domingo, 20 de dezembro de 2009

31. Das frentes de ocupação

Divisões e subdivisões do grande latifúndio no centro sudoeste e oeste paulista
Foto [retocada] de bugreiros em Campos Novos
 Acervo: Luiz Carlos de Barros
A bandeira de Theodoro no sertão não foi tão somente simples aventura, como ensejou Giovannetti, de um "homem rude montanhez [que] partiu para um lugar qualquer, sem conhecer um caminho, pois não existia e, verdadeiramente sem um objetivo que lhe pudesse garantir o triunfo real da conquista" (1943: 70). 
Em verdade os incursionistas comandados por Theodoro formaram frentes invasoras, distintas em lugares diversos e distantes, para ações programadas de conquistas (1ª fase), o processo de ocupação territorial (2ª fase) e as frentes de expansão territorial (3ª fase), com as instalações gradativas de povoados, como fortalezas e sentinelas avançadas como processos de colonização, das ações capitalistas agropastoris, e comercializações de terras adiante apossadas - interiorização.
Desta maneira as divisões e subdivisões dos latifúndios regionais no 'Abaré-y, Agudos, Alambari, Batalha, Capivara, Lençóes, Novo, Paranapanema - lado paulista, Pardo, Pari-Veado e Turvo', todos apossados e com início de povoações já a partir de 1851/1852, com características peculiares e diferentes graus de dificuldades.
Partes das terras conquistadas foram entregues aos bugreiros partícipes da 'Guerra ao Índio', pelos serviços prestados em nome da civilização; a outros como retorno de investimentos e, à maioria, por alienações de compras e vendas.
Contam-se algumas particularidades regionais que tiveram formações independentes: 
 Abaré-y (Avaré): as posses foram divididas entre o Major Victoriano [Vitoriano] de Souza Rocha e o Alferes José Domiciano Santana, a partir de 1850, e depois as vindas de outros posseiros, José Antônio do Amaral, Generoso Teixeira, Antônio Bento Alves, Jacinto Gomes de Morais, Dionísio José Franco, Francelino de Mello e João Antônio de Souza.—
Agudos: apossamento pelo fazendeiro e capitalista Faustino Ribeiro da Silva, fluminense de Barra Mansa, criado mineiro. Apresentou-se em 1853, com a família, escravos e grupo de trabalhadores livres em troca de terras.—
Batalha - Terras de Baurucom as presenças pioneiras de Sebastião Pereira, Pedro Francisco Pinto, também chamado Pedro Francisco Franco, os irmãos Antonio e Francisco Rodrigues de Campos - sócios de José Theodoro de Souza, Felicyssimo [Felicíssimo] Antonio de Souza Pereira e Antônio Teixeira do Espírito Santo, adquirente de um dos irmãos Rodrigues de Campos, entre Agudos e Bauru, mais propriamente onde levantada a Capela do Divino Espírito Santo da Fortaleza.—
Lençóes (Lençóis Paulista): posses assumidas por Francisco Alves Pereira e o Capitão José Theodoro Pereira, com as respectivas famílias, escravos e agregados, sendo o Theodoro Pereira, às vezes citado Theodoro de Souza, historicamente confundido com o pioneiro-mor José Theodoro de Souza, até por familiares daquele e pesquisadores regionais.—
Santa Bárbara do Rio Pardo: posses reivindicadas pela família de Ignácio Dias Baptista - o célebre Capitão Apiaí, já anteriormente estabelecido no interior paulista e fazendeiro em Botucatu; e pela numerosa família de José Marques do Valle.—
As demais regiões, à frente do Pardo santacruzense, estão mais fortemente vinculadas ao pioneiro-mór. Conquistadas as terras, no que lhe coube o pioneiro confirmou demarcações e dividiu o todo em quatro grandes áreas: 'o Pardo, Turvo, Rio Novo, Pari e Capivara', cada uma em aguadas e todas voltadas para o Paranapanema e, destas, as separações menores entre morros divisores, de maneira a formar 'microbacias hidrográficas', e nestas, ainda, 'as aguadas menores' cujos espaços destinados à venda para formações de fazendas. 
Ao território conquistado, portanto, seguiu-se a ocupação com as cheganças das primeiras famílias e a elevação dos povoados em regiões diversas, e também o preenchimento do Vale Paranapanema, a partir do 'Pardo santacruzense' naquilo efetivamente estabelecido como o grande todo de José Theodoro de Souza. 
Dadas as posses desde as nascentes do Turvo à barra e ao longo do médio e baixo Pardo ocorreram os primeiros assentamentos para o sudoeste e oeste paulista, como núcleos rurais que garantiriam às famílias os cuidados entre si contra os imprevistos.
A análise sob a ótica da exterminação indígena, para os apossamentos e garantias de ocupação civilizacional do sertão paulista, destaca o conceito das razias como incursões predatórias levadas a efeito pelas frentes de conquistas. Sem as razias e dadas a conquista seria muito mais demorada, talvez menos traumática e sem holocaustos.  
A grande área, do Turvo, num primeiro momento o pioneiro resguardara para si, familiares e amigos mais próximos, pondo à venda, gradativamente, outras partes, uma após outra desde as cercanias da Água do Capim, comumente vista como divisa de São Pedro do Turvo com o território do então São José do Rio Novo.
Arruda Dantas entendera que após 1851: "Fixado em São Pedro do Turvo [então Capela São João Batista], José Theodoro continuou explorando terras, valendo-se das próprias trilhas abertas pelos índios, até seu falecimento" (1980: 33). 
Theodoro não permaneceu em São Pedro do Turvo por muito tempo, e já em 1864 visto para os lados de São José do Rio Novo - atual Estância Climática de Campos Novos Paulista, afinal o pioneiro precisava não apenas vender terras, mas garantir a segurança daqueles que pretendiam residir e nelas trabalhar.
As ocupações, representadas com as primeiras transações de terras, foram praticamente imediatas às conquistas, para as áreas declaradas tecnicamente livres do perigo indígena, ou seja, segurança relativa, para as regiões de Avaré, Cerqueira Cesar, Lençóis Paulista, Agudos, Santa Bárbara do Rio Pardo, Espírito Santo do Turvo, Santa Cruz do Rio Pardo, São Pedro do Turvo e regiões menores, não ultrapassando o Ribeirão do Capim.
Bauru e São José do Rio Novo foram regiões complicadas para os primeiros povoadores, porque os indígenas escorraçados refugiaram-se sertão adentro para associações a outros grupos e as formações de frentes de resistências e ataques, à mesma maneira que o Caingangue socorreu-se junto às tribos irmãs no Vale do Peixe, dispostos vingarem seus mortos ou, de qualquer outra maneira, expulsar o elemento branco das terras que consideravam suas. O Pardo santacruzense também teve demora de conquistas em relação ao Turvo, pela presença Caingangue. 
O índio tinha movimentação fácil nas matas e morrarias, e com a guerra aprendera recuar e de novo investir, daí não em combate em campo aberto, corpo a corpo, ou que se colocasse ao alcance das armas de fogo, mas sim aos ataques noturnos, e o arremessar-se contra grupos isolados. 
Relatórios da época, exagerados ou não, anunciavam as barbáries cometidas por índios na resistência à ocupação branca, mas quase nunca diziam das violências praticadas pelos brancos contra as populações indígenas. Sem dúvidas as reações dos expulsados mostravam o processo desenfreado de violências e mortes para conter o avanço e o progresso civilizatório:
—"O maior número de mortos era do lado dos brancos, não só porque os índios atacavam de surpresa as fazendas, mas também porque os grupos de população branca adentravam nas áreas de floresta, as matas, tentando vingança, desconhecendo os caminhos da mata virgem e as formas de ataque indígenas" (Di Credo, 2003: 97).— 
A Diretoria Geral do Índio, criada em 1845 para a civilização, o exercício de catequese e atuação em favor do índio, que diante da denunciada realidade desfavorável aos brancos, no sertão adiante de Botucatu, alterou dispositivos para assumir frente de ocupação armada contra hordas selvagens: "que impedem o progresso nas fronteiras do império" (Azanha, 2001: 4). 
O governo optou pelos novos aldeamentos e neles colocar os índios para a cristianização e o aprendizado de serviços úteis à civilização. De imediato a Presidência da Província paulista fez permissiva a repressão ao índio através de sugerido aldeamento, para ou sua retirada "para lugares longínquos (...) além do Paraná e neste caso destruindo os seus alojamentos para que não possam regressar a eles" (Tidei Lima, 1978: 84).
Aos brancos, já assentados, interessava o índio aldeado e cristianizado, como sinônimo de civilizado e servil ao trabalho, porém o índio não pretendia aldeamento algum, porque isto lhe significava escravização, e isto era utilizado como motivo para reações preventivas do homem branco, através dos bugreiros contratados, geralmente aqueles já experimentados na Guerra aos Índios.
Assim, nas regiões onde as primeiras ocupações consolidadas iniciavam-se as atividades econômicas, primeiro a agrícola e criações, e a produção de excedentes e de exportação, ainda tímida, somente ativada quando do expansionismo sertanejo, pós 1864, acelerado com Guerra da Tríplice Aliança.
Mineiros, enricados e fugindo do recrutamento para a Guerra com o Paraguai, que atingia até a propriedade servil, procurando pelas regiões amanhadas do sertão, compravam terras já produzindo. Os novos chegadores vinham acompanhados de agregados e de considerável contingente de mão de obra africana.  
Os vendedores [pioneiros primitivos] interiorizaram-se, então, para os lados de São José do Rio Novo, juntando-se aos mineiros aventureiros - os mais pobres, que também escapavam o alistamento obrigatório para a Guerra.  Foi a fase inaugural do expansionismo ou da melhor ocupação territorial sertaneja
O governo paulista não ignorava esse avanço, sobretudo mineiro, no sertão Paranapanema, em causa da Guerra com o Paraguai, mas fazia prevalecer o objetivo para o melhor desenvolvimento agropastoril do sertão e fomentar a exportação para as frentes de batalhas, tolerando-se até o contrabando.
O primeiro grupo para a região atual de São Pedro do Turvo:
—"Compunha-se dos parentes do posseiro e mais uma dezena de extranhos com suas respectivas famílias. Eram elles: Antonio Alves Nantes, com um genro; Manoel José de Jesus; Antonio de Paula Rodrigues [vulgo Ourives] que se casou com uma filha de João da Silva Oliveira; Joaquim Alves de Lima e João Lopes, para citar somente os que estiveram mais em evidência" (Nogueira Cobra, 1923: 45).—
 A lista completava-se com os irmãos João e Antonio Botelho de Carvalho, Joaquim Pereira de Toledo, e os irmãos e outros parentes de Theodoro além dos compadres. 
As famílias dos pioneiros aguardaram em Araraquara, Botucatu, Brotas, Botucatu, Dois Córregos e São Domingos, locais de melhor segurança para os velhos, mulheres e crianças. Theodoro recebera sua parentela em São Domingos de onde partiu com destino a atual São Pedro do Turvo, pelo espigão entre os rios Turvo e Pardo, sem seguir "rigorosamente o curso do rio Pardo, pois a mataria espessa teria esbarrado a arrojada e feliz aventura", e sim pelo espigão ou a margear o próprio Turvo para atravessá-lo "no ponto em que hoje surge a Vila de São Pedro [do Turvo]" (Giovannetti, 1943: 71).
Theodoro fundou a Capela de São Pedro [São Pedro do Turvo], em junho de 1851, doando terras para os patrimônios dos oragos São João Baptista e São Pedro. 
O primeiro vigário de São Domingos, padre Andre Barra, atestou num ato declaratório de 04 de abril de 1863, que José Theodoro de Souza coadjuvou com seus bens para o culto católico naquilo que ao seu alcance, como exemplos as doações à Igreja (ALESP, E: 64.22.5).
Não são conhecidos todos os nomes da comitiva de Theodoro, desde o 'Pardo santacruzense', no entanto notórios os parentes, tidos bugreiros, e os próprios bugreiros. 
Autores regionais minimizam ou nada descrevem quanto as presenças de bugreiros e a exterminação indígena, à mesma maneira que praticamente excluem presenças de escravos naquelas comitivas. 
Senhor absoluto das terras até onde lhe chegasse, não a ambição ou a coragem, e sim condição de domínio, José Theodoro retornou a Pouso Alegre, ainda em 1852, de acordo com um documento de 27 de abril de 1852, pelo qual José Theodoro de Souza e sua mulher Francisca Leite da Silva: 
—"(...) doam um terreno dentro do [entre os] rio São João e ribeirão São Pedro, para neste terreno se edificar uma capela e freguesia invocada a São João Batista", conforme registro no Cartório de Paz da Freguesia de São João da Boa Vista do Jaguari, atual São João da Boa Vista, no município de Mogi Mirim, da Sétima Comarca da Imperial Cidade de São Paulo (Dantas, 1980: 29-30).—
Inexiste indicativo se o ato da transmissão das terras aos patrimônio ocorrera na ida ou na volta daquela jornada, permanecendo apenas a certeza oficial que 'referida doação aconteceu quatro anos antes do efetivo registro paroquial das terras em Botucatu'. 
Aos conquistadores seguiram, de imediato, os ocupadores - quase todos bugreiros, independentes de graus de parentescos, interessados em ocupar e trabalhar a terra. Ainda eram os tempos do sertão em guerra contra indígenas escorraçados que voltavam para competir território com os brancos invasores.
Assim, antigos relatos dos descendentes da primeira geração de moradores informam que, adiante de São Domingos, os pioneiros, partícipes da Guerra aos Índios, instalaram fazendas às margens do Turvo, do Pardo e toda região compreendida como o Vale Paranapanema, lado paulista, até Campos Novos [São José do Rio Novo] confirmando posses, para assentamentos próprios ou transações.
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