das oscilações e pragas, no início do século, ainda era o ouro branco.
Essas culturas mantiveram preços excelentes e motivadores para os cultivadores, de acordo com as considerações inseridas naquele Boletim de nº 4 (CGGESP, 1890).
Entende-se que o município de Santa Cruz do Rio Pardo, consoante visão e estudos de Santos Silva (1954: 10-11 - Revista Panorama ano 1 nº 1), fez-se o mais desenvolvido comercialmente no Vale Paranapanema e "transformou a economia das áreas mais antigas, que de pastoris passaram a agrícolas (cafeeiras), bem como tornou possível a exploração das ubérrimas terras situadas ao sul do rio Pardo, terras roxas, terras de mata, e que até então haviam sido deixadas à margem pela economia e povoamentos anteriores."
O sucesso santacruzense do século XIX trouxe a acumulação de capital no complexo agropecuário que se refletiria em boa parte do século XX, com fortes impactos na sua urbanização destacadamente após a chegada da ferrovia que, além das mercadorias e pessoas que chegavam, havia principalmente o escoamento em grande escala das mercadorias da região, como o café, algodão, alfafa e outros produtos agrícolas e a madeira, além do transporte de cargas vivas, bovinos, suínos, muares e aves, sem dizer dos passageiros locais que com facilidade e conforto podiam se deslocar para outros centros.

4. Ações capitalistas
Os acontecimentos contam a história que o café brasileiro teve sobrevalorização repentina no exterior, pois seus concorrentes diretos enfrentaram graves crises ao mesmo tempo: Java [Indonésia] teve seus cafezais atacados por pragas e foi obrigada a erradicação total de suas plantações, o Haiti enfrentou grave crise social com a revolução dos escravos e a seguir a independência da ilha, deixando atrás de si lavouras destruídas ou abandonadas, enquanto no Ceilão [atual Sri Lanka] os solos esgotaram-se, sem nutrientes nem húmus para vigorar a plantação.
Também "Outros fatores decisivos foram a estabilização do comércio internacional, depois das guerras napoleônicas (Tratado de Versalhes, 1815) e a expansão da demanda européia e americana por uma bebida barata" (As Origens do Café).
O sucesso da exportação e a valorização do produto tornaram mais vigorosa a expansão cafeeira no oeste centro sudoeste paulista, onde as terras eram intocadas e adequadas para o plantio e melhor produtividade, sobretudo diante dos métodos mais racionais de se trabalhar o solo.
As vias férreas deixaram de ser projetos e avançaram, criando povoados, trazendo o comércio e indústrias que aumentaram e prosperaram na produção de bens.
Novo fenômeno para o Brasil: "as culturas do açúcar e do algodão estavam em crise, batidas no mercado internacional pela produção das Antilhas e dos EUA; por isso, os fazendeiros precisavam encontrar outro produto de fácil colocação no mercado internacional. Nas décadas de 1870/1880, o café passou a representar até 56% do valor das exportações" (As Origens do Café).
Os ingleses investiram nas estradas de rodagem, nos portos fluviais e nas ferrovias, encurtando caminhos para melhor se adequar à produção em grande escala, visando melhor atendimento ao mercado consumidor. Esse binômio transporte/agricultura responsabilizou-se pelo aumento e progresso de indústrias, evolução dos povoados em cidades.
O Brasil conseguiu, economicamente, superar a crise causada pela abolição da escravatura [1888] com a substituição do trabalho escravo pelo trabalhador livre. A abolição representou para, os negros e mestiços cativos, ato redentor de juridicidade governamental, mas não sua emancipação civil, política e econômica, mantendo-os segregados sociais, dependentes de subempregos, incapazes de algum movimento que os tornasse iguais ou competidores com a mão de obra dos imigrantes europeus e asiáticos. Os indígenas, no centro sudoeste paulista continuaram prestadores de serviços obrigacionais gratuítos.
Politicamente a abolição foi um desastre para o governo, pois ao ceder às pressões internacionais e aos ideais abolicionistas, "Vossa Alteza redimiu uma raça, mas perdeu o seu trono", célebre frase atribuída ao Barão de Cotegipe, em 13 de maio de 1888, ao cumprimentar a Princesa Isabel pela aprovação da Lei Áurea, conforme citações e registros históricos, para expressar que os grandes prejudicados pela Lei Áurea foram os senhores da elite escravagista, sustentáculos da monarquia, cuja reação imediata foi o abandono ao regime, dezoito meses depois substituído pela república. Atualmente não se entende assim, pois a abolição foi programada desde a edição da Lei do Ventre Livre em 1871.
O capital, na fase de transição da escravatura pelo trabalho livre, não deixou abalar a economia do Brasil, ao contrário, investiu-se no crescimento da indústria brasileira atrelada ao café e à imigração oficial de mão de obra assalariada, de produção ou de parceria.

—"No início do século [XX], empresas estrangeiras instaladas no país, como a anglo-canadense Light e Power e a norte-americana Bond and Share, ampliaram os serviços urbanos de água, esgoto luz e transportes. A indústria da carne é dominada pelos frigoríficos Wilson, Armour, Swift e Anglo; os vagões ferroviários são feitos pela fábrica norte-americana Pullman (...) na siderurgia, os franceses e belgas tomam a dianteira com a Companhia Belgo-Mineira" (Apud Economia na Primeira República).—
Outras culturas como o algodão, o açúcar e mais a criação de gado, estavam entre as primeiras atividades de produção organizada do país, mas foi a cultura do café a grande mola propulsora do progresso, objeto de pesados investimentos estrangeiros e modificações ao meio de vida sertanejo.
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